Apesar
das várias polémicas que envolvem decisões tomadas, enquanto diretor da Polícia
Judiciária (PJ), o ministro da Administração Interna (MAI), Luís Neves
defende-se e diz-se “legitimado” para continuar no cargo e comprometido com as funções
governativas. “Nunca tive medo, nunca me escondi, não era agora que o faria”,
disse aos jornalistas, a 29 de julho, em conferência de imprensa, para esclarecer
os vários casos que o envolvem e que têm sido divulgados na comunicação social.
É
óbvio que está legitimado, porque tem a reiteração da confiança política do
primeiro-ministro (PM) e não se crê que o Presidente da República (PR) venha
intervir em casos que ocorreram antes de Luís Neves entrar no executivo de Luís
Montenegro.
O
governante tinha justificado o atraso nas explicações com a necessidade de
reunir documentação. Em causa estão três situações distintas: a contratação de
um empreiteiro de Barcelos para fazer obras num imóvel (há quem diga dois) que
possui no concelho de Odemira, sem comunicação à autarquia; a transferência de
um reboque (atrelado ou galera) com substâncias químicas usadas no fabrico de
cocaína para instalações desse empresário também responsável por várias obras
na PJ, quando Luís Neves era seu diretor nacional; e as falhas nas declarações
de rendimentos que deveria ter apresentado ao Tribunal Constitucional (TC).
Do
atrelado diz que as “insinuações ultrapassaram todos os limites da decência”,
associando o seu nome ao tráfico de droga e imputando-lhe, falaciosamente, “abuso
de poder, descaminho, violação da cadeia da custódia e comprometimento da prova”.
E, como tal matéria está a ser objeto de inquérito criminal, promete colaborar,
como sempre, vincando que “não foi desviado qualquer bem, comprometida qualquer
prova, beneficiado quem quer que fosse e não há qualquer ligação ao tráfico de
droga”.
Concordou
com a proposta de alto quadro que lhe merecia total confiança de desviar o
atrelado e assume tal decisão, que voltaria a tomar. Foi um ato de “boa gestão”.
“Pediam 150 mil euros para destruir este material. Não tínhamos cabimentação [orçamental]
e sabíamos que precisávamos de tempo para baixar o preço”, afirmou, alegando
que um armazém cobraria três mil a quatro mil euros de renda e a decisão “poupou
ao Estado muito dinheiro”.
Quanto
às obras no seu monte em Odemira, esclareceu que, além da propriedade da mulher,
que tem vindo a recuperar, adquiriu outras, nas proximidades, que tinham sido
distribuídas em partilhas. “Tudo a preços de mercado. Adquirido a preços
anunciados pelas imobiliárias. Nenhum a preço de saldo”, assegurou,
clarificando que o único rendimento “foi o do meu trabalho e da minha mulher”.
O
governante afirmou que as obras realizadas por João Carvalho foram numa única
propriedade, duraram cerca de dez fins de semana, não amentaram a área original
e tiveram a participação da sua mão de obra e da do filho. Reconheceu que pediu
para se construir um tanque, que foi “devidamente construído”, mas que “acabou
por se transformar numa piscina”, contra a sua vontade inicial. Não pediu
licenciamento porque, na sua ótica, eram intervenções “de pouco impacto”,
pagáveis, à medida que eram feitas. Até podia ter dito que não se deve
contrariar o “milagre” de transformação de um tanque em piscina. E alegou que
desconhecia que a área da propriedade seja protegida (não pode) e que solicitou
à câmara de Odemira uma reunião urgente, para esclarecer e regularizar a
situação, “no escrupuloso cumprimento da lei”.
Quanto
ao empreiteiro João Carvalho, diz que “não favoreceu esta pessoa ou a sua
empresa”, nem recebeu “qualquer benefício”. Foi um contrato feito com uma
pessoa que “trabalha bem” e na qual tinha confiança. E lembrou que o
empreiteiro, em 2023, já tinha celebrado 11 contratos com a PJ. E, eauanto à
Construbarcelos, referiu que nunca teve peso relevante na contratação na PJ e
que, entre 2019 e 2025, houve empreitadas no valor global de 27 milhões de
euros. Com essa empresa, só se celebraram 8% do total dos contratos. Nove deles
foram contratação excluída. Nesse período, a PJ celebrou 232 contratos, dos
quais 82 deles também foram de contratação excluída. Depois de conhecer o
empreiteiro, entre 2024 e 2025, a empresa representou apenas 4% das empreitadas
contratadas pela PJ.
“O
diretor nacional não elabora cadernos de encargos, projetos de engenharia ou
arquitetura, não integra júris, não escolhe os concorrentes, não avalia
propostas”, declarou, vincando que essas operações envolvem dezenas de
profissionais e o diretor só entra depois de estar concluída a tramitação
técnica e jurídica. Todos o sabemos, mas só está a fugir à responsabilidade de orientação
e de supervisão de que era detentor.
Relativamente
à não apresentação declarações de rendimentos ao TC, durante os mandatos de
diretor nacional da PJ, garantiu nunca ter sido notificado, pelo TC, quanto a
esta matéria (era preciso?), ao contrário do que aconteceu com a Entidade para
a Transparência (EpT), junto da qual o atual ministro disse ter apresentado um
parecer, defendendo que a lei não se devia aplicar da mesma forma aos
dirigentes da PJ.
Como
isso não foi atendido, Luís Neves corrigiu, substituindo a declaração de
rendimentos anterior, e que essa foi validada, na sua “plenitude” pela EpT, em
maio deste ano.
Admitiu
que a sua forma de agir possa, “pontualmente, ter sido mal compreendida” e
levado a decisões que “deviam ter sido evitadas”. Entende as dúvidas sobre a
contratação de João Carvalho, mas não tem nada a esconder. “Sei o que é o bem e
sei muito bem o que é o mal. Nem sempre acertei, mas estive sempre do lado do
bem”, declarou apoditicamente.
Quanto
à alegada acusação de lhe ter sido dada madeira da Infraestruturas de Portugal
para fazer mesas e bancos, na propriedade do Alentejo, Luís Neves, diz que foi
paga por si próprio, e não oferecida, na sequência da desativação de linhas
férreas.
***
A
controvérsia teve início a 10 de julho, com o semanário Nascer do Sol
a noticiar que Luís Neves recorreu a um empreiteiro ligado à PJ,
instituição que este liderou, para realizar obras em dois montes, no concelho
de Odemira. Nesse fim de semana, o ministro deu entrevistas, para explicar que o
conheceu, durante obras realizadas para a PJ na cidade da Guarda, em 2023,
tendo desenvolvido, a seguir, uma relação de amizade. Começou por solicitar uma
avaliação técnica das obras e acabou por contratar o empresário para a sua
execução. Garantiu não ter havido qualquer favorecimento no preço e afirmou-se
disponível para apresentar as faturas, registadas no e-faturas e declaradas à
Autoridade Tributária (AT), embora apenas no final da obra e caso o considerasse
“pertinente”.
As
intervenções abrangiam “uma parede, uma casa de banho e um alpendre”, com a
instalação de um tanque, com um custo entre 20 mil e 30 mil euros, a pagar após
conclusão dos trabalhos.
O
imóvel, denominado monte Corgo da Fonte, pertence a uma sociedade detida,
integralmente, pela sua mulher, a unipessoal Alcampos. E está registado como
alojamento local (AL), há cerca de um ano, embora o governante tenha garantido
que ainda não estava a ser explorado para fins turísticos. Posteriormente, o
ministro deixou de prestar declarações sobre o assunto, mesmo após revelações
de que o “tanque” seria uma pequena “piscina” e de que o terreno está inserido em
Reserva Agrícola Nacional (RAN) e Reserva Ecológica Nacional (REN).
Veio
também a público que a empresa da sua mulher, com quem é casado em regime de
comunhão de (bens) adquiridos, não constava das declarações entregues à EpT,
enquanto diretor nacional da PJ. Esses documentos só terão sido submetidos com
mais de um ano de atraso. Além disso, o TC indicou ao Nascer do Sol não
possuir registos das declarações de rendimentos, interesses e património de
Luís Neves, entre 2018 e 2024.
Apesar
de o portal Base registar cinco adjudicações da PJ à Construbarcelos, todas na cidade
da Guarda, esta polícia revelou, posteriormente, que foram 17 contratos
atribuídos, entre 2019 e 2025, no valor global de 2,2 milhões de euros. Apenas
um destes contratos resultou de concurso público, tendo resultado os demais de
procedimentos não concorrenciais, incluindo contratação excluída, justificada
por motivos de segurança e confidencialidade.
A
PJ não esclareceu por que motivo algumas empreitadas foram classificadas como
sensíveis e outras não, nem os critérios que levaram à escolha de João Carvalho
como fornecedor. E Luís Neves referiu que a empresa estava credenciada pelo
Gabinete Nacional de Segurança, sem mencionar o histórico empresarial do
empreiteiro, que inclui insolvências, dívidas e dissoluções, nem a diversidade
de áreas em que esteve envolvido.
A
situação agravou-se com a revelação de que o reboque apreendido, em 2024, na
Lourinhã, numa operação contra um laboratório de cocaína, desapareceu do parque
de veículos apreendidos, no Seixal, e foi encontrado, a cerca de 350
quilómetros, acoplado a um camião da Construbarcelos. Inspetores da PJ deslocaram-se
lá, para recuperarem o material (bidões de amoníaco para fabrico de droga sintética)
e ponderaram deter o empresário ou constituí-lo arguido, o que não concretizaram.
Foi aberto inquérito-crime para apurar a transferência não documentada do
material, podendo estar em causa crimes de descaminho e de abuso de poder. Porém,
quando o processo foi remetido à Procuradoria-Geral da República (PGR), o
Ministério Público (MP) afastou a PJ da investigação, sem envolver outra força
policial, para não surgirem suspeitas de imparcialidade. Com efeito, a PJ não
deve investigar a própria atuação e as outras polícias, como a Polícia de
Segurança Pública (PSP), estão sob tutela do ministro.
A
17 de julho, foi ainda divulgado que a Construbarcelos estava, há quatro meses,
sem alvará, devido ao não pagamento da taxa de regulação. Advogados dos
arguidos da investigação que levou ao desmantelamento do laboratório de cocaína
dizem que poderão contestar a validade da prova, dado que o reboque esteve em
Barcelos sem conhecimento do tribunal e nada garante que este chegue ao
julgamento nas condições exatas do dia da apreensão.
Em
comunicado, a Direção Nacional da Polícia Judiciária (DNPJ) diz que soube da
movimentação do atrelado, apurou que “que, de facto, a galera se encontrava
estacionada em Barcelos, atracada a um camião da empresa Construbarcelos”, e
diz que o atrelado já foi retirado do local e voltou, juntamente com os
produtos, para a sua guarda.
Entretanto,
a Câmara Municipal de Odemira informou que não havia nenhum processo atinente a
obras no monte de Luís Neves, que abrira processo de averiguação de eventuais
irregularidades e que atuaria em conformidade com a lei.
Nunca
o MAI foi acusado de ligação à droga, mas que não aplicou a lei em vigor, quanto
à recolha de amostra dos materiais e da destruição do restante material, por este
se tornar perigoso (Por isso é que a Autoridade Marítima urgiu a saída do atrelado
das suas instalações). E, pelos vistos, ele autorizou o transporte para
Barcelos, sob acompanhamento de pessoal da PJ, nada tendo ficado registado.
Isto é boa gestão?
Entretanto,
o MAI declarou que a PJ precisava de 150 mil euros para guardar o material e
que não tinha cabimento orçamental, mas refere que qualquer armazém leva três a
quatro mil euros de renda. Ora, a boa gestão implicava diálogo com a tutela,
para ajudar à solução.
***
Entretanto,
vários partidos questionaram a continuidade de Luís Neves no cargo, com o Chega
a anunciar a intenção de criar uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) aos
seus mandatos na PJ. Apesar disso, o PM reiterou, por duas vezes, a sua
confiança no ministro, afirmando estar “tranquilo e confiante” no seu trabalho
e nas explicações que venha a apresentar. E o governante diz-se disponível para
a CPI, para que tudo fique esclarecido.
O
secretário-geral do Partido Socialista (PS), que reuniu, no dia 29, com Luís
Montenegro, antes das explicações de Luís Neves, declarou aos jornalistas que
as respostas que obteve não dispensam a presença do governante no Parlamento. E
manifestou “a divergência profunda com a AD [Aliança Democrática] e com os
partidos que inviabilizaram que o MAI fosse ouvido no Parlamento, no seguimento
da proposta feita pela Iniciativa Liberal (IL)”.
José
Luís Carneiro disse ainda ter transmitido ao chefe do governo que o PS é contra
a CPI sobre o caso, justificando que essa iniciativa “tenderá a lateralizar as
questões que estão em apreço e a contribuir para o descrédito das instituições
democráticas”. Porém, julga que o PM e o MAI devem fazer uma avaliação rigorosa
sobre se este dispõe de condições ou não para o exercício das funções políticas.
É um ministro, à partida, fragilizado politicamente.
Em
reação à conferência de imprensa de Luís Neves, André Ventura, líder do partido
do Chega, considerou “perigosa” a explicação para o atrelado. “Apesar de ser um
material perigoso e caro para destruir ficou na rua” e foi” levianamente
exposto”, justificou, defendendo que isto merece escrutínio. Mais disse que é
sofrível o MAI atribuir ao TC a culpa do incumprimento do dever de prestar declarações
de rendimento e de património.
António
Filipe, do Partido Comunista Português (PCP), disse ser “incompreensível” que
não houvesse uma instituição do Estado com espaço para receber o atrelado. “É
um ato de gestão que não se compreende”, reforçou.
Mariana
Leitão, da Iniciativa Liberal (IL), insistiu que os esclarecimentos de Luís
Neves “já podiam ter sido dados”, em vez de se arrastarem as instituições “para
a lama”, e questionou tal como os restantes partidos o porquê de uma empresa
privada ter ficado com um atrelado de materiais perigosos, sem condições
especiais para o seu tratamento. E interrogou-se sobre como é que o ex-diretor
da PJ alega desconhecimento da lei, para não ter entregado as declarações de
rendimentos ou as obras possivelmente irregulares que fez, sugerindo que é “quase
cómico” ele dizer que o tanque se transformou em piscina contra a sua vontade.
José
Manuel Pureza, do Bloco de Esquerda (BE), apontou que os esclarecimentos do MAI
foram tardios e insuficientes, exigindo documentação sólida que os comprove.
Por
seu lado, Paulo Muacho, do Livre, disse que o “ministro demorou demasiado tempo”
a dar explicações. Mas também espera que a documentação na posse do ministro
seja divulgada e que os jornalistas possam fazer esse trabalho de escrutínio.
***
O
ex-diretor nacional da PJ disse que, ao chegar à instituição, a encontrou “profundamente
fragilizada” e que, “tendo em conta os acontecimentos recentes”, a sua forma de
agir terá levado a decisões que, vistas à distância, deviam ter sido evitadas. A
PJ tinha cerca de 980 inspetores para um quadro de dois mil. Em seus mandatos,
entraram 830; e, nos próximos dois anos, entrarão mais 450, no âmbito dos
concursos anuais que o governo autorizou. A PJ nunca esteve tão forte para
enfrentar todos os desafios criminais, às vezes, híbridos, que enfrenta
sociedade democrática. E ele detém um histórico no combate ao crime.
Não
basta gerir bem (terá gerido mais por impulso, sem plano, sem registo). Estar
do lado do bem pouco significa, em termos explicativos (Era o que faltava estar
do lado do mal!). E expor o seu legado na PJ é tentar distrair-nos do que está
em causa.
2026.07.30
– Louro de Carvalho
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