sexta-feira, 31 de julho de 2026

Já não existe o Mediterrâneo dos nossos antepassados

 

À medida que a biodiversidade diminui, as comunidades costeiras terão mais dificuldades em garantir o seu sustento, da forma como o têm feito, durante gerações. E cientistas sustentam que as alterações climáticas, provocadas, sobretudo, pela queima de petróleo, de carvão e de gás, estão a tornar o mar Mediterrâneo mais quente e a trazer centenas de espécies exóticas (uma verdadeira inundação) de peixes invasores agressivos que dizimam as populações autóctones.

Exemplos típicos são o peixe-coelho (dusky spinefoot) e o peixe-leão (com aposematismo: emite sinais visíveis que alertam os predadores para perigo iminente), ambos venenosos. Os pescadores dizem que estes peixes destroem a biodiversidade e as espécies mediterrânicas. Em particular, o peixe-leão ataca os alevins. “Outro peixe alienígena que apareceu, depois do peixe-coelho, foi o peixe-leão, que é perigoso para a biodiversidade marinha, porque consome todas as crias. Não deixa nada para trás e multiplica-se, porque não tem inimigos. É muito perigoso, para todos os peixes das zonas onde se multiplica e permanece”, diz o pescador Fotis Gaitanos.

Enquanto, para o peixe-coelho, não foi encontrada outra solução, além de subsidiar os pescadores para os matarem, para o peixe-leão, encontrou-se, em Chipre uma forma de reduzir as populações e obter lucro. Há muito tempo, nos restaurantes de peixe do país, o peixe-leão, depois de retiradas as espinhas venenosas, é servido aos clientes, normalmente, e até se tornou uma forma refinada de alimento. Como adverte Stefanos Mentonis, proprietário da Stefanos Fish Tavern, por ser muito perigoso (as espinhas são muito tóxicas e a mordedura provoca dores terríveis), tem de ser limpo e as espinhas cortadas.

“O Mediterrâneo dos nossos avós, dos nossos mais velhos, e dos gregos, da Grécia antiga, perdeu-se para sempre. Grande parte dessas alterações é irreversível”, afirma Ernesto Azzuro, biólogo marinho no Instituto de Recursos Biológicos Marinhos e Biotecnologia do Conselho Nacional de Investigação de Itália.

Cientistas classificaram o Mediterrâneo de “hot spot” das alterações climáticas, com as suas águas a deverem aquecer entre dois e seis graus (Celsius 6º C), até 2100. De acordo com os Mediterranean Experts on Climate and Environmental Change, uma rede independente de cientistas, as ondas de calor deverão tornar-se mais frequentes e mais extremas. E Ronan McAdam, oceanógrafo no Euro-Mediterranean Center on Climate Change, afirma que um fator essencial para o aquecimento é o facto de o mar ser bacia fechada, onde o calor não se dissipa como sucede na imensidão dos oceanos – o que, aparentemente, contradiz a ideia (complementar) de que a abertura do Suez iniciou a entrada desta fauna no Mediterrâneo.

As águas mais quentes criaram novo habitat apetecível para espécies invasoras, como o peixe-balão malhado, um predador voraz e “o pior invasor”, pois infla o corpo e produz tetrodotoxina. Estas espécies estão agora a avançar em direção a França e Espanha, depois de terem entrado no Mediterrâneo pelo canal de Suez.

A Comissão Geral das Pescas no Mediterrâneo, do organismo das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), indica que estas espécies invasoras estão presentes, há décadas, mas a sua propagação acelerou, a partir do início dos anos 2000, coincidindo com o aumento das temperaturas do mar. O peixe-leão, por exemplo, foi detetado pela primeira vez no Mediterrâneo Oriental, em 2012, e expandiu-se, rapidamente, para Oeste. “O Mediterrâneo será ainda mais pobre, com ainda menos espécies, simplesmente, porque as alterações climáticas estão a tornar esta parte do Mediterrâneo, sobretudo a Zona Oriental, verdadeiramente imprópria para as espécies nativas”, afirma Azzuro.

Chipre, devido à proximidade do canal de Suez, foi o primeiro país a sentir o impacto destes invasores. O peixe-leão substituiu espécies autóctones, como o salmonete, para desgosto dos pescadores, que viram diminuir, drasticamente, as variedades locais mais procuradas pelos clientes. E os peixes-coelho são capazes de devorar as algas do fundo do mar, destruindo o habitat de muitas espécies autóctones. “Sabemos o que deve ser feito. Devemos reduzir o uso de combustíveis fósseis, mas é uma questão urgente, para a Humanidade, e todos conhecemos as soluções, [que] exigem, porém, uma visão global e partilhada afirma Piero Genovesi Papik, zoólogo no Instituto Superior para a Proteção e Investigação Ambiental de Itália.

Azzuro refere que foram identificadas, no Mediterrâneo, cerca de mil espécies invasoras, das quais 800 estão firmemente estabelecidas. E adverte que as mudanças são profundas, pois, como observa, as zonas pouco profundas do Mediterrâneo Oriental perderam 93% da sua população de moluscos. Ao longo da costa adriática, outrora abundante em mexilhões, quase todos eles morreram, devido a temperaturas do mar que, em certos momentos, ultrapassaram os 30º C. De Veneza, no Norte, a Bari, no Sul, “a mortalidade foi espetacular”, afirma, vincando que, “a menos que consigamos encontrar populações capazes de sobreviverem a estes diferentes climas, o futuro dos mexilhões não será nada promissor, pelo menos, no Mar Adriático”.

Azzuro conta que o seu instituto e um parceiro lançaram, há alguns anos, uma campanha, “Beware of those four”, a alertar para os perigos das espécies invasoras para a saúde humana. Por exemplo, o peixe-balão (corpo robusto com pintas ou manchas caraterísticas e com dentes fundidos em forma de bico) é tóxico e potencialmente mortal, se consumido por humanos, e os espinhos venenosos do peixe-leão podem provocar ferimentos graves em quem picar.

Os cientistas discutem como podem as comunidades costeiras adaptar-se. Uma opção passa por comercializar espécies invasoras comestíveis; outra é pagar aos pescadores para capturarem as espécies não comestíveis, como o peixe-balão, para serem incineradas.

Algumas espécies, como o peixe-leão, têm “benefícios económicos claros, porque são vendidos a preços muito elevados, sobretudo, em alguns países”, segundo Azzuro. Já os pescadores não tiraram partido da invasora dusky spinefoot (peixe coelho), cuja população aumentou, significativamente, nas águas italianas.

O dusky spinefoot, de cauda quadrada, é uma espécie de peixe marinho com nadadeiras raiadas, pertencente à família Siganidae. É nativo do Oeste do Oceano Índico, que se espalhou para o Mar Mediterrâneo, através do Canal de Suez

Piero Genovesi Papik diz que, embora seja demasiado tarde para inverter a propagação das espécies invasoras, no Mediterrâneo, há formas de atenuar o seu impacto: travar novas migrações, pela aplicação de um tratado internacional que obrigue as autoridades nacionais a tratar as águas de lastro dos navios que chegam e que podem transportar estas espécies – “algo tecnicamente exequível e que pode reduzir o número de novas espécies exóticas em 95% a 99%”; e tratar os cascos dos navios com tintas especiais, que impedem que organismos indesejados se fixem.

Papik releva que estão a ser revistas políticas de pesca que permitam às espécies nativas recuperar parte dos seus efetivos, por exemplo, através da produção de moluscos menos vulneráveis ao caranguejo-azul exótico. “Nos próximos anos, creio que o desafio será encontrar novas formas de restaurar o ambiente”, conclui.

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Em abril, A WWF Hellas (Fundo Mundial para a Natureza, na Grécia) apresentou o “FishGuide” (“Guia do Peixe”) atualizado, uma ferramenta que ajuda os consumidores de peixe e de marisco a fazerem escolhas mais sustentáveis e a contribuir para a proteção dos mares.

O “Guia do Peixe” disponível, gratuitamente, online, em fishguide.wwf.gr, inclui mais de 100 espécies de peixes amplamente encontradas no mercado e espécies não comerciais que vale a pena incluir na dieta. As espécies estão divididas em quatro categorias principais: espécies mediterrânicas, espécies estrangeiras, espécies de aquacultura e espécies importadas.

O “Guia do Peixe” dá conselhos sobre a sazonalidade das espécies, ajudando o público a escolher o peixe e o marisco, na altura certa, evitando os meses em que se reproduzem ou em que não é permitida a sua captura. “Queremos que as pessoas estejam informadas, informadas e conscientes. Que aprendam a escolher, de forma correta e responsável, o seu marisco. Ou seja, que aprendam que peixe escolher, em que tamanho e nas épocas certas. […] Nós ou a geração anterior recebemos algo, um mar saudável. Temos de o deixar, pelo menos, no mesmo ponto”, disse Elias Margaritis, responsável pelas pescas na WWF Grécia.

Porque o tamanho do peixe indica a sua idade e se já desovou, pelo menos, uma vez, o guia fornece informações sobre o tamanho mínimo legal que cada espécie deve ter para poder ser consumida e sobre o tamanho da maturidade da sua primeira desova, para que os consumidores tenham toda a informação ao seu alcance e possam fazer escolhas responsáveis. Além disso, contém informações de base sobre as caraterísticas das espécies, a sua alimentação e morfologia, as zonas onde se encontram e o estado das suas populações.

Pela primeira vez, o guia inclui uma secção dedicada às espécies exóticas, cada vez mais presentes nos mares gregos, devido a intervenções antropogénicas (alterações climáticas, sobrepesca). De facto, com base em dados recentes, foram registadas mais de 240 espécies exóticas na Grécia. Uma vez que se trata de espécies invasoras que crescem rapidamente e causam impactos no ambiente marinho e nos pescadores (competição com espécies nativas pela disponibilidade de alimentos, danos nas artes de pesca), o seu consumo tornou-se um elemento-chave da adaptação às alterações climáticas e da proteção da biodiversidade.

Quando se ouve o termo “exótico”, existe fobia. Há demasiadas espécies, como a alemã, a sardinha, como a tainha alienígena, o peixe trombeta, que são muito saborosas. Agora, são abundantes nas regiões do Sul, e não só: foram para o Peloponeso, lentamente, e para o Mar Jónico. E têm um perfil nutricional muito bom.

Com o “Guia do Peixe”, os consumidores têm a oportunidade de se informarem sobre as espécies exóticas que não são adequadas para consumo e sobre as que têm um sabor distinto e um elevado valor nutricional e que vale a pena incluir na sua dieta. Com efeito, o “Guia do Peixe” enfatiza o valor nutricional das espécies incluídas, com informações pormenorizadas dos nutrientes que contêm (por exemplo, proteínas, gorduras ómega 3, energia, vitaminas); apresenta as dez espécies que se destacam pelo valor nutricional; e, com o objetivo de se tornar uma ferramenta de utilização prática, no quotidiano, inclui receitas do chefe Giorgos Tsoulis, do embaixador oficial da WWF Hellas para as questões da nutrição sustentável, Ilias Mamalakis, e de outros cozinheiros de renome de todo o Mundo.

“Temos de pensar que, daqui a dois anos, nem sequer teremos peixe para vender nas nossas lojas. Por isso, temos de integrar, lentamente, as espécies de peixe estrangeiras nas ementas, para que as pessoas as conheçam, aos poucos. Não devemos dar às pessoas o que elas pedem, porque não podemos ter polvo, durante todo o ano, não podemos ter salmonete, lulas e tudo isso, durante todo o ano. Por isso, temos de adaptar a nossa ementa com espécies estrangeiras e, a pouco e pouco, o Mundo inteiro ficará a conhecê-las”, discorre o chefe George Koutlis.

Para a renovação do “Guia do Peixe”, a WWF Hellas realizou um inquérito, a nível nacional, a fim de recolher e de utilizar o conhecimento e a opinião dos consumidores acerca da compra de peixe e de marisco. E concluiu que toda a população grega reconhece o seu valor nutricional e o sabor delicioso, a seguir aos frutos e legumes; que cerca de uma em cada duas pessoas consome peixe/marisco, uma vez por semana; que o seu consumo entre os jovens é limitado; e que cerca de seis em cada 10 gregos estão preocupados com o consumo responsável de peixe, enquanto um em cada dois desconhece a existência de espécies de peixe não nativas.

O “Guia do Peixe”, que será atualizado, regularmente, incorporando os dados científicos mais recentes, dirige-se a todos: consumidores, fornecedores de refeições, pescadores e comerciantes, com vista a reforçar a responsabilidade coletiva pela conservação dos recursos marinhos, através de pequenas, mas significativas, mudanças nas escolhas diárias.

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Neste ano, a preocupação centra-se, em particular, na bactéria Vibrio, uma família de microrganismos que ocorrem, naturalmente, em águas costeiras quentes e salobras. A maioria das estirpes é inofensiva, mas algumas, como a Vibrio vulnificus, que a imprensa apelidou de “devoradora de carne”, podem causar infeções graves e, em casos raros, até fatais, especialmente, em pessoas com feridas abertas ou com o sistema imunitário enfraquecido.

Segundo a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), “a Vibrio é uma bactéria aquática que pode encontrar-se no marisco” e algumas estirpes podem provocar desde gastroenterites até infeções graves e mesmo mortais. Entre as espécies mais relevantes, na Europa, contam-se a Vibrio vulnificus, a Vibrio parahaemolyticus e certas variantes da Vibrio cholerae. Por isso, a EFSA alerta que estas bactérias podem causar infeções, pelo consumo de marisco cru ou pelo contacto de feridas abertas com a água.

As bactérias não são a História, são as mensageiras; a História é um mar desequilibrado pelo calor e pela poluição, observa Hatim Aznague, analista da União para o Mediterrâneo.

A Vibrio é parente próximo da bactéria que provoca a cólera, embora os dois microrganismos originem doenças diferentes. Nos casos mais graves, a infeção pode desencadear fasceíte necrosante (inflamação da fáscia plantar), em que o tecido em redor da ferida se degrada rapidamente. A bactéria pode entrar na corrente sanguínea, causando sépsis e, em alguns casos, o doente precisa de amputar o membro afetado. E o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) alertou para maior risco (sanitário e ecológico) de Vibrio, em todo o verão.

Este fenómeno é, particularmente visível, no Mediterrâneo, considerado pelos cientistas como uma das regiões mais vulneráveis ao aquecimento global do planeta. E o aumento da temperatura da água, combinado com a poluição e com a menor salinidade em zonas costeiras, cria o ambiente perfeito para a proliferação de agentes patogénicos. Com efeito, a temperatura e a salinidade são os dois principais fatores que determinam a proliferação da Vibrio.

A salinidade naturalmente mais elevada do Mediterrâneo tem inibido a Vibrio vulnificus, a estirpe mais associada a infeções graves, tornando as costas do Mar Báltico e do Mar do Norte, zonas de maior risco para os casos mais perigosos. Porém, à medida que o Mediterrâneo aquece e os padrões de salinidade se alteram, essa situação poderá mudar.

Para lá do risco sanitário, a expansão de Vibrio tem consequências económicas diretas. A região mediterrânica é a zona turística mais visitada do Mundo, o que amplifica o impacto de qualquer encerramento temporário.

O problema já não pertence a um futuro climático, mas ao presente. Este mar funciona como termómetro global do que pode correr noutras regiões, nas próximas décadas. E a solução é a aposta em maior cooperação e na adoção de ações coordenadas “Não é aceitável fazer concessões, em matéria de saúde ou de clima”, considera Hatim Aznague.

2026.07.31 – Louro de Carvalho

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