segunda-feira, 20 de julho de 2026

Remodelação do governo da Ucrânia gera crise política e protestos

 

Desde o verão de 2025 com os protestos em apoio aos organismos anticorrupção, a sociedade civil ucraniana não se mobilizava tanto como, agora, após a demissão do ministro da Defesa Mykhailo Fedorov. É um protesto invulgar, em tempo de guerra, para o defender e apoiar, atenta a popularidade do ex-governante, sobretudo, na sociedade civil.

Os apelos à manifestação surgiram nas redes sociais, logo após o presidente Volodymyr Zelenskyy ter demitido Federov, na noite de 15 de julho. A indignação transformou-se em plano para se reunirem nas principais cidades às 09h01 do dia 16, imediatamente após o minuto de silêncio diário em memória dos combatentes e civis ucranianos mortos.

Dmytro Koziatynskyi, veterano de guerra e um dos principais organizadores dos protestos em massa, no verão de 2025, em apoio ao Gabinete Nacional Anticorrupção da Ucrânia (NABU) e à Procuradoria Especializada Anticorrupção (SAPO), discorreu, nas redes sociais, que “o ministro da Defesa está a ser afastado”, quando “as reformas são eficazes” e substituído por quem não garante que as reformas prossigam, numa alusão ao ministro do Interior, Ihor Klymenko, que se preparava para substituir Fedorov, o que não aconteceu.

Esperava-se que Fedorov fosse substituído pelo general Ihor Klymenko, que dirigiu a Polícia Nacional, entre 2019 e 2023, e foi nomeado ministro do Interior, após a morte do seu antecessor, Denys Monastyrsky.

Em consequência, o referido veterano de guerra apelou a todos que se juntassem na Praça Franko e mostrassem ao presidente que estão “contra as constantes remodelações no governo e contra a substituição de ministros eficazes por oportunistas convenientes”. “Nunca vamos derrotar a Rússia, enquanto a mesma estagnação total e corrupção governarem o nosso exército e os nossos ministérios”, escreveu Dmytro Koziatynskyi.

O subcomandante da Força Aérea da Ucrânia, Pavlo Yelizarov, anunciou a sua demissão, a 16 de julho, dizendo que a exoneração de Fedorov – cujas prioridades incluíam a reforma do setor da defesa antiaérea – “é um grande mal para a capacidade de defesa do país” e “provocará mais vítimas e destruição na Ucrânia”, pelos ataques russos com mísseis e com drones.

Também Serhii Sternenko, ativista e blogger, que foi conselheiro de Fedorov para a guerra com drones, afirmou que Fedorov “é o melhor ministro da Defesa de toda a nossa História” e classificou a sua demissão como “a maior desmoralização desde o início da guerra”.

À medida que a mobilização nas redes sociais ganhava ritmo, trocavam-se ideias de slogans para cartazes feitos em pedaços de cartão: “O povo protege o ministro da Defesa”, “Mais trabalho feito em meio ano do que alguns fazem em dois”, “Despediste o errado”.

Diz-se que o presidente demitiu Fedorov na sequência de conflito com o comandante‑chefe Oleksandr Syrskyi. Por isso, a maioria dos que publicavam os seus trabalhos apelava a que Zelenskyy revertesse a decisão, mantendo Fedorov no cargo.

O atrito entre Fedorov e Syrskyi (acusado de dividir o país e de travar reformas) surgiu com a proposta do ex-ministro de reforma do setor militar, em especial, no atinente ao funcionamento do Ministério da Defesa. O diferendo é tido como um choque geracional entre o gestor jovem e inovador, com experiência em startups, e o general mais tradicional. Por isso, muitos cidadãos direcionaram a revolta contra Syrskyi, que mantém o cargo, acusando o presidente de sacrificar um ministro da Defesa popular, num momento tão crítico da guerra.

Ao confirmar, de imediato, a sua demissão, Fedorov publicou um balanço do que considera serem as principais conquistas e falhas da sua equipa, nos seis meses no cargo. Falando de falhas, disse não ter concluído a transformação organizacional do Ministério da Defesa em linha com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) e com o bom senso. “A nova estrutura foi criada, muitas pessoas foram dispensadas” disse, frisando que foram ativados muitos processos, mas que “era preciso ser ainda mais decidido a afastar quem travava as mudanças”.

Entre os êxitos, destacou a suspensão do uso dos sistemas Starlink – rede de Internet por satélite criada pela SpaceX, que usa satélites que orbitam perto da Terra para dar Internet rápida e estável onde não chega a fibra ótica – pelas forças russas, a campanha contra a logística russa na Crimeia ocupada e a iniciativa de reforma militar impopular, mas muito importante.

Agradeceu a cada um dos que defendem a Ucrânia e trabalham pela vitória e a toda a sua equipa, “pelo serviço eficaz, 24 horas por dia, sete dias por semana”, assim como prometeu “continuar a trabalhar na missão” com que chegou ao Ministério da Defesa, “derrotar o inimigo, através da assimetria, da velocidade da inovação e da força da nossa organização”.

***

A 12 de julho, Zelenskyy anunciou a remodelação, alegando que o governo precisava de um “reinício” e que a remodelação permitirá recalibrar a estratégia da Ucrânia em guerra, com foco na resiliência energética e na adesão do país à União Europeia (UE).

Circulavam, há semanas, rumores da demissão da primeira-ministra, Yulia Svyrydenko, mas esperava-se que a remodelação acontecesse no final de agosto ou no início do outono. Todavia, foi afastada do cargo, cinco dias antes do primeiro aniversário do governo.

Desde que foi divulgada a remodelação do governo, a permanência de Fedorov à frente do Ministério da Defesa foi o tema que mais concitou especulações e críticas a Zelenskyy por ponderar a sua demissão. Já a saída de Svyrydenko e a célere nomeação do novo primeiro-ministro, Sergii Koretskyi pouco impacto tiveram na opinião pública. A nomeação de Koretskyi é vista como escolha natural, dada a sua experiência na Naftogaz, durante a campanha da Rússia para paralisar o sistema energético da Ucrânia.

Com as eleições nacionais suspensas ao abrigo da lei marcial, em situação de guerra, a remodelação é o único instrumento de renovação política disponível. Em consonância com o objetivo de Kiev de acelerar a sua integração europeia, Vsevolod Chentsov, chefe da missão da Ucrânia junto da UE, desde 2021, assumiu o cargo de vice-primeiro-ministro para a integração na UE. E Taras Kachka, que ocupava este cargo, deverá suceder a Chentsov em Bruxelas, permitindo a Kiev manter os funcionários mais experientes nas pastas-chave para a adesão à UE, ao mesmo tempo que troca os seus cargos.

O ministro dos Negócios Estrangeiros – cargo que o presidente propõe separadamente – ainda não foi aprovado, mas afirma-se que Andrii Sybiha deverá manter o cargo. E o deputado Yaroslav Zheleznyak afirmou, no Telegram, que os novos responsáveis pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e pelo Ministério da Defesa serão nomeados pelo Parlamento, a 18 de agosto.

A 15 de julho, o parlamento aceitou a demissão da primeira-ministra, Yulia Svyrydenko, abrindo portas à remodelação. E Zelenskyy afirmou ter-lhe oferecido nova função centrada na cooperação com um dos “parceiros-chave” da Ucrânia, alimentando a especulação de que poderá ser nomeada embaixadora de Kiev em Washington.

Svyrydenko é bem conhecida nos meios políticos norte-americanos, pois liderou as negociações do acordo sobre minerais entre os Estados Unidos da América (EUA) e a Ucrânia, concluído em 2025, o que ajudou a alcandorá-la ao cargo de primeira-ministra.

Por seu turno, Koretskyi, o sucessor, assume funções numa altura em que a Ucrânia enfrenta ataques russos contínuos contra a sua infraestrutura energética e Kiev afirma que preparar o sistema para o inverno é a prioridade máxima, visto que Moscovo prossegue a campanha para degradar a rede elétrica do país, mergulhando cidades na escuridão, em frio intenso. Ora, o primeiro-ministro está envolvido neste esforço, desde que se tornou diretor-executivo da Naftogaz, em maio de 2025, após ter sido nomeado pelo conselho de supervisão da empresa, tendo centrado o seu mandato na estabilidade energética, apesar dos ataques repetidos contra as unidades de produção. Isto, após ter chefiado as empresas públicas Ukrnafta e Ukrtatnafta, entre novembro de 2022 e maio de 2025.

A 16 de julho, enquanto milhares de cidadãos protestavam contra a demissão do titular da Defesa, o parlamento aprovou Serhii Koretskyi como primeiro-ministro, no âmbito da remodelação do governo promovida por Volodymyr Zelenskyy, medida menos contestada do que as mudanças na Defesa. Koretskyi prometeu concentrar-se na defesa, na estabilidade económica e na integração na UE. Entretanto, no exterior, os manifestantes bradavam que a batalha sobre quem controla as forças armadas, e de que forma, só estava a começar.

Ainda nesse dia, Zelenskyy nomeou o chefe do SBU, Yevhenii Khmara, como ministro da Defesa interino, e afirmou que iria solicitar a aprovação do Parlamento para a nomeação de Khmara como ministro. Com efeito, reuniu-se com Khmara e discutiram uma visão estratégica sobre a forma como a Ucrânia deve continuar a agir, de forma proativa, para defender a independência e obrigar a Rússia à via diplomática. Segundo Zelenskyy, Khmara adquiriu vasta experiência na condução de operações de ataque de alta tecnologia: “É, precisamente, nisso que os nossos esforços de defesa nesta guerra devem centrar-se”, enfatizou.

A notícia surgiu no meio de manifestações contra a decisão de Zelenskyy de demitir Fedorov do cargo de ministro da Defesa. E o presidente, em conferência de imprensa realizada, no mesmo dia, considerou que era correto que os ucranianos pudessem realizar protestos pacíficos e expressar as suas opiniões, mesmo durante a guerra.

***

Os protestos levam Zelenskyy a rever a estratégia de guerra, sob pressão da sociedade civil e das forças armadas, enquanto a presidência pede calma. Enfim, o que começou como indignação espontânea transformou-se numa onda de contestação pública à gestão das forças armadas por Zelenskyy, com manifestantes a exigirem mudanças radicais no comando de topo. E Zelenskyy trava um confronto amargo entre o ex-ministro da Defesa, um reformista ligado às tecnologias e com amplo apoio nas forças armadas e na sociedade civil, e o chefe do exército, que está no centro do esforço de guerra da Ucrânia.

Se as mudanças no governo se enquadram no padrão de Zelenskyy a procurar tecnocratas para reforçar a economia, em tempo de guerra, a turbulência no Ministério da Defesa abriu uma frente mais volátil. Os protestos prolongam-se, sem sinais de abrandarem, e exigem uma reforma mais profunda do comando militar e contestam a saída do ministro da Defesa.

A 17 de julho, reagindo à conferência de imprensa de Fedorov, o conselheiro presidencial Dmytro Lytvyn elogiou a prestação do ex-ministro e disse que, se os responsáveis governamentais comunicassem com esta abertura e clareza, com mais frequência, tudo seria muito mais fácil para todos. Contudo, não explicou o afastamento de Fedorov, remetendo para “muitos assuntos sensíveis”. “Quando todas as mudanças estiverem implementadas, explicaremos em mais detalhe”, prometeu aos jornalistas.

Desde que começaram a circular rumores sobre a remodelação, um grupo de WhatsApp com o gabinete do presidente ficou em permanente atividade, mas dezenas de perguntas dos meios de comunicação ficaram sem resposta, enquanto as mudanças eram aprovadas.

Ao falar com jornalistas no chat presidencial de WhatsApp, no dia 17, Lytvyn procurou justificar a escolha de Khmara e a forma caótica como tudo foi lançado. “O que está a determinar tudo, neste momento, são os ataques de longo e médio alcance, disse, acentuando que “Khmara é realmente brilhante nisso”.

A escolha, à última hora, do ministro da Defesa interino, vindo dos serviços de segurança, reforçou a perceção de que Zelenskyy estará a proteger-se do escrutínio a si e à sua equipa, em vez de enfrentar as frustrações sobre a estratégia, a mobilização e as condições na linha da frente. Efetivamente, ao tentar reforçar o controlo sobre a estrutura da Defesa, Zelenskyy acabou por se encurralar numa crise política. Provavelmente, não antecipou a dimensão da reação à saída de Fedorov e vê agora as suas opções reduzidas. Repor Fedorov no cargo seria um recuo pessoal, mas arrisca aprofundar a cisão com Syrskyi, o chefe máximo do exército. Por outro lado, avançar com um ministro interino, enquanto os protestos crescem, pode consolidar a narrativa de presidente surdo e cego à opinião pública, em tempo de guerra. Na verdade, as reivindicações dos manifestantes já vão além do destino de um ministro popular e incluem apelos à “reorganização total” do comando militar de topo.

Para muitos, as presentes cenas de protesto junto à presidência evocam memórias dos protestos do verão de 2025. Em julho desse ano, a tentativa de Zelenskyy de pôr o NABU e a SAPO sob controlo mais apertado desencadeou os maiores protestos de rua, desde a invasão russa, com ativistas, organizações de combate à corrupção e cidadãos comuns a mobilizarem-se contra uma lei que iria prejudicar a independência dessas entidades. Na altura, a UE emitiu dura reprimenda, alertando para “um sério retrocesso” na rota de adesão da Ucrânia, enquanto o NABU e o SAPO soavam, publicamente, o alarme.

Sob pressão da sociedade civil e dos parceiros europeus, Zelenskyy inverteu a marcha, apresentando nova legislação para restaurar as “garantias plenas de independência das agências anticorrupção”, que o parlamento aprovou, devolvendo-lhes autonomia.

Com base na experiência difícil conquistada no Maidan (manifestações e agitação civil na Ucrânia, de novembro de 2013 a fevereiro de 2014) e em décadas de mobilização de protesto, a experiente sociedade civil ucraniana sabe que a pressão contínua e organizada, sobretudo, se apoiada por aliados internacionais, pode obrigar o presidente a repensar as decisões controversas. E, no presente, há poucos incentivos para que se dispersem, antes de verem respondidas as suas exigências sobre a liderança militar e política.

No dia 15, Zelenskyy reuniu-se com Fedorov e com o comandante-chefe, para discutirem os desafios que enfrentam as forças armadas. A questão do recrutamento terá sido argumento de peso na decisão do presidente, que recusou dizer se demitiria Fedorov, vincando que quer as forças armadas ucranianas unidas e em sintonia. “A prioridade é o diálogo entre o Exército e o Ministério da Defesa, resolver os problemas do recrutamento e fechar o céu”, afirmou.

Entre 2019 e janeiro de 2026, Fedorov foi vice-primeiro-ministro e ministro da Transformação Digital, elogiado pela implementação da estratégia ucraniana de “Estado no telemóvel”, integrada no esforço de redução da burocracia. Tem tido papel decisivo no desenvolvimento e produção de drones, bem como em reformas na educação e no projeto que liga o Ministério da Transformação Digital ao Ministério da Defesa, a impulsionar a tecnologia militar. E, há pouco, lançou a campanha ucraniana de “transformar a Crimeia numa ilha”, operação considerada muito eficaz, dirigida contra a logística russa e contra instalações militares na Crimeia, anexada por Moscovo, e em regiões temporariamente ocupadas no sul da Ucrânia.

***

Já não bastava a guerra à Ucrânia, para ter de arrostar com divisões internas a nível cimeiro, uma fragilidade que o invasor pode muito bem explorar. Entendam-se, já que os protestos não são contra a guerra, mas contra a ineficácia. Ouçam o povo!

2026.07.20 – Louro de Carvalho

Sem comentários:

Enviar um comentário