A
30 de julho, milhares de pessoas cruzaram a fronteira entre Marrocos e o
enclave espanhol de Ceuta, no Norte de África Ceuta, contornando, a nado, o
pequeno pontão que os separa, com outros milhares a aguardarem vez, para fazerem
o mesmo, tendo morrido já, pelo menos, 67 pessoas. Isto aconteceu na sequência
do que se passa, há muito tempo.
Nos
últimos dez dias, entraram, ilegalmente, entre 1500 e duas mil pessoas naquele
território autónomo espanholo, excedendo a capacidade de resposta das
autoridades locais. De acordo com vários meios de comunicação social espanhóis,
só a 26 de julho, pelo menos, 54 crianças e cerca de 30 adultos enfrentaram o
nevoeiro e a agitação marítima e nadaram de Marrocos até Ceuta. E imagens do
canal de televisão RTVE mostravam lanchas da Guarda Civil em tentativas
de resgate, para salvarem alguns migrantes, enquanto outros nadavam até ao
enclave.
As
crianças, na maioria de nacionalidade marroquina, foram levadas para centros
temporários, em Ceuta, tendo as autoridades pedido ajuda ao governo central,
para enfrentarem a situação. E Jesús Vivas, presidente regional de Ceuta,
descreveu toda esta situação como uma “emergência humanitária e social absoluta”
e exigiu que o executivo espanhol acionasse o “estado de emergência nacional”.
O
ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, viajou para Ceuta, a 31 de
julho, para acompanhar a situação, dizendo que Marrocos colabora, de modo “leal
e permanente”, com a Espanha. Porém, o governo não pode decretar o estado de
emergência, por não estar previsto para crises migratórias. “O governo espanhol
está totalmente empenhado em dar resposta imediata à situação em Ceuta […]
Estamos a mobilizar todos os recursos necessários, a trabalhar com as
autoridades marroquinas e internacionais e a preparar as medidas necessárias
para repor a normalidade, o mais rápido possível”, escreveu o
primeiro-ministro, no X, frisando que “chegou a hora de construir
soluções, com responsabilidade e cooperação”.
Como
a Guardia Civil espanhola parecia incapaz de lidar com esta vaga migratória e
apelava ao envio de militares para a zona, o governo mobilizou o exército.
O
sindicato de polícias Jupol denunciou a “passividade absoluta das autoridades
marroquinas”, acusando-as de permitirem que “centenas de pessoas chegassem, a
nado, ao território espanhol, sem qualquer ação efetiva para impedir estas
partidas”. O governo de Espanha anunciou que há acordo com Marrocos para
agilizar os trâmites para deportar os ilegais, mas o Supremo Tribunal espanhol,
em decisão proferida no início do mês, concluiu que a Lei da Imigração não
permite a aplicação de devoluções a quente aos migrantes que entrem, a nado, em
território espanhol, restringindo-as aos casos de intercetados a ultrapassar
barreiras fronteiriças, como vedações. E não se sabe se a decisão teve impacto
nesta crise.
O
líder do Partido Popular (PP) e da oposição espanhola, Alberto Núñez Feijóo,
falou em situação crítica causada pela “avalanche” de migrantes, lamentando que
o governo não reconheça o “grave problema de segurança nacional”. E o líder do
Vox, Santiago Abascal, denunciou uma “invasão”, considerando que o
primeiro-ministro, Pedro Sánchez, “é o seu principal instigador e responsável
por todas as suas consequências”.
Feijóo
e Abascal atribuem a pressão migratória à política de regularização de
imigrantes, em situação irregular, do governo, a qual inclui os que entraram na
Espanha, antes de 1 de janeiro, comprovem, pelo menos, cinco meses de
permanência contínua no país e não tenham registo criminal. Até junho, foi
recebido mais de um milhão de candidaturas.
Por
seu lado, o governo rejeitou a ligação entre a crise migratória, em Ceuta, e a recente
visita de Sánchez à Argélia. “A relação com Marrocos é excelente e não é, de
forma alguma, afetada pelas boas relações com a Argélia”, disseram fontes do
Ministério dos Negócios Estrangeiros à Europa Press, frisando que a
coordenação, em matéria de migração, é “muito intensa”.
***
Esta
crise representa o maior afluxo de chegadas irregulares, alguma vez registado,
num só dia, em território da União Europeia (UE). Embora Ceuta se situe no
Norte de África, o episódio suscitou fortes preocupações entre os governos
europeus.
A
primeira‑ministra italiana, Giorgia Meloni, afirmando que a Espanha devia
ser suspensa da área Schengen, descreveu como “chocantes” as imagens da
chegada de migrantes a Ceuta e pediu a adoção de “medidas extraordinárias”. “Na
imigração ilegal, não cederemos um milímetro: defender as fronteiras, travar os
traficantes de seres humanos e garantir repatriamentos eficazes continuarão a
ser a linha deste governo”, escreveu Meloni, no X.
“As
imagens que chegam de Ceuta mostram como é profundamente errada a decisão do
governo de Madrid de conceder cidadania espanhola e, portanto, europeia, a mais
de 500 mil imigrantes irregulares, e como isso incentiva o tráfico de seres
humanos”, escreveu o ministro italiano dos Negócios Estrangeiros, Antonio
Tajani, na rede X.
O
partido de extrema-direita Fratelli d’Italia propôs a suspensão da aplicação de
Schengen, em relação a Espanha, e anunciou medidas extraordinárias para
defender a fronteira italiana.
Estas
posições tiveram célere reação da Dinamarca e da Finlândia, que apoiam o pedido
italiano, enquanto a França, Portugal e a Alemanha adotaram um tom moderado,
apelando à “proteção das fronteiras da UE”. E a Espanha criticou a “demagogia”
da Itália e chamou o embaixador italiano em Madrid, para apresentar um protesto
diplomático.
A
primeira‑ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, diz que “a UE deve tomar, de
imediato, todas as medidas necessárias e ponderar todas as opções, incluindo
uma suspensão da cooperação Schengen”. E, segundo a ministra finlandesa do
Interior, Mari Rantanen, os países que não cumprem a obrigação de proteger a
fronteira externa não podem integrar Schengen.
“Situação
aterradora na fronteira espanhola. As imagens devastadoras são a consequência
direta do efeito de atração de uma regularização em massa, somado à
instrumentalização da migração ilegal”, escreveu, no X, Manfred Weber,
líder alemão do Partido Popular Europeu (PPE).
“As
autoridades espanholas registaram, até agora, 50 mil passagens ilegais de
fronteira, em Ceuta, sendo a Alemanha, provavelmente, o destino da maioria
destes migrantes”, escreveu, no X, Alice Weidel, líder do partido de
extrema‑direita Alternativa para a Alemanha. “A Alemanha tem de se preparar: as
fronteiras têm de ser reforçadas e as rejeições rigorosamente aplicadas.”
Jordan
Bardella, líder da extrema-direita francesa e presidente do grupo Patriotas
pela Europa no Parlamento Europeu (PE), enviou carta à presidente, Roberta
Metsola, a pedir “um debate urgente sobre a evolução da situação em Ceuta e
sobre o fracasso das políticas migratórias da UE”.
Para
os políticos de esquerda, na Espanha e no estrangeiro, são ataques
oportunistas. A crise em Ceuta limitou‑se a dar aos críticos pretexto para
apontarem o dedo aos migrantes e apresentá‑los como ameaça. “Na Europa têm
prevalecido as visões da direita que retratam os migrantes como uma ameaça”,
afirmou o eurodeputado espanhol dos Socialistas e Democratas (S&D) Juan
Fernando López Aguilar, antigo ministro da Justiça no governo de Zapatero.
“A
posição de Itália é indigna de um parceiro europeu. […] Quando a migração é
utilizada como arma, a Europa responde com solidariedade, não com egoísmo.
Depois de mais de 700 mil chegadas, a partir da Líbia, a Itália recebeu apoio
europeu, não lições. A solidariedade não é uma rua de sentido único”, escreveu,
no X, o eurodeputado espanhol do S&D Javi López.
“Isto
é propaganda da direita no seu pior”, afirmou a eurodeputada italiana do
S&D Cecilia Strada, sustentando que, “perante uma emergência humanitária
com dezenas de mortos e [com] um número desconhecido de desaparecidos, seria de
esperar solidariedade europeia, e não ataques instrumentalizados com vista ao
lucro político.”
Outros
países optaram por não pedirem a suspensão da Espanha da zona de livre
circulação da UE. A França reforçou os controlos fronteiriços com Espanha, mas
recorda que Ceuta tem estatuto particular. “Ceuta não beneficia da livre
circulação para o resto do espaço Schengen”, afirmou o presidente francês,
Emmanuel Macron, mas lembrando que pediu ao ministro do Interior o reforço do
controlo na fronteira com Espanha, “se tal se revelar necessário”, e que “foram
mobilizadas quatro unidades móveis de polícia, bem como aviões e drones”.
Fonte
diplomática francesa relevou que “a França acompanha, de perto, a situação em
Ceuta [...] e continuará a coordenar‑se com todos os seus parceiros europeus,
em primeiro lugar, com a Espanha, a quem expressa o seu apoio”.
O
chanceler alemão, Friedrich Merz, reagiu à crise, pedindo a aplicação, “sem
demora”, do Regulamento de Retorno da UE. “Proteger as fronteiras externas da
UE é crucial para combater a migração ilegal”, escreveu o chanceler alemão, no X,
declarando apoio à intenção de a Espanha não permitir a entrada de migrantes
irregulares no continente europeu”.
Mais
de 20 estados-membros da UE pedem reunião para analisar a crise migratória, em
Ceuta, e definir resposta coordenada, diz a agência EFE, segundo a qual a
Itália, a Alemanha e a Dinamarca são os promotores da iniciativa. E, de acordo
com o site do Politico, também assinaram a carta os líderes
da Áustria, da Bélgica, da Bulgária, da Croácia, de Chipre, da Chéquia, da
Estónia, da Finlândia, da Grécia, da Hungria, da Letónia, da Lituânia, de
Malta, dos Países Baixos, da Polónia, da Roménia, da Eslováquia, da Eslovénia e
da Suécia.
O
governo português reafirmou, sem pedir que a Espanha seja, temporariamente,
afastada do espaço Schengen, que “a integridade do sistema Schengen depende de
um controlo rigoroso das fronteiras e de uma luta determinada contra todas as
formas de imigração ilegal”.
O
ministro neerlandês dos Negócios Estrangeiros reagiu, envolvendo Marrocos, ao
afirmar: “Contamos com a Espanha, para fazer o necessário para proteger as
fronteiras externas da UE, e com Marrocos, para tomar, igualmente, as medidas
necessárias.”
A
presidente da Comissão Europeia classificou as cenas em Ceuta como
“inaceitáveis” e indicou que o seu executivo está em contacto com Espanha e com
Marrocos. E um responsável europeu afirmou que a UE compreende que “alguns
governos estejam preocupados”, mas sublinhou que a prioridade é “garantir a
segurança das nossas fronteiras externas”, rejeitando o apelo da Itália a
suspender a Espanha da zona de livre circulação Schengen.
Bruxelas
salientou que a atual crise diz respeito ao enclave de Ceuta, situado no
continente africano, e que são necessários controlos adicionais para a entrada
no continente europeu, onde, até agora, não foi detetado qualquer movimento. “Não
se trata de estarem a chegar à Espanha e, a seguir, à França”, frisou o
responsável, sob anonimato, para poder falar livremente.
O
Presidente da República de Portugal afirmou, a 31 de julho, que a situação dos
migrantes “está controlada”, não havendo “necessidade de outro tipo de
decisões”, relativamente à crise, como aumentar o controlo de fronteiras ou,
muito menos, suspender o acordo de Schengen. Tal “traria consequências
negativas para a economia, [para] a vida das pessoas. Há muitas trocas
comerciais entre Portugal e Espanha”, disse o chefe de Estado.
“Precisamos
de regular a imigração, este deve ser um momento de união na Europa”,
considerou António José Seguro, em declarações aos jornalistas, defendendo que “a
defesa das nossas fronteiras não é incompatível com a dignidade humana”. No
entanto, considerou que “precisamos de mão forte no combate à imigração ilegal”.
***
O
primeiro-ministro espanhol enviou carta, datada de 1 de agosto, à presidente da
Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e ao presidente do Conselho Europeu,
António Costa, na qual expõe o seu mal-estar com a forma como alguns governos
responderam à crise migratória vivida em Ceuta, nos últimos dias. O texto, que
surge, após o chefe do governo espanhol ter qualificado como “ataque” e como
“violação da integridade territorial” a entrada irregular de milhares de
pessoas provenientes de Marrocos, defende que a reação dos parceiros
comunitários é “bastante desigual”. Enquanto a maioria apoia e oferece
ajuda, outros criticam a Espanha e propõem a sua exclusão temporária do
espaço Schengen.
Pedro
Sánchez, não citando nomes, atribui tais posições a desconhecimento, a preconceitos,
a boatos ou a cálculo político e considera-as egoístas, polarizadoras e
contrárias à legalidade europeia. Recorda, com base em dados da Frontex, que a
fronteira externa espanhola é das menos permeáveis da UE, com um número de
entradas irregulares equivalente a metade do registado em Itália, entre
2021 e 2026. E rebatendo a ideia de que Ceuta representa falha do sistema
fronteiriço espanhol, questiona a coerência de quem pede sanções para
Espanha.
O
presidente do governo de Espanha defende a atuação do executivo, durante a
emergência, pois, em menos de 48 horas, foi possível restabelecer o controlo
fronteiriço, prestar assistência humanitária às pessoas que atravessaram e
proceder à devolução de, praticamente, todos os que entraram de forma
irregular. E tudo se fez em coordenação com as autoridades
marroquinas e com pouco apoio de outros países europeus, no quadro da
política migratória que permitiu à Espanha reduzir, significativamente, as
chegadas irregulares, nos últimos anos.
O
texto sustenta que tal política permitiu colaborar com parceiros da UE, quando
passaram por situações similares, como sucedeu com a crise fronteiriça entre a
Bielorrússia e vários países da Europa de Leste, em 2021, e com a chegada
massiva de migrantes a Lampedusa, em 2023. Aliás, para Sanches,
a responsabilidade pelo ocorrido é de “máfias” organizadas.
Sanchez
pede ao Conselho Europeu a convocação, quanto antes, de videoconferência
com os ministros do Interior dos estados-membros da UE, para definir a resposta
comum a episódios deste tipo e para deixar claro que a vigilância das
fronteiras externas é responsabilidade partilhada por todos os países da União,
e não apenas pelos que estão na primeira linha. E conclui, apelando à liderança
de Ursula von der Leyen para que a UE reaja, rápida, eficaz e coordenadamente,
ao que aconteceu em Ceuta.
***
O
maior movimento de migrantes, em tão pouco tempo, de Marrocos para Ceuta, levou
a ajustes de contas políticos. O embaixador de Israel na Organização das Nações
Unidas (ONU) devolveu as críticas da Espanha sobre Gaza: “Talvez antes de nos
dar lições, seja altura de explicar ao Mundo por que ainda mantém enclaves
coloniais em África.”
A
Espanha não tem colónias em África. Já Marrocos, de onde provém o influxo de 50
mil a 70 mil pessoas, tem. Afirma-o, na expressão “território não autónomo”, a
ONU, para o Saara Ocidental, desde 1963 (então e até 1975, administrado pela
Espanha; e, após Madrid o ter deixado, Marrocos e a Mauritânia iam dividi-lo,
mas houve forte oposição.
Ceuta
manteve-se sob administração portuguesa, no tempo dos Filipes, mas, na
restauração de 1640, não reconhecendo D. João IV, ficou sob domínio espanhol. Agora,
pode ter iniciativa legislativa, solicitando ao governo de Espanha a adoção de
um projeto de lei ou enviando proposta de lei às Cortes espanholas, mas não
pode legislar.
***
Enfim,
a política não vale tudo: Israel não tem relação pacífica em Gaza, e os países
da Europa do Sul, muito menos, a Itália, não têm moral para censurarem esta
crise. E, por que há, ainda, países colonizantes?
2026.08.01
– Louro de Carvalho
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