O
comissário europeu para a Migração, Magnus Brunner, afirmou que a reunião informal
extraordinária, por videoconferência, dos ministros do Interior da União Europeia
(UE), a 4 de agosto, sobre a situação em Ceuta, teve por objetivo atenuar as
tensões com a Espanha, após as políticas migratórias do executivo do primeiro-ministro
espanhol, Pedro Sánchez, terem enfrentado contestação, em toda a Europa.
O
comunicado de imprensa divulgado pela presidência irlandesa do Conselho da UE, não
critica as leis que governam a imigração, na Espanha, ao invés do que aconteceu,
numa carta, com 22 países a fazerem conexão direta entre a legalização de
milhares de pessoas, na Espanha, e a entrada destas 70 mil pessoas. Assim, Magnus
Brunner, classificando o episódio como um teste à “resiliência europeia”, afirmou
que a UE manifesta “total solidariedade” à Espanha, após a crise migratória em
Ceuta, simultaneamente, um exclave, do ponto de vista político e geográfico do
Estado espanhol, e um enclave, em relação ao território de Marrocos.
O
comissário falou aos jornalistas, após a reunião dos ministros do Interior dos
27 estados-membros, que analisou as consequências da crise que levou cerca
de 70 mil cidadãos de países terceiros a entrarem no enclave espanhol de
Ceuta, a partir de Marrocos, em menos de 24 horas.
A
reunião procurou aliviar as tensões com a Espanha, na sequência da reação, em
toda a Europa, contra as políticas migratórias do governo espanhol. “Os últimos
dias foram um teste à nossa resiliência europeia, um teste à segurança das
nossas fronteiras externas, e mostraram, claramente, que há atores que não têm
qualquer consideração pela segurança, ou mesmo pela vida, de pessoas
inocentes”, afirmou Magnus Brunner, vincando: “A Europa, creio, passou,
claramente, este teste. As pessoas não chegaram a entrar no espaço Schengen e a
segurança na fronteira foi restabelecida rapidamente. O essencial agora é a
União Europeia agir.”
Os
ministros do Interior discutiram medidas, para evitar que a crise se repita, e apontaram
para o “entendimento comum”, quanto à necessidade de atuar em várias frentes. Segundo
o comunicado, as medidas incluem o combate às redes de tráfico de migrantes, o
reforço dos retornos, o reforço das fronteiras externas da UE, o aprofundamento
de parcerias com países terceiros, o reforço da antecipação e o desenvolvimento
de sistemas de alerta precoce, como capacidades de informação pré-fronteiriça e
monitorização das redes sociais.
O
ministro espanhol do Interior, Fernando Grande-Marlaska, saudou as
discussões, afirmando que a UE “reconheceu” o trabalho realizado pela Espanha, já
que o país “está a levar a cabo uma política significativa de combate à
imigração irregular, no quadro da UE”. “Foi uma reunião necessária para alinhar
abordagens atuais e futuras. O resultado foi satisfatório e serviu para
reconhecer os esforços da Espanha”, declarou.
Portugal
esteve representado pelo ministro da Administração Interna, Luís Neves,
que refere, em nota enviada à comunicação social, que a UE deve responder com
unidade, com firmeza e com responsabilidade, à crise migratória em Ceuta, pois “o
episódio constitui uma rutura na tendência recente de redução das entradas
irregulares na Europa”. Portugal manifestou solidariedade com a Espanha e com as
suas autoridades, lamentando a perda de vidas humanas e classificando o
sucedido como extremamente grave, do ângulo humanitário e da proteção da
fronteira externa da União. O ministro saudou a resposta operacional espanhola,
a cooperação com Marrocos e o regresso voluntário da maioria dos migrantes,
defendendo o rápido retorno dos que não reúnem condições legais de permanência,
nos termos do direito europeu e internacional.
Luís
Neves deixou uma crítica indireta aos governos, como o da Itália, que suspenderam
o acordo de Schengen com a Espanha, dizendo que “Portugal apoiou, plenamente, a
realização da reunião e considerou que nunca esteve em causa a integridade do
Espaço Schengen”, devido à “localização geográfica de Ceuta” ou ao “estatuto
especial daquele território, que determina controlos especiais nas deslocações
para o território continental europeu”.
Porém,
realçou que as políticas migratórias tomadas, individualmente, pelos estados-membros
podem incentivar episódios como este, visto que “as políticas nacionais de
imigração produzem efeitos além das fronteiras de cada estado-membro” e que “medidas
unilaterais podem gerar expectativas e fatores de atração que contribuem para
este tipo de fenómenos”. E Luís Neves, na reunião, apelando à articulação entre
os estados-membros, disse que “a solidariedade europeia deve caminhar lado a
lado com a responsabilidade nacional”.
Finalmente,
o governante português frisou que o episódio mostra a importância da
implementação do Pacto sobre Asilo e Migração e do Regulamento europeu relativo
ao Retorno, apelou ao “reforço da cooperação com os países de origem e de
trânsito” e disse que Portugal reforçou a vigilância da costa algarvia e está
disponível para adotar medidas adicionais.
Em
linha com os reparos de Luís Neves, na reunião, um diplomata da UE disse que grande
número de estados-membros quis discutir “medidas políticas” e “incentivos” que
terão contribuído para a maior passagem irregular de fronteira alguma vez
registada na Europa, em período tão curto. Entre esses fatores, esteve a
decisão tomada, em janeiro, de regularizar cerca de meio milhão de migrantes
em situação irregular, concedendo-lhes autorização de residência e de trabalho
(sabe que precisa deles), enquanto a abordagem seguida por outros países
europeus vai no sentido oposto, concentrando esforços em limitar o acesso ao
asilo, reforçar os controlos nas fronteiras da UE e aumentar os retornos.
A
reação contra a Espanha começou em resposta às chegadas em massa a Ceuta, com
Itália a ordenar a suspensão temporária da livre circulação, no espaço Schengen,
com a Espanha. Um dia depois, 22 governos da UE enviaram uma carta às
instituições europeias a criticar as políticas migratórias espanholas. E os
Estados Unidos da América (EUA) também intervieram, criticando a Espanha e
adensando as tensões entre Pedro Sánchez e Donald Trump.
Os
ministros do Interior da UE reconheceram que, tal como em muitos outros países
europeus, a Itália caminha para eleições legislativas, o que influenciou o tom da
primeira-ministra, Giorgia Meloni, ao comentar os acontecimentos em Ceuta.
***
A
crise migratória em Ceuta resultou, no primeiro fim de semana de
agosto, numa manifestação na Praça dos Reis, no enclave espanhol, no Norte
de África, onde centenas de moradores reivindicaram um maior controlo da
fronteira, após a chegada, em massa, de migrantes oriundos de Marrocos. Porém, a
presença de figuras da extrema-direita gerou tensão e deu azo a forte
dispositivo policial.
A
concentração teve lugar num clima de crescente tensão política e social, depois
de vários dias de pressão migratória, sem precedentes, sobre a cidade autónoma.
O protesto, convocado através das redes sociais, ficou marcado por
palavras de ordem, em defesa da cidade, e por críticas ao governo de
Madrid, pela gestão da situação. A mobilização degenerou em momentos de tensão,
com a chegada do ativista de extrema-direita Vito Quiles, líder do partido “Se
Acabó La Fiesta” (SALF), Alvise Pérez, e de membros de grupos de
extrema-direita, como o Núcleo Nacional – cuja presença foi recebida com
críticas, da parte de alguns participantes no protesto e dos participantes numa
contramanifestação convocada em paralelo, que os acusaram de tentarem
aproveitar, politicamente, a crise e de aumentarem a confrontação.
Cidadãos
de Ceuta (muitos de origem marroquina) organizaram uma contramanifestação, na
mesma praça, a defenderem a convivência e a recusarem mensagens xenófobas.
Durante vários minutos, os dois grupos trocaram cânticos e acusações, sem incidentes
graves.
Ante
os momentos de tensão, a Polícia Nacional montou amplo dispositivo de
segurança. Alvise Pérez e vários membros do Núcleo Nacional foram
escoltados até ao porto, enquanto Vito Quiles abandonou a concentração, sob
vaias de parte dos presentes. A praça manteve-se isolada, enquanto os
agentes mantinham os dois grupos separados. Apesar dos momentos de
crispação, o protesto e a contramanifestação dissolveram-se, gradualmente, sem necessidade
de intervenção policial de maior envergadura.
A
situação na fronteira entre Ceuta e Marrocos está muito mais calma do que nos
últimos dias. Segundo as autoridades espanholas, a maioria das cerca de 60 mil
pessoas que atravessaram, ilegalmente, esta fronteira, a 30 de julho, já
regressou. Todavia, continua a haver um fluxo esporádico, mas constante, de
pessoas que regressam. A maioria dos que regressam diz que entrou na Espanha,
após receber mensagens, nas redes sociais, que garantiam que a fronteira estava
aberta e que não era necessária qualquer documentação.
Entretanto,
na cidade, o medo deu lugar à indignação. As pessoas não compreendem como esta
situação pôde acontecer. O ambiente social é tenso e alimenta o debate
político. Fica no ar a sensação de que as pessoas estão muito zangadas. Querem
explicações. São 85 mil e entraram 60 mil. Não conseguiam comprar pão. Não
havia nada. Estava tudo fechado.
Alguns
cidadãos são relutantes em atribuir culpas, mas outros são mais diretos. Frisando
a dificuldade jurídica inicial de repatriar, de imediato, os migrantes, porque
chegaram por via marítima, chamavam o primeiro-ministro, Pedro Sánchez de
“cúmplice”, o qual, aliás foi apupado, aquando da sua visita à cidade, em plena
crise. E alguns habitantes de Ceuta referem, de facto, um dever humanitário associado
à crise. “Se há crianças lá, é preciso dar-lhes algo para beber, é preciso
dar-lhes algo para comer. É senso comum, mas, agora, toda a Ceuta, toda a
Espanha – e a Espanha está do vosso lado – está convosco”, diziam.
Não
obstante, condenam a situação, no seu conjunto: “Isto é um estado de emergência
e uma declaração da lei marcial. Só para ir às compras ao Mercadona, temos de
passar por um soldado, a cada 10 metros, afastar-nos dele, 10 a 20 metros, e
alimentar as tropas e a polícia. Isso é um estado de sítio e é uma emergência
nacional. Não há dúvida nenhuma”, clamam.
Santiago
Abascal, o líder do Vox (da extrema direita), em visita à cidade, acusou o
governo de estar ao serviço de Marrocos. Em declarações à imprensa, atribuiu a
responsabilidade pelo que aconteceu ao governo de Rabat e, acima de tudo, a
Pedro Sánchez. Argumentou que Marrocos agiu na convicção de que não haveria
resposta, nem represálias, porque o primeiro-ministro da Espanha é, nas suas
palavras, “subserviente ao país africano”.
Uma
mulher segurava, na manifestação, um cartaz onde se lia: “Mohamed VI, tira as
tuas mãos sujas da Espanha.” Era uma frase contra o monarca marroquino, que
muitos manifestantes acreditam estar a usar a imigração para pressionar o governo
espanhol.
***
Após
as críticas de Pedro Sánchez ao “egoísmo” e à “falta de solidariedade”, ante
a situação em Ceuta, o comunicado que saiu da reunião dos ministros do Interior
da União UE marca outro tom. Os estados-membros assumiram “forte
solidariedade” com a Espanha e acordaram reforçar “as fronteiras da UE”, o que
será conseguido, “através de um maior desenvolvimento dos sistemas de
alerta precoce, e a monitorização das redes sociais”.
Os
ministros trocaram pontos de vista sobre a proteção das fronteiras externas do
bloco e houve consenso, quanto à necessidade de combater, sem tréguas, as redes
de auxílio à imigração ilegal, de reforçar os mecanismos de regresso, de fortalecer
as fronteiras da UE, de desenvolver parcerias sólidas com países terceiros e de
melhorar a capacidade de antecipação.
A
reação de vários estados-membros à entrada de mais de 60 mil pessoas em Ceuta,
uma das duas fronteiras terrestres de território europeu com a África, sendo a
outra o também espanhol enclave de Melilla, focou a crítica à
regularização da situação migratória de cerca de um milhão de pessoas (o
número de pessoas que deu entrada no processo, ainda curso), decidida pelo governo
de Sanchéz, devido ao possível efeito de atração de migrantes, que poderiam ter
ficado com a ideia de que teriam via aberta para nova vida num país europeu. Todavia,
isso não consta no comunicado que saiu da reunião, de pouco mais de três horas.
Defendendo-se
de acusações anteriores, em conferência de imprensa subsequente à reunião,
o ministro do Interior espanhol frisou que a Espanha precisa de “pessoas de
fora” que ajudem o país a “continuar a crescer”, mas a Espanha não se abstém de
“lutar contra a imigração irregular e contra todos os que traficam seres
humanos”.
Fernando
Grande-Marlaska classificou o encontro como “absolutamente construtivo” e
garantiu que ficou “reconhecida a resposta eficaz e imediata das autoridades
espanholas” a esta crise e que, “de forma alguma, o espaço Schengen ficou
comprometido”, até porque, “Ceuta tem um regime especial, desde 1991, no
sentido de que ninguém pode sair, sem um controlo documental efetivo,
inclusivamente, os próprios cidadãos da UE”.
A
primeira-ministra italiana anunciou a suspensão da livre circulação com a Espanha,
no seguimento destas estradas descontroladas, e Grande-Marlaska parece ter
querido mostrar que não havia razão para tal, pois os que esperam resposta à
situação em Ceuta não estão autorizados a sair do território em
direção ao continente europeu. Antes, podem regressar a Marrocos e cerca de 70
mil das 72 mil pessoas que entraram em Ceuta já terão regressado.
Apesar
das suspeitas sobre o papel das autoridades marroquinas na facilitação da
entrada daquelas pessoas em Ceuta, Marlaska insistiu em que a colaboração entre
os dois reinos tem de existir. “Ambos trabalharam, de modo firme, para evitar
qualquer tragédia humana, qualquer violação das fronteiras espanholas e, neste
caso, da União Europeia”, afirmou.
A
Espanha decidiu, em abril, abrir um processo de regularização de mais de 500 mil
pessoas, mas o número de pessoas que entregou papéis para conseguir estatuto
legal chegou ao milhão. E, no início de julho, uma decisão do Supremo Tribunal
espanhol definiu que não se pode aplicar a “recusa na fronteira” ou a “devolução
rápida” a migrantes intercetados no mar, quando tentam entrar, a nado, em Ceuta
em Melilla.
A
2 de agosto, o governo de Marrocos afirmou ter alertado a Espanha, dias antes
da crise, para os impactos da decisão judicial, considerando que enfraquecia um
elemento crucial na cooperação bilateral, mas a sentença que impede algumas
deportações sumárias é de 2024, pelo que é pouco provável que, sem uma campanha
de desinformação significativa, tenha sido esse o fator a desencadear número
tão inusitado de entradas.
Entre
as medidas a aplicar, no imediato em Ceuta, o governo disponibilizará a verba
extraordinária de 25 milhões de euros, para criar condições de acolhimento dos
menores não acompanhados – verba a somar aos 5,5 milhões distribuídos na
conferência setorial da Infância, em julho, na qual foram repartidos 35 milhões
pelo conjunto das comunidades autónomas.
***
A
UE não tem autoridade, nem motivos, para criticar a Espanha, que tem uma
política migratória equilibrada (a Itália tem o escândalo de Lampedusa). Já
Portugal, da política de facilitismo, passou à política restritiva, desumana e
de resultados económicos nefastos.
2024.08.04
– Louro de Carvalho
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