domingo, 2 de agosto de 2026

Crise migratória em Ceuta está a ter consequências desproporcionadas

 

No dia 1 de agosto, segundo as autoridades espanholas, quase todos os cerca de 60 mil migrantes que entraram no exclave espanhol de Ceuta tinham regressado a Marrocos. “A situação está quase totalmente invertida”, declarou aos jornalistas o ministro do Interior de Espanha, Fernando Grande-Marlaska.

Sob a vigilância de militares e de policiais espanhóis, os jovens migrantes continuavam, na manhã daquele dia, a atravessar de volta a fronteira para Marrocos. Para entrarem em Ceuta, muitos tinham contornado, a nado, a pequena barreira fronteiriça que se estende para o Mediterrâneo. De acordo com o ministro do Interior de Espanha, pelo menos, 72 pessoas (o número subiu para 88) morreram na tentativa, entre as quais algumas se afogaram e outras perderam a vida em debandada para atravessarem uma barreira de quebra-mar.

Um pequeno grupo de migrantes exaustos que chegou, a nado, à praia urbana do Tarajal, em Ceuta, na manhã do dia 1, foi intercetado por militares que os acompanharam de volta, através da fronteira. “Os acontecimentos exigem uma avaliação, por parte de Espanha e de Marrocos. […] Mas foi a cooperação com os seus vizinhos que permitiu à Espanha “reverter a situação, em 24 horas”, observou Grande-Marlaska, sustentando que “Marrocos não é uma ameaça para Ceuta, nem para o resto de Espanha, mas um parceiro fiável”, e anunciou a instalação de uma barreira de contenção de 500 metros, na fronteira marítima entre Ceuta e Marrocos.

Ceuta, um território de 18,5 quilómetros quadrados, e o exclave vizinho de Melilha constituem as únicas fronteiras terrestres da Europa com a África. Ceuta fica a cerca de 25 quilómetros da costa da Espanha continental. Não é claro o que desencadeou este afluxo, mas, dias antes de começar, as redes sociais estavam cheias de publicações a encorajar marroquinos a tentarem entrar em Ceuta, segundo Myriam Cherti, investigadora sénior no Centro sobre Migração, Política e Sociedade da Universidade de Oxford.

As mensagens informavam sobre como atravessar a fronteira e o que os migrantes deveriam dizer para aumentarem a probabilidade de ficarem. E Myriam Cherti contou que alguns dos que entrevistou, no último ano, já perderam a conta às vezes que tentaram atravessar a fronteira. Fazem-no por desespero, porque já tentaram outras formas de construírem a vida e fracassaram e porque sentem a obrigação de ajudar as famílias e de as sustentar. “E isso é possível, se conseguirem chegar à Espanha, e não necessariamente possível, se ficarem em Marrocos”, frisou Myriam Cherti.

Um dos candidatos (de 42 anos) à travessia que ganha 10 euros, por dia, a trabalhar, em turnos de 12 horas, como segurança, disse que o motivava a possibilidade de visitar a mãe, doente, a viver em Madrid. Mesmo não havendo comida, nada de nada, aguenta, para ver a mãe. Dos restantes que tentam a travessia, afirmou: “Toda a gente quer subir na vida, quer um bom futuro, algo que não existe em Marrocos.”

Outras vagas de migração já ocorreram em períodos de tensão entre a Espanha e Marrocos, incluindo em 2021, quando mais de 10 mil migrantes entraram em Ceuta, em dois dias.

***

O rei Felipe VI manifestou indignação com a chegada de dezenas de milhares de cidadãos marroquinos a Ceuta, a nado, nos últimos dias. A mensagem da Casa Real foi divulgada na imprensa que sublinhou que o rei exprimiu a sua “grande preocupação e indignação”.

Poucas horas depois de o governo ter dado o incidente por resolvido, com o envio de mais de 50 mil pessoas de nacionalidade marroquina para o seu país, o monarca emitiu um comunicado acerca dos “graves acontecimentos”, vincando que o Estado deve garantir a segurança das cidades com estatuto autónomo e impedir que se repitam incidentes como este.

Apesar de se encontrar em Palma (onde a sede do chefe de Estado está, agora, estabelecida), o rei esteve em contacto com os presidentes dos executivos dos territórios autónomos, com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e com o líder da oposição, Alberto Núñez Feijóo. A todos transmitiu “palavras de encorajamento e força”, segundo o jornal El País.

A partir de Palma, o chefe de Estado espanhol, que acompanha a situação, com a sua equipa, acredita ser “necessário adotar todas as medidas que transmitam, de forma unida, clara e decisiva às populações de Ceuta e de Melilla, o apoio e o carinho do resto da Espanha”.

De acordo com o jornal El Mundo, Felipe VI nunca, durante o seu reinado, visitou os enclaves espanhóis de Ceuta e de Melilla, à semelhança do pai, o rei Juan Carlos, que só as visitou após sua abdicação. E não terá contactado o rei Mohammed VI, de Marrocos, em nenhum momento, no curso desta controvérsia diplomática.

Os dados mais recentes do Ministério do Interior dão conta de mais de oito dezenas mortes de migrantes (88), em consequência da entrada em massa. E mais de 50 mil das quase 60 mil pessoas que chegaram de Marrocos já regressaram ao país africano.

Os ministros do Interior da União Europeia (UE) reunir-se-ão, por videoconferência, a 5 de agosto, para abordarem a crise migratória. Entretanto, as autoridades espanholas estão a pôr barreiras de contenção no quebra-mar de Tarajal, e as forças de segurança marroquinas bloquearam os recentes grupos que tentavam chegar a Ceuta provindos de Castillejos.

***

A crise migratória em Ceuta desencadeou um caso político entre a Itália e a Espanha. Após a notícia da chegada de milhares de migrantes ao exclave espanhol, o governo de Giorgia Meloni anunciou o reforço dos controlos fronteiriços para chegadas, por mar e por via aérea, provenientes da Espanha. Para tanto, restabeleceu os controlos para cidadãos que chegam de Espanha, após o início da crise em Ceuta. E vários meios de comunicação falaram, a 31 de julho, de suspensão do Acordo de Schengen, por parte de Roma, em relação à Espanha, porque, em mensagem, no X, Giorgia Meloni escreveu que “o governo decidiu suspender, temporariamente, o regime de livre circulação previsto por Schengen, nas ligações marítimas e aéreas com a Espanha, reintroduzindo os controlos de fronteira”.

O Acordo de Schengen prevê o restabelecimento de controlos, em caso de ameaça grave para a ordem pública ou para a segurança interna, mecanismo que a Itália aplica, há mais de um ano, na fronteira com a Eslovénia, para cidadãos provenientes de países terceiros, o que o ministro do Interior, Matteo Piantedosi, considera “importante, mas de natureza cautelar”.

A Itália reintroduziu controlos de fronteira com a Espanha, em derrogação das regras de Schengen, já que nenhum país pode, unilateralmente, excluir outro da área de livre circulação. Porém, Matteo Piantedosi disse que se trata do restabelecimento, por um mês, dos controlos nas fronteiras marítimas e aéreas com a Espanha e que é ação “especialmente dirigida a verificar a regularidade da circulação de cidadãos de países terceiros na área Schengen”.

Desde a manhã do dia 1, a polícia aeroportuária realizou controlos aleatórios nos aeroportos de Roma Fiumicino, de Milão Malpensa e de Milão Linate. Aos cidadãos da UE bastou apresentar o documento de identificação, enquanto os de países terceiros tiveram de apresentar, além de um documento de identificação, a autorização de residência ou visto válido. Já para os cidadãos que partem da Itália para a Espanha, nada muda e são livres de entrar no país.

Esta decisão provocou fortes reações das autoridades espanholas. O chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, enviou carta ao presidente do Conselho Europeu, António Costa, e à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, pedindo a intervenção de Bruxelas de apoio à Espanha e para voltar a alinhar os países da UE nas estratégias de contenção da crise migratória. Em paralelo, as primeiras-ministras italiana e a dinamarquesa (Mette Frederiksen) enviaram carta às autoridades europeias, coassinada por 22 líderes dos estados‑membros, a pedir uma reunião para discutirem medidas urgentes contra a imigração irregular.

Na tarde do dia 1, Ursula von der Leyen escreveu, nas redes sociais, que manteve conversações com os comissários Brunner e Šuica, para discutir a crise, em Ceuta, explicando que a maioria dos migrantes que chegaram, irregularmente, ao exclave já foi repatriada e que nenhum dos migrantes provindos de Marrocos chegou à Espanha continental, nem a outros países da UE. Por isso, reiterou a necessidade de reforçar a resiliência europeia e manifestou a disponibilidade para participar na videoconferência solicitada pelos líderes europeus, sob o presidente em exercício do Conselho da União Europeia, Micheál Martin, primeiro-ministro da Irlanda.

***

Entretanto, a partir da sua residência oficial, o chefe do governo de Espanha partilhou, no Instagram e no TikTok, uma lista de 31 músicas para o verão, numa altura em que Ceuta continua a gerir a chegada de dezenas de milhares de migrantes. Sentado num sofá branco, com o telemóvel na mão, gravou um vídeo, em que anuncia a playlist que abrange géneros muito diferentes, do pop ao urbano, passando pelo rock indie. Entre os temas que destaca, pessoalmente, estão “El Baifo”, de Quevedo, um dos singles mais escutados do último trabalho do artista canário; “Spring Summer 26”, da britânica Charli XCX; e “Tantas Cosas”, da espanhola Melani.

A publicação gerou críticas, incluindo as de Dolors Montserrat, presidente Partido Popular Europeu (PPE), por surgir em altura delicada para Ceuta, pois, segundo o Ministério do Interior, dezenas de milhares de pessoas atravessaram a partir de Marrocos nos últimos dias, num dos maiores episódios de entrada irregular em território da UE.

O surto migratório ultrapassou a capacidade de acolhimento local, obrigou à deslocação de unidades do Exército, ao reforço da Guardia Civil e gerou tensões diplomáticas com parceiros europeus, como a Itália, que equacionou a suspensão de Schengen com a Espanha.

Horas antes da publicação do vídeo, Sánchez tinha visitado Ceuta (onde foi apupado) e classificado o que aconteceu como “um ataque à integridade de Espanha”, responsabilizando as redes de tráfico de pessoas, embora haja informação de avisos dos serviços de informação sobre este perigo. Contrasta o tom institucional dessa mensagem com o registo leve do vídeo musical, um dos aspetos mais destacados nas reações posteriores.

Os críticos da publicação questionaram a oportunidade do momento escolhido. A presidente do PPE foi muito dura nas suas declarações, garantindo sentir “vergonha como espanhola” por um presidente [Sánchez] que dedica tempo a recomendações musicais “na pior crise migratória da história”. Dolores Montserrat qualificou a atitude do chefe do executivo de “insensibilidade” e de “decadência moral”.

Não é inédito este tipo de conteúdo na estratégia de comunicação de Moncloa. Em ocasiões anteriores, coincidindo com momentos de tensão social ou de desgaste parlamentar, a conta oficial de Sánchez recorreu a publicações informais, comentando livros, séries ou tendências do TikTok, para projetar uma imagem próxima e para desviar a atenção da atualidade política mais complexa. Porém, não se sabe se a publicação resultou de infeliz coincidência na programação de conteúdos, nas redes sociais, ou se integra a estratégia de alimento da crispação. Porém, analistas de comunicação política assinalam que o padrão responde a uma estratégia deliberada de ligação a públicos jovens, embora o momento escolhido costume gerar polémica, o que se pode verificar nos comentários à publicação, tanto no Instagram como no TikTok.

***

Por cima desta crise migratória, a 2 de agosto, o presidente dos Estados Unidos da América (EUA) reafirmou a posição do seu país de apoio à soberania de Marrocos sobre o Saara Ocidental, classificando qualquer via alternativa para resolver o conflito, que se arrasta há décadas, como inaceitável. Ao mesmo tempo, sublinhou a necessidade de pôr fim imediato ao conflito e garantiu que o seu país continua a apoiar os esforços para esse objetivo.

Donald Trump enviou uma mensagem ao monarca marroquino, o rei Mohammed VI, em que reiterou a firme posição pública de Washington, quanto ao reconhecimento da soberania de Marrocos sobre o território e ao apoio à proposta marroquina de autonomia, considerando-a “séria, realista e única capaz de pôr termo ao conflito, de forma justa e duradoura”. E sublinhou que a manutenção do status quo sem solução é “inaceitável” e que a concretização desta solução permitirá “alcançar prosperidade e reforçar a integração entre os países do continente africano”.

O início da mudança no rumo das relações marroquino-americanas remonta a dezembro de 2020, quando Trump declarou reconhecer a soberania de Marrocos sobre o território do Saara Ocidental. Esse reconhecimento integrou um acordo pelo qual Rabat aceitou normalizar as relações com Israel, juntando-se ao grupo de países signatários dos Acordos de Abraão.

Além da dimensão diplomática, a Casa Branca destacou o papel de Marrocos no reforço da segurança regional, classificando o reino como parceiro na luta contra o terrorismo e na resposta aos desafios da segurança internacional, e anunciou o alargamento da cooperação operacional entre os dois países no Noroeste de África, garantindo que Washington e Rabat trabalharão, em conjunto, com vista ao reforço da segurança no Sahel.

Continua o dossiê do Saara Ocidental, rico em recursos naturais, como fosfatos e recursos piscatórios, a ser questão delicada na cena diplomática do Norte de África e uma das fontes do diferendo com a vizinha Argélia, que apoia a Frente Polisário, na independência da antiga colónia espanhola. Marrocos pretende uma solução assente na atribuição ao território de amplas competências de autonomia, sob a soberania de Rabat, mas a Frente Polisário insiste na realização de referendo em que a população local decida sobre o seu futuro.

O conflito remonta a 1975, quando Espanha pôs termo à ocupação do território, após mais de nove décadas de controlo (1884-1975). Com a retirada das forças de Madrid, intensificaram-se as tensões e evoluíram para o conflito armado entre Marrocos e a Frente Polisário, até ao acordo de cessar-fogo, em 1991, sob a égide das Organização das Nações Unidas (ONU).

Rabat encara o Saara Ocidental como parte integrante do seu território nacional, invocando laços históricos com a região, incluindo relações de vassalagem que ligavam os chefes tribais saarauís à dinastia alauíta. E a Argélia apoia a Frente Polisário, que proclamou a criação da “República Saarauí”, em 1976, e considera a questão ligada ao princípio da autodeterminação e ao fim do que descreve como uma etapa colonial.

Em 2025, coincidindo com o 50.º aniversário da Marcha Verde, com cerca de 350 mil civis marroquinos a participarem, em 1975, na marcha de Agadir rumo à parte Sul do território sob controlo espanhol, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução que julga a autonomia sob soberania marroquina “a base mais séria” para a solução do conflito. E o rei de Marrocos afirmou que o reino entrou numa “fase decisiva da sua História moderna”, acrescentando: “Chegou a hora de um Marrocos unido”.Parte inferior do formulário

***

A extrema-direita europeia empola a situação gerada pelas máfias e pelo aventureirismo; Sanchez alterna sentido de Estado com diletantismo comunicacional; a Itália não tem moral para uma atitude unilateral, face a este surto, que a Espanha resolveu; e Trump foi oportunista, de novo. Porém, urge resolver esta crise humanitária, ambiental, de segurança e colonial.

2026.08.02 – Louro de Carvalho


Sem comentários:

Enviar um comentário