A
liturgia do 22.º domingo do Tempo Comum, no Ano A, convida-nos a descobrir a
“loucura da cruz” e a assumi-la, mesmo que escandalize o Mundo. De facto, o
acesso à vida plena que Deus nos oferece passa pela rota do amor e pelo dom da
vida pelos irmãos, a cruz da vida.
***
Na
primeira leitura (Jr 20,7-9) Jeremias descreve a sua experiência de
“cruz”. Seduzido por Javé, pôs toda a sua vida ao serviço de Deus e do seu
desígnio. Nessa rota, enfrentou os poderosos e questionou a lógica do Mundo. Por
isso, conheceu a solidão, o sofrimento e a perseguição. É a experiência de
todos os que acolhem a Palavra de Javé no seu coração e vivem em coerência com
os valores de Deus.
Jeremias
nasceu em Anatot, a norte de Jerusalém, por volta de 650 a.C. Ainda novo, por
volta de 627/626 a.C., sentiu que Deus o chamava a ser profeta. O seu
ministério prolongou-se até depois da destruição de Jerusalém pelos babilónios
(586 a.C.), em geral, no reino de Judá e, sobretudo, na cidade de Jerusalém.
Era um tempo de instabilidade, de injustiça social gritante, de infidelidade
religiosa. Joaquim (609-597 a.C.) e Sedecias (597-586 a.C.) foram reis
incapazes de responder às exigências da conjuntura internacional e de manter a
política de neutralidade, face às grandes potências, sobretudo, o Egito e a
Babilónia. Jeremias, cônscio de que Judá estava a ser infiel a Deus, ao deixar
de confiar em Javé e ao colocar a sua segurança e a sua esperança nas mãos de
povos estrangeiros, censurou os líderes do Povo e anunciou uma invasão
estrangeira, destinada a castigar os pecados de Judá.
Porém,
a sua pregação não foi aceite pelo Povo, nem pelos líderes. Tido como “profeta
da desgraça”, Jeremias criou o vazio à sua volta e viu os amigos, os
familiares, os conhecidos voltarem-lhe as costas. Conheceu a solidão, o
abandono, a maledicência. E, acusado de traição e encarcerado, chegou a correr
perigo de vida. É, pois, o paradigma dos profetas que sofreram por causa da sua
missão.
De
natureza sensível e cordial, homem de paz, Jeremias não foi feito para o
confronto, para a violência de palavras ou de gestos, mas Javé chamou-o, para
“arrancar e destruir, para exterminar e demolir”, para predizer desgraças e para
anunciar destruição e morte. Em consequência, foi contínuo objeto de desprezo e
de irrisão e todos o maldiziam e se afastavam, mal abrisse a boca, o que o
fazia sofrer terrivelmente. Porém, verdadeiramente apaixonado pela Palavra de
Javé, sabia que não teria descanso, se não a proclamasse com fidelidade. Mas,
nos momentos mais negros de frustração, deixou que a amargura que lhe ia no
coração lhe subisse à boca e se transformasse em palavras. Dirigia-se a Deus e
censurava-O por causa dos problemas inerentes à missão.
No
Livro de Jeremias, são recorrentes as queixas e os lamentos do profeta, votado à
vida de aparente fracasso. Alguns desses textos são conhecidos como “confissões
de Jeremias”, em que o profeta expõe a Javé, com sinceridade rebelde, a sua
desilusão, amargura e frustração. O trecho em apreço, que faz parte de uma
dessas “confissões”, apresenta-nos desconcertante oração de Jeremias, num
momento dramático de desilusão e de desânimo, quando, preso pelos ministros de
Sedecias e atirado para uma cisterna, se afundava no lodo. Esta oração é uma
denúncia ou acusação do profeta a Deus, formulada através da imagem da sedução:
é como se Javé tivesse namorado o profeta até ao ponto de o seduzir (o verbo
“pth” surge em Ex 22,15, referido à sedução de uma jovem solteira). Deus
insinuou-Se na vida do profeta, pressionou-o e cativou-o; e o profeta, não tendo
sabido como resistir a Deus e aos seus jogos de sedução, entregou-se,
completamente, nas suas mãos e dedicou toda a vida ao seu serviço.
O
profeta não ganhou nada com essa entrega. O Deus que o seduziu para o serviço
profético, abandonou-o e deixou-o entregue aos insultos e às zombarias dos seus
adversários. O profeta está desiludido. Essa desilusão irrompe em resolução
firme de resistir à voz do sedutor: “Não voltarei a falar Nele, não falarei
mais em seu nome.” Todavia, o profeta não leva por diante esse intento. O amor
por Deus e pela sua Palavra está tão vivo no coração do profeta que é inútil
resistir: “Procurava contê-lo, mas não podia.” A Palavra de Deus é um fogo
devorador, que consome o coração do profeta e que não o deixa demitir-se da
missão e ater-se a uma vida cómoda. Resta-lhe, pois, continuar ao serviço da
Palavra, enfrentando o seu destino de solidão e de sofrimento, na esperança de,
ao longo da caminhada, reencontrar o amor do Deus que o seduzira e a que nunca
saberá renunciar.
***
No
Evangelho (Mt 16,21-27), Jesus avisa os discípulos de que o caminho da
vida não passa pelo triunfo e êxito humano, mas pelo amor e pelo dom da vida
(até à morte). Jesus percorrerá esse caminho e quem quiser ser seu discípulo
tem de trilhar caminho similar. O episódio em causa vem na sequência do da
confissão petrina e da entrega do poder das chaves a Pedro, como referência da
comunidade eclesial. Continuamos no âmbito da “instrução sobre o Reino”, mas
iniciamos uma secção onde se privilegia a catequese sobre esse destino de cruz
que aparece no horizonte próximo de Jesus (cf. Mt 16,21-17,27).
As
multidões ficaram mais para trás e os líderes já decidiram rejeitar Jesus. Quem
continua a acompanhar Jesus é o grupo dos discípulos. Acreditam que Jesus é o
“Messias, Filho de Deus” e querem partilhar o seu destino de glória e de
triunfo. Jesus, entretanto, explica-lhes que o seu messianismo não passa por
triunfos e êxitos humanos, mas pela cruz e avisa-os de que viver como discípulo
é seguir esse caminho da entrega e do dom da vida.
Mateus
escreve o Evangelho para comunidades cristãs do final do século I. São
comunidades instaladas, que esqueceram o fervor inicial e que se acomodaram num
cristianismo morno. Com a aproximação de tempos difíceis, os crentes devem recordar
que o caminho cristão não é fácil, no êxito e no aplauso, mas difícil, exigindo,
diariamente, a entrega e o dom da vida.
O
texto do episódio divide-se em duas partes. Na primeira, Jesus anuncia a paixão;
na segunda, faz uma instrução sobre o significado e as exigências de ser seu
discípulo.
A
primeira parte começa com o anúncio de Jesus de que o caminho para a
ressurreição passa pelo sofrimento e pela morte na cruz. Não é previsão vã:
depois do confronto de Jesus com os líderes judeus e depois de estes haverem rejeitado,
de forma absoluta, a pregação do Reino, é evidente que o judaísmo medita a
eliminação de Jesus. Jesus tem consciência disso, mas não se demite do projeto
do Pai e anuncia que pretende continuar a apresentá-lo, até ao fim. Pedro discorda
e opõe-se, decididamente, a que Jesus caminhe em direção ao seu destino de
cruz. A oposição de Pedro (e dos discípulos: Pedro é o porta-voz da comunidade)
significa que a compreensão do mistério de Jesus ainda é imperfeita. Para ele,
a missão do “Messias, Filho de Deus” é missão gloriosa e vencedora; e, na
lógica de Pedro – que é a lógica do Mundo (dos diabólicos interesses dos
homens) – a vitória não pode estar na cruz e no dom da vida (nos interesses de
Deus).
Jesus
dirige-Se a Pedro com dureza, pois é preciso que os discípulos corrijam a sua
perspetiva segundo a lógica de Jesus e do plano do Pai que Ele vem realizar. O
plano de Deus não passa por triunfos humanos, nem por esquemas de poder e de
domínio, mas pelo dom da vida e pelo amor até às últimas consequências, de que a
expressão mais radical é a cruz. Ao pedir a Jesus que não embarque no desígnio
do Pai, Pedro repete as tentações que Jesus experimentou no início do seu
ministério. Por isso, Mateus põe na boca de Jesus a resposta que, então, Ele
deu ao diabo: “Retira-te, Satanás”. As palavras de Pedro – como as do diabo –
pretendem desviar Jesus do cumprimento do plano do Pai; e Jesus não está
disposto a transigir com qualquer proposta que O impeça de concretizar, com
amor e fidelidade, o desígnio de Deus.
Na
segunda parte, Jesus faz a instrução sobre as atitudes próprias do discípulo.
Quem quiser ser discípulo de Jesus, tem de “renunciar a si mesmo”, “tomar a
cruz” e seguir Jesus no seu caminho de amor, de entrega e de dom da vida. Renunciar
a si mesmo significa renunciar ao egoísmo e à autossuficiência, para fazer da
vida um dom a Deus e aos outros. O cristão não pode viver fechado em si
próprio, preocupado em concretizar os seus sonhos pessoais, os seus projetos de
riqueza, de segurança, de bem-estar, de domínio, de êxito, de triunfo. Deve,
antes, fazer da vida generoso dom a Deus e aos irmãos. Só assim pode integrar a
comunidade do Reino. Tomar a sua cruz e seguir Jesus significa assumir a oferta
da vida por amor, pois a cruz é a expressão do amor total, radical, que se dá
até à morte. Assim, “tomar a cruz” é ser capaz de gastar a vida – de forma
total e completa – por amor a Deus e para os irmãos serem mais felizes.
No
final desta instrução, Jesus explica aos discípulos as razões pelas quais devem
abraçar a lógica da cruz. Jesus convida-os a entender que dar a vida por amor
não é perdê-la, mas ganhá-la. Quem dá a vida a Deus e aos irmãos não fracassa,
mas ganha a vida eterna, a vida que Deus oferece a quem vive de acordo com as
suas propostas. Os discípulos são convidados a perceber que a vida deste Mundo
não é a vida definitiva. Não devem, pois, preocupar-se em preservá-la a
qualquer custo: devem procurar encontrar, já na Terra, a vida definitiva, que
passa pelo amor total e pelo dom a Deus e aos outros. É esta a meta que todos
devem tentar alcançar. E os discípulos devem pensar no seu encontro final com
Deus, em que Deus lhes dará a recompensa pelas opções que fizeram. Esta alusão
ao momento do juízo não é rara em Mateus. Até recorre, com pertinência, a esta
motivação para fundamentar as exigências éticas da vida cristã.
***
Antes
da recitação do Angelus com a multidão na Praça da Liberdade, em Castel
Gandolfo, Leão XIV sustenta que o trecho evangélico desta dominga mostra Jesus a
revelar aos discípulos o Mistério da sua Páscoa iminente. O Messias – diz Ele –
terá de “ir a Jerusalém e sofrer muito, da parte dos anciãos, dos sumos
sacerdotes e dos doutores da Lei, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar”.
Ora, isso está longe da expectativa discipular de um Messias triunfante e
poderoso, com cuja liderança se derrotariam e esmagariam os inimigos. Já tinham
tido o ensejo, durante o tempo que passaram com Ele, de se surpreender com
tantos gestos e palavras. Todavia, esta mensagem ultrapassa todas as previsões.
E Pedro manifesta o seu desacordo e repreende Jesus: “Deus te livre, Senhor!
Isso nunca te há de acontecer!”
Pouco
antes, tinha reconhecido n’Ele “o Messias, o Filho de Deus vivo”, mas, desta
feita, desapontado com o que ouve, em contraste com a bela profissão de fé que
acabara de fazer, repreende-O. Parece dizer-Lhe: “Sim, acredito que és o
Messias, mas não é assim que se salva o Mundo.” Ora, no dizer do Pontífice, o impulso
de zelo petrino, animado por um amor sincero, leva-nos a refletir. “Também para
nós, nem sempre é fácil compreender e aceitar os caminhos de Deus,
especialmente, quando estão muito distantes dos nossos”, e “surge a tentação de
pensar, contra toda a lógica da fé, que é o Senhor quem está errado, ou pior
ainda, que não nos ouve ou que não se interessa por nós.
Perante
esta incerteza, Pedro, apesar da sua impulsividade, ensina duas coisas: “nunca
interromper, nem mesmo nestes momentos, o diálogo com o Senhor”, mas, mostrar-Lhe,
com confiança, “a nossa dificuldade em compreender o que Ele nos pede”; e “nunca
julgar a ação de Deus, mas ouvir, com humildade, na oração, o que Ele nos está
a revelar, através da sua ação, mesmo quando isso não corresponde às nossas
expectativas”.
E
a grandeza do primeiro dos apóstolos manifesta-se também nisto. Jesus
responde-lhe: “Afasta-te, Satanás!” E explica-lhe a ele e aos outros que, para
seguirem as suas pegadas, terão de negar-se a si próprios, tomar a sua cruz e
segui-Lo. Pedro fá-lo-á: depois de o ter ouvido, aceitará o desafio e
permanecerá fiel às palavras de Cristo – a quem reconheceu como seu Redentor –
durante toda a sua vida, até ao martírio.
E
Leão XIV exorta: “Peçamos ao Senhor, que nós, na nossa vida de fé e na nossa
oração, tenhamos a sinceridade de Pedro, ao dizer-Lhe, humildemente, o que
sentimos, mesmo quando o coração está confuso, e, ao mesmo tempo, que saibamos
cultivar a mesma docilidade, ao aceitar o que Ele nos pede além das nossas
expectativas. Que Maria nos ajude, Ela que foi obediente aos desígnios de Deus
até junto à Cruz do seu Filho Jesus.”
***
A
segunda leitura (Rm 12,1-2) convida os cristãos a oferecerem toda a sua
existência de cada dia a Deus. Paulo garante que é esse o sacrifício que Deus
prefere. Ora, oferecer a Deus toda a existência, significa, na lógica paulina,
não nos conformarmos com a lógica do Mundo, aprendermos a discernir os planos
de Deus e a viver em consequência.
Depois
da catequese sobre o plano de salvação que Deus tem para todos os homens, Paulo
tece considerações práticas, que mostram como deve viver o que é chamado à
salvação. Tais considerações aparecem na segunda parte da Carta aos Romanos. Aí
Paulo faz longo discurso a exortar os romanos (e todos os crentes) a comportarem-se
de acordo com as exigências da condição de batizados. Aderir a Cristo e acolher
a salvação que Ele veio oferecer não significa ficar no campo das verdades
teóricas e abstratas (por muito bonitas e profundas que sejam), mas exige
comportamento coerente com os valores de Jesus e com a vida nova que Ele
oferece. A adesão a Jesus implica assumir atitudes, nos vários momentos e
situações da vida, que sejam a expressão existencial do dinamismo de vida nova
que resulta do batismo.
O
trecho em referência é a introdução à segunda parte da Carta e à reflexão
prática sobre as exigências do caminho cristão. É a ponte entre a parte teórica
(primeira parte da carta) e a parte prática (segunda parte da carta).
A
bondade e o amor de Deus instam à resposta do homem, que se concretiza em os
crentes se oferecerem a si mesmos (literalmente, “os vossos corpos”: “corpo”
não designa, aqui, entidade distinta da alma, mas a totalidade da pessoa,
enquanto ser em relação. É o homem enquanto ser que se relaciona com Deus, com
os outros homens e com o Mundo). Os cristãos são aqueles que se entregam
completamente nas mãos de Deus e que, em todos os instantes da vida, vivem para
Deus. Essa oferta será “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. É esse
“culto espiritual” (“culto lógico” ou “culto razoável”) que Deus espera do
homem e que tem de superar o culto formal e exterior, que não compromete. É o
culto verdadeiro, que brota do coração e que compromete o homem inteiro. Os
crentes devem, pois, oferecer, inteiramente, as suas vidas a Deus, que derrama sobre
eles a sua misericórdia e lhes oferece a salvação.
Na
perspetiva paulina, oferecer, inteiramente, a vida a Deus significa que o homem
não se pode conformar com “este Mundo”, isto é, deve manter distância crítica
em relação aos esquemas do Mundo e aos valores sobre os quais se constrói o mundo
de egoísmo e de pecado. E significa a mudança de coração, de mentalidade e de
inteligência, que possibilite ao homem discernir qual é a vontade de Deus, a
fim de poder percorrer, com fidelidade, os seus caminhos.
O
“culto espiritual” de que Paulo fala é, então, a entrega a Deus da totalidade
da vida. Na relação com Deus, com os outros homens e com o Mundo, o cristão
deve renunciar às sendas do egoísmo, do orgulho, da autossuficiência, da
injustiça e do pecado; e deve procurar conhecer o projeto de Deus, acolhê-lo no
coração e viver em coerência total com os seus valores.
***
Por
tudo isto, é de exprimir a ânsia da alma por Deus, fazer o exercício da
contemplação da sua glória e viver no gosto da esperança a que somos chamados:
“A
minha alma tem sede de Vós, meu Deus.”
“Quero
contemplar-Vos no santuário, / para ver o vosso poder e a vossa glória. / A
vossa graça vale mais do que a vida; / por isso, os meus lábios hão de
cantar-Vos louvores.
“Assim
Vos bendirei toda a minha vida / e em vosso louvor levantarei as mãos. / Serei
saciado com saborosos manjares, e com vozes de júbilo Vos louvarei.
“Porque
Vos tornastes o meu refúgio, / exulto à sombra das vossas asas. / Unido a Vós
estou, Senhor, / a vossa mão me serve de amparo.”
“Aleluia.
Aleluia. Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, ilumine os olhos do nosso
coração, para sabermos a que esperança fomos chamados.”
2026.08.30 – Louro de Carvalho
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