Entre
as décadas de 1960 e 1990, mais de quatro mil mulheres inuítes, da Gronelândia,
foram obrigadas a usar dispositivo intrauterino (DIU), na maioria dos casos,
sem consentimento. Houve queixas, pedidos de indemnização e relatórios. Por
conseguinte, foi criada uma comissão da verdade sobre contraceção forçada de
mulheres inuítes.
***
A
28 de agosto, a Gronelândia anunciou a criação da Comissão da Verdade e
Reconciliação, para investigar a contraceção forçada aplicada, pela Dinamarca,
a milhares de mulheres inuítes, depois de peritos não terem chegado a acordo
sobre se o programa constituiu genocídio.
A
campanha de contraceção forçada é dos capítulos mais sombrios da História
da Gronelândia com a antiga potência colonial. Entre as décadas de 1960 e 1990,
mais de quatro mil mulheres gronelandesas foram obrigadas a usar uma espiral
contracetiva ou DIU, na esmagadora maioria dos casos, sem o seu consentimento
ou o dos pais, quando eram menores. Entre as vítimas estavam raparigas a
partir dos 12 anos, algumas das quais nunca mais conseguiram ter filhos. “Não
podemos afirmar, em nome do governo, se houve genocídio. É algo que podemos
continuar a debater”, declarou Marianne Paviasen, ministra da Justiça da
Gronelândia.
Para
o primeiro-ministro gronelandês, Jens-Frederik Nielsen, a prioridade é, agora, “iniciar
o processo de cura”. “Vamos criar uma comissão de reconciliação”, garantiu, frisando
que pretende cooperar com a Dinamarca nesta questão.
Em
Copenhaga, a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, adotou também
um tom conciliador. “Vamos conduzir o processo político em conjunto com o governo
da Gronelândia. O mais importante, para mim, é encontrarmos juntos o caminho
certo”, afirmou.
Uma
comissão de quatro membros recebeu, em agosto de 2024, o mandato para
esclarecer o programa. Os peritos não chegaram a conclusão unânime e
apresentaram duas versões do relatório. “Uma afirma que não houve genocídio,
enquanto a outra admite que poderá ter havido”, explicou Marianne Paviasen.
Todavia,
ambos os documentos convergem na avaliação de que o programa poderá ter
violado vários direitos humanos, bem como os direitos dos povos indígenas. Uma
das vítimas, a psicóloga Henriette Berthelsen, de 68 anos, declarou à Agência
FrancePresse (AFP), antes da apresentação dos relatórios, que
as conclusões estavam condicionadas, desde o início, pois nenhum inuíte da
Gronelândia foi nomeado especialista. “Para mim, isto não diz respeito apenas à
História ou à política. É o meu corpo, a minha vida e o meu direito à
autodeterminação”, explicitou, vincando: “Mais uma vez, vejo que serão outros a
investigar e a definir o que foi feito a mim e às outras mulheres inuítes.”
No
dia 27, o Parlamento dinamarquês aprovou a possibilidade de as mulheres
afetadas pela campanha de contraceção forçada reclamarem indemnizações ao
Estado dinamarquês. A iniciativa foi promovida por Mette Frederiksen, que
apresentou o pedido oficial de desculpas da Dinamarca, em 2025.
A
cobertura mediática do caso reavivou traumas que tinham sido enterrados,
durante décadas. O escândalo veio a público, quando uma das vítimas denunciou,
nos meios de comunicação social, o trauma que viveu. Uma série de podcasts,
em 2022, revelou a dimensão da campanha. Segundo a investigação apresentada em
setembro de 2025, no final da década de 1970, uma em cada duas mulheres
gronelandesas em idade fértil, pelo menos, 4070 mulheres, tinha DIU
colocado. “Percebi tudo o que isso me tinha custado, todas aquelas
hospitalizações, aquelas cirurgias, a escolaridade que perdi e, sobretudo,
aquelas dores que nunca tinha associado àquele maldito DIU”, disse Kirstine
Najarak Berthelsen, outra das vítimas, lembrando: “Estava enterrado tão
profundamente no meu subconsciente. Tudo o que aconteceu às pessoas é
inimaginável, se não se viveu isso na própria pele.”
Henriette
Berthelsen há muito que defendia a criação de uma Comissão da Verdade e
Reconciliação, a qual permitiria “reconhecer o que aconteceu”. “Creio que só
então poderemos começar a sarar e a avançar, não como adversários, mas como
seres humanos e como povos iguais em dignidade”, observou.
Nuuk
e Copenhaga estão também a lançar luz sobre outros capítulos dolorosos do
passado, incluindo casos de crianças adotadas sem o consentimento dos pais.
***
Em
março de 2024, o Estado dinamarquês estava a ser processado por 143 mulheres da
Gronelândia que alegavam ter sido obrigadas a colocar DIU, nas décadas de 1960
e de 1970, pelo que exigiam a indemnização total de cerca de 43 milhões de
coroas dinamarquesas (5,8 milhões de euros). As mulheres afirmaram que as
autoridades sanitárias dinamarquesas violaram os seus direitos humanos, quando
lhes colocaram os dispositivos. Algumas – incluindo muitas que eram
adolescentes, na altura – não sabiam o que tinha acontecido. E, segundo Mads
Pramming, o advogado das mulheres, cada uma exigiu 300 mil coroas (42 mil
euros).
A
campanha tinha começado, há um ano, quando as mulheres protestaram, durante uma
visita à Gronelândia da primeira-ministra dinamarquesa. E, porque a visita não
deu origem a qualquer indemnização, decidiram apresentar queixa nos tribunais
dinamarqueses.
O
objetivo era, alegadamente, limitar o crescimento demográfico na Gronelândia,
evitando as gravidezes. Na altura, a população da ilha ártica aumentava,
rapidamente, devido às melhores condições de vida e de cuidados de saúde. E o
dispositivo em forma de T, feito de plástico e de cobre, colocado no útero,
impede que os espermatozoides fertilizem um óvulo.
As
autoridades dinamarquesas afirmam que cerca de 4500 mulheres e raparigas,
alegadamente metade das mulheres férteis da Gronelândia, receberam implantes de
espirais, entre a década de 1960 e meados da década de 1970.
Em
setembro de 2022, os governos da Dinamarca e da Gronelândia lançaram uma
investigação sobre o programa. O resultado estava previsto para 2025. Porém, Mads
Pramming disse que não iriam esperar tanto tempo e que a única opção, para as
mulheres, era procurar justiça através do tribunal. “A mais velha de nós tem
mais de 80 anos e, por isso, não podemos esperar mais. […] Enquanto vivermos,
queremos recuperar a nossa autoestima e o respeito pelo nosso útero”, declarou à
emissora pública da Gronelândia KNR uma das mulheres, Naja Lyberth, que tinha
14 anos quando lhe foi colocado um DIU e foi das primeiras a falar sobre o caso.
O
governo dinamarquês ofereceu aconselhamento psiquiátrico às pessoas afetadas.
Já
em 2023, um grupo de 67 mulheres apresentou uma primeira ação judicial contra a
Dinamarca, por causa da contraceção forçada. “A dor, física e emocional, que
elas sentiram ainda hoje existe”, afirmou o então ministro da Saúde, Magnus
Heunicke.
As
ações passadas da Dinamarca na Gronelândia têm assombrado as autoridades
dinamarquesas, nos últimos anos. Em 2020, Mette Frederiksen pediu desculpa a 22
crianças da Gronelândia que foram levadas à força para a Dinamarca, em 1951,
numa experiência social falhada. O plano era modernizar a Gronelândia e dar às
crianças uma vida melhor, mas terminou com a tentativa de formar um novo tipo
de inuítes, reeducando-os e esperando que, mais tarde, regressassem a casa e
promovessem laços culturais. “Pedimos desculpa àqueles de quem devíamos ter
cuidado, mas não conseguimos”, disse, vincando que “as crianças perderam
os laços com as suas famílias e linhagem, a sua história de vida, com a
Gronelândia e, portanto, com o seu povo”.
A
Gronelândia, que faz parte do reino dinamarquês, foi uma colónia, sob a coroa
da Dinamarca, até 1953, quando se tornou uma província daquele país escandinavo
(não foi só o Estado Novo português que transformou “colónias” em “províncias
ultramarinas”). Em 1979, foi concedido à ilha o direito de residência (direitos
básicos) e, 30 anos depois, a Gronelândia tornou-se uma entidade autónoma. Porém,
a Dinamarca controla os assuntos externos e a defesa da ilha, embora, em 1992,
a Gronelândia tenha assumido o controlo do setor da saúde.
***
Em
dezembro de 2025, a Dinamarca acordou em indemnizar milhares de mulheres e
raparigas indígenas da Gronelândia, por contraceção forçada levada a cabo pelas
autoridades sanitárias, durante décadas, a partir da década de 1960. Assim, o
Ministério da Saúde dinamarquês declarou, a 10 daquele mês, que as mulheres que
receberam contracetivos contra o seu conhecimento ou consentimento, entre 1960
e 1991, podem candidatar-se a pagamentos individuais de 300 mil coroas
dinamarquesas (cerca de 40200 euros), de abril de 2026 a junho de 2028.
Estima-se
que cerca de 4500 mulheres poderão ter direito a uma indemnização na
Gronelândia, território semiautónomo da Dinamarca. Às inuítes, muitas delas
adolescentes, na altura, foram colocados DIU ou receberam injeção hormonal
contracetiva, sem saberem pormenores ou darem consentimento. “O caso do DIU é
um capítulo negro da nossa História comum. Teve consequências graves para as
mulheres que sofreram danos físicos e psicológicos”, declarou a então ministra
da Saúde, Sophie Lohde, em comunicado, frisando: “Não podemos eliminar a dor
das mulheres, mas a indemnização ajuda a reconhecer e a pedir desculpa pelas
experiências por que passaram.”
Uma
investigação independente publicada em setembro de 2025 revelou que mais de 350
mulheres e raparigas indígenas gronelandesas, incluindo algumas com 12 anos de
idade ou menos, tinham denunciado que as autoridades sanitárias lhes tinham
administrado contracetivos à força. Mais de quatro mil mulheres e raparigas terão
sido afetadas. Por isso, em agosto daquele ano, a primeira-ministra
dinamarquesa emitiu pedido de desculpas público pelos acontecimentos, afirmando
que, embora não se possa alterar o passado, “podemos assumir a responsabilidade”.
***
A
Gronelândia apresentou, a 28 de agosto deste ano, dois relatórios, muito
aguardados, de análise de violações de direitos humanos associadas a casos em
que mulheres e raparigas gronelandesas foram submetidas à colocação de DIU e a outras
formas de contraceção, incluindo se as ações da Dinamarca preencherão a
definição jurídica de genocídio. As conclusões chegaram um dia depois de o
parlamento dinamarquês ter fechado a lei de indemnizações, ficando a pairar
dúvidas sobre como a avaliação de responsabilidades se articula com a resposta
já dada.
A
nova investigação é distinta de anterior relatório histórico conjunto
dinamarquês-gronelandês, publicado em setembro de 2025, seguido de pedido
público de desculpas da primeira-ministra dinamarquesa. Enquanto essa
investigação reconstruiu o que aconteceu e como o programa de contraceção foi
executado, os novos relatórios analisam como tais práticas devem ser
enquadradas à luz dos direitos humanos e do direito internacional. Porém, não
estabelecem, por si só, responsabilidades juridicamente vinculativas. “[Não
haverá] efeito jurídico direto decorrente dos relatórios. No entanto,
dependendo dos resultados, podem conduzir a ações políticas”, sustenta Health
Sune Klinge, professor associado especializado em Direito Constitucional, na
Universidade de Copenhaga.
Alguns
especialistas consideram improvável que o caso cumpra o limiar jurídico para
ser qualificado como genocídio. “A Convenção para a Prevenção e Repressão
do Crime de Genocídio [CPRCG], em conjugação com a prática jurisprudencial,
será a base jurídica para qualquer conclusão de responsabilidade por genocídio.
O genocídio assenta na intenção especial do autor de praticar os atos, por não
reconhecer o direito do grupo a existir enquanto grupo”, explicou Health
Frederik Harhoff, especialista em Direito Internacional, na Universidade do Sul
da Dinamarca, acrescentando que “é improvável que se conclua que ocorreu
genocídio” e que, “se um dos dois relatórios chegar a essa conclusão, estará
errado”.
Alem
disso, embora um relatório público possa ter valor indicativo, a
responsabilidade penal por genocídio só pode ser estabelecida por tribunal
competente. Os relatórios podem identificar outras violações de direitos
humanos internacionais ou de direitos dos povos indígenas, que poderão moldar a
resposta política e jurídica ao caso. Portanto, a sua importância dependerá, em
parte, do uso que os governos, as mulheres afetadas e os tribunais fizerem das
conclusões. “Dado que o genocídio não pode ser estabelecido por falta da
intenção especial exigida, a violação dos direitos humanos das mulheres
torna-se essencial”, esclareceu Harhoff.
A
Gronelândia nomeou, inicialmente, um grupo de quatro peritos para realizar a
investigação em matéria de direitos humanos, mas o grupo dividiu-se em dois, por
“divergências quanto à abordagem profissional”, levando a que a Gronelândia
recebesse dois relatórios.
O
governo gronelandês afirmou que ambos os relatórios foram submetidos a
avaliação externa da sua metodologia e dos seus padrões académicos, mas não
revelou se a divergência se estendia às conclusões dos peritos, nem quem é o
autor de cada um dos relatórios.
O
calendário da publicação suscitou críticas, visto que a Dinamarca avançou com a
legislação de indemnização, antes de as avaliações serem tornadas públicas. Os
relatórios ficaram concluídos e foram entregues ao governo gronelandês, em
fevereiro, mas a publicação foi adiada, enquanto eram traduzidos, revistos por
pares e preparados para divulgação pública.
O
parlamento dinamarquês realizou a votação final do projeto de lei de
indemnização, no dia 26, dois dias antes de o governo gronelandês apresentar os
relatórios.
Um
dos peritos encarregados de investigar o caso, Jonas Christoffersen, instara o
governo gronelandês a publicar os relatórios, antes de o parlamento dinamarquês
concluir a legislação de indemnização, aduzindo que, em termos democráticos, os
deputados deviam ter acesso às conclusões, para terem informação completa, antes
de aprovarem a lei. “O caso prejudicou a
relação entre a Dinamarca e a Gronelândia e, na minha opinião, o melhor, para
todos, é que haja total transparência sobre o assunto”, observou.
No
entanto, o regime de indemnização não impedirá as mulheres gronelandesas de
intentarem novas ações judiciais, se os relatórios identificarem violações mais
amplas de direitos humanos ou responsabilidades, por parte da Dinamarca. Os parlamentares
são livres de alterarem leis e de alargarem o regime de indemnização, embora 300
mil coroas dinamarquesas já se situem no limite superior das indemnizações
atribuídas em casos comparáveis.
Por
seu turno, a atual ministra da Saúde da Dinamarca, Ida Auken, sustenta que o
governo não quis esperar pelos relatórios, antes de o parlamento aprovar o
regime de indemnização para as mulheres gronelandesas afetadas pelo caso. “Para
nós, foi absolutamente crucial não atrasar nada. As mulheres já esperaram o
suficiente”, disse à agência noticiosa local Ritzau.
***
Está
visto que os colonizadores fazem tudo o que está ao seu alcance para atingirem desígnios “civilizacionais” ou “progressistas”. Neste caso, a contraceção
forçada, pois uma população “inferior” não podia aumentar; a migração forçada
de crianças, para as tornarem “modernas” (o respeito pela diferença teve férias);
e a hipocrisia de transformar colónias em províncias. Porém, ia tudo sobre
carris “no Reino da Dinamarca”, como no “Império Português”.
2026.08.29 – Louro de Carvalho
Sem comentários:
Enviar um comentário