O
site da SIC Notícias referia, a 10 de agosto, que a “Saxifraga
candelabrum”, pequena planta com flor que se desenvolve em escarpas rochosas do
Planalto Qinghai-Xizang, no Sudoeste da China, revelou inesperada capacidade:
alimenta-se de insetos. A descoberta faz dela a primeira planta carnívora
confirmada do grupo botânico Saxifragales e dá razão a uma hipótese
levantada por Charles Darwin, em 1875 (há 150 anos).
A
Saxifraga candelabrum cresce, entre os 2500 e os 3300 metros de
altitude, em zonas montanhosas do Planalto Qinghai-Tibete e das montanhas
Hengduan, onde os solos são muitíssimo pobres em nutrientes. Toda a planta é
coberta de pequenos pelos glandulares avermelhados e pegajosos que retêm
insetos de reduzidas dimensões.
O
estudo, publicado na revista científica “Nature Communications”, mostra que
esta espécie não se limita a prender insetos, por acaso, mas consegue
atraí-los, capturá-los, através de pelos pegajosos, digeri-los e absorver os
nutrientes resultantes da digestão – critérios que definem uma verdadeira
planta carnívora. Muitas plantas prendem insetos, ocasionalmente, mas isso não
basta para serem consideradas carnívoras. Para receber tal classificação, têm
de mostrar que retiram nutrientes das presas e têm adaptações específicas para
as atrair, capturar e digerir.
Para
testar se isso acontecia, nesta espécie, os investigadores alimentaram
moscas-da-fruta com uma forma estável de azoto (nitrogénio), elemento essencial
para o crescimento das plantas. Depois de colocarem as moscas sobre os pelos
pegajosos, acompanharam o percurso do azoto no interior da planta. “O azoto
acaba por ser absorvido pela planta e distribuído pelos seus tecidos. Isso só
acontece, porque existe absorção e transporte desses nutrientes”, explicou à Reuters
o botânico Douglas Soltis, um dos autores do estudo.
Os
investigadores verificaram ainda que os pelos glandulares produzem enzimas
digestivas capazes de decomporem os insetos capturados. O azoto provindo dos
insetos não ficou distribuído de forma uniforme. As maiores concentrações
encontravam-se nas flores. Para Soltis, isso faz sentido, porque esta espécie
floresce, apenas uma vez, durante toda a sua vida, pelo que necessita de
investir o máximo possível na reprodução. “Provavelmente, precisa desses
nutrientes para produzir flores e sementes. A reprodução é a chave da
sobrevivência”, afirmou.
Um
dos problemas enfrentados por muitas plantas carnívoras é o risco de prenderem
os insetos responsáveis pela polinização, mas os investigadores concluíram que,
neste caso, a planta parece ter encontrado a solução. As flores atraem,
sobretudo, moscas relativamente grandes, que conseguem libertar-se, facilmente,
dos pelos pegajosos, e apenas os insetos muito pequenos ficam presos. “Assim, a
planta obtém nutrientes adicionais, ao capturar pequenas presas, sem
comprometer a polinização, nem a reprodução”, explicou Hang Sun, investigador
do Instituto de Botânica de Kunming da Academia Chinesa de Ciências e coautor
do estudo.
Em
1875, Charles Darwin observou duas espécies europeias parentes desta planta e
sugeriu que poderiam ser carnívoras, devido aos seus pelos pegajosos e aos
insetos que, por vezes, apareciam presos. No entanto, nunca conseguiu
demonstrá-lo, experimentalmente.
Embora
a espécie agora estudada seja diferente das observadas por Darwin, possui
estruturas muito semelhantes. “Realizámos vários testes e confirmámos,
finalmente, que esta é verdadeira planta insetívora. Isto prova que a hipótese
de Darwin estava correta e demonstra a precisão da sua intuição científica”,
afirmou Hang Sun.
A
Saxifraga candelabrum é, para já, a única espécie carnívora conhecida
dentro das Saxifragales, uma ordem botânica que inclui mais de duas mil
espécies. Contudo, os investigadores acreditam que podem existir outras plantas
com capacidades semelhantes por descobrir, sobretudo no Planalto
Qinghai-Tibete, uma das regiões do Mundo com maior diversidade de plantas com
flor. “Há inúmeras inovações na Natureza que ainda não descobrimos, nem
compreendemos. Muitas delas poderão revelar-se úteis para o bem-estar humano”,
conclui Douglas Soltis.
, ***
A
este respeito, Pedro Molina, em artigo intitulado “Afinal, Darwin tinha razão:
esta planta com flores era carnívora”, publicado a 10 de agosto na “National
Geographic Portugal”, refere que Darwin, entre os inúmeros estudos que realizou,
em 1875 publicou “plantas insectívoras” e que, dentro do género Saxifraga,
escolheu uma das espécies mais populares dos jardins ingleses, a “Saxifraga
umbrosa”, para estudar as suas caraterísticas, interrogando-se se seria
carnívora. De facto, apresentava glândulas pegajosas que capturavam insetos e
demonstrava resposta celular a compostos nitrogenados, mas Darwin não encontrou
movimentos significativos nas folhas, nem evidências do processo de digestão.
Nos
seus cadernos, anotou que essas glândulas poderiam representar um estádio
intermédio na evolução e que, por seleção natural, certas estruturas úteis para
funções específicas poderiam vir a tornar-se órgãos carnívoros. Porém, as
ferramentas disponíveis para a investigação eram muito limitadas e o
conhecimento dos sistemas digestivos das plantas continuava muito preliminar. Agora,
passados 150 anos, comprovou-se, anota Pedro Molina, que a Saxifraga
candelabrum, outra espécie do género, atrai, captura e digere insetos, além de
absorver o azoto proveniente destes. Ou seja, apresenta todas as caraterísticas
próprias de uma planta carnívora, embora pertença a uma linhagem distinta.
Segundo
Pedro Molina, a equipa de investigação, composta, principalmente, por
cientistas chineses, estudou esta planta com flores, das zonas alpinas do
planalto de Qinghai-Tibete, na China. Seguindo a hipótese de Darwin e
analisando os seus tricomas (apêncices) glandulares pegajosos, confirma que as
suas observações estavam corretas: encontraram insetos nos tricomas de 43 dos
45 espécimes estudados. Nas plantas adultas, a média foi de 71 insetos
capturados. Em seguida, reforçou a sua hipótese, ao estudar o processo de
digestão. Através de técnicas de marcação fluorescente, identificou atividade
da fosfatase, uma enzima muito comum entre as plantas carnívoras. Encontraram diferenças
na absorção de azoto, o que atribuem às particularidades da linhagem a que esta
espécie pertence. E a análise genética revelou semelhanças genómicas com outras
plantas carnívoras. “A transformação de presa em predador constitui uma
inovação adaptativa notável, partilhada por todas as plantas carnívoras, que
capturam e digerem grande diversidade de presas animais, para obterem
nutrientes, especialmente, azoto”, diz o estudo, concluindo que os resultados
fornecem provas da existência de carnivoria em Saxifraga, em resposta à hipótese
darwiniana de que algumas espécies podiam alimentar-se de presas animais.
Para
os investigadores, diz Pedro Molina, o próximo desafio é determinar se a
carnívora está mais disseminada do que se pensava. Conhecem-se cerca de 630
espécies, cada uma com o seu método de captura de presas. Algumas libertam um
néctar açucarado; outras exalam odores atraentes; e outras funcionam como uma
espécie de urinol para insetos, aproveitando os excrementos e a urina como
fonte de nutrientes. Estas curiosidades obcecaram Darwin e levaram-no a
publicar uma monografia de 400 páginas que mantém inestimável valor científico.
***
Também
a 20 de junho, a jornalista Catarina Solano de Almeida, em artigo intitulado “Segredo
da planta carnívora mais famosa do Mundo finalmente desvendado”, relevou que, “durante
mais de um século, os cientistas acreditaram que o fecho ultrarrápido da
armadilha da dioneia (Dionaea muscipula) era provocado pela circulação de água
entre as suas células” e que um novo estudo sugere explicação diferente para um
dos movimentos mais rápidos do reino vegetal, um mistério que já intrigava
Charles Darwin.
A
dioneia é uma pequena planta carnívora nativa de uma área limitada dos estados
norte-americanos da Carolina do Norte e da Carolina do Sul. Como outras carnívoras,
vive em solos pobres em nutrientes e complementa a sua alimentação pela captura
e pela digestão de insetos.
E
outro dos mistérios que intrigou Darwin e gerações de investigadores, desde
então, é: “Como consegue a planta carnívora dioneia fechar a sua armadilha
letal, numa fração de segundo?” Com efeito, ao contrário dos animais, as
plantas não possuem músculos, mas como observa a jornalista, a planta carnívora
Dioneia consegue fechar a sua armadilha num décimo de segundo, após um estímulo.
Assim, quando o inseto toca nas estruturas, que são semelhantes a pelos, a
armadilha fecha-se, subitamente, condenando a vítima a ser digerida, ao longo
de vários dias, por enzimas produzidas pela planta.
Um
estudo publicado na revista “Science” identifica um mecanismo até agora
desconhecido e que está por trás deste movimento ultrarrápido, uma descoberta
que pode inspirar desenvolvimentos futuros em robótica flexível e em materiais
inteligentes. Durante mais de um século, a explicação mais aceite era a de que
o fecho da armadilha resultava de rápida redistribuição de água no interior da
folha. No quadro desta hipótese, a água deslocava-se entre células,
provocando alterações de volume que levavam ao encerramento da armadilha. Todavia,
investigadores do Instituto Universitário de Sistemas Térmicos Industriais (IUSTI),
da Universidade de Aix-Marselha e do CNRS (Centre National de la Recherche
Scientifique ou Centro Nacional de Investigação Científica), concluíram que
esse mecanismo é demasiado lento para explicar um movimento que pode ocorrer,
em apenas um décimo de segundo, e dizem que as experiências mostraram que o
transporte de água demora entre 30 e 150 segundos, muito mais do que o tempo
necessário para a armadilha se fechar.
Através
de imagens de alta velocidade, de medições mecânicas e de modelação
computacional, os investigadores identificaram o que dizem ser a verdadeira
força motriz do fenómeno: “Quando um inseto toca, duas vezes, em rápida
sucessão, nos pelos sensoriais localizados no interior da armadilha, as
paredes celulares da camada exterior da folha tornam-se, rapidamente, mais
flexíveis, perdendo cerca de 30 a 40% da sua rigidez.”
Este
amolecimento, que ocorre em cerca de um segundo, liberta a energia mecânica
armazenada nos tecidos da planta, desencadeando o fecho quase instantâneo da
armadilha. “A nossa hipótese é que a armadilha já esteja mecanicamente
tensionada antes de ser acionada, como uma mola. Quando a armadilha é
estimulada, as paredes celulares da camada epidérmica externa amolecem
rapidamente. Isto liberta as tensões internas armazenadas no tecido e faz com
que a armadilha se dobre e feche”, explicou Yoël Forterre, físico do CNRS e da
Universidade de Aix-Marselha e autor principal do estudo, sustentando que, quando
a armadilha se fecha, o inseto fica preso no interior e é digerido, ao longo de
vários dias, por enzimas produzidas pela planta.
Há
cerca de 800 espécies conhecidas de plantas carnívoras. Como não estão todas
intimamente relacionadas, os cientistas creem que a capacidade de capturar
presas evoluiu, de forma independente, várias vezes, ao longo da história
evolutiva das plantas. “Uma das plantas mais emblemáticas do Mundo ainda
consegue surpreender-nos. Após mais de um século de investigação, continuamos a
descobrir coisas fundamentalmente novas sobre o funcionamento da dioneia”,
afirmou Forterre.
Os
investigadores veem potenciais aplicações práticas nesta descoberta: “Ao que
sabemos, esta é a primeira vez que uma mudança tão rápida nas propriedades
mecânicas das paredes celulares foi observada numa planta”, afirmou Jeongeun
Ryu, coautor do estudo, desenvolvendo: “Isto resolve uma questão que remonta a
Darwin – o que impulsiona um dos movimentos mais rápidos do reino vegetal – e
aponta para uma nova forma de um ser vivo se mover: não bombeando fluidos ou
simplesmente colapsando, mas ajustando, ativamente, a rigidez do seu próprio
material. Este princípio pode eventualmente inspirar robôs flexíveis ou
materiais inteligentes, embora esta seja ainda uma perspetiva a longo prazo.”
***
Em
suma, plantas carnívoras são as que têm a capacidade de atrair
pequenos animais, incluindo insetos (principais presas), aracnídeos e
mesmo anfíbios, répteis e aves, de capturar (através de armadilhas
compostas por folhas modificadas), de digerir (através de enzimas digestivas)
e de utilizar os nutrientes (principalmente, compostos nitrogenados) das
suas presas. Geralmente, habitam solos pobres, encharcados de ácidos
(baixo pH) com pouca disponibilidade de nitratos (essenciais
para a síntese da molécula de clorofila), dependendo do nitrogénio das proteínas dos
animais, mas, como todo o vegetal, depende da energia da luz para sobreviver. As
carnívoras ocorrem, sobretudo, na faixa tropical do planeta, em
grande biodiversidade, no Sudeste Asiático, nas Américas e na Austrália.
Um menor número de espécies ocorre no Sul da Europa e no Sul da África,
encontrando-se as mais bem adaptadas ao seu habitat de ocorrência em locais
inóspitos, como o Alasca, a Escandinávia e o deserto australiano.
As
principais famílias de carnívoras são: as Nepenthaceae, as Sarraceniaceae,
as Droseraceae e as Lentibulariaceae. São distintas entre si, no
atinente às estruturas reprodutivas, o que indica que podem ter evoluído paralelamente
e que a habilidade de captura e de digestão será convergência evolutiva, mas algumas
estratégias de captura são similares, como nos animais.
As
Nepenthaceae possuem, na ponta das suas folhas estruturas similares
a jarros, que são continuações da própria folha modificadas, com as bordas do
limbo unidas a formar uma ânfora, sobre cuja abertura se encontra uma estrutura
análoga a uma tampa, normalmente colorida, servindo de proteção estática para a
armadilha não se encharcar.
As
Sarraceniaceae têm folhas a sair de um rizoma subterrâneo,
unidas pelas bordas e a formar comprido jarro, semelhante às Nepenthaceae.
Compreende os géneros Sarracenia, Darlingtonia (ambas da América
do Norte) e Heliamphora (da América do Sul). Encontradas, na
sua maioria, em climas temperados, entram em período de dormência nas
épocas mais frias.
As
Droseraceae são plantas angiospérmicas (com flor). A família abriga os géneros
Drosera, Dionaea e Aldrovanda (Aldrovanda
vesiculosa). As do género Drosera, o único da família com mais
de uma espécie, têm tricomas glandulares (tentáculos) que lhes recobrem, sobretudo,
as folhas e que, ao segregarem uma substância pegajosa, atraem as presas, que
ficam aprisionadas nas armadilhas adesivas onde morrem e são lentamente
digeridas. O género Dionaea é formado só pela espécie Dionaea
muscipula (papa-moscas).
As
Lentibulariaceae, a que pertence o género Pinguicula, possui
estratégia parecida com as Drosera. Esta família também possui
estratégias passivas e ativas.
Além
destas famílias, há plantas carnívoras menos conhecidas em outras famílias,
como as Cephalotaceae cuja única espécie é Cephalotus follicularis,
que tem uma elaborada, mas pequena, armadilha anforal; as Drosophyllaceae,
carnívoras endémicas de Portugal, da Espanha e do Norte de Marrocos; a Bybliia
Byblidacdadeae, cujos elementos têm armadilhas similares às da Drosera;
algumas espécies de Bromeliaceae (monocotiledóneas: um cotilédone na
semente e folhas de nervura reticulada), que são carnívoras e coletoras de
chuva pela forma da sua folhagem; e, agora a família das Saxifragaceae –
angiospérmicas e dicotiledóneas (dois cotilédones na semente e folhas de nervuras
paralelas).
2026.08.10
– Louro de Carvalho
Sem comentários:
Enviar um comentário