segunda-feira, 24 de agosto de 2026

No problemático 35.º aniversário da independência da Ucrânia

 

Líderes europeus reuniram-se em torno de Volodymyr Zelenskyy, em Kiev, a 24 de agosto, para a celebração do 35.º aniversário da independência da Ucrânia, numa altura em que este país europeu já vai no quinto ano da guerra com a Rússia a Ucrânia. É, pois, este o quinto Dia da Independência, desde a invasão em grande escala da Rússia, alegadamente, para desmilitarizar e para desnazificar o país invadido – um marco que poucos esperavam quando as forças russas avançaram sobre a capital ucraniana, em fevereiro de 2022.

Andy Burnham, primeiro-ministro britânico, na sua primeira deslocação ao estrangeiro, desde que tomou posse, juntou-se ao presidente do Conselho Europeu, António Costa, e a outros altos responsáveis europeus, em Kiev, para as comemorações e para encontros com o presidente ucraniano. Também os outros líderes europeus da Coligação da Boa Vontade – nomeadamente, o presidente francês, Emmanuel Macron, o chanceler alemão, Friedrich Merz, o primeiro-ministro irlandês, Micheal Martin, e o primeiro-ministro do Luxemburgo, Luc Frieden – participaram, à distância, num encontro com Zelenskyy.

Foi notória a ausência de qualquer membro da administração norte-americana na cerimónia, designadamente, Steve Witkoff, enviado especial dos Estados Unidos da América (EUA) para o Médio Oriente, e Jared Kushner, conselheiro sénior, entre 2017 e 2021, no primeiro mandato do presidente dos EUA e, no atual mandato, intermediário-chave nas negociações diplomáticas relativas à guerra Israel-Hamas e à guerra Rússia-Ucrânia.

Apesar da especulação de que o Dia da Independência poderia assinalar a sua primeira visita à Ucrânia, os dois enviados especiais do inquilino da Casa Branca não compareceram. Aliás, desde que assumiram papel de destaque nos esforços diplomáticos da administração norte-americana, nenhum deles viajou para Kiev, embora tenham participado em repetidos encontros com responsáveis russos e Witkoff tenha feito oito visitas a Moscovo.

Não obstante, é de assinalar que Mike Pence, antigo vice-presidente dos EUA, e Keith Kellogg, antigo enviado especial de Donald Trump para a Ucrânia, bem como os senadores Richard Blumenthal e James Lankford, se deslocaram-se a Kiev, durante o fim de semana, e participaram em eventos associados ao 35.º aniversário. E o anfitrião disse que os informou da contínua ameaça de mísseis balísticos da Rússia e da necessidade de reforçar as defesas aéreas.

Kiev aproveitou o ensejo para pressionar os aliados a ajudarem a Ucrânia a obter mais mísseis de defesa aérea, antes do inverno.

Em resposta, António Costa, falando ao lado de Zelenskyy e do primeiro-ministro britânico, na cerimónia realizada na praça em frente da catedral de Santa Sofia, prestou homenagem ao povo ucraniano pela “coragem e bravura” que, disse, “inspiram o Mundo”.

“Continuaremos a prestar todo o apoio necessário, durante o tempo que for preciso”, afirmou, alargando esse compromisso para lá da guerra, até à futura adesão da Ucrânia à UE [União Europeia]. […] O direito internacional tem de prevalecer. A Rússia não irá prevalecer. […] A União Europeia não pode ser neutra, quando o direito internacional está a ser violado. Não somos neutros. Estamos do lado da Ucrânia”, afirmou o presidente do Conselho Europeu.

Por seu turno, Andy Burnham comparou a resistência da Ucrânia à Rússia à luta do Reino Unido contra a Alemanha nazi, dizendo aos ucranianos: “A minha nação manteve viva, no século XX, a chama da liberdade europeia; vós mantendes essa chama no século XXI.”

Depois, comprometeu-se também a ajudar Kiev a reforçar a sua defesa aérea, antes do inverno.

Também o ministro da Defesa britânico, Luke Pollard, confirmou que Londres vai partilhar tecnologia com a Ucrânia, para apoiar a produção interna do míssil de longo alcance SCALP, afirmando: “Estaremos ao lado deles, durante o tempo que for preciso.”

E a UE, anunciou, neste dia, um novo pacote de 6,1 mil milhões de euros em ajuda militar.

Num discurso que assinalou o Dia da Independência, Volodymyr Zelenskyy disse aos ucranianos e aos líderes internacionais que, há 35 anos, os serviços de informações duvidavam de que a Ucrânia sobrevivesse como Estado independente, sugerindo que voltaria a cair sob influência russa. “Mas os ucranianos restauraram a independência do seu Estado e iremos, certamente, proteger a independência da Ucrânia. Não há qualquer dúvida”, afirmou, aludindo às avaliações dos serviços de informações ocidentais, antes da invasão em grande escala da Rússia, de que a Ucrânia poderia cair em poucos dias ou semanas.

Quando as forças russas avançaram, rapidamente, em direção a Kiev, a 24 de fevereiro de 2022, poucos esperavam que a Ucrânia resistisse ao ataque. Seis meses depois, o país assinalou o primeiro Dia da Independência, desde o início da guerra em grande escala.

“Os ucranianos não serão pedras de calçada, sob os pés de czares e de governantes. Os ucranianos não se vão submeter. Os ucranianos não serão moeda de troca, em disputas entre capitais. Os ucranianos não aceitarão aquilo em que não acreditam. E, certamente, não abandonarão o seu próprio sonho – o sonho de viver em liberdade e independência”, bradou o chefe de Estado do país invadido, há mais de quatro anos.

***

As comemorações refletiram também o enorme custo de preservar a independência, contra as repetidas tentativas da Rússia em desestabilizar e em “desfazer” o país.

Zelenskyy e a primeira-dama, Olena Zelenska, começaram o dia a homenagear os combatentes mortos, antes de o presidente entregar algumas das mais altas condecorações do país a militares, homens e mulheres. As famílias dos soldados mortos na defesa da Ucrânia receberam distinções atribuídas a título póstumo.

Não houve o tradicional desfile militar no centro de Kiev. Em vez disso, a Ucrânia exibiu drones de produção nacional e outras tecnologias de defesa que se tornaram centrais no esforço de guerra.

A cerimónia aconteceu após uma forte escalada dos ataques russos contra a Ucrânia. Na verdade, Moscovo intensificou os ataques com mísseis balísticos e com drones contra cidades ucranianas, elevando o número de vítimas civis aos níveis mais altos desde os primeiros meses da invasão e revelando a crescente escassez de mísseis intercetores avançados na Ucrânia.

Zelenskyy afirmou que o envio de mísseis intercetores Patriot, diminuiu significativamente, mesmo com o aumento dos ataques com mísseis russos. Por isso, pretendendo obter, pelo menos, mais 330 mísseis intercetores, antes do inverno, fez da defesa aérea um dos temas centrais das conversações com os seus aliados europeus.

***

A deslocação do primeiro-ministro britânico à capital ucraniana surgiu após o anúncio de que o Reino Unido vai apoiar Kiev na produção interna de mísseis de longo alcance.

Segundo o respetivo comunicado, o Reino Unido “acordou que a empresa de defesa MBDA pode divulgar informação classificada sobre componentes de fabrico britânico do míssil de longo alcance SCALP, para estabelecer linhas de montagem locais na Ucrânia”. Ora, esta decisão de divulgar a informação classificada sobre o míssil, que utiliza tecnologia britânica e francesa, permite à França e à Ucrânia avançarem com a montagem do míssil em território ucraniano.

Além disso, o comunicado acrescenta: “Complementa também o importante esforço britânico para desenvolver, rapidamente, armas avançadas de ataque de longo alcance e de baixo custo para a Ucrânia, através do projeto Brakestop”.

“No 35.º aniversário da independência da Ucrânia, o povo ucraniano não deve ter dúvidas: o Reino Unido está convosco hoje e pelo tempo que for necessário”, afirmou Andy Burnham em comunicado.

O Reino Unido tem sido um dos principais apoiantes da Ucrânia desde a invasão em grande escala da Rússia em 2022, comprometendo até agora cerca de 25 mil milhões de libras (29,2 mil milhões de euros) em apoio, incluindo 16 mil milhões de libras (18,7 mil milhões de euros) em ajuda militar.

Já no dia 23, presidente ucraniano reuniu-se com líderes nórdicos e bálticos e manteve conversações bilaterais centradas na cooperação em matéria de defesa.

***

A Comissão Europeia anunciou, no dia em que se celebra a Independência da Ucrânia, 6,1 mil milhões de euros em novas aquisições de material de defesa para o país. Este financiamento integra o Empréstimo de Apoio à Ucrânia, no valor de 90 mil milhões de euros, e aconteceu num dia em que se realizou, em Kiev, uma reunião da Coligação da Boa Vontade.

“No Dia da Independência da Ucrânia, a Comissão Europeia aprovou 6,1 mil milhões de euros em novas aquisições de material de defesa para a Ucrânia. Este financiamento abrange sistemas de defesa aérea e antimíssil, mísseis, munições e radares, reafirmando o compromisso da Europa em apoiar a defesa e a resiliência da Ucrânia, perante a contínua agressão russa”, indica o executivo comunitário, em comunicado.

Ursula von der Leyen, realçou que esta iniciativa “demonstra que o apoio [da UE] é inabalável e concreto” e que, perante a intensificação dos ataques russos, a UE está a reforçar o apoio a Kiev, para “ajudar a Ucrânia a proteger a sua população e a defender o seu espaço aéreo”. “A Europa está ao lado da Ucrânia e iremos fornecer-lhe o que necessita, quando necessita”, garantiu no dia em que a Coligação da boa vontade se reuniu, em Kiev, para celebrar o 35.º aniversário da independência da Ucrânia.

***

A reunião teve um formato híbrido – não estiveram em Kiev alguns dirigentes, como os já referidos e o ministro dos Negócios Estrangeiros português, que participou por videoconferência. Paulo Rangel reafirmou, numa publicação nas redes sociais o apoio de Portugal à soberania, integridade territorial e ao futuro europeu da Ucrânia.

O Presidente da República de Portugal enviou uma videomensagem ao homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky, “e a todos os cidadãos ucranianos”, prestando tributo àqueles “que defendem esta independência no terreno”.

De acordo com uma nota divulgada pela Presidência da República, António José Seguro frisou que “o apoio de Portugal à Ucrânia, à sua soberania e integridade territorial e ao corajoso povo ucraniano continua e continuará a ser incondicional, tal como tem sido desde o primeiro dia”. E, reiterando que Portugal “continuará a prestar apoio político, humanitário, financeiro e militar à Ucrânia, enquanto for necessário”, o chefe de Estado “formulou votos muito sinceros para que as comemorações do 24 de agosto de 2027 decorram já em tempo de paz”.

“O 35.º aniversário da independência da Ucrânia representa, hoje, volvidos quatro anos desde o início de uma trágica guerra, uma dupla vitória: a vitória do tempo, que consolidou a identidade nacional, e a vitória da vontade coletiva do corajoso povo ucraniano, que se recusa a ceder perante a força”, destacou Seguro, sustentando: “Hoje é dia para honrar aqueles que defendem esta independência no terreno, é dia para reconhecer o sacrifício de tantas famílias, é dia para reafirmar a capacidade de um povo de manter viva a soberania, mesmo quando ela é, direta e reiteradamente, desafiada”.

“Estes 35 anos de independência são um testemunho vivo de que a identidade de um povo não se mede pela ausência de adversidade, mas pela forma como a enfrenta”, prosseguiu Seguro, completando que “a amizade entre Portugal e a Ucrânia é uma amizade entre povos que partilham valores fundamentais e uma comum determinação de defender a liberdade, a democracia e o respeito pelo Direito Internacional”.

Em representação do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, estiveram em Kiev deputados do Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-Ucrânia, nomeadamente, o líder parlamentar do Partido Socialista (PS) e presidente deste grupo parlamentar, Eurico Brilhante Dias, os seus vice-presidentes Francisco Figueira, do Partido Social Democrata (PSD), e Rodrigo Saraiva, Rui Tavares, do Livre, e Paulo Núncio, líder parlamentar do partido do Centro Democrático Social (CDS).

***

A celebração do Dia da Independência e a aprovação do financiamento (já referido) pela UE surgem numa altura em que a Rússia intensifica os ataques com mísseis balísticos e drones. No entanto, numa mensagem divulgada nas redes sociais, o presidente ucraniano garantiu que a Ucrânia não se renderá à Rússia. “A Ucrânia quer a paz, sem dúvida, mas não está pronta para simplesmente se render”, disse Volodymyr Zelensky, citado pela Reuters, vincando que a cedência à exigência russa para abdicar da parte restante do Donbass não é suficiente para pôr um ponto final na guerra e acusando Vladimir Putin de estar “preso ao passado”.

Ao mesmo tempo, solicitou à China que se manifeste contra as ameaças de Moscovo sobre o uso de armas nucleares. “A China não pode continuar em silêncio”, defendeu. “A China deve provar a ambição de ser um dos líderes mundiais, não só nos campos económico e tecnológico, mas também no civilizacional, deixando claro que nenhum ditador deve ameaçar o planeta com ogivas obsoletas”, afirmou, elogiando “a força de espírito” do povo ucraniano.

***

Desde a sua independência, a Ucrânia apresentou várias mudanças, tendo Maryna Mykhailenko,

embaixadora da Ucrânia em Portugal destacado (cf. Expresso online de 24 de agosto): ter mostrado ao Mundo quem são os ucranianos, não como república pós-soviética ou na esfera de influência da Rússia, mas como país e nação livres e independentes; ter escolhido, de forma definitiva e irreversível, o caminho do desenvolvimento democrático, após décadas de totalitarismo soviético, pois os ucranianos sempre tiveram, pela sua própria mentalidade, uma forte predisposição para a democracia, nomeadamente, graças às sólidas tradições históricas de autogoverno; e ter optado pela adesão à UE.

E a diplomata conclui que a agressão armada da Rússia contra a Ucrânia não é “uma guerra por territórios”, pelo que “quaisquer concessões territoriais não contribuirão para uma paz duradoura”. Trata-se, antes, de “uma guerra existencial pelo direito do povo ucraniano à existência, à liberdade, ao seu próprio Estado e à sua escolha europeia”, bem como uma guerra que “é também travada pela Rússia para preservar a sua capacidade de determinar a segurança europeia e [de] ditar as suas condições à Europa”.

Com efeito, na ótica da embaixadora, “a Rússia pretende limitar, drasticamente, a soberania ucraniana e determinar a nossa política interna e externa”, tal como pretende “uma Europa dependente dos seus recursos energéticos, intimidada pelo seu exército e governada por aqueles que apoia – e não são forças políticas que tenham os valores europeus no seu ADN”.

Sem desmentir o entendimento da diplomata, é de referir que o “Ocidente” foi ambicioso na subtração de áreas territoriais à influência da poderosa ex-União Soviética e não soube libertar-se da sua dependência estratégica e económica. Agora, torce a orelha.

2026.08.24 – Louro de Carvalho


Sem comentários:

Enviar um comentário