domingo, 23 de agosto de 2026

Vai ser possível distribuir periódicos em todo o Portugal Continental

 

A VASP - Distribuição e Logística ganhou o concurso para a distribuição diária de jornais e de revistas, no próximo triénio, garantindo a distribuição nos dois lotes do concurso público internacional lançado pelo governo, a 2 de junho, que se enquadra no Plano de Ação para a Comunicação Social (PACS) e que ocorre após longo processo de conceção de um modelo de apoio à distribuição, em território nacional, que abre a porta a eventuais concorrentes.

O Executivo dividiu o concurso em dois lotes, correspondentes às regiões Norte e Sul de Portugal Continental. Assim, o Lote 1 respeita ao Norte e ao Centro; e o Lote 2, ao Oeste e ao Vale do Tejo, à Grande Lisboa, à Península de Setúbal, ao Alentejo e ao Algarve.

A Pergaminhos Flash Distribuição – sociedade constituída, em junho, para se candidatar ao concurso, por José Manuel Rogeira de Jesus, dono da Parsoc, acionista do Jornal de Notícias (JN) – liderada, no âmbito do concurso, por Rui Marques dos Santos, antigo executivo da VASP, foi a única concorrente da VASP, na distribuição de periódicos. O resultado preliminar do concurso atribui à vencedora a distribuição nos dois lotes, por 763 mil euros, por ano, ou 2,29 milhões de euros, no total dos três anos de vigência dos contratos para os dois lotes, bastante abaixo do preço estimado pelo governo.

A VASP, detida por Marco Galinha, dono do grupo BEL- que é também acionista do Diário de Notícias (DN) –, opera, atualmente, em monopólio, depois da saída do mercado de concorrentes na distribuição de publicações. A insolvência, em 2017, da Distrinews II, do Grupo Urbanos, transformou a VASP na incumbente deste negócio, em território nacional. Recorde-se que a Impresa, proprietária do Expresso e da SIC, alienou, em 2021, a sua participação de 33,33% na VASP ao grupo BEL e à Cofina Media, hoje, Medialivre, por 2,1 milhões de euros.

A inclusão do financiamento público à distribuição no PACS era reivindicação dos autarcas do interior e das empresas do setor dos media, face à possibilidade de vários municípios de baixa densidade populacional ficarem sem acesso à imprensa escrita. O governo, por seu lado, recusou a possibilidade de um apoio direto à VASP.

A distribuidora chegou, a 4 de dezembro de 2025, a anunciar que estaria a avaliar “ajustamentos”, em rotas nos distritos de Beja, de Évora, de Portalegre, de Castelo Branco, da Guarda, de Viseu, de Vila Real e de Bragança, aduzindo “uma situação financeira particularmente exigente, resultante da quebra contínua das vendas da imprensa e do aumento significativo dos custos operacionais, que colocam sob forte pressão a sustentabilidade da atual cobertura de distribuição de imprensa diária”. Em março, a empresa reconheceu ter remetido “informações financeiras incompletas” ao gabinete do ministro da Presidência, António Leitão Amaro, explicando as suas razões e apresentado pedido de desculpas.

Os resultados do concurso para a distribuição de jornais e revistas, no próximo triénio, foram comunicados aos concorrentes a 20 de agosto, abrindo-se, agora, o período de pronúncia dos concorrentes sobre o relatório preliminar. Os passos que se seguem são a aprovação do relatório final, a adjudicação definitiva e a celebração dos contratos.

Contudo, a Pergaminho flash, vai contestar a decisão e pedir ao júri a reanálise do processo. “O resultado final não está naturalmente alinhado com a nossa expectativa”, disse ao JN Rui Marques Santos, após analisar a documentação disponível no portal do concurso, vincando que há “vários itens que merecem contestação jurídica. Assim, a concorrente vai contestar os dois lotes, dispondo de cinco dias para apresentar a sua pronúncia.

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O caderno de encargos dividiu Portugal continental em dois blocos geográficos, já indicados: o Lote 1, com o preço base de 1,7 milhões de euros, para três anos, e o Lote 2, com o preço base de 1,3 milhões de euros, também para três anos.

No Lote 1, a proposta da VASP, de cerca de 1,23 milhões de euros, obteve 65 pontos, ficando à frente da proposta da Pergaminhos flash, de 1,4 milhões euros, pontuada com 59,53 pontos. No Lote 2, a proposta da Pergaminhos flash foi excluída pelo júri, por não assegurar pontos de venda em todos os concelhos abrangidos, requisito obrigatório do concurso, faltando os concelhos de Alcoutim e de Marvão. A VASP ficou, assim, como única concorrente admitida neste lote, com uma proposta na ordem de um milhão de euros.

No conjunto dos dois lotes, a proposta da VASP totaliza cerca de 2,29 milhões de euros para três anos (cerca de 763 mil euros, por ano), menos de cerca de 712 mil euros do que o preço base global de três milhões euros, uma poupança de cerca de 24% para o Estado.

O contrato definitivo obrigará o operador vencedor a garantir, no mínimo, um ponto de venda ativo por cada concelho do continente, a assegurar o transporte totalmente não discriminatório de todos os títulos concorrentes e a submeter relatórios mensais detalhados de vendas e custos à fiscalização do Estado.

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A questão vem de longe. Marco Galinha, presidente do Conselho de Administração da VASP, a 20 de janeiro – falando na comissão parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, no âmbito da audição da administração da VASP, a requerimento do grupo parlamentar do partido do Chega sobre a anunciada suspensão, no mês anterior, da distribuição de imprensa, em oito distritos do interior do país –, afirmou que a empresa estava na iminência de cortar rotas, por não ser viável distribuir jornais no interior, pois, como alegou, não consegue suportar resultados negativos recorrentes, no interior do país, mas que está ao lado dos editores e preocupada com as pessoas lá residentes.

Por sua vez, o administrador da VASP, Rui Moura, sublinhou que a empresa “sempre falou com todos os grupos parlamentares” e que se reunira, “há 10 dias”, com a Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP). Mais referiu que os custos têm sido absorvidos pela VASP, mas que, “desde 2019”, não é viável distribuir jornais no interior do país.

Marco Galinha lamentou a “insensibilidade” existente para a atual situação e observou que a VASP é “um monopólio natural”, porque todos os concorrentes faliram. “Se vier outra empresa duplica os custos e torna mais inviável a operação”, salientou.

Recordou que ficou “muito satisfeito”, quando o governo, em outubro de 2024, anunciou o PACS, com medidas fundamentais para as pessoas comprarem jornais. Disse ter havido “várias reuniões”, nomeadamente, com o ministro da tutela de então, Pedro Duarte, que prometeu lançar o concurso, em sete semanas, mas “o governo caiu e as coisas voltaram à estaca zero”.

Marco Galinha referiu que a subida do salário mínimo, que tem um impacto de quase um milhão de euros, por ano, na VASP, e o fim do grupo Trust in News (TiN) são dois fatores que afetam o negócio. Por outro lado, na sua ótica, a distribuição “é um negócio que está a sofrer uma transformação” e que a inteligência artificial (IA) não é tudo.

Paulo Ribeiro, vice-presidente da Associação Portuguesa de Imprensa (APImprensa), sustentou, na mesma audição, que o digital não substitui o papel e que a entidade ainda não recebeu qualquer informação sobre como o governo vai resolver o problema da distribuição dos jornais. Porém, na sua intervenção, considerou “fundamental”, para a coesão territorial, levar a imprensa a territórios de baixa densidade e enfatizou o papel da associação na capacitação dos editores para que possam fazer essa transformação. “A questão está no modelo de negócio e a proliferação gratuita” das publicações, apontou.

Questionado pelo Livre sobre se receberam informação do governo, no atinente à questão da distribuição, o responsável da APImprensa disse que não. “Não recebemos ainda do governo qualquer informação respeitante de como vai resolver o problema da distribuição” e “os CTT não resolvem o problema da distribuição”, sublinhou, explicitando: “Temos vindo aqui a alertar que o modelo de distribuição dos correios” tem tido impacto no setor e que o serviço postal universal (SPU) “não está a ser assegurado, o que leva à deterioração do negócio e à perda de assinantes”, por não receberem a horas.

Em resposta ao Chega sobre o PACS, o responsável destacou uma medida “bem feita” e que foi logo aplicada, que é o aumento do porte pago. Depois, falou de “uma medida importante”, que não foi tomada: os jornais e revistas estarem no Plano Nacional de Leitura, pois, na sua perspetiva, se tal entrasse nas escolas, seria uma outra forma de começar a haver um novo consumo de imprensa. E, por fim, disse que a APImprensa defende que todos os apoios “devem fazer feitos por via indireta”.

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Em dezembro de 2025, Joaquim Brigas, Presidente do Instituto Politécnico da Guarda (IPG), afirmou que a iminência de oito distritos do interior ficarem sem distribuição de jornais e revistas, a partir de 2026, era um sinal político preocupante. Trata-se de um problema mais simbólico do que estrutural, mas que não é menos relevante. Como sabem os diretores da imprensa que assinaram a carta aberta “Em defesa da imprensa, alerta à democracia”, a migração de leitores do suporte impresso para o digital é estrutural e inevitável. Todavia, este é mais um sinal da marginalização progressiva a que, nas últimas décadas, têm sido sujeitos os territórios periféricos. Embora seja fenómeno europeu e norte-americano, em Portugal tem expressão particularmente grave. Por exemplo, o centralismo estatal e a macrocefalia das grandes cidades espanholas são muito menores do que em Portugal.

Mais do que o acesso à informação – que a digitalização tende a resolver –, o desaparecimento dos jornais impressos alimenta a “geografia do descontentamento” e causa danos reais à democracia e à coesão territorial. E, na ótica do líder do IPG, “deixar regiões para trás tem consequências políticas profundas e representa um risco sério para a democracia.

E, citando José Manuel Ribeiro, ex-presidente da delegação portuguesa no Comité Europeu das Regiões, diz: “A ‘geografia do descontentamento’ revela que áreas economicamente estagnadas se tornam focos de voto antissistema [e] a erosão da confiança nas instituições democráticas ocorre precisamente nos territórios onde as pessoas sentem que foram esquecidas.”

Ora, segundo Joaquim Brigas, para combater este sentimento de abandono, que redunda em radicalização política e em rejeição das elites, é relevante manter a distribuição de jornais impressos no interior; e, como sucede com o porte pago da imprensa regional, o governo pode criar um subsídio que assegure a entrega de jornais nacionais em todos os concelhos. Contudo, em seu entender, tal subsídio não deve ser entregue, exclusivamente, à VASP, o único operador de distribuição de imprensa, mas deve ser aberto, de forma concorrencial, às cadeias da grande distribuição que dispõem de redes logísticas com cobertura nacional, que operam em quase todos os municípios.

Assim, “com o estímulo certo, e sem beneficiar, indevidamente, qualquer operador, será possível garantir a chegada da imprensa a todo o país. […] Será necessário pouco dinheiro, uma vez que a procura por jornais e revistas impressos é hoje reduzida. Mas fará toda a diferença, para a coesão territorial e para a qualidade da nossa democracia”, observou.

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Também em dezembro, Cláudia Maia, presidente da APImprensa criticou, em entrevista à Lusa, as “máquinas de comunicação das autarquias” – melhores do que algumas equipas de jornais –, que contribuem para uma comunicação não escrutinada.

Frisando que uma das propostas da associação ao governo é a promoção da literacia mediática, através da compra de jornais, em bibliotecas, espaços públicos, lojas do cidadão e escolas”, observou que, “para algumas autarquias interessa que não haja jornais, são municípios que têm máquinas de comunicação muito fortes, às vezes máquinas de comunicação muito melhores do que as equipas dos jornais”. Tais autarquias “comunicam o que querem, sem filtros, sem escrutínio e, portanto, interessa, às vezes, que não haja a distribuição de jornais.”

Quando foi apresentado, em outubro de 2024, o PACS, havia quatro concelhos que não estavam a receber publicações periódicas. Porém, após uma negociação, em 2024, e um apoio do anterior governo para que houvesse distribuição de jornais, nestes locais, dois deles não estavam interessados e, à data, ainda não tinham pontos de venda.

Para a entrevistada, em causa está comunicação não escrutinada, pois as ferramentas de comunicação dos municípios têm orçamentos e recursos superiores aos dos jornais regionais, substituindo a função da imprensa local. Porém, as estratégias de comunicação das câmaras municipais não cumprem a obrigação de publicitar as deliberações e medidas, na imprensa regional, e ocultam ou retêm informação para a utilizarem nas suas publicações institucionais e difundir conteúdos não sujeitos a escrutínio jornalístico. Isso prejudica o direito do cidadão a receber informação plural e verificada e põe em causa, em último grau, o direito à liberdade de imprensa dos cidadãos destas comunidades.

Numa perspetiva para 2026, Cláudia Maia considera que o desafio para os media “se resume a uma palavra: sustentabilidade”. É claro que, “sem sustentabilidade, não há jornais; [e], sem jornais, não há democracia”, sentenciou.

Na entrevista, Cláudia Maia alertou que a VASP, responsável pela distribuição de jornais, tem de ter rotas que não podem dar prejuízo, incentivando ao aumento da concorrência. Ora, a empresa informara, a 4 de dezembro, que estava a avaliar a necessidade de ajustamentos na distribuição diária de jornais, nos oito distritos já referidos. A isto, Cláudia Maia responde que, se tal decisão avançar, “é muito grave, porque, se um jornal diário não chega, todos os dias, o leitor acaba por perder interesse na subscrição e não tem informação atualizada”.

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A VASP – que diz ter “assumido e garantido, com elevado sentido de responsabilidade e em condições de igualdade, o acesso de todos os cidadãos à imprensa escrita e ao bem público fundamental que é a informação” – manifestou, a 17 de março, preocupação com a proposta do governo sobre a distribuição de imprensa, vincando que tem o potencial de gerar efeitos contrários aos pretendidos, ao fragmentar um sistema logístico nacional. Porém, disse que prosseguirá com “esta missão, não obstante os custos que, com total transparência, tem dado a conhecer às entidades públicas e governamentais com intervenção e responsabilidades nesta área, que, no passado, reputaram esta prestação como serviço público”.

A VASP sustenta que “opera sob um conjunto de condições e obrigações, no âmbito da sua atividade regulada pela Autoridade da Concorrência, e através da supervisão de um mandatário de monitorização, tendo sempre pautado a sua atuação por princípios de rigor, transparência e colaboração institucional”. E enfatiza que é “um sistema logístico complexo que funciona diariamente”, envolvendo “recolha nas gráficas, reparte, expedição, transporte noturno, distribuição capilar no território, recolha e controlo de sobras e gestão, faturação e cobrança de milhares de pontos de venda, bem como o pagamento a editores”.

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Agora, é de perguntar: “O concurso contribuirá para maior coesão territorial e para melhor democracia?”

2026.08.23 – Louro de Carvalho


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