sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Litoral em risco, devido às alterações climáticas e à pressão urbanística

 

No relatório “Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco”, publicado a 23 de julho, a Greenpeace Portugal alerta para os riscos iminentes do impacto das alterações climáticas e de décadas de ocupação e de pressão urbanística, com 40% das praias a poderem desaparecer.

Com “Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco”, a Greenpeace Portugal pretende colocar uma escolha no centro do debate público e político: continuar a reagir. depois dos danos, ou começar, finalmente, a evitar que o risco vá aumentando.

Sensibilizados para o problema ou confrontados com um cenário mais flagrante, os portugueses estão já a testemunhar a redução do areal de muitas das suas praias preferidas. Obviamente, o avanço do mar e o recuo do areal não são novidade, mas as tempestades do inverno passado agravaram a situação. Em média, o recuo das praias “situa-se entre os 10 e os 20 metros, tendo chegado aos 40 metros, em algumas zonas”, alerta o relatório da Greenpeace, organização não governamental (ONG) que configura um movimento global com mais de três milhões de pessoas que atuam, em 55 países, para obviar aos abusos contra o meio ambiente.

Numa análise dos 2500 quilómetros de costa portuguesa, de norte a sul do país, o relatório estima que 40% das nossas praias desaparecerá, até 2100. Com efeito, segundo a ONG, Portugal “tornou-se o epicentro” das alterações climáticas e de grandes riscos, devido à extensa linha de costa e à subida do nível do mar, mais rápida do que a média global, bem como ao facto de mais de 100 mil pessoas viverem em zonas costeiras em risco de inundação. “Não podemos continuar à espera de que uma praia desapareça, uma arriba colapse ou uma infraestrutura fique em risco, para agirmos”, defende Toni Melajoki Roseiro, diretor da Greenpeace Portugal.

Toni Roseiro considera que, perante o conhecimento existente, é necessário tomar decisões políticas, para “proteger as pessoas, a Natureza e um território que pertence a todos”.

Para a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), em mais de 25% da costa continental, o mar avançou para terra, até dois metros, por ano, em alguns sítios. A situação em Cascais é das mais alarmantes, com o nível médio do mar a subir 9,7 centímetros, nos últimos 25 anos.

As alterações climáticas são, frequentemente, indicadas como o principal risco, mas o relatório aponta o dedo à expansão urbana e turística, à construção desmedida em áreas sensíveis e à artificialização da orla costeira, como fatores que aumentaram o risco e destruíram ou diminuíram a capacidade dos sistemas naturais, como as dunas e os marismas.

As dunas são montes ou elevações de areia formados pela ação do vento (processos eólicos), que resultam de acumulação contra vários obstáculos de pequeno volume, quando o vento sopra grãos de areia secos e os deposita junto a praias ou a desertos, criando estruturas dinâmicas que mudam de forma e se movem com o tempo. E os marismas são ecossistemas costeiros de transição entre a terra e o mar, formados por terrenos baixos e lamacentos (em estuários, deltas ou baías abrigadas, onde a água doce se mistura com a salgada), periodicamente, inundados por marés e por águas fluviais. São zonas húmidas de plantas herbáceas, nomeadamente, gramíneas tolerantes ao sal. Dunas e marismas são barreiras naturais que servem de primeira linha de defesa contra a erosão, contra a inundação e contra a intrusão salina, pelo que a sua destruição aumenta a probabilidade de situações de catástrofe.

As tempestades do inverno passado mostraram alguns dos problemas apontados no relatório, com inundações provocadas pelas fortes precipitações, pela subida do nível da água, pela falta de impermeabilização dos solos, bem como pela falta de sedimentos nas praias. Por exemplo, a praia da Costa de Lavos, na Figueira da Foz, registou um recuo de 50 metros, na última década, e a praia de Faro, perdeu 25 metros de largura, desde 1950.

De norte a sul do país, o cenário não difere muito. Em Espinho, o recuo da linha de costa é de 5,2 metros, por ano; Viana do Castelo perdeu 30% da área de praia, desde 1990; e a Póvoa de Varzim está em elevado risco de erosão e inundações.

No Centro-Oeste, Aveiro é uma das zonas mais críticas, com previsão de recuo de até 40 metros, na Costa Nova, nos próximos 20 anos. E o relatório faz uma previsão de inundação de 18% do estuário do Mondego, até 2100.

Em Lisboa e na Península de Setúbal, a Costa da Caparica é a área que mais tem sofrido com o recuo, tendo perdido cerca de 200 metros de areia, desde 1960; Almada vive sob pressão, com 12% da área urbana em risco de inundação; e, como já ficou provado, nos últimos invernos, também várias zonas da cidade de Lisboa, como Algés, Alcântara e a Baixa lisboeta, são pontos críticos de inundações.

A costa alentejana, graças à crescente pressão do turismo e da urbanização, é das mais afetadas. Estima-se que até 50% das praias do Alentejo desapareça, até 2100, e que, no Algarve, cerca de 40% das praias se perca. As suas zonas mais críticas, de forte erosão costeira e de arribas instáveis a ameaçar derrocada, são Vilamoura, Quarteira, Vale do Garrão e Praia da Rocha. E, do outro lado do Algarve, a ilha de Tavira, a Ria Formosa, a Barrinha de Alvor e a Praia do Ancão sobressaem como ecossistemas costeiros particularmente vulneráveis.

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Em Portugal, não há falta legislação atinente a esta matéria, mas nem sempre existe a sua côngrua aplicação e, sobretudo, a fiscalização rigorosa das regras, bem como a articulação entre as diferentes entidades na tomada de decisão.

O Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial (RJIGT), que define as regras para organizar e gerir o uso do solo, inclui os programas de Proteção da Orla Costeira (POC), que estipulam regras, entre as quais a obrigação de aplicar uma faixa terrestre de proteção com 500 metros de largura, medida a partir da margem do mar para o interior, podendo ser alargada até mil metros, sempre que seja necessário proteger ecossistemas costeiros importantes.

A urbanização junto à costa é, segundo a ONG, um “multiplicador de riscos críticos”, em maré de profundas alterações climáticas, sobretudo, devido à subida do nível do mar. E o relatório alerta para cenário deveras preocupante, nos concelhos de Sesimbra e de Grândola, no distrito de Setúbal, onde têm surgido muitos “exemplos da transposição de normas de proteção”.

A Greenpeace realça projetos no concelho de Sesimbra, como o Pinhal da Prata, o Pinhal do Atlântico e o Etosoto, que ocupam mais de 260 hectares, em áreas protegidas, e avançaram sem avaliações ambientais adequadas. Também em Troia, ressalta o projeto “Na Praia”, com 96 hectares, onde se previa um resort de luxo com vilas, com SPA (“salus per aquam”: saúde pela água) e com um heliporto sobre dunas costeiras protegidas. Contudo, as obras deste resort foram suspensas, após ação de uma associação ambientalista e, em março de 2026, um incêndio no estaleiro fez adiar a inauguração, que iria acontecer em junho.

Na Comporta, o projeto Torre, com dois hotéis, com 234 residências e com um campo de golfe, tem previstos empreendimentos com mais de mil hectares; e o Costa Terra e o Comporta Dunes com campos de golfe, a menos de 500 metros da linha de água, são outros dos maus exemplos de falta de proteção costeira e das zonas ambientais reservadas.

A ONG, após várias polémicas sobre praias na Comporta vedadas por privados, sustenta que a salvaguarda do acesso público à costa e às praias é tarefa inadiável. Com efeito, o avanço do mar e a crescente pressão urbanística são desafios que exigem uma resposta urgente, o que postula a tomada de algumas medidas antes do próximo inverno.

Aponta a “Revista” do Expresso, de 21 de agosto, que o Costa Terra está em fase avançada de construção e com 36 dos 140 lotes para moradias à venda. Cada um custa, no mínimo, 3,4 milhões de euros, podendo ultrapassar o dobro. Diz-se que a maior casa, que junta vários lotes e que está a ser edificada por Jeff Bezos, patrão da Amazon, pode receber 40 convidados. E, segundo a revista “Sábado”, há casas com quatro cozinhas; outras têm SPA, com saunas de infravermelhos, banhos turcos e banhos de gelo; há casas com piscinas exteriores e interiores, com ginásios, com uma ou duas salas de massagens e com garrafeiras muito boas; e há salas de cinema, estúdios de música e campos de basquete em miniatura nas residências.

O luxo está na discrição do lugar, mas com todos os serviços mais premium, no silêncio e na paz. A excelência do serviço é das caraterísticas mais elogiadas. Os membros do clube não se preocupam com nada, têm os frigoríficos abastecidos, staff dedicado, dia e noite, e podem pedir coisas extravagantes fora do resort. Não circula dinheiro: o sócio paga um depósito de 200 mil euros e a quota anual de 30 mil, que lhe dá direito a aceder a todos os serviços disponíveis.

Ter muito dinheiro não basta para integrar o clube, algo verificável na ausência de membros oriundos de países onde há oligarcas milionários, como a Rússia, a China ou nações do golfo árabe. Só se entra por convite e a Discovery Land Company (DLC) só convida semelhantes, para haver ambiente harmonioso e adequado às políticas da empresa.

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A destruição da costa não é inevitável, mas está a acelerar. Portugal enfrenta as crises climática, de ordenamento e de fiscalização. Porém, enquanto o mar avança, são autorizados projetos e ocupações em zonas que deveriam estar protegidas. A subida do nível do mar, a erosão, a perda de areal, a instabilidade de arribas, a degradação das dunas, a intrusão salina e a destruição de zonas húmidas já se sentem ao longo de todo o litoral continental e insular.

Muitas das respostas continuam presas ao passado. A alimentação artificial de praias, os muros e os esporões ganham tempo, em alguns locais, mas não resolvem o problema de fundo. Em muitos casos, adiam decisões difíceis e aumentam os custos futuros. Ora, a resposta passa por: travar a construção em zonas de risco, proteger o domínio público marítimo, restaurar ecossistemas, atualizar os instrumentos de ordenamento, reforçar a fiscalização, garantir transparência e preparar o recuo nas zonas onde de ser seguro permanecer deixou.

A ONG tem soluções para a costa, que assentam na verificação de que a resposta à crise do litoral exige mudança de paradigma e de rumo, pois não basta reagir, com muros, com esporões, com reposições artificiais de areia e com obras de emergência. Tem de se passar da defesa rígida da linha de costa para a gestão estratégica do território costeiro, mas isso postula reduzir emissões, travar novas ocupações em zonas de risco, restaurar ecossistemas, atualizar instrumentos de ordenamento, garantir fiscalização e planear o recuo, onde for inevitável.

Nestes termos, é preciso atingir os seguintes objetivos:

* reduzir emissões, porque, sem a drástica redução das emissões, a subida do nível do mar, o aquecimento do oceano e a intensificação dos fenómenos extremos continuarão a agravar todos os riscos costeiros;

* proteger, restaurar e renaturalizar, pois dunas, sapais, marismas, pradarias marinhas, zonas húmidas e sistemas lagunares são defesas naturais, que protegem pessoas, armazenam carbono, reduzem o impacto das ondas, acolhem biodiversidade e fazem o território mais resiliente;

* reduzir a exposição ao risco, sendo necessário, para tanto, usar cartografia atualizada, impedir construção em zonas vulneráveis, evitar reconstruções sucessivas em áreas repetidamente afetadas e planear a relocalização de infraestruturas onde a permanência deixou de ser segura;

* travar urbanizações em zonas frágeis, o que postula rever planos municipais desatualizados, suspender licenciamentos em áreas sensíveis, remover barreiras que impedem ou condicionam o acesso público e garantir transparência nos processos urbanísticos costeiros;

* garantir uma adaptação justa, pois as comunidades costeiras, os pescadores, os mariscadores, os pequenos negócios, os moradores e os utilizadores tradicionais do litoral têm de ser ouvidos e protegidos: a adaptação não pode servir só interesses privados e infraestruturas turísticas.

Por conseguinte, o relatório defende o cumprimento da legislação, maior fiscalização e decisões políticas mais rigorosas, para proteger as populações e os ecossistemas costeiros nas próximas décadas. Assim, a Greenpeace exige uma mudança de paradigma, passando da “defesa da linha” para a gestão estratégica do território. Isso implica:

* O cumprimento efetivo da lei e dos instrumentos de ordenamento e de proteção do litoral, acompanhado de fiscalização adequada. Para tanto, o governo central e as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) devem declarar a suspensão imediata das normas dos planos diretores municipais (PDM) que não transpuseram os POC, até ao prazo legal, impedindo novos licenciamentos em zonas sensíveis.

* A moratória à construção em zonas de risco, com a paralisação imediata de todos os projetos turísticos em curso ou planeados, em áreas identificadas com risco de inundação ou erosão até 2050, bem como em perímetros da Rede Natura 2000. Efetivamente, é incompreensível que não se sustenha o avanço de novas ocupações e de construções incompatíveis com zonas identificadas como vulneráveis ou de risco.

* O restauro da Natureza e Soluções Baseadas na Natureza (SBN), privilegiando, sempre que possível, a substituição de “obras físicas” e de alimentação artificial de praias por programas de restauro do cordão dunar e dos marismas, permitindo que os ecossistemas atuem como barreiras naturais. De facto, urge a proteção, a recuperação e a renaturalização dos ecossistemas costeiros, incluindo dunas, sapais, zonas húmidas e outros sistemas naturais essenciais para a proteção do território.

* A transparência nos processos de decisão e licenciamento e a salvaguarda do caráter público e do acesso de todos ao litoral. Isso implica a remoção de todas as barreiras físicas que impedem o acesso público às praias e a publicação obrigatória e transparente de todos os processos de licenciamento urbanístico costeiro.

* A justiça climática e socioeconómica, que postula uma estratégia de adaptação que antecipe os riscos, proteja as populações mais vulneráveis e integre critérios de justiça climática e social, estratégia que redunde na célere redução das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) e da dependência dos combustíveis fósseis, enfrentando a causa da crise climática que está a acelerar os riscos sobre a costa. É, pois, necessária a aprovação de taxas turísticas e impostos sobre a indústria fóssil para financiar a adaptação local e o apoio à transição das economias tradicionais costeiras (tal como já acontece em locais, como Veneza, na Itália, onde a taxa turística implementada contribuiu para a diminuição da poluição da costa, em Maiorca, na Espanha, onde a taxa turística aplicada contribui para proteger a costa ou Barcelona, também na Espanha, onde também esta taxa é usada para adaptar as escolas ao calor extremo).

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A costa portuguesa não é apenas um ativo económico. É memória, paisagem, biodiversidade, proteção natural, cultura, trabalho, lazer e identidade. Defendê-la exige coragem política, responsabilidade pública e respeito pelos limites da Natureza. Para a Natureza ser amiga do homem, o homem tem de ser amigo a Natureza. E será amigo de si próprio!

2026.08.21 – Louro de Carvalho


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