domingo, 16 de agosto de 2026

Missa na Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria

 

Esta solenidade celebra o facto de Jesus ressuscitado acolher a sua mãe na glória do Céu. Com efeito, Jesus vivo, glorificado à direita do Pai, põe sobre a cabeça da sua e nossa mãe a coroa de doze estrelas de que fala o Livro do Apocalipse.

Pela sua humidade e disponibilidade para o desígnio de Deus, ao ser elevada ao Céu, em corpo e alma, após o cumprimento da sua missão terrena, Maria tornou-se a primeira criatura a alcançar a plenitude da Salvação. É a consequência da sua maternidade divina: a Mãe de Deus não podia passar pela corrupção sepulcral. E é fruto da íntima relação com Cristo, pela qual participou no mistério do Cristo morto, ressuscitado e catapultado à gloria de Deus.

Este privilégio mariano é corolário da sua imaculada conceição e da sua perpétua virgindade, que assinala a singularidade da encarnação do Verbo de Deus, assim como precede o triunfo da Igreja, quando, juntamente com a Humanidade, atingir a plenitude da glória. Assim a assunção de Maria, o garante de que o homem se salvará inteiro, é penhor seguro de que o homem triunfará da morte. Nestes termos, a mãe de Jesus é sinal de esperança e de alegria para o Povo de Deus que peregrina pela Terra, em demanda da pátria definitiva.

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A primeira leitura (Ap 11,19a;12,1-6a.10ab) apresenta-nos Maria, imagem da Igreja, pois, como Ela, a Igreja gera, na dor, o Mundo novo e participa na vitória de Cristo sobre o Mal. As visões do Apocalipse, expressas em linguagem codificada, revelam que Deus arranca os fiéis de todas as formas de morte. Por transposição, a visão o sinal grandioso é ser aplicável a Maria.

O livro foi composto no ambiente das perseguições que se abatiam sobre a jovem Igreja, ainda tão frágil. Na linguagem do profeta cristão, os animais terrificantes designam os perseguidores. A Mulher representa a Igreja, novo Israel, de que Maria é imagem e protótipo, o que é sugerido pelo número 12 (as estrelas). O seu nascimento é o do batismo que deve dar à Terra nova Humanidade. O Dragão, o perseguidor, põe tudo em ação para destruir este recém-nascido. Mas o destruidor não tem a última palavra, pois o poder de Deus em ação protege o seu Filho.

A mulher que deu à luz o seu filho e se retirou para o deserto é imagem da Igreja, incompreendida e perseguida, mas salva pela compaixão de Deus; e de Maria, que se retirou para o deserto do silêncio e do encontro com Deus, para reaparecer, sempre que é necessário intervir para interceder por nós junto de Jesus (“eles não têm vinho”) e para ser missionária de Jesus junto de nós (“fazei tudo o que Ele disser”).

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Na segunda leitura (1Cor 15,20-27), surge Cristo o novo Adão, que faz da Virgem Maria uma nova Eva, sinal de esperança para todos os homens.

Ora, a Assunção, uma forma privilegiada de Ressurreição, tem a sua origem na Páscoa de Jesus e manifesta a emergência da nova Humanidade, em que Cristo é a cabeça, como novo Adão.
Todo o capítulo 15 desta epístola é uma longa demonstração da ressurreição. Na passagem em apreço, o apóstolo expões uma espécie de genealogia da ressurreição e uma ordem de prioridade na participação neste grande mistério. O primeiro é Jesus, o princípio e o autor da nova Humanidade. Por isso, o apóstolo O designa como o novo Adão, mas que se distingue, absolutamente, do primeiro Adão; este levou a Humanidade à morte, ao passo que o novo Adão conduz à vida aqueles que o seguem.

O apóstolo não evoca, explicitamente, Maria, mas a proclamação desta perícopa na Assunção mostra que a Igreja vê o lugar eminente da Mãe de Deus no grande movimento da ressurreição. Com efeito, se às primícias se seguem os frutos da colheita, à Ressurreição de Cristo seguir-se-á a nossa. Ele é o vencedor da morte, mas só o pode ser, vencendo-a em todos os seus, em todo o seu Povo. Ora, Maria é o primeiro elemento do Povo de Deus e, pela assunção, tornou-se primícias (em regime de participação com Jesus) de todos os ressuscitados.

Dizer que os corpos ressuscitam ou que Maria foi assunta em corpo e alma que dizer que o homem se salva inteiro, e não apenas pela alma.

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O Evangelho (Lc 1,39-56) mostra-nos Maria, a mãe dos crentes, cheia do Espírito Santo, a primeira a encontrar as palavras proféticas da fé e da esperança: “Doravante todas as gerações A chamarão bem-aventurada!”

A vinda do Messias é a grande obra de Deus, pela qual Ele cumpre o seu desígnio de salvação, cuja concretização se começa a realizar pela encarnação do Verbo no seio de Maria, a que Ela assentiu. Por isso, Isabel a reconhece e proclama “bendita entre as mulheres”, pois, pela sua maternidade virginal, supera todas as mulheres; e, consequentemente, proclama bendito o filho de Maria, que está na origem de tudo isto, com o Pai e o Espírito Santo. 

O cântico de Maria explana o programa que Deus tinha começado a realizar desde o começo, que prosseguiu em Maria e que cumpre, agora, na Igreja, para todos os tempos. Pela Visitação que teve lugar na Judeia, Maria levava Jesus pelos caminhos da Terra. Pela Dormição e pela Assunção, é Jesus que leva a mãe pelos caminhos celestes, para o templo eterno, para a Visitação definitiva. Nesta solenidade, com Maria, proclamamos a obra grandiosa de Deus, que chama a Humanidade a juntar-se a Ele pelo caminho da ressurreição. Em Maria, Ele já realizou a sua obra na totalidade; e, com Ela, proclamamos: “Dispersou os soberbos, exaltou os humildes.” Os humildes são os que creem no cumprimento da palavra de Deus e se põem a caminho, os que acolhem até ao mais íntimo do ser a Vida nova, Cristo, para o levar ao nosso Mundo. Deus debruça-se sobre eles e cumpre neles maravilhas. Assim, a Assunção é forte apelo à celebração da Páscoa, alimentados do pão ázimo da pureza e da verdade e cultivando a afeição às coisas do Alto.

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É, pois, com disposição pascal que proclamamos bendita a Virgem Maria, prefigurada na esposa veterotestamentária do rei. Ela tem os favores de Deus e está associada, para sempre, à glória do seu Filho (primogénito: a seguir, vimos nós):

“À vossa direita, Senhor, a Rainha do Céu, ornada do ouro mais fino.”

“Ao vosso encontro vêm filhas de reis, / à vossa direita está a rainha, ornada com ouro de Ofir.

“Ouve, minha filha, vê e presta atenção, / esquece o teu povo e a casa de teu pai.

“Da tua beleza se enamora o Rei; / Ele é o teu Senhor, presta-Lhe homenagem.

“Cheias de entusiasmo e alegria, / entram no palácio do Rei” (salmo responsorial).

“Aleluia. Aleluia. Maria foi elevada ao Céu; / alegra-se a multidão dos Anjos” (aclamação ao Evangelho).

“A Virgem Mãe de Deus foi elevada à glória do céu. Ela é a aurora e a imagem da Igreja triunfante,
ela é sinal de consolação e esperança para o vosso povo peregrino. Vós não quisestes que sofresse a corrupção do túmulo Aquela que gerou e deu à luz o Autor da vida, vosso Filho feito homem” (do prefácio da missa da solenidade)

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Na homilia missa da solenidade, na paróquia São Tomás de Villanova, em Castel Gandolfo, Leão XIV frisou que o Magistério da Igreja ensina que “Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial” (Pio XII, Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, de 1 de novembro de 1950, que proclamou este dogma) e nos indica, neste Mistério, o cumprimento da plenitude da graça que Deus Lhe concedeu na Imaculada Conceição. Por isso, muitas obras de arte A retratam, no fim da sua vida terrena, como jovem belíssima que se eleva, fisicamente, da Terra ao Céu, inspiradas na cena do Livro do Apocalipse: “Uma Mulher vestida de Sol, com a Lua debaixo dos pés”. Quer dizer que, “no coração de Maria, se encontram o Céu e a Terra, o tempo e a eternidade”.

Esta imagem contrasta com a experiência que provoca em nós o passar dos anos. O corpo torna menos ágil, mais lento; a pele não fica mais fresca, mas mostra sinais da velhice; os cabelos não ganham cor, nem brilho, mas tornam-se grisalhos e, depois, brancos. Então, o Pontífice pergunta o que temos em comum com a jovem maravilhosa retratada nas telas dos altares. Para responder, sustenta que devemos manter unidos dois sinais: o corpo incorrutível da Mãe de Deus e o seu Coração Imaculado. É a pureza da alma que, em Maria – tal como em nós –, pela graça de Deus, ilumina e transfigura a pessoa inteira, levando-a à glória do Céu.

A glorificação de Maria, em corpo e alma, ensina que a verdadeira beleza não consiste em esconder os sinais do tempo, mas em mostrar, impressos na nossa carne, os sinais do amor que não tem fim. Convida-nos, assim, a rever muitos dos padrões estéticos que o Mundo nos impõe, predominantemente, de caráter hedonista e consumista, e que correm o risco de nos aprisionar em pesados condicionamentos, levando-nos a desperdiçar energias preciosas no que não tem valor, nem dura para sempre.

Na experiência comum, encontramos pessoas de rosto marcado pelos anos e pelo sofrimento, mas que são capazes de irradiar serenidade, benevolência e paz; da mesma forma podemos observar outras, talvez exteriormente atraentes, mas duras e frias, no íntimo. É fácil compreender onde reside a verdadeira beleza e onde há necessidade de conversão, de perdão e de cura. Se queremos descobrir e cultivar a beleza divina que nos envolve e para a qual fomos criados, difundindo-a à nossa volta, temos de aprender a lê-la no rosto terno da criança e nas rugas do idoso; na vivacidade do jovem e na compostura do adulto; nos adornos festivos, nas roupas e nos instrumentos de trabalho. Enfim, temos de ouvir as histórias de amor únicas que cada uma destas realidades nos conta, reconhecendo nelas pequenos recantos de céu, pois “é o amor o mais belo ornamento do homem: o amor que transfigura, transforma, enobrece, eleva, que nos torna leves, livres, próximos de Deus, mesmo através das vicissitudes da vida.

São Paulo VI, meditando a Assunção da Virgem, dizia que, para se compreender o seu significado, “é preciso tornar superlativos e absolutos os termos que usamos na linguagem terrena […], para imaginar em pequena dimensão o eterno”. E, a propósito deste encontro entre o infinito e o finito na Mãe de Deus, o Papa Francisco escrevia: “Maria é Aquela que sabe transformar um curral de animais na casa de Jesus, com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura.”

O milagre que a donzela de Nazaré viveu no seu coração inocente, e que a levou à glória do Céu, é o encontrar-se de extremos, como ela testemunha nas palavras inspiradas do Magnificat. Neste cântico, pelas expressões humildes da sua fé, a Mãe do Céu fala-nos, de forma simples, de mistérios grandiosos: de Deus que nela Se faz homem para salvar os homens, do Eterno que nela Se manifesta no tempo, para nos reabrir “o caminho da eternidade”, mostrando-nos, ao mesmo tempo, na sua condição de “humilde serva”, a “pequena dimensão” na qual, como dizia São Paulo VI, “podemos encontrar o Senhor”.

Portanto, não devemos procurar longe a sublimidade do Mistério que celebramos. Podemos encontrá-la onde há verdadeira caridade: nos olhos do pai e da mãe que regressam a casa, após um dia de trabalho, cansados, mas felizes por estarem com os filhos; nos rostos dos avôs e das avós que, apesar dos achaques da idade, se iluminam com inesperada energia ao cuidarem dos netos; no empenho dos jovens que se esforçam por crescerem íntegros e honestos, dispostos até a irem contra a corrente em relação ao que “todos fazem”; e, por fim, na obra de tantos homens e mulheres que, diariamente, com fé e dedicação, contribuem para trazer um pouco do Céu à terra e levar a terra para o Céu.

O belíssimo rosto de Nossa Senhora da Assunção é único, ultrapassa qualquer representação possível. Porém, é familiar: é o rosto das pessoas que estão ao nosso lado, mesmo neste momento, dos irmãos e irmãs com quem partilhamos, na fé, a oferta diária da nossa vida. Por isso, na mulher do Apocalipse, a Comunidade dos fiéis vê-se a si própria, e o Concílio Vaticano II descreve Maria como “imagem e início da Igreja, […] sinal de esperança segura e de consolação” (Constituição dogmática Lumen gentium, 68). Na sua humanidade santa, pela graça de Deus, está também a nossa; lá estamos nós, chamados a viver a plenitude de vida e a partilhar a mesma glória.

Santo Agostinho, ao falar da ressurreição de Cristo, convidava os cristãos do seu tempo a fazerem dela a bússola e o ponto de referência da sua existência. Dizia: “Cristo ressuscitou para nunca mais morrer […]. Muda de rumo, segue a luz! Começa por levantar-te do mesmo lugar de onde Ele ressuscitou” (Enarratio in Psalmos 126, 7).

E o Papa exorta: “Acolhamos o convite. Sigamos a luz do Ressuscitado, mudando de rumo, se necessário. Façamo-lo, também hoje, olhando para Maria, que Deus coroou de glória em corpo e alma, e nos deu como Mãe, guia, companheira de viagem e protetora na rota do Céu.

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Antes da recitação do Angelus na Praça da Liberdade, também em Castel Gandolfo, o Santo Padre falou desta solenidade e da sua relevância para a teologia católica e para a devoção popular. Com efeito, é uma data comemorada intensamente em várias comunidades, especialmente, onde a catedral ou a igreja paroquial é dedicada à Nossa Senhora da Assunção.

Para contemplar este mistério da fé, podemos recorrer aos dois modelos iconográficos com que os artistas o têm representado.

O mais antigo, que foi o único, durante quase um milénio, é o da “dormição” da Mãe de Deus: Ela aparece deitada num catafalco, adormecida na morte; à sua volta estão os Apóstolos, que a veneram comovidos em oração; no centro, de pé, está Jesus ressuscitado, que segura nos braços a alma de Maria, como a de criança recém-nascida. Veio buscá-La para A levar consigo para a glória de Deus, “no Céu”, como dizemos simbolicamente. De facto, o Senhor cumpriu com sua Mãe o que prometeu a todos os seus amigos: “Quando eu for [para junto do Pai] e vos tiver preparado um lugar, virei, novamente, e hei de levar-vos para junto de mim” (Jo 14,3). Este modelo realça a verdade central: é Cristo, morto e ressuscitado, que nos conduz à meta para a qual estamos, desde sempre, destinados, a vida eterna. É isto que gerações e gerações de fiéis contemplaram ao rezarem, perante os ícones da Dormição, e que se pode admirar em Roma, no grande mosaico da abside da Basílica de Santa Maria Maior.

Já a iconografia mais recente, que se desenvolveu, posteriormente, no Ocidente, mostra-nos a Virgem Maria de corpo inteiro, no Céu, envolta de luz, frequentemente rodeada por anjos e santos. Aqui, no centro, encontra-se o corpo glorificado da Virgem, em consonância com o que se lê no Livro do Apocalipse: “Apareceu no Céu um grande sinal: uma Mulher vestida de Sol, com a Lua debaixo dos pés e com uma coroa de doze estrelas na cabeça” (Ap 12,1).

Este modelo realça a verdade de que Maria foi elevada em corpo e alma, ou seja, na integridade da sua pessoa. Aquela mulher que, na terra, deu corpo e sangue ao Verbo encarnado e o seguiu até à união perfeita no sacrifício de amor, foi por Ele, para sempre, à glória.

Alguns artistas combinaram os dois esquemas, representando, na parte superior, a Virgem gloriosa e, na parte inferior, o seu túmulo vazio, frequentemente repleto de flores multicoloridas, e os Apóstolos com o olhar voltado para ela, no céu.

Assim, a iconografia permite-nos contemplar o nosso destino. A plenitude de vida, que admiramos, com alegria em Maria, espera-nos também a nós, no fim dos tempos, quando, como diz São Paulo, Cristo Ressuscitado transfigurar “o nosso pobre corpo, conformando-o ao seu corpo glorioso”), revestindo o que é corruptível de incorruptibilidade e o que é mortal de imortalidade. Então, com a nossa carne transformada pelo amor do Redentor, viveremos eternamente, na festa sem fim.

Depois do Angelus, Leão XIV relevou que Maria Santíssima, assunta na glória do Céu, é para todo o povo de Deus um sinal de esperança e de consolação. Por isso, o Papa desejou invocar a sua intercessão maternal em favor das comunidades que têm especial necessidade de serem consoladas e de continuarem a ter esperança. É o caso dos irmãos e das irmãs da Terra Santa, que é também, por excelência, a Terra de Maria. É o caso dos povos ucraniano e russo, unidos por uma devoção filial à Santa Mãe de Deus. É caso dos cristãos que sofrem discriminação ou perseguição e nos povos que sofrem os efeitos da guerra e/ou das catástrofes naturais e as de erro ignorância ou negligência humana.

2026.08.15 – Louro de Carvalho

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