segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Aniversário de bombas atómicas no Japão opõe pacifistas e belicistas

O Japão assinalou, a 6 de agosto, o 81.º aniversário da bomba atómica lançada na cidade de Hiroxima, com o líder do município a condenar as armas nucleares; e, no dia 9, assinalou o também 81.º aniversário do lançamento da bomba atómica em Nagasaki, com os defensores do pacifismo inquietos como a nova política do governo, em matéria nuclear. E os sobreviventes manifestam frustração e preocupação com o crescente apoio, no Japão e noutros países, à posse de armas nucleares, como forma de dissuasão.

Hiroxima assinalou o 81.º aniversário do seu bombardeamento pelos Estados Unidos da América (EUA), tendo o presidente da Câmara criticado as grandes potências, por travarem guerras, e instado a que deixem de justificar a posse de armas nucleares como forma de dissuasão. “Ao minimizar-se a desumanidade das armas nucleares e ao aceitar-se o recurso à força, para prosseguir a própria prosperidade, há riscos de ciclos de retaliação violenta que podem acabar por resultar noutro Hiroxima ou Nagasaki”, afirmou Kazumi Matsui, na declaração de paz lida na cerimónia no Parque Memorial da Paz de Hiroxima.

Segundo o autarca, demasiados responsáveis políticos consideram a dissuasão nuclear uma abordagem realista e a legitimar a violência, o que “apenas empurra um Mundo sem armas nucleares, ainda mais para longe”. Ante cerca de 50 mil pessoas, incluindo representantes de cerca de 120 países e regiões, entre eles os EUA e o Irão, que assistir à cerimónia, Matsui pediu também a cada cidadão que tire lições do passado e passe à ação.

Observou‑se um minuto de silêncio, enquanto o sino da paz tocou às 8h15, a hora a que um bombardeiro B‑29 dos EUA lançou a bomba sobre a cidade. A primeira‑ministra, Sanae Takaichi, que participou no memorial, pela primeira vez, como chefe do governo, prometeu seguir “uma abordagem realista” para um Mundo em que as armas nucleares nunca sejam utilizadas, no quadro do tratado das Nações Unidas, para impedir a sua proliferação.

A cerimónia realizou‑se numa altura em que cresce a especulação de que o governo, que apoia a ideia de dissuasão nuclear, flexibilizará os três princípios não nucleares do pós‑guerra, quando elaborar novos documentos de segurança e defesa, neste ano. Efetivamente, Takaichi tem defendido a revisão desses princípios, admitindo a possibilidade de abandonar o terceiro, que proíbe a entrada de armas nucleares no país. Até disse que o Japão tem mantido os três princípios não nucleares, mas evitou comprometer‑se a manter essa política no futuro.

Os sobreviventes manifestam frustração e preocupação com o crescente apoio, na comunidade internacional, incluindo o Japão, à posse de armas nucleares para fins de dissuasão. Com efeito, o Japão está sob proteção do guarda‑chuva nuclear dos EUA e tem, repetidamente, pedido a Washington garantias do seu empenho e proteção reforçada. Por esse motivo, o governo japonês tem rejeitado o pedido dos sobreviventes para assinar o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares ou para participar nas respetivas reuniões, como observador.

O bombardeamento de Hiroxima, a 6 de agosto de 1945, destruiu a cidade e matou 140 mil pessoas. Uma segunda bomba lançada, três dias depois, em Nagasaki provocou 70 mil mortos. O Japão rendeu‑se a 15 de agosto, pondo fim à II Guerra Mundial e a quase meio século de agressão japonesa na Ásia. O número de sobreviventes desceu para 91105, cerca de 25% do total inicial, com idade média superior a 86 anos. Muitos receiam que a memória se esteja a esbater, pois os mais novos eram demasiado crianças para recordarem, claramente, o facto.

“O horror das armas nucleares é apenas uma das lições de Hiroxima. Outra é a necessidade de construir um Mundo em que a ameaça ou utilização dessas armas se torne impensável”, afirmou o secretário‑geral da Organização das Nações Unidas (ONU), numa declaração escrita, vincando: “Hiroshima é um exemplo inspirador de resiliência, [de] renovação e [de] esperança. Ao longo das gerações, os seus habitantes lembram‑nos que, mesmo depois dos momentos mais sombrios, podemos escolher e construir um futuro diferente.”

E António Guterres apelou ao “diálogo, em vez de divisão, [à] cooperação, em vez de confronto [e] à segurança comum, em vez de vantagens estreitas”.

Na recordação do 81.º aniversário do bombardeamento atómico dos EUA a Nagasaki, o presidente da câmara classificou as armas nucleares como “mal absoluto”, criticou o apoio à dissuasão nuclear e instou o governo a cumprir os três princípios não nucleares do pós-guerra, pois os dirigentes nipónicos procuram relançar o debate sobre as armas nucleares, desafiando a posição pacifista que o país mantém, há muito tempo. Na verdade, a Constituição renuncia ao uso de força militar ofensiva e sucessivos governos têm mantido o compromisso de décadas: não possuir armas nucleares, não as produzir, nem permitir a sua introdução no país.

Este compromisso está sob pressão, à medida que os vizinhos do Leste Asiático, em particular, a China, reforçam as suas capacidades militares, enquanto persistem dúvidas sobre a fiabilidade do principal garante de segurança de Tóquio, os EUA. A primeira-ministra japonesa recusou esclarecer se manterá a posição dos três princípios não nucleares, e o ministro da Defesa, Shinjiro Koizumi, apelou, em julho, a uma discussão sem tabus, sobre o tema.

Em dezembro de 2025, um alto responsável da administração, não identificado, disse aos meios de comunicação locais, numa sessão em off, que o Japão deveria possuir armas nucleares, o que foi amplamente noticiado pelos principais órgãos japoneses, incluindo a cadeia pública NHK e o Asahi Shimbun, desencadeando críticas públicas.

“Se olhar para isto com cinismo, não posso deixar de pensar que talvez ela queira mesmo mudar”, afirma Satoshi Tanaka, 82 anos, ativista que sobreviveu ao bombardeamento atómico de Hiroxima e que tem dedicado a vida à defesa do compromisso antinuclear do Japão. Os ataques às duas cidades, em agosto de 1945, levado a cabo pelos EUA, matou mais de 210 mil pessoas, muitas delas, devido aos efeitos da exposição à radiação.

Continua a ser a única vez em que armas atómicas foram usadas em combate e foi um dos últimos grandes acontecimentos da II Guerra Mundial.

O governo de Takaichi, que está a proceder a profunda atualização da estratégia nacional de defesa, face à expansão das ambições militares da China, já levantou a proibição autoimposta de exportar armas, aumentou a despesa em defesa e procura alterar a Constituição. Porém, esta nova política já suscitou críticas da China, que acusa o Japão de “novo militarismo” e Takaichi de ceder aos desígnios da extrema-direita; e inquieta, como dissemos, os sobreviventes, que ajudam, há muito, a moldar a cultura política pacifista do Japão no pós-guerra.

O sobrevivente Tanaka manifestou frustração por os atuais dirigentes políticos, como Takaichi, se concentrarem na capacidade militar em detrimento da diplomacia. “Fala-se tanto em segurança nacional. E construir paz através da diplomacia?”, questionou.

Apesar de terem sido galardoados com o Prémio Nobel da Paz de 2024, pelo seu trabalho, debatem, agora, se devem manter a associação nacional, à medida que os seus membros envelhecem. De facto, em março deste ano, o Japão reconhecia pouco mais de 91 mil sobreviventes dos ataques a Hiroxima e a Nagasaki, contra mais de 164 mil, há uma década. A idade média é de 86,7 anos.

O debate concentra-se, agora, de forma clara, no futuro dos princípios não nucleares, em vigor, desde 1967. Os apoiantes de Takaichi defendem que a última cláusula deve ser alterada, para permitir aos EUA levarem armas nucleares para o Japão e para se reforçar a dissuasão na região. E Hirofumi Yoshimura, líder do Partido da Inovação do Japão, parceiro de coligação do governo de Takaichi, afirmou que o princípio merece ser discutido, no contexto da aliança de segurança entre Washington e Tóquio. “Claro que temos de trabalhar para construir um Mundo sem armas nucleares”, disse Yoshimura aos jornalistas, vincando que, ao ponderar como garantir a eficácia da dissuasão nuclear no quadro da aliança com os EUA, se deve continuar a respeitar o princípio de “não possuir, nem produzir’ armas nucleares.

Os críticos sustentam que a postura dura de Takaichi, em matéria de defesa, aumenta o risco para o Japão. Depois de Takaichi ter participado na cerimónia anual, em Hiroshima, no dia 6, reuniu-se, em direto na televisão, com sobreviventes. Confrontada com perguntas insistentes, recusou esclarecer se pondera alterar o rumo nuclear do país. “O nosso país respeita, atualmente, os ‘três princípios não nucleares’”, respondeu a uma pergunta de Tanaka, sem abordar o que fará a seguir. “Isso”, afirmou Tanaka, no dia 7, “explica a situação atual, não diz nada do futuro.

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A II Guerra Mundial terminou, na Europa, quando a Alemanha nazi assinou o acordo de rendição, a 8 de maio de 1945, mas continuou a guerra no Pacífico. Após a campanha de bombardeamentos que destruíram várias cidades japonesas, os Aliados pensaram invadir o país. Os EUA, o Reino Unido e a China, a 26 de julho, na Declaração de Potsdam, exigiram a rendição incondicional das forças armadas nipónicas, ameaçando com destruição rápida e total.

Em agosto, o Projeto Manhattan dos Aliados tinha testado, com sucesso, um artefacto atómico e produzido armas com base em dois projetos alternativos. O 509.º grupo das forças aéreas norte-americanas foi equipado com aeronaves Boeing B-29 Superfortress que poderiam ficar em Tinian, nas Ilhas Marianas. A bomba atómica de urânio (“Little Boy”) foi lançada em Hiroxima, a 6 de agosto, seguida da explosão da bomba nuclear de plutónio (“Fat Man”) em Nagasaki, a 9 de agosto. Nos primeiros dois a quatro meses, os efeitos agudos das explosões mataram entre 90 mil e 166 mil pessoas, em Hiroxima, e 60 mil e 80 mil, em Nagasaki. Cerca de metade das mortes ocorreu no primeiro dia. Nos meses seguintes, várias pessoas morreram, em razão de envenenamento radioativo e de outras lesões, agravadas pela radiação. Em ambas as cidades, a maioria dos mortos era de civis, embora Hiroxima tivesse muitos militares.

A 15 de agosto, poucos dias depois do bombardeamento de Nagasaki e da declaração de guerra da União Soviética, o Japão rendeu-se aos Aliados. E, a 2 de setembro, o governo assinou o acordo de rendição, pondo fim à II Guerra Mundial.

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Os bombardeamentos na rendição do Japão e a sua justificação ética são motivo de debate.

A época, Hiroxima era importante cidade industrial e militar. Algumas unidades militares estavam localizadas nas proximidades, a mais importante das quais era a sede do Segundo Exército Geral do Marechal Shunroku Hata, que estava localizada no castelo de Hiroxima. Também presente em Hiroxima era a sede do 59.º Exército, da 5.ª Divisão e da 224.ª Divisão (unidade móvel recém-formada). A cidade, defendida por cinco baterias antiaéreas da 3.ª Divisão antiaérea, era uma base de suprimentos e de logística de menor importância, para os militares, mas tinha grandes stocks de suprimentos militares e era um grande centro de comunicações, um porto-chave para o transporte marítimo e uma área de reunião para tropas.

O centro da cidade continha vários edifícios de betão armado e estruturas mais leves. Fora do centro, a área era congestionada por denso aglomerado de oficinas de madeira, entre as casas. Algumas plantas industriais maiores ficavam junto à periferia. As casas eram de madeira e cobertas de e muitos dos edifícios industriais eram construídos em torno de estruturas de madeira. A cidade como um todo, era suscetível a danos por fogo.

A população tinha atingido mais de 381 mil habitantes, no início da guerra, mas antes do bombardeamento atómico, tinha diminuído, de forma constante, devido à evacuação ordenada pelo governo. Aquando do ataque, era de 340 a 350 mil pessoas.

Nagasaki era um dos maiores portos do Sul do Japão e de grande importância, em tempo de guerra, devido à abrangente atividade industrial, que incluía a produção de material bélico, navios, equipamentos militares e outros materiais de guerra. Apesar de ser importante centro industrial, tinha sido poupada aos bombardeamentos aliados, porque a sua geografia tornava sua localização difícil, à noite, com o radar NA/APQ-13. Ao invés das outras cidades-alvo, não foi excluída dos limites dos bombardeiros pela diretiva do Joint Chiefs of Staff, de 3 de julho e foi bombardeada, em pequena escala, cinco vezes. Numa delas, a 1 de agosto, foi lançada uma série de bombas convencionais sobre a cidade, tendo algumas acertado nos estaleiros e nos portos na região sudoeste da cidade e várias atingido a Mitsubishi Steel and Arms Works.

Contrastando com Hiroxima, os edifícios eram de construção tradicional antiquada, isto é, em madeira, com ou sem gesso, e telhado. Muitas pequenas indústrias e estabelecimentos comerciais estavam localizados em edifícios de madeira ou de outros materiais não concebidos para suportar explosões. Nagasaki cresceu, por muito tempo, sem plano urbanístico; as residências foram erguidas ao lado de fábricas, tão perto como possível, ao longo de todo o vale industrial. Aquando do atentado, estavam ali cerca de 263 mil pessoas, incluindo 240 mil residentes japoneses, 10 mil moradores coreanos, 2,5 mil trabalhadores coreanos recrutados, nove mil soldados japoneses, 600 trabalhadores chineses e 400 prisioneiros de guerra aliados.

O papel dos bombardeamentos na rendição do Japão e a justificativa ética dos EUA para esse ataque tem sido objeto de debate académico e popular. J. Samuel Walker, em abril de 2005, escreveu que, sendo questão fundamental (que divide os estudiosos), “parece certa para continuar a controvérsia sobre o uso da bomba”, se era necessário para a vitória na Guerra do Pacífico, em condições satisfatórias para os EUA.

Os apoiantes dos bombardeamentos afirmam que levaram a rendição japonesa, evitando baixas, em ambos os lados. Uma figura de linguagem, “cem milhões [súditos do Império Japonês] vão morrer pelo Imperador e pela Nação”, serviu de slogan unificador. Harry S. Truman afirma, em Memoirs, de 1955, que a bomba evitou meio milhão de mortes norte-americanas antecipadas, na invasão do Japão pelos Aliados prevista para novembro. E, para Winston Churchill, as bombas salvaram um milhão de norte-americanos e meio milhão de vidas britânicas.

Alguns estudiosos apontam alternativas que podiam ter terminado a guerra sem invasão, mas causando a morte de muito mais japoneses. E outros julgam que é imoral a bomba atómica, que o seu uso, militarmente desnecessário, é crime de guerra, terrorismo de guerra e que, no caso vertente, configurou racismo e desumanização contra o povo japonês.

Em 1963, o Tribunal Distrital de Tóquio, negou a indemnização numa ação interposta por sobreviventes contra o governo, mas declarou que o lançamento de bombas atómicas, como o ato de hostilidade, era ilegal, segundo o direito internacional positivo (considerando os tratados e o direito consuetudinário), então em vigor ); que foi ato ilícito no plano da lei municipal; que é imputável aos EUA e ao seu presidente; e que deve ser considerado como bombardeamento aéreo indiscriminado de cidades abertas, ainda que fosse direcionado para objetivos militares, já que resultou em danos comparáveis as do bombardeamento  indiscriminado.

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Seja como for, é condenável tão volumoso morticínio, repentino ou a prazo, tal como é temerário, desumano e diabólico persistir no fabrico e no uso de armas nucleares.

2026.08.09 – Louro de Carvalho

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