O
palácio real de Oslo informou que o rei Harald V faleceu no Hospital Universitário
Rikshospitalet, na capital, às 06h35 de 28 de agosto. Estava internado
desde o dia 17, para tratamento de doença sanguínea rara: anemia
hemolítica, doença do sangue que provoca muito rápida destruição dos glóbulos
vermelhos. Era o monarca mais velho da Europa. Modernizou a casa real, mas
recusou o exemplo de reis idosos que abdicaram.
O
agravamento da saúde do soberano, de 89 anos, levou a rainha Sonja e o príncipe
herdeiro Haakon, regente, a cancelarem compromissos oficiais e a irem para
junto do rei, com outros membros da família real. E a notícia desencadeou uma
onda de apoio público, em Oslo. Centenas de pessoas reuniram-se junto ao
Palácio Real, onde deixaram flores, acenderam velas e colocaram mensagens
manuscritas e desenhos. Registaram-se encontros similares noutras cidades,
enquanto a população aguardava informações sobre a saúde do rei.
Também
altas figuras do governo alteraram os seus planos. O primeiro-ministro, Jonas
Gahr Støre, cancelou uma viagem à Alemanha, afirmando que se juntava ao país,
enviando os seus pensamentos ao rei e à família real. E o presidente do
parlamento, Masud Gharahkhani, encurtou uma visita ao estrangeiro, para
regressar à Noruega.
Harald
(1937-2026) enfrentou vários problemas de saúde, nos últimos anos, incluindo a
cirurgia para aplicar um pacemaker. Reduziu a agenda oficial, mas
afastou, repetidamente, a hipótese de abdicar, frisando que o juramento
prestado ante o parlamento é compromisso para toda a vida. Com a sua morte, o filho
tornou-se o rei Haakon VIII. A Constituição foi alterada, em 1990, para
permitir que o primogénito, independentemente do sexo, tivesse prioridade na
linha de sucessão, mas essa alteração não foi aplicada retroativamente, pelo
que Haakon continuou a ter prioridade sobre a irmã.
Tal
como outras casas reais na Europa, os monarcas noruegueses desempenham papel
essencialmente simbólico e gozam de estatuto de celebridade, enquanto o poder
real, nesta democracia de 5,5 milhões de habitantes, recai sobre o parlamento
eleito.
Harald,
coroado a 21 de janeiro de 1991, após a morte do seu pai, o rei Olav V, nascido
no Reino Unido, reinou num período de expansão económica impulsionado pelo
petróleo e pelo gás, no país. Ao assumir o trono, adotou o lema do pai e do
avô: “Tudo pela Noruega!” E passou os anos seguintes a tentar modernizar a
monarquia.
Em
2016, proferiu um inesperado discurso de apoio à igualdade LGBTQ+, aos
refugiados e à tolerância religiosa, vincando que “os noruegueses são raparigas
que amam raparigas, rapazes que amam rapazes e raparigas e rapazes que se amam
uns aos outros”. E frisou que muitos noruegueses emigraram do Afeganistão, do
Paquistão, da Polónia e de outros países e “creem em Deus, em Alá, no universo
e em nada”. O discurso, que exaltou a diversidade da nação escandinava, foi ouvido
e visto por milhões de pessoas nas redes sociais.
No
seu reinado, a família real sofreu poucos escândalos, em comparação com os seus
homólogos nas famílias reais sueca e britânica, embora a filha de Harald,
Märtha Louise, tenha abdicado das funções reais, após ter causado espanto, ao
afirmar que comunicava com anjos e ao assumir o noivado com o xamã norte-americano
Durek Verrett.
A
família real enfrentou nova polémica em 2026, quando a nora de Harald, a
princesa herdeira Mette-Marit, foi escrutinada, devido às ligações com o
falecido agressor sexual Jeffrey Epstein, condenado em 2008. O caso levantou
questões sobre o seu discernimento, embora não tenha sido acusada de qualquer
irregularidade. E, por essa altura, o filho mais velho, Marius Borg Høiby, fruto
de relação anterior à de Haakon, foi condenado, por violação, a quatro anos de
prisão, num julgamento que teve repercussão mediática. Está em prisão
domiciliária, enquanto é julgado o recurso. Porém, não possui títulos
reais, nem funções oficiais.
***
Agora,
o príncipe herdeiro, de 53 anos, tornou-se o rei Haakon VIII, por morte do pai,
Harald V. E a filha mais velha de Haakon torna-se a princesa herdeira Ingrid
Alexandra e sucessora ao trono. Haakon está familiarizado com o cargo, pois
exerceu, várias vezes, as funções de regente, nos últimos anos, com a deterioração
da saúde do pai.
A
monarquia norueguesa remonta ao rei Harald “Cabelo Belo”, no século IX. E,
apesar de o papel do monarca ser, em grande medida, simbólico, a família real
mantém grande visibilidade e desempenha relevante papel na representação internacional
da Noruega.
Haakon
é o filho mais novo de Harald, nascido dois anos depois da irmã. Por ser o
filho varão mais velho, tornou-se herdeiro do trono, quando o avô, o rei Olav,
morreu em 1991. Contou, num livro publicado em 1998, que sonhava, em criança, ter
uma loja de brinquedos, mas cedo percebeu que o caminho estava traçado e que
seria rei. É licenciado em Ciência Política, pela Universidade da Califórnia,
em Berkeley, e mestre em estudos de desenvolvimento, pela London School of
Economics, com especialização em Comércio Internacional e África. Frequentou a
Academia Naval Real da Noruega e concluiu um programa de formação diplomática.
Surfista e esquiador entusiasta, disse, em tempo, ao canal público norueguês NRK
que, se não fosse membro da família real, teria sido surfista. Fã de rock
e de rap, participou em festivais de música em vários pontos da Europa,
na juventude.
Haakon
conheceu Mette-Marit Tjessem Hoiby, mãe solteira, num festival de música, em
1999. A relação entre os dois dividiu a Noruega, em parte, devido às ligações
dela a ambientes festivos onde se consumiam drogas ilegais. Enquanto alguns
celebravam o casal, outros questionavam se ela seria adequada para o futuro
rei. Porém, Haakon obteve a autorização do pai para casar com Mette-Marit e ela
conquistou grande parte da opinião pública. O casal casou na catedral de Oslo,
em agosto de 2001, e tem dois filhos, Ingrid Alexandra e o príncipe Sverre
Magnus. E Haakon é padrasto do filho de Mette-Marit, Marius Borg Hoiby.
O
rei enfrenta o desafio de estabilizar a monarquia e de recuperar a popularidade
da família real, após as revelações de contactos, no passado, da esposa com
Jeffrey Epstein e a condenação do enteado, por violação. Em junho, Hoiby foi
condenado a quatro anos de prisão, depois de ter sido considerado culpado em
duas das quatro acusações de violação. Foi, igualmente, condenado por agressão
e por maus-tratos, numa relação próxima.
O
julgamento de Hoiby decorreu numa altura de novo escrutínio sobre a família
real, devido às ligações de Mette-Marit a Epstein. Ela pediu desculpa por ter
mantido contacto com o agressor sexual, admitindo falta de discernimento, mas
não é acusada de qualquer crime. Além disso, a vida de Mette-Marit não tem sido
fácil, em termos de saúde. A agora rainha está a recuperar de transplante de
pulmão, após sofrer, durante anos, de fibrose pulmonar crónica.
Um
dos desafios de Haakon, como rei, é reconstruir o apoio público à família real,
que tem diminuído, nos últimos anos, e foi afetado pelo julgamento de Hoiby. E
a irmã de Haakon, Martha Louise, tem sido alvo de críticas, devido a crenças
pouco convencionais, incluindo a alegada afirmação de comunicação com anjos. Não
obstante, uma sondagem de 2022, do jornal norueguês Dagbladet indicou
que 68% dos inquiridos apoiava a manutenção da monarquia, mas abaixo dos 81%
registado em sondagem da NRK, em 2017.
***
A
maior conquista do rei da Noruega Harald V não foi apenas preservar a
monarquia, mas tornar significativa uma instituição antiga, numa democracia
moderna. Do seu legado ficam a rutura com as regras da Casa Real sobre o
matrimónio, a mensagem progressista de fraternidade nacional inclusiva e alguns
escândalos.
O
paradoxo de rei numa sociedade igualitária é explicado, em grande medida, pela
personalidade do monarca. Grete Brochmann, professora na Universidade de Oslo e
socióloga norueguesa perita em migrações e integração, descreve-o como demasiado
liberal, inclusivo e moderno, na sua postura, e demasiado cônscio das tradições.
E Cathrine Thorleifsson, antropóloga política e investigadora no Centro de
Estudos do Holocausto e das Minorias Religiosas em Oslo, lembra que Harald,
representante duma instituição baseada em privilégios hereditários, numa das
sociedades mais igualitárias do Mundo, conseguiu que a monarquia parecesse
compatível com o princípio igualitário. Era bom a exercer “uma forma
igualitária de realeza”, pois ocupava posição constitucionalmente superior à
sociedade, mas surgia, emocionalmente, como parte dela. A sua legitimidade não
provinha só da Coroa; foi também construída na relação que estabeleceu com o povo,
ao longo de três décadas e meia. Viajou muito, conheceu pessoas em diferentes
partes do país e apresentou-se não como a personificação de uma ordem social
superior, mas como um norueguês que ocupava uma posição constitucional
extraordinária.
Contudo,
a antropóloga política sustenta que “não devemos presumir que a afeição por
Harald se traduza, automaticamente, em apoio idêntico à monarquia”, pois Harald
era “extraordinariamente bem visto”, enquanto o apoio à instituição tinha
enfraquecido.
Harald
V, o primeiro rei da Noruega nascido, a 21 de fevereiro de 1937, no país, desde
o século XIV, e membro de linhagem centenária com laços com a monarquia
britânica (primo afastado de Carlos III), foi um dos responsáveis por não
reduzir a monarquia a relíquia do feudalismo, num Estado marcado pela tradição
social-democrata e numa Europa em que a maioria destes regimes políticos
desapareceu, no final da I e da II Guerras Mundiais. Morreu por infeção
bacteriana no sangue. Ainda recuperou, o que lhe valeu o título de “viking
invencível”, cognome atribuído a Harald Hardrada, considerado o primeiro rei
norueguês, cerca do ano 890.
As
palavras do primeiro-ministro, Jonas Gahr Store, reagindo ao óbito, revelam o
que o monarca significava: “Uma nação inteira está de luto e o povo da Noruega
fica com um profundo sentimento de gratidão por uma vida longa ao serviço da
Noruega. O rei Harald encontrou as palavras para nos unir, quando mais
precisávamos delas.”
A
descoberta dos casos que envolveram a agora a rainha e o seu filho mais velho
levaram grandes setores da população a questionar a legitimidade de Mette-Marit
como futura rainha. Outros apelaram à abolição da monarquia. Porém, a
controvérsia em torno de Epstein e de Mette-Marit não foi o primeiro ponto de
inflexão da Casa Real, no reinado de Harald V. Em 2001, Haakon, o príncipe
herdeiro, casou com Mette-Marit Tjessem Hoiby, antiga empregada de mesa,
divorciada e mãe solteira. O matrimónio foi possível, graças ao processo de
Harald. O monarca permitiu que pessoas sem antepassados reais acedessem à
Casa de Glücksburg, que reina no Estado escandinavo, desde 1905. Em desafio ao
pai, o rei Olav V, ameaçou não casar, se os seus planos fossem frustrados. O
rei Olav levou nove anos a ceder, o que só ocorreu quando fotografias do casal
apareceram nos jornais. “Eu tinha sentimentos contraditórios porque estava
apaixonado por Sonja, mas sentia-me culpado pelo meu pai e pela Noruega”, disse
o primeiro herdeiro europeu do trono a casar com mulher não princesa, à rádio NRK,
anos depois. Harald tinha intenção de casar com Sonja Haraldsen, filha de um
comerciante de vestuário e estudante na Universidade de Oslo, o que aconteceu
em 1968, após Olav V ter consultado o presidente do Parlamento, outros líderes
políticos e o governo. Os dois filhos de Harald seguiram-lhe o exemplo, casando
com gente da plebe.
O
que Harald fez, tornando-se “rei do povo” (“Folkekonge”) foi negociar entre a
distância e a proximidade de formas completamente distintas do passado,
trabalhando numa nova era dos media. Esteve muito mais disponível para
os media do que os seus antecessores. O rei Haakon, seu avô, nunca deu
uma entrevista.
Robert
Hazell, professor de Governação e Constituição na University College London,
que lidera o trabalho da “Constitution Unit” sobre monarquias, lembra que, na
crise petrolífera dos anos 1970, com restrições à circulação automóvel, o rei
apanhou o elétrico, como o cidadão comum. E, quando ele e Sonja subiram ao
trono, em 1991, empenharam-se na modernização da organização, que cresceu
imenso, desde o tempo do rei Olav; e, entre outras coisas, criou o seu departamento
de comunicação. E as dificuldades de Harald para conquistar Sonja fizeram com
que desse total liberdade aos filhos, na escolha dos parceiros, o que também revela
modernização, embora alguns anotem que isso teve consequências para a monarquia
norueguesa (e para outras), nos últimos anos.
Apesar
da modernidade de Harald V, muitos veem-no como símbolo de uma velha Europa, do
século XX, já que foi o último soberano a viver a II Guerra Mundial. Quando
nasceu, em 1937, o príncipe herdeiro Olav e a princesa Märtha, de nacionalidade
sueca, tinham duas filhas, a princesa Ragnhild, que morreu em 2012, e a
princesa Astrid. Porém, pelas leis de sucessão, não tinham direito ao trono.
Harald (o chefe de Estado era Haakon VII, seu avô, dinamarquês de nascimento)
passou os primeiros anos na residência oficial de Skaugum, em Asker. Entretanto,
mudou tudo, para a Noruega e para a Casa Real. A 9 de abril de 1940, as forças
do Terceiro Reich invadiram aquele Estado, que se mantinha neutro. A família real
e o governo tiveram de fugir de Oslo, de comboio. O rei e o príncipe herdeiro
Olav refugiaram-se nas montanhas e lideraram a resistência, enquanto aguardavam
a ajuda dos Aliados. Já Harald partia com a princesa Märtha e as irmãs para a
Suécia, donde seguiam, de navio para os Estados Unidos da América (EUA). Em
Washington, receberam o apoio do presidente Franklin D. Roosevelt.
Haakon
e Olav mudaram-se para o Reino Unido e estabeleceram um governo no exílio, que
durou até ao fim da guerra, em 1945. A família regressou à Noruega a 7 de junho
de 1945, a bordo do navio britânico HMS Norfolk, e foi recebida pela população
em júbilo.
O
percurso académico de Harald passou pela Escola da Catedral de Oslo, onde se
formou em Ciências e desenvolveu o domínio do Inglês, do Francês e do Alemão.
Na carreira militar, foi general, no Exército e na Força Aérea, e almirante na
Marinha. Foi proclamado príncipe herdeiro, a 21 de setembro de 1957, após a
ascensão do seu pai ao trono, como Olav V.
Apesar
de não ter modernizado, profundamente, a instituição, renovou o seu
vocabulário, o que ficou patente no discurso sobre os ataques terroristas (com
bomba e tiros) de 2011 (na ilha de Utøya e em Oslo), nos quais morreram mais de
70 pessoas. Apelando à união, exortou os cidadãos a combaterem o ódio, com
abertura à liberdade e à democracia, e reforçou que o país não permitiria que o
terror alterasse a sua cultura de abertura.
A
legitimidade institucional e o mandato da monarquia popular são automaticamente
transferidos, mas não a confiança retórica acumulada por Harald, ao longo de
mais de três décadas, calibrando, discurso a discurso, até que ponto alargar os
limites do “nós” à medida que a Noruega mudava. Haakon herda uma Noruega mais
diversificada do que qualquer um dos seus antecessores e a plataforma
institucional para se lhe dirigir, mas o equilíbrio entre retórica unificadora
e honesto envolvimento com as tensões do país é o que terá de construir por si.
Para
republicanos simpatizantes com monarquias fica a mensagem de que as sociedades
são renováveis e evolutivas, em qualquer regime. O que conta são as pessoas.
2026.08.28
– Louro de Carvalho
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