sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Noruega: rei morto, rei posto. Faleceu o monarca mais velho da Europa

 

O palácio real de Oslo informou que o rei Harald V faleceu no Hospital Universitário Rikshospitalet, na capital, às 06h35 de 28 de agosto. Estava internado desde o dia 17, para tratamento de doença sanguínea rara: anemia hemolítica, doença do sangue que provoca muito rápida destruição dos glóbulos vermelhos. Era o monarca mais velho da Europa. Modernizou a casa real, mas recusou o exemplo de reis idosos que abdicaram.

O agravamento da saúde do soberano, de 89 anos, levou a rainha Sonja e o príncipe herdeiro Haakon, regente, a cancelarem compromissos oficiais e a irem para junto do rei, com outros membros da família real. E a notícia desencadeou uma onda de apoio público, em Oslo. Centenas de pessoas reuniram-se junto ao Palácio Real, onde deixaram flores, acenderam velas e colocaram mensagens manuscritas e desenhos. Registaram-se encontros similares noutras cidades, enquanto a população aguardava informações sobre a saúde do rei.

Também altas figuras do governo alteraram os seus planos. O primeiro-ministro, Jonas Gahr Støre, cancelou uma viagem à Alemanha, afirmando que se juntava ao país, enviando os seus pensamentos ao rei e à família real. E o presidente do parlamento, Masud Gharahkhani, encurtou uma visita ao estrangeiro, para regressar à Noruega.

Harald (1937-2026) enfrentou vários problemas de saúde, nos últimos anos, incluindo a cirurgia para aplicar um pacemaker. Reduziu a agenda oficial, mas afastou, repetidamente, a hipótese de abdicar, frisando que o juramento prestado ante o parlamento é compromisso para toda a vida. Com a sua morte, o filho tornou-se o rei Haakon VIII. A Constituição foi alterada, em 1990, para permitir que o primogénito, independentemente do sexo, tivesse prioridade na linha de sucessão, mas essa alteração não foi aplicada retroativamente, pelo que Haakon continuou a ter prioridade sobre a irmã.

Tal como outras casas reais na Europa, os monarcas noruegueses desempenham papel essencialmente simbólico e gozam de estatuto de celebridade, enquanto o poder real, nesta democracia de 5,5 milhões de habitantes, recai sobre o parlamento eleito.

Harald, coroado a 21 de janeiro de 1991, após a morte do seu pai, o rei Olav V, nascido no Reino Unido, reinou num período de expansão económica impulsionado pelo petróleo e pelo gás, no país. Ao assumir o trono, adotou o lema do pai e do avô: “Tudo pela Noruega!” E passou os anos seguintes a tentar modernizar a monarquia.

Em 2016, proferiu um inesperado discurso de apoio à igualdade LGBTQ+, aos refugiados e à tolerância religiosa, vincando que “os noruegueses são raparigas que amam raparigas, rapazes que amam rapazes e raparigas e rapazes que se amam uns aos outros”. E frisou que muitos noruegueses emigraram do Afeganistão, do Paquistão, da Polónia e de outros países e “creem em Deus, em Alá, no universo e em nada”. O discurso, que exaltou a diversidade da nação escandinava, foi ouvido e visto por milhões de pessoas nas redes sociais.

No seu reinado, a família real sofreu poucos escândalos, em comparação com os seus homólogos nas famílias reais sueca e britânica, embora a filha de Harald, Märtha Louise, tenha abdicado das funções reais, após ter causado espanto, ao afirmar que comunicava com anjos e ao assumir o noivado com o xamã norte-americano Durek Verrett.

A família real enfrentou nova polémica em 2026, quando a nora de Harald, a princesa herdeira Mette-Marit, foi escrutinada, devido às ligações com o falecido agressor sexual Jeffrey Epstein, condenado em 2008. O caso levantou questões sobre o seu discernimento, embora não tenha sido acusada de qualquer irregularidade. E, por essa altura, o filho mais velho, Marius Borg Høiby, fruto de relação anterior à de Haakon, foi condenado, por violação, a quatro anos de prisão, num julgamento que teve repercussão mediática. Está em prisão domiciliária, enquanto é julgado o recurso. Porém, não possui títulos reais, nem funções oficiais.

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Agora, o príncipe herdeiro, de 53 anos, tornou-se o rei Haakon VIII, por morte do pai, Harald V. E a filha mais velha de Haakon torna-se a princesa herdeira Ingrid Alexandra e sucessora ao trono. Haakon está familiarizado com o cargo, pois exerceu, várias vezes, as funções de regente, nos últimos anos, com a deterioração da saúde do pai.

A monarquia norueguesa remonta ao rei Harald “Cabelo Belo”, no século IX. E, apesar de o papel do monarca ser, em grande medida, simbólico, a família real mantém grande visibilidade e desempenha relevante papel na representação internacional da Noruega.

Haakon é o filho mais novo de Harald, nascido dois anos depois da irmã. Por ser o filho varão mais velho, tornou-se herdeiro do trono, quando o avô, o rei Olav, morreu em 1991. Contou, num livro publicado em 1998, que sonhava, em criança, ter uma loja de brinquedos, mas cedo percebeu que o caminho estava traçado e que seria rei. É licenciado em Ciência Política, pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, e mestre em estudos de desenvolvimento, pela London School of Economics, com especialização em Comércio Internacional e África. Frequentou a Academia Naval Real da Noruega e concluiu um programa de formação diplomática. Surfista e esquiador entusiasta, disse, em tempo, ao canal público norueguês NRK que, se não fosse membro da família real, teria sido surfista. Fã de rock e de rap, participou em festivais de música em vários pontos da Europa, na juventude.

Haakon conheceu Mette-Marit Tjessem Hoiby, mãe solteira, num festival de música, em 1999. A relação entre os dois dividiu a Noruega, em parte, devido às ligações dela a ambientes festivos onde se consumiam drogas ilegais. Enquanto alguns celebravam o casal, outros questionavam se ela seria adequada para o futuro rei. Porém, Haakon obteve a autorização do pai para casar com Mette-Marit e ela conquistou grande parte da opinião pública. O casal casou na catedral de Oslo, em agosto de 2001, e tem dois filhos, Ingrid Alexandra e o príncipe Sverre Magnus. E Haakon é padrasto do filho de Mette-Marit, Marius Borg Hoiby.

O rei enfrenta o desafio de estabilizar a monarquia e de recuperar a popularidade da família real, após as revelações de contactos, no passado, da esposa com Jeffrey Epstein e a condenação do enteado, por violação. Em junho, Hoiby foi condenado a quatro anos de prisão, depois de ter sido considerado culpado em duas das quatro acusações de violação. Foi, igualmente, condenado por agressão e por maus-tratos, numa relação próxima.

O julgamento de Hoiby decorreu numa altura de novo escrutínio sobre a família real, devido às ligações de Mette-Marit a Epstein. Ela pediu desculpa por ter mantido contacto com o agressor sexual, admitindo falta de discernimento, mas não é acusada de qualquer crime. Além disso, a vida de Mette-Marit não tem sido fácil, em termos de saúde. A agora rainha está a recuperar de transplante de pulmão, após sofrer, durante anos, de fibrose pulmonar crónica.

Um dos desafios de Haakon, como rei, é reconstruir o apoio público à família real, que tem diminuído, nos últimos anos, e foi afetado pelo julgamento de Hoiby. E a irmã de Haakon, Martha Louise, tem sido alvo de críticas, devido a crenças pouco convencionais, incluindo a alegada afirmação de comunicação com anjos. Não obstante, uma sondagem de 2022, do jornal norueguês Dagbladet indicou que 68% dos inquiridos apoiava a manutenção da monarquia, mas abaixo dos 81% registado em sondagem da NRK, em 2017.

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A maior conquista do rei da Noruega Harald V não foi apenas preservar a monarquia, mas tornar significativa uma instituição antiga, numa democracia moderna. Do seu legado ficam a rutura com as regras da Casa Real sobre o matrimónio, a mensagem progressista de fraternidade nacional inclusiva e alguns escândalos.

O paradoxo de rei numa sociedade igualitária é explicado, em grande medida, pela personalidade do monarca. Grete Brochmann, professora na Universidade de Oslo e socióloga norueguesa perita em migrações e integração, descreve-o como demasiado liberal, inclusivo e moderno, na sua postura, e demasiado cônscio das tradições. E Cathrine Thorleifsson, antropóloga política e investigadora no Centro de Estudos do Holocausto e das Minorias Religiosas em Oslo, lembra que Harald, representante duma instituição baseada em privilégios hereditários, numa das sociedades mais igualitárias do Mundo, conseguiu que a monarquia parecesse compatível com o princípio igualitário. Era bom a exercer “uma forma igualitária de realeza”, pois ocupava posição constitucionalmente superior à sociedade, mas surgia, emocionalmente, como parte dela. A sua legitimidade não provinha só da Coroa; foi também construída na relação que estabeleceu com o povo, ao longo de três décadas e meia. Viajou muito, conheceu pessoas em diferentes partes do país e apresentou-se não como a personificação de uma ordem social superior, mas como um norueguês que ocupava uma posição constitucional extraordinária.

Contudo, a antropóloga política sustenta que “não devemos presumir que a afeição por Harald se traduza, automaticamente, em apoio idêntico à monarquia”, pois Harald era “extraordinariamente bem visto”, enquanto o apoio à instituição tinha enfraquecido.

Harald V, o primeiro rei da Noruega nascido, a 21 de fevereiro de 1937, no país, desde o século XIV, e membro de linhagem centenária com laços com a monarquia britânica (primo afastado de Carlos III), foi um dos responsáveis por não reduzir a monarquia a relíquia do feudalismo, num Estado marcado pela tradição social-democrata e numa Europa em que a maioria destes regimes políticos desapareceu, no final da I e da II Guerras Mundiais. Morreu por infeção bacteriana no sangue. Ainda recuperou, o que lhe valeu o título de “viking invencível”, cognome atribuído a Harald Hardrada, considerado o primeiro rei norueguês, cerca do ano 890.

As palavras do primeiro-ministro, Jonas Gahr Store, reagindo ao óbito, revelam o que o monarca significava: “Uma nação inteira está de luto e o povo da Noruega fica com um profundo sentimento de gratidão por uma vida longa ao serviço da Noruega. O rei Harald encontrou as palavras para nos unir, quando mais precisávamos delas.”

A descoberta dos casos que envolveram a agora a rainha e o seu filho mais velho levaram grandes setores da população a questionar a legitimidade de Mette-Marit como futura rainha. Outros apelaram à abolição da monarquia. Porém, a controvérsia em torno de Epstein e de Mette-Marit não foi o primeiro ponto de inflexão da Casa Real, no reinado de Harald V. Em 2001, Haakon, o príncipe herdeiro, casou com Mette-Marit Tjessem Hoiby, antiga empregada de mesa, divorciada e mãe solteira. O matrimónio foi possível, graças ao processo de Harald. O monarca permitiu que pessoas sem antepassados ​​reais acedessem à Casa de Glücksburg, que reina no Estado escandinavo, desde 1905. Em desafio ao pai, o rei Olav V, ameaçou não casar, se os seus planos fossem frustrados. O rei Olav levou nove anos a ceder, o que só ocorreu quando fotografias do casal apareceram nos jornais. “Eu tinha sentimentos contraditórios porque estava apaixonado por Sonja, mas sentia-me culpado pelo meu pai e pela Noruega”, disse o primeiro herdeiro europeu do trono a casar com mulher não princesa, à rádio NRK, anos depois. Harald tinha intenção de casar com Sonja Haraldsen, filha de um comerciante de vestuário e estudante na Universidade de Oslo, o que aconteceu em 1968, após Olav V ter consultado o presidente do Parlamento, outros líderes políticos e o governo. Os dois filhos de Harald seguiram-lhe o exemplo, casando com gente da plebe.

O que Harald fez, tornando-se “rei do povo” (“Folkekonge”) foi negociar entre a distância e a proximidade de formas completamente distintas do passado, trabalhando numa nova era dos media. Esteve muito mais disponível para os media do que os seus antecessores. O rei Haakon, seu avô, nunca deu uma entrevista.

Robert Hazell, professor de Governação e Constituição na University College London, que lidera o trabalho da “Constitution Unit” sobre monarquias, lembra que, na crise petrolífera dos anos 1970, com restrições à circulação automóvel, o rei apanhou o elétrico, como o cidadão comum. E, quando ele e Sonja subiram ao trono, em 1991, empenharam-se na modernização da organização, que cresceu imenso, desde o tempo do rei Olav; e, entre outras coisas, criou o seu departamento de comunicação. E as dificuldades de Harald para conquistar Sonja fizeram com que desse total liberdade aos filhos, na escolha dos parceiros, o que também revela modernização, embora alguns anotem que isso teve consequências para a monarquia norueguesa (e para outras), nos últimos anos.

Apesar da modernidade de Harald V, muitos veem-no como símbolo de uma velha Europa, do século XX, já que foi o último soberano a viver a II Guerra Mundial. Quando nasceu, em 1937, o príncipe herdeiro Olav e a princesa Märtha, de nacionalidade sueca, tinham duas filhas, a princesa Ragnhild, que morreu em 2012, e a princesa Astrid. Porém, pelas leis de sucessão, não tinham direito ao trono. Harald (o chefe de Estado era Haakon VII, seu avô, dinamarquês de nascimento) passou os primeiros anos na residência oficial de Skaugum, em Asker. Entretanto, mudou tudo, para a Noruega e para a Casa Real. A 9 de abril de 1940, as forças do Terceiro Reich invadiram aquele Estado, que se mantinha neutro. A família real e o governo tiveram de fugir de Oslo, de comboio. O rei e o príncipe herdeiro Olav refugiaram-se nas montanhas e lideraram a resistência, enquanto aguardavam a ajuda dos Aliados. Já Harald partia com a princesa Märtha e as irmãs para a Suécia, donde seguiam, de navio para os Estados Unidos da América (EUA). Em Washington, receberam o apoio do presidente Franklin D. Roosevelt.

Haakon e Olav mudaram-se para o Reino Unido e estabeleceram um governo no exílio, que durou até ao fim da guerra, em 1945. A família regressou à Noruega a 7 de junho de 1945, a bordo do navio britânico HMS Norfolk, e foi recebida pela população em júbilo.

O percurso académico de Harald passou pela Escola da Catedral de Oslo, onde se formou em Ciências e desenvolveu o domínio do Inglês, do Francês e do Alemão. Na carreira militar, foi general, no Exército e na Força Aérea, e almirante na Marinha. Foi proclamado príncipe herdeiro, a 21 de setembro de 1957, após a ascensão do seu pai ao trono, como Olav V.

Apesar de não ter modernizado, profundamente, a instituição, renovou o seu vocabulário, o que ficou patente no discurso sobre os ataques terroristas (com bomba e tiros) de 2011 (na ilha de Utøya e em Oslo), nos quais morreram mais de 70 pessoas. Apelando à união, exortou os cidadãos a combaterem o ódio, com abertura à liberdade e à democracia, e reforçou que o país não permitiria que o terror alterasse a sua cultura de abertura.

A legitimidade institucional e o mandato da monarquia popular são automaticamente transferidos, mas não a confiança retórica acumulada por Harald, ao longo de mais de três décadas, calibrando, discurso a discurso, até que ponto alargar os limites do “nós” à medida que a Noruega mudava. Haakon herda uma Noruega mais diversificada do que qualquer um dos seus antecessores e a plataforma institucional para se lhe dirigir, mas o equilíbrio entre retórica unificadora e honesto envolvimento com as tensões do país é o que terá de construir por si.

 

Para republicanos simpatizantes com monarquias fica a mensagem de que as sociedades são renováveis e evolutivas, em qualquer regime. O que conta são as pessoas.

2026.08.28 – Louro de Carvalho

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