sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Posicionamento da autoridade da Igreja Católica perante a IA

  

Sem prescindir dos próprios meios e formas de comunicação (homilia, sermão, aula, catequese, procissão, teatro, jornal, romagem, romaria, peregrinação, etc.), a Igreja Católica sempre tentou acompanhar os diferentes meios de comunicação que foram surgindo, a ponto de o Concílio Vaticano II ter produzido um decreto sobre os meios de comunicação social denominado “Inter mirifica”, porque os insere no âmbito das “maravilhosas invenções da técnica”.

Ante os desafios que a inteligência artificial (IA) coloca à Humanidade e à Igreja, o atual papa, aquando da sua eleição, assumiu o nome pastoral de Leão XIV, como sinal da sua vontade de responder aos desafios da nova revolução tecnológica, tal como Leão XIII tentou responder aos desafios da Revolução Industrial, que gerou a famosa questão social.

A Santa Sé, aliás como os leigos e os clérigos, cedo se empenhou no uso dos novos meios de comunicação (Internet e redes sociais), tal como o fizera com o cinema, o telégrafo, o telefone (agora, também o telemóvel), a rádio e a televisão.

Ainda no pontificado de Francisco e com a sua aprovação, em nota conjunta do Dicastério para a Doutrina da Fé e do Dicastério para a Cultura e a Educação, a Santa Sé publicou o documento “Antiqua et nova”. Por seu turno, o Pontífice norte-americano e peruano, a 4 de janeiro deste ano, na sua mensagem para o 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, abordou o tema da IA, mas vincando o requisito “preservar vozes e rostos humanos”, que encima o documento; e, a 15 de maio, publicou a encíclica “Magnifica humanitas” (apresentada no dia 25), sobre a sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”, que tem sido comentada, entre nós, mesmo por pensadores que não se sentem vinculados à Igreja Católica.

Não se trata da primeira incursão da Santa Sé na área da IA. Em junho de 2024, Francisco falou ao G7 sobre ética da IA e, muito antes, responsáveis do Vaticano mantinham conversas privadas com dirigentes da Google, da Microsoft e da Cisco, sobre o mesmo tema. E a IA tornou-se uma prioridade do jovem pontificado de Leão XIV, marcado por forte preocupação com o seu uso na guerra e por apelos a apertada vigilância ao modo da sua utilização.

Mais de mil milhões de pessoas recorrem à IA, que sabe tudo, segundo os seus defensores, mas não é religião, é inteligência artificial, cuja utilização preocupa cada vez mais pessoas, por fenómenos como a psicose a ela associada, os riscos de cibersegurança e as enormes quantidades de energia de que necessita para funcionar.

Na apresentação da encíclica, esteve presente o cofundador da empresa de IA Anthropic, Christopher Olah. Com efeito, a Anthropic apresenta-se como empresa de IA que põe a segurança e a mitigação de riscos no centro da investigação. Mas, em fevereiro, a administração Trump ordenou a todas as agências dos Estados Unidos da América (EUA) que deixassem de utilizar a tecnologia de IA da Anthropic e aplicou outras sanções significativas, após a empresa ter recusado dar às forças armadas dos EUA acesso ilimitado à sua tecnologia. E Anthropic processa a Casa Branca, acusando-a de represálias ilegais, por tentar impor limites à forma como a sua tecnologia de IA pode ser utilizada.

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Entretanto, a 17 de fevereiro, o Vaticano, que utiliza a IA, desde janeiro de 2025, anunciou que iria disponibilizar traduções, em direto, das missas em 60 línguas, apoiadas por IA, numa altura em que a Igreja adota esta tecnologia e acolhe os alertas que a rodeiam. O serviço, que permitiria aos fiéis acompanharem as celebrações nos seus smartphones, deveria arrancar na semana subsequente, nas principais cerimónias na Basílica de São Pedro, que assinalam o 4.º centenário da dedicação daquele templo, celebrada em 1626. “Há séculos que a Basílica de São Pedro acolhe fiéis de todas as nações e línguas. […] Ao disponibilizar uma ferramenta que ajuda muitos a compreender as palavras da liturgia, queremos servir a missão que define o centro da Igreja Católica, universal pela própria vocação”, afirmou, em nota, o cardeal Mauro Gambetti, arcipreste da Basílica de São Pedro e vigário-geral da Cidade do Vaticano.

A tradução com recurso a IA é feita através de um código QR que os participantes podem ler à entrada do Vaticano. A partir daí, terão traduções em tempo real, em áudio e em texto, nos respetivos navegadores, sem necessidade de descarga de qualquer aplicação. O sistema de tradução recorre à Lara, IA desenvolvida pela empresa de soluções linguísticas Translated, em colaboração com a Carnegie-AI LLC e com o professor Alexander Waibel, pioneiro na tradução de fala com recurso a IA.

Questionado sobre se a ferramenta de tradução com IA pode ter “alucinações” ou cometer erros, o diretor-executivo e cofundador da Translated afirmou que todas as traduções têm falhas, mas que “a Lara deu um passo significativo na sua redução”. “A Lara foi concebida privilegiando a precisão e não a vontade de agradar. Isso limita, de forma significativa, as alucinações. A Lara também recorre a mais contexto do que as tecnologias anteriores, o que lhe permite desfazer ambiguidades, de forma muito mais eficaz”, observou.

Waibel é conselheiro científico do projeto e considera que a tecnologia representa uma demonstração importante do potencial da IA para promover a compreensão entre pessoas. “Hoje vemos concretizar-se a possibilidade de derrubar barreiras linguísticas em tempo real, num dos contextos mais significativos que se pode imaginar”, sublinhou.

Embora o Vaticano aceite a IA, Leão XIV afirmou, em maio, que a IA coloca desafios à defesa da “dignidade humana, da justiça e do trabalho”, como todos reconhecem.

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A 16 de maio, Salvatore Cernuzio escreveu, no portal da Santa Sé “Vatican News”, que a atenção de Leão XIV e da Santa Sé aos desafios da IA, entre potencialidades e riscos, ganha novo elemento. Nasceu, no Vaticano, a Comissão Interdicasterial sobre a IA, para promover o intercâmbio de informações e projetos sobre o tema, “incluindo as políticas do seu uso dentro da Santa Sé”, estabelecida por rescrito do cardeal Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, que institui, mediante aprovação papal, o órgão, nos termos do artigo 28.º da constituição apostólica Praedicate Evangelium, segundo o qual um chefe de Dicastério pode criar uma comissão interdicasterial específica para tratar de “assuntos de competência mista” que exijam “consulta recíproca e frequente”.

E a IA – pela qual Leão XIV tem mostrado grande interesse, desde o início do seu pontificado, comparando a revolução por ela provocada à Revolução Industrial – é tema e fenómeno que exige “consulta mútua e frequente”, ante o seu crescente desenvolvimento das últimas décadas e, como diz o Rescriptum, as “mais recentes acelerações no seu uso generalizado”. Além disso, há “efeitos potenciais sobre o ser humano e sobre a Humanidade como um todo”, bem como sobre “a preocupação da Igreja com a dignidade de cada ser humano, mormente, no atinente ao seu desenvolvimento integral”. Por isso, em janeiro de 2025, os Dicastérios para a Doutrina da Fé e para a Cultura e a Educação formularam o documento “Antiqua et Nova”, sobre a relação entre IA e inteligência humana.

Com esses diversos eixos trabalhará a Comissão Interdicasterial, que será composta por representantes dos Dicastérios para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, para a Doutrina da Fé, para a Cultura e a Educação, para a Comunicação, além de membros da Pontifícia Academia para a Vida, da Pontifícia Academia das Ciências e da Pontifícia Academia das Ciências Sociais. “Quaisquer alterações na composição da Comissão serão submetidas à aprovação do Santo Padre”, cabendo ao chefe de cada instituição a escolha do representante a designar para a Comissão. O documento refere ainda que “a coordenação da Comissão é confiada, por um ano, eventualmente renovável, ao Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral”. Caberá ao Papa confiar, posteriormente, “a coordenação a uma das instituições participantes, sempre pelo período de um ano”.

E a instituição coordenadora deve “facilitar a colaboração e o intercâmbio entre os membros do grupo de informações relativas às atividades e projetos conexos com a IA, incluindo as políticas do seu uso na Santa Sé, promovendo o diálogo, a comunhão e a participação”.

Uma iniciativa que, certo modo, lembra a Comissão Vaticana Covid-19, instituída por Francisco, em março de 2020, no auge da pandemia. Também ela, nascida no seio do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, expressava a preocupação da Igreja em enfrentar um dos desafios desta era: desafio médico, ao tempo, com repercussões no trabalho e na sociedade; e desafio virtual, no caso da IA, com consequências que podem chegar a tocar as cordas da alma e da psique da pessoa humana.

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D. Josafá Menezes da Silva, arcebispo de Aracaju, no estado de Sergipe (SE), do Nordeste do Brasil, definiu regras para uso de IA na comunicação da Igreja da arquidiocese de Aracaju. A norma dirigida a padres, a diáconos, a ministros eclesiais e a todo o povo de Deus da arquidiocese tem por base documentos do Magistério da Igreja sobre a dignidade humana, sobre a comunicação e sobre o uso da tecnologia. As principais referências são: a Mensagem para o 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, a encíclica “Magnifica humanitas”, a “Antiqua et nova” e uma reflexão do responsável pelo Serviço de Comunicações Sociais da arquidiocese de Nápoles, na Itália, padre Doriano Vincenzo De Luca, a que se fará referência.

“O ponto de partida da reflexão da Igreja sobre a IA é a defesa incondicional da dignidade da pessoa humana”, disse o arcebispo, destacando que a “Antiqua et Nova” põe a dignidade humana no centro do discernimento sobre a IA e frisando que “a tecnologia deve ser orientada pelo bem da pessoa e da sociedade” e que a inteligência humana deve orientar o uso da tecnologia em função do bem da pessoa. Assim, à luz das diretrizes do Magistério da Igreja e para orientar o discernimento para o bom uso das ferramentas de IA, de modo que o princípio da dignidade da pessoa humana seja respeitado, “preservando rostos e vozes”, e que tais ferramentas sejam usadas como auxílio, sem substituírem o trabalho responsável que só o ser humano pode fazer, foram definidas algumas orientações para a arquidiocese.

D. Josafá Menezes determina que toda a arte produzida com auxílio de IA, na arquidiocese, deve “passar por revisão humana obrigatória, antes da sua publicação” e todo o conteúdo gerado ou manipulado por IA deve “ser sinalizado e claramente diferenciado do conteúdo criado por pessoas, especialmente, quando a utilização da IA puder interferir na perceção da realidade apresentada”. Em relação aos clérigos, sustenta que não se deve utilizar IA generativa para reconstruir ou simular a aparência de bispo, padre ou diácono quando o resultado substituir a fotografia real ou puder ser interpretado como representação autêntica da sua aparência ou de situação vivida por ele. Estipula que não se deve utilizar IA generativa para reconstruir ou simular voz de bispo, de padre ou de diácono em mensagem ou discurso não proferido por ele e não se deve atribuir a pessoa real aparência, fala, ação ou situação não correspondente à realidade. E proíbe o uso da IA para reconstruir o rosto de pessoa real, substituindo a fotografia; para “modificar, significativamente, os traços de pessoa real”; para criar aparência artificial apresentada como a sua aparência real; para produzir imagens que ponham um clérigo em situações que não ocorreram; para produzir representação sintética que se possa confundir com fotografia real; e para “criar arquivos de áudio com a tentativa de simular a voz de uma pessoa em mensagem ou em discurso que não tenha sido proferido por ela”.

Segundo o arcebispo, a IA pode ser utilizada como ferramenta auxiliar em nove situações: criar fundos; criar texturas; gerar elementos abstratos; criar ilustrações; sugerir layouts; trabalhar cores; auxiliar na composição; auxiliar na redação; e auxiliar na criação de conceitos visuais.

Estas orientações fundamentam-se na Mensagem para o 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, a qual alerta que o poder de simulação da IA pode fabricar “realidades paralelas”, usurpar rostos e vozes e “tornar cada vez mais difícil distinguir realidade e ficção”; e vinca “a necessidade de proteger a imagem, as fotografias, os áudios, o rosto e a voz das pessoas, prevenindo usos nocivos, como fraudes digitais, cyberbullying e deepfakes, que podem violar a privacidade e a intimidade sem consentimento”.

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Doriano Vincenzo de Luca vê, na encíclica leonina, o teor de versos de Clemente Rebora, que relevam a consciência vigilante que se estendeu em direção à chegada que, de súbito, pode estar presente: a espera vigilante de Alguém que vem redimir o tempo. O tópico unificador é o verbo “construir”, entre duas formas de edificação: Babel e os muros de Jerusalém. Babel significa a ambição de tocar o céu, reduzindo o outro por quaisquer meios; Jerusalém, reconstruída em pedaços, é o trabalho de responsabilidade compartilhada.

A encíclica permite viajar por três linhas: teológica, sociológica e pastoral.

Teologicamente, sobressai a dignidade da pessoa, não conquistada ou merecida, mas ontológica, enraizada em ser criada à imagem do Deus Trinitário, “amor no relacionamento”. Aqui, o Papa denuncia a ideologia insidiosa que exige que todos justifiquem o seu valor com o desempenho e julga mais digno quem “funciona” melhor. Ora, o mistério da Encarnação ilumina a questão: enquanto as ideologias empurram o homem a elevar-se acima dos outros, a Palavra desce em nossa fragilidade e transfigura-a num lugar de salvação.

Sociologicamente, o Pontífice lê os sinais dos tempos. Já não são os Estados que orientam a inovação, mas grandes entidades privadas que gizam condições de acesso, regras de visibilidade e possibilidade de participação. Nesta situação não basta invocar a ética: precisamos de regras claras e compartilhadas; e, no atinente a esta tecnologia, há que “desarmar” a IA: removê-la dos monopólios e devolvê-la à pluralidade das culturas humanas.

Pastoralmente, Leão XIV não quer espectadores resignados ou analistas de ruínas, mas pessoas que entram nos canteiros de obras da História – laboratórios, escolas, redações, comunidades – para reconstruir o que ruiu e guardar o que está exposto, no quadro da “civilização do amor” traduzível em estruturas de justiça: desarmar palavras, construir a paz na justiça, tomar o olhar das vítimas, cultivar um realismo saudável, reviver o diálogo.

Por fim, Leão XIV convoca os media para uma verdadeira ecologia da comunicação, lembrando que comunicar não é só transmitir informação, mas criar cultura, no sentido de que a verdade “não é propriedade dos que detêm poder ou visibilidade, mas um bem comum de procurar juntos”. Enquanto plataformas e algoritmos correm o risco de confundir verdadeiro e falso, recompensando a reação impulsiva sobre o argumento, o Papa requer normas transparentes de seleção e de amplificação de conteúdo, a proteção de dados pessoais, um jornalismo sério, na busca da verdade dos factos, e espaços para comparação, onde a verificação e a escuta prevaleçam, mesmo quando isso significa não esconder as feridas sob o tapete, como mostram os jornalistas que desenterram abusos e injustiças.

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É, pois, a hora de uma IA humanista, sem manipulação, sem ditaduras, sem guerras.

2026.08.27 – Louro de Carvalho


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