Sem
prescindir dos próprios meios e formas de comunicação (homilia, sermão, aula,
catequese, procissão, teatro, jornal, romagem, romaria, peregrinação, etc.), a
Igreja Católica sempre tentou acompanhar os diferentes meios de comunicação que
foram surgindo, a ponto de o Concílio Vaticano II ter produzido um decreto sobre
os meios de comunicação social denominado “Inter mirifica”, porque
os insere no âmbito das “maravilhosas invenções da técnica”.
Ante
os desafios que a inteligência artificial (IA) coloca à Humanidade e à Igreja,
o atual papa, aquando da sua eleição, assumiu o nome pastoral de Leão XIV, como
sinal da sua vontade de responder aos desafios da nova revolução tecnológica,
tal como Leão XIII tentou responder aos desafios da Revolução Industrial, que gerou
a famosa questão social.
A
Santa Sé, aliás como os leigos e os clérigos, cedo se empenhou no uso dos novos
meios de comunicação (Internet e redes sociais), tal como o fizera com o
cinema, o telégrafo, o telefone (agora, também o telemóvel), a rádio e a
televisão.
Ainda
no pontificado de Francisco e com a sua aprovação, em nota conjunta do
Dicastério para a Doutrina da Fé e do Dicastério para a Cultura e a Educação, a
Santa Sé publicou o documento “Antiqua et nova”. Por seu turno, o Pontífice
norte-americano e peruano, a 4 de janeiro deste ano, na sua mensagem para o
60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, abordou o tema da IA, mas vincando o
requisito “preservar vozes e rostos humanos”, que encima o documento; e, a 15
de maio, publicou a encíclica “Magnifica humanitas” (apresentada no dia 25),
sobre a sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência
artificial”, que tem sido comentada, entre nós, mesmo por pensadores que não se
sentem vinculados à Igreja Católica.
Não
se trata da primeira incursão da Santa Sé na área da IA. Em junho de 2024,
Francisco falou ao G7 sobre ética da IA e, muito antes, responsáveis do
Vaticano mantinham conversas privadas com dirigentes da Google, da Microsoft e
da Cisco, sobre o mesmo tema. E a IA tornou-se uma prioridade do jovem
pontificado de Leão XIV, marcado por forte preocupação com o seu uso na guerra
e por apelos a apertada vigilância ao modo da sua utilização.
Mais
de mil milhões de pessoas recorrem à IA, que sabe tudo, segundo os seus
defensores, mas não é religião, é inteligência artificial, cuja utilização
preocupa cada vez mais pessoas, por fenómenos como a psicose a ela associada,
os riscos de cibersegurança e as enormes quantidades de energia de que
necessita para funcionar.
Na
apresentação da encíclica, esteve presente o cofundador da empresa de IA
Anthropic, Christopher Olah. Com efeito, a Anthropic apresenta-se como empresa
de IA que põe a segurança e a mitigação de riscos no centro da investigação.
Mas, em fevereiro, a administração Trump ordenou a todas as agências dos
Estados Unidos da América (EUA) que deixassem de utilizar a tecnologia de IA da
Anthropic e aplicou outras sanções significativas, após a empresa ter recusado
dar às forças armadas dos EUA acesso ilimitado à sua tecnologia. E Anthropic
processa a Casa Branca, acusando-a de represálias ilegais, por tentar impor
limites à forma como a sua tecnologia de IA pode ser utilizada.
***
Entretanto,
a 17 de fevereiro, o Vaticano, que utiliza a IA, desde janeiro de 2025, anunciou
que iria disponibilizar traduções, em direto, das missas em 60 línguas,
apoiadas por IA, numa altura em que a Igreja adota esta tecnologia e acolhe os
alertas que a rodeiam. O serviço, que permitiria aos fiéis acompanharem as
celebrações nos seus smartphones, deveria arrancar na semana
subsequente, nas principais cerimónias na Basílica de São Pedro, que assinalam
o 4.º centenário da dedicação daquele templo, celebrada em 1626. “Há séculos
que a Basílica de São Pedro acolhe fiéis de todas as nações e línguas. […] Ao
disponibilizar uma ferramenta que ajuda muitos a compreender as palavras da
liturgia, queremos servir a missão que define o centro da Igreja Católica,
universal pela própria vocação”, afirmou, em nota, o cardeal Mauro Gambetti,
arcipreste da Basílica de São Pedro e vigário-geral da Cidade do Vaticano.
A
tradução com recurso a IA é feita através de um código QR que os participantes
podem ler à entrada do Vaticano. A partir daí, terão traduções em tempo real,
em áudio e em texto, nos respetivos navegadores, sem necessidade de descarga de
qualquer aplicação. O sistema de tradução recorre à Lara, IA desenvolvida pela
empresa de soluções linguísticas Translated, em colaboração com a Carnegie-AI
LLC e com o professor Alexander Waibel, pioneiro na tradução de fala com
recurso a IA.
Questionado
sobre se a ferramenta de tradução com IA pode ter “alucinações” ou cometer
erros, o diretor-executivo e cofundador da Translated afirmou que todas as
traduções têm falhas, mas que “a Lara deu um passo significativo na sua
redução”. “A Lara foi concebida privilegiando a precisão e não a vontade de
agradar. Isso limita, de forma significativa, as alucinações. A Lara também
recorre a mais contexto do que as tecnologias anteriores, o que lhe permite
desfazer ambiguidades, de forma muito mais eficaz”, observou.
Waibel
é conselheiro científico do projeto e considera que a tecnologia representa uma
demonstração importante do potencial da IA para promover a compreensão entre
pessoas. “Hoje vemos concretizar-se a possibilidade de derrubar barreiras
linguísticas em tempo real, num dos contextos mais significativos que se pode
imaginar”, sublinhou.
Embora
o Vaticano aceite a IA, Leão XIV afirmou, em maio, que a IA coloca desafios à
defesa da “dignidade humana, da justiça e do trabalho”, como todos reconhecem.
***
A
16 de maio, Salvatore Cernuzio escreveu, no portal da Santa Sé “Vatican News”,
que a atenção de Leão XIV e da Santa Sé aos desafios da IA, entre
potencialidades e riscos, ganha novo elemento. Nasceu, no Vaticano, a Comissão
Interdicasterial sobre a IA, para promover o intercâmbio de informações e
projetos sobre o tema, “incluindo as políticas do seu uso dentro da Santa Sé”,
estabelecida por rescrito do cardeal Michael Czerny, prefeito do Dicastério
para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, que institui, mediante
aprovação papal, o órgão, nos termos do artigo 28.º da constituição apostólica Praedicate
Evangelium, segundo o qual um chefe de Dicastério pode criar uma comissão interdicasterial
específica para tratar de “assuntos de competência mista” que exijam “consulta
recíproca e frequente”.
E
a IA – pela qual Leão XIV tem mostrado grande interesse, desde o início do seu
pontificado, comparando a revolução por ela provocada à Revolução Industrial –
é tema e fenómeno que exige “consulta mútua e frequente”, ante o seu crescente
desenvolvimento das últimas décadas e, como diz o Rescriptum, as “mais
recentes acelerações no seu uso generalizado”. Além disso, há “efeitos
potenciais sobre o ser humano e sobre a Humanidade como um todo”, bem como
sobre “a preocupação da Igreja com a dignidade de cada ser humano, mormente, no
atinente ao seu desenvolvimento integral”. Por isso, em janeiro de 2025, os
Dicastérios para a Doutrina da Fé e para a Cultura e a Educação formularam o
documento “Antiqua et Nova”, sobre a relação entre IA e inteligência humana.
Com
esses diversos eixos trabalhará a Comissão Interdicasterial, que será composta
por representantes dos Dicastérios para o Serviço do Desenvolvimento Humano
Integral, para a Doutrina da Fé, para a Cultura e a Educação, para a
Comunicação, além de membros da Pontifícia Academia para a Vida, da Pontifícia
Academia das Ciências e da Pontifícia Academia das Ciências Sociais. “Quaisquer
alterações na composição da Comissão serão submetidas à aprovação do Santo
Padre”, cabendo ao chefe de cada instituição a escolha do representante a
designar para a Comissão. O documento refere ainda que “a coordenação da
Comissão é confiada, por um ano, eventualmente renovável, ao Dicastério para o
Serviço do Desenvolvimento Humano Integral”. Caberá ao Papa confiar,
posteriormente, “a coordenação a uma das instituições participantes, sempre
pelo período de um ano”.
E
a instituição coordenadora deve “facilitar a colaboração e o intercâmbio entre
os membros do grupo de informações relativas às atividades e projetos conexos
com a IA, incluindo as políticas do seu uso na Santa Sé, promovendo o diálogo,
a comunhão e a participação”.
Uma
iniciativa que, certo modo, lembra a Comissão Vaticana Covid-19, instituída por
Francisco, em março de 2020, no auge da pandemia. Também ela, nascida no seio
do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, expressava a preocupação
da Igreja em enfrentar um dos desafios desta era: desafio médico, ao tempo, com
repercussões no trabalho e na sociedade; e desafio virtual, no caso da IA, com
consequências que podem chegar a tocar as cordas da alma e da psique da pessoa
humana.
***
D.
Josafá Menezes da Silva, arcebispo de Aracaju, no estado de Sergipe (SE), do
Nordeste do Brasil, definiu regras para uso de IA na comunicação da
Igreja da arquidiocese de Aracaju. A norma dirigida a padres, a diáconos, a ministros
eclesiais e a todo o povo de Deus da arquidiocese tem por base documentos do
Magistério da Igreja sobre a dignidade humana, sobre a comunicação e sobre o
uso da tecnologia. As principais referências são: a Mensagem para o 60.º
Dia Mundial das Comunicações Sociais, a encíclica “Magnifica humanitas”, a
“Antiqua et nova” e uma reflexão do responsável pelo Serviço de Comunicações
Sociais da arquidiocese de Nápoles, na Itália, padre Doriano Vincenzo De Luca,
a que se fará referência.
“O
ponto de partida da reflexão da Igreja sobre a IA é a defesa incondicional da
dignidade da pessoa humana”, disse o arcebispo, destacando que a “Antiqua et
Nova” põe a dignidade humana no centro do discernimento sobre a IA e frisando
que “a tecnologia deve ser orientada pelo bem da pessoa e da sociedade” e que a
inteligência humana deve orientar o uso da tecnologia em função do bem da
pessoa. Assim, à luz das diretrizes do Magistério da Igreja e para orientar o
discernimento para o bom uso das ferramentas de IA, de modo que o princípio da
dignidade da pessoa humana seja respeitado, “preservando rostos e vozes”, e que
tais ferramentas sejam usadas como auxílio, sem substituírem o trabalho
responsável que só o ser humano pode fazer, foram definidas algumas orientações
para a arquidiocese.
D.
Josafá Menezes determina que toda a arte produzida com auxílio de IA, na
arquidiocese, deve “passar por revisão humana obrigatória, antes da sua
publicação” e todo o conteúdo gerado ou manipulado por IA deve “ser sinalizado
e claramente diferenciado do conteúdo criado por pessoas, especialmente, quando
a utilização da IA puder interferir na perceção da realidade apresentada”. Em
relação aos clérigos, sustenta que não se deve utilizar IA generativa para
reconstruir ou simular a aparência de bispo, padre ou diácono quando o
resultado substituir a fotografia real ou puder ser interpretado como
representação autêntica da sua aparência ou de situação vivida por ele. Estipula
que não se deve utilizar IA generativa para reconstruir ou simular voz de
bispo, de padre ou de diácono em mensagem ou discurso não proferido por ele e não
se deve atribuir a pessoa real aparência, fala, ação ou situação não correspondente
à realidade. E proíbe o uso da IA para reconstruir o rosto de pessoa real,
substituindo a fotografia; para “modificar, significativamente, os traços de
pessoa real”; para criar aparência artificial apresentada como a sua aparência
real; para produzir imagens que ponham um clérigo em situações que não ocorreram;
para produzir representação sintética que se possa confundir com fotografia
real; e para “criar arquivos de áudio com a tentativa de simular a voz de uma
pessoa em mensagem ou em discurso que não tenha sido proferido por ela”.
Segundo
o arcebispo, a IA pode ser utilizada como ferramenta auxiliar em nove
situações: criar fundos; criar texturas; gerar elementos abstratos; criar
ilustrações; sugerir layouts; trabalhar cores; auxiliar na
composição; auxiliar na redação; e auxiliar na criação de conceitos visuais.
Estas
orientações fundamentam-se na Mensagem para o 60.º Dia Mundial das Comunicações
Sociais, a qual alerta que o poder de simulação da IA pode
fabricar “realidades paralelas”, usurpar rostos e vozes e “tornar cada vez
mais difícil distinguir realidade e ficção”; e vinca “a necessidade de proteger
a imagem, as fotografias, os áudios, o rosto e a voz das pessoas, prevenindo
usos nocivos, como fraudes digitais, cyberbullying e deepfakes,
que podem violar a privacidade e a intimidade sem consentimento”.
***
Doriano
Vincenzo de Luca vê, na encíclica leonina, o teor de versos de Clemente Rebora,
que relevam a consciência vigilante que se estendeu em direção à chegada que,
de súbito, pode estar presente: a espera vigilante de Alguém que vem redimir o
tempo. O tópico unificador é o verbo “construir”, entre duas formas de edificação:
Babel e os muros de Jerusalém. Babel significa a ambição de tocar o céu,
reduzindo o outro por quaisquer meios; Jerusalém, reconstruída em pedaços, é o
trabalho de responsabilidade compartilhada.
A
encíclica permite viajar por três linhas: teológica, sociológica e pastoral.
Teologicamente,
sobressai a dignidade da pessoa, não conquistada ou merecida, mas
ontológica, enraizada em ser criada à imagem do Deus Trinitário, “amor no
relacionamento”. Aqui, o Papa denuncia a ideologia insidiosa que exige que
todos justifiquem o seu valor com o desempenho e julga mais digno quem
“funciona” melhor. Ora, o mistério da Encarnação ilumina a questão: enquanto as
ideologias empurram o homem a elevar-se acima dos outros, a Palavra desce em
nossa fragilidade e transfigura-a num lugar de salvação.
Sociologicamente,
o Pontífice lê os sinais dos tempos. Já não são os Estados que orientam a
inovação, mas grandes entidades privadas que gizam condições de acesso, regras
de visibilidade e possibilidade de participação. Nesta situação não basta
invocar a ética: precisamos de regras claras e compartilhadas; e, no atinente a
esta tecnologia, há que “desarmar” a IA: removê-la dos monopólios e devolvê-la
à pluralidade das culturas humanas.
Pastoralmente,
Leão XIV não quer espectadores resignados ou analistas de ruínas, mas pessoas
que entram nos canteiros de obras da História – laboratórios, escolas,
redações, comunidades – para reconstruir o que ruiu e guardar o que está
exposto, no quadro da “civilização do amor” traduzível em estruturas de justiça:
desarmar palavras, construir a paz na justiça, tomar o olhar das vítimas,
cultivar um realismo saudável, reviver o diálogo.
Por
fim, Leão XIV convoca os media para uma verdadeira ecologia da
comunicação, lembrando que comunicar não é só transmitir informação, mas criar
cultura, no sentido de que a verdade “não é propriedade dos que detêm poder ou
visibilidade, mas um bem comum de procurar juntos”. Enquanto plataformas e
algoritmos correm o risco de confundir verdadeiro e falso, recompensando a
reação impulsiva sobre o argumento, o Papa requer normas transparentes de
seleção e de amplificação de conteúdo, a proteção de dados pessoais, um jornalismo
sério, na busca da verdade dos factos, e espaços para comparação, onde a
verificação e a escuta prevaleçam, mesmo quando isso significa não esconder as
feridas sob o tapete, como mostram os jornalistas que desenterram abusos e
injustiças.
***
É,
pois, a hora de uma IA humanista, sem manipulação, sem ditaduras, sem guerras.
2026.08.27 – Louro de Carvalho
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