quarta-feira, 26 de agosto de 2026

A UE tem de cuidar da sua defesa, com relevo para a defesa marítima

 

A 2 de julho, o comissário europeu para a Defesa e Espaço, Andrius Kubilius, numa conferência, advertia que os países da União Europeia (UE) têm de estar “à altura da ambição de segurança” da Europa, ou seja, têm de corresponder às ambições europeias de defesa, o que não pode ser esquecido nas negociações orçamentais.

A advertência de Kubilius surgiu após uma proposta da presidência cipriota do Conselho da UE, no primeiro semestre, que incluía um corte de 4% no Fundo de Competitividade, o instrumento destinado a reforçar a inovação tecnológica e a defesa.

Países contribuintes líquidos, como a Alemanha e os Países Baixos, conhecidos como “frugais”, têm pressionado por novos cortes orçamentais, defendendo que os recursos sejam reorientados para prioridades emergentes, como a defesa, à custa de rubricas tradicionais, como a política agrícola comum e a política de coesão, o que não pode ser, na ótica de Kubilius.

Porém, o comissário para a Defesa sustenta que aumentar a despesa em defesa, ao nível da UE, oferece um claro valor acrescentado, através de procedimentos de aquisição conjunta, garantindo eficiência significativamente superior à obtida com despesa ao nível nacional.

Kubilius fez um paralelo com os Estados Unidos da América (EUA), cujo orçamento federal se manteve limitado até se expandir, de forma acentuada, durante a II Guerra Mundial, em paralelo com o desenvolvimento do moderno Estado social e de segurança. “Se os estados-membros querem evitar a guerra e poupar na despesa em defesa, devem aumentar tanto o orçamento da UE como a despesa pública a nível europeu”, afirmou Kubilius, vincando que “não podem exigir uma arquitetura de segurança mais robusta, enquanto reduzem o orçamento da UE”.

Citando o provérbio latino “si vis pacem, para bellum” (“se queres a paz, prepara a guerra”), o comissário para a Defesa avisou que poupar na defesa sairá caro, no futuro, sublinhou os enormes danos económicos que acompanham a escalada de tensões até ao conflito aberto e defendeu que a força e a preparação são o melhor meio de dissuadir ataques.

“Para evitar que haja motivos para guerra, os estados-membros têm de aumentar o orçamento da UE para 12 a 15% do produto interno bruto (PIB) europeu”, afirmou.

Os EUA, sem deixarem de ser aliados da Europa, demarcam-se, cada vez mais, das questões europeias e fragilizam a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), a qual passou a exigir a cada um dos seus países membros um investimento do PIB nacional de 5%.

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A defesa deve abranger toda a variedade do seu espaço: terra, mar e ar. Porém, a defesa marítima, sobretudo, na atual conjuntura, reveste-se de crucial relevância. Por isso, dos cabos submarinos aos navios de guerra, a UE está a investir valores recorde na defesa das suas águas, pois crescem as ameaças aos seus portos, aos cabos submarinos e às infraestruturas offshore.

Na verdade, o mar precisa de especial atenção, uma vez que 90% do comércio da UE, do abastecimento energético e dos dados de Internet circula por via marítima, o que expõe o bloco a ataques híbridos e cibernéticos, a tensões fronteiriças e a sabotagem de infraestruturas, incluindo por parte da Rússia.

Bruxelas atualizou a Estratégia de Segurança Marítima em março de 2023 e o financiamento acompanhou essa estratégia. Os estados-membros gastaram 343 mil milhões de euros em defesa, em 2024, mais 19% do que em 2023. As aquisições de equipamento dispararam 39%. A despesa atingiu um recorde de 392 mil milhões de euros, em 2025, grande parte através do fundo SAFE (Instrumento de Ação para a Segurança da Europa), de 150 mil milhões de euros, no âmbito do roteiro Prontidão 2030 da UE. Parte significativa destina-se à construção de navios. Assim, a indústria de defesa marítima do bloco produziu, em 2025, navios no valor de 13,7 mil milhões de euros, dois terços dos quais unidades de superfície. A França, a Alemanha, a Itália e a Espanha responderam por 87% da produção. Os estaleiros Naval Group (França), Thyssenkrupp Marine Systems (Alemanha), Fincantieri (Itália) e Navantia (Espanha) colaboram no projeto da corveta europeia de patrulha e asseguram contratos de exportação de vários milhares de milhões de euros com a Noruega e com a Indonésia.

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Não obstante, o reforço da defesa marítima europeia passa pela proteção de cabos, de gasodutos e de comércio, ou seja, do mar profundo. Com efeito, as economias mundiais dependem, cada vez mais de cabos de dados e de gasodutos submarinos vulneráveis, o que induz a UE e os estados-membros a reforçarem a defesa marítima.

Na última década, a UE gastou quase 118 mil milhões de euros em defesa marítima, com o aumento acentuado de 23,6%, em 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Dados do Observatório da Economia Azul da UE mostram forte subida da despesa interna em defesa marítima, que atingiu o máximo histórico de 11,6 mil milhões de euros. Só os submarinos representam 27% do valor total da produção da UE, com o restante a incluir navios de superfície, aeronaves e outros meios de combate.

O bloco passou da abordagem puramente comercial de economia azul para a estratégia marítima centrada na segurança. Em 2023, atualizou a Estratégia de Segurança Marítima da União Europeia (EUMSS) para proteger infraestruturas críticas no fundo do mar. Depois, consolidou as prioridades estratégicas de defesa ao lançar Projetos Europeus de Defesa de Interesse Comum dedicados e ao implementar uma caixa de ferramentas para a segurança dos cabos submarinos, destinada a contrariar ameaças de zona cinzenta e a proteger redes subaquáticas.

A economia global depende, quase totalmente, de mares seguros e abertos. Mais de 95% do tráfego digital internacional passa por estas rotas. As transferências financeiras circulam em mais de 1,4 milhões de quilómetros de cabos submarinos de fibra ótica, que transportam, todos os dias, cerca de 9,2 biliões de euros em transações financeiras. Cerca de dois terços do petróleo e do gás do Mundo são extraídos no mar e/ou transportados por via marítima. É transportado por via marítima cerca de 80% do volume do comércio mundial. E, no caso da UE, o transporte marítimo representa 75,6% das importações e 73% das exportações, num total de cerca de 1,126 biliões de euros em bens, por ano.

Uma perturbação nos principais pontos de estrangulamento marítimos pode desencadear inflação e faltas de produção à escala global; e um ataque a tais rotas marítimas e a tais ativos subaquáticos paralisaria a Europa, pelo que são necessárias mais do que patrulhas navais tradicionais. “A consciência do domínio subaquático é atividade crucial para saber o que acontece abaixo da superfície, sobretudo, em torno de cabos, [de] oleodutos e [de] infraestruturas energéticas offshore, dando prioridade aos que são identificados como críticos para a segurança da União”, disse Jürgen Scraback, chefe da Unidade do Domínio Marítimo da Agência Europeia de Defesa.

Com as ameaças, através de drones de baixo custo, de veículos subaquáticos não tripulados e da guerra de minas, os países investem em tecnologias autónomas e em sistemas de vigilância. Assim, entre 2016 e 2025, o valor anual da produção de veículos não tripulados da UE, incluindo drones aéreos e submarinos, aumentou 132%, para 847 milhões de euros. Os sistemas não tripulados de asa fixa constituem um terço dessa produção, no valor de 277 milhões de euros. Já a produção de plataformas submarinas tradicionais não tripuladas caiu 23%.

A modernização das frotas centra-se tanto em meios navais convencionais, como em plataformas autónomas. Os navios de superfície tripulados, que representam 65% do valor da produção de veículos de defesa marítima da UE, são as principais plataformas de comando, de logística e de projeção de força. Os submarinos representam mais 27% da produção, graças a programas de aquisição e de investimento em armas subaquáticas de nova geração. E os navios de superfície autónomos e os veículos subaquáticos não tripulados ganham importância crescente em missões de vigilância, de reconhecimento e de monitorização de infraestruturas.

O investimento estende-se à tecnologia digital para vigilância marítima, com operadores europeus a recorrerem a sistemas não tripulados apoiados por inteligência artificial (IA) para monitorizarem portos, infraestruturas energéticas offshore e cabos submarinos, detetando ameaças em grandes áreas. Para Jürgen Scraback, os sistemas autónomos e não tripulados, combinados com a fusão de dados apoiada por IA, estão entre as tecnologias com maior potencial de impacto. Podem garantir vigilância permanente de grandes áreas, sem exigirem que plataformas tripuladas e dispendiosas permaneçam quase continuamente destacadas.

E a Estratégia de Segurança Marítima de 2014, atualizada em 2023, orienta a estratégia marítima europeia, protege os cidadãos, a economia, as infraestruturas e as fronteiras, assim como redefine a abordagem da Europa à defesa marítima.

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Chris Kremidas-Courtney, conselheira sénior no European Policy Centre e investigadora associada no Geneva Centre for Security Policy, considera que a nova estratégia exige maior ênfase nos aspetos de hard power da defesa e de segurança marítima, áreas em que a UE tinha dificuldades em afirmar um papel e uma identidade, e que “a proteção de infraestruturas críticas, no domínio marítimo, é prioridade-chave”. Ora, a Estratégia Marítima Industrial, adotada em março deste ano, sustenta esta mudança, assim como reforça a produção naval europeia, com a nova Aliança da Cadeia de Valor Marítima Industrial da UE, e as capacidades navais, subaquáticas e de dupla utilização, incluindo a construção de ferries de dupla utilização.

Até julho, a Europa alocou 325 milhões de euros a cinco Projetos Europeus de Defesa de Interesse Comum, incluindo um projeto de defesa marítima e de fundos marinhos, para reforçar a sua base industrial. Desde fevereiro, o Plano de Ação Contra Drones orienta a produção de drones navais não tripulados e de sistemas antidrone, para enfrentar ameaças aéreas, subaquáticas e de superfície. A UE financia o aumento da capacidade naval, através de instrumentos de defesa, como a Estratégia Industrial de Defesa Europeia e o Programa da Indústria de Defesa Europeia, no valor de 1,5 mil milhões de euros. E o roteiro Readiness 2030 supera os 800 mil milhões de euros, incluindo capacidades navais e de proteção das linhas de comunicação marítimas.

O bloco também investe em tecnologias de deteção e de vigilância, para combater ameaças e atos de sabotagem contra cabos no fundo do mar. Como os cabos cobrem grandes áreas, são de propriedade privada e podem ser danificados, a melhor abordagem é um sistema de resiliência em camadas, que torne qualquer interferência detetável, limite a perturbação causada por um ataque bem-sucedido e restaure o serviço rapidamente.

O Plano de Ação para a Segurança dos Cabos (2025) reforça a capacidade de prevenir, de detetar, de responder e de recuperar de incidentes com cabos que perturbem funções críticas, como a comunicação e o fornecimento de energia. O programa OceanEye, de 92 milhões de euros, amplia a consciência marítima recorrendo à IA, a sensores autónomos e a gémeos digitais.

No âmbito do Horizonte Europa, os projetos UnderSect e Smart Maritime and Underwater Guardian investem quase seis milhões de euros, cada um, em sistemas de deteção de ameaças subaquáticas para portos e para infraestruturas marítimas. Projetos do Fundo Europeu de Defesa (FED), como o SHIELD e o SOUND2, desenvolvem sistemas de IA, para detetar ameaças, através de sinais acústicos subaquáticos.

O reforço da defesa marítima vai além da deteção e da reparação de ruturas em cabos. Para Kremidas-Courtney, as autoridades devem identificar padrões de comportamento, como reduções de velocidade, sem explicação, desvios das rotas de navegação e manipulação de sinais de identificação. “A solução mais eficaz, na minha opinião, é uma rede integrada de informação e ação que combine sensores subaquáticos, dados AIS [automatic identification system, ou sistema de informação automática], radar costeiro, imagens de satélite, informações de inteligência e registos portuários num centro regional de operações marítimas já existente e continuamente guarnecido”, explicou.

Segundo Scraback, “é preciso continuar a passar de soluções nacionais fragmentadas para capacidades interoperáveis, escaláveis e desenvolvidas em conjunto” e o Projeto Europeu de Defesa de Interesse Comum sobre Defesa Marítima e de Fundos Marinhos Integrada “pode ser um instrumento-chave para isso, ao juntar estados-membros, programas europeus já existentes e investimentos num quadro único e coerente”.

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Há quem pense que o próximo campo de batalha pode estar submerso. Cabos, gasodutos e rotas marítimas europeias alimentam a economia mundial, com dados, com finanças, com energia e com comércio, pelo que se torna crucial vigiar, proteger e manter estas redes.

Como dissemos, cerca de 80% do comércio mundial circula por via marítima, a maioria das importações e das exportações da UE chega ou sai, por mar, e mais de 95% das comunicações digitais internacionais passa por cabos submarinos de fibra ótica que se estendem pelo fundo do oceano, junto de oleodutos e de gasodutos que transportam grande parte do petróleo e gás do Mundo. Danos a estas redes – por sabotagem, por drones, por veículos subaquáticos não tripulados ou por ataques militares convencionais – podem perturbar cadeias de abastecimento, sistemas financeiros e segurança energética, quase de um dia para o outro. Como consequência, a defesa marítima concentra-se em navios de guerra e em submarinos, mas também na vigilância, em tecnologias autónomas e na proteção de infraestruturas subaquáticas críticas.

Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, o investimento em defesa vem acelerando, através de iniciativas, como o Strategic Compass, a atualizada European Union Maritime Security Strategy, a European Defence Industrial Strategy e o European Defence Fund. E programas, como o Programa da Indústria de Defesa Europeia (EDIP), o SAFE e a Maritime Industrial Strategy, canalizaram financiamento para a construção naval, para sistemas autónomos, para sensores avançados e para capacidades de combate a drones.

Este investimento está concentrado num pequeno número de países que formam a espinha dorsal da indústria de defesa marítima europeia. A França, a Alemanha, a Itália e Espanha respondem pela maioria da produção naval (87%) da UE, fabricando submarinos, navios de superfície e outros equipamentos de defesa marítima. Já os Países Baixos, a Suécia e a Polónia complementam (em 8%) estas capacidades com competências em tecnologias de vigilância, em sensores e em sistemas de segurança marítima. Entre 2016 e 2025, a produção acumulada de veículos e de equipamentos de defesa marítima da UE atingiu 117,8 mil milhões de euros.  Parte superior do formulário

O Fundo Europeu de Defesa apoia empresas europeias no desenvolvimento conjunto de tecnologias e equipamentos de defesa. Assim, ao nível empresarial, destaca-se o Naval Group, sediado em França, que lidera com 24% da produção total da UE.

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Enfim, a defesa e a segurança europeias têm de ser permanentes e inovadoras e contar com aliados, nomeadamente, o Reino Unido, evitando qualquer tipo de isolamento.

2026.08.26 – Louro de Carvalho

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