domingo, 30 de agosto de 2026

Com pompa e circunstância, MECI atribui às escolas o caos dos exames

 

A 28 de agosto, o Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) publicitou, no portal do governo, o relatório do inquérito que, a 10 de agosto, solicitou, com caráter de urgência, à Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC), sobre as irregularidades nas escolas, durante os exames nacionais do secundário.

Alegadamente, para evitar as mesmas irregularidades na época extraordinária de exames, a realizar entre 3 e 8 de setembro, o governo, pela mão do ministro Fernando Alexandre pediu que o documento fosse entregue até ao final do mês de agosto, o que a entidade inspetiva cumpriu. Porém, segundo julgo, dificilmente a correção das irregularidades dependerá do relatório, se houve o côngruo jogo de antecipação. Aliás, o número de provas da fase de setembro, tal como o da 2.ª fase, será muito menor do que o da 1.ª fase. Com efeito, o número superior de colocados na 1.ª fase de candidatura ao ensino superior, bastante mais elevado do que no ano anterior, revela que, afinal, apesar do clamor e dos erros, a satisfação (quiçá artificiosa, em parte, mercê do princípio “indubio pro reo”) aumentou.

Tendo em conta o histórico dos exames nacionais de 2026 e lendo, com atenção, o relatório da IGEC, bem como algumas das suas entrelinhas, as irregularidades detetadas nas escolas não passam de pequenas e raras gotas de água derramadas na imensidão do oceano.

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Na sequência do inquérito urgente solicitado pelo MECI, a IGEC detetou atrasos no envio ao Júri Nacional de Exames (JNE) dos pedidos de reapreciação, em 69 escolas, e atrasos na entrega à Imprensa Nacional Casa da Moeda (INCM) dos exames da 1.ª fase em 29 escolas (o relatório fala de atraso de entrega de provas às forças de segurança). Surgiram ainda 13 escolas em outras situações, nomeadamente, com erros nos números convencionais constantes das guias. Ao todo, registaram-se 111 escolas com situações anómalas.

Inicialmente a IGEC tinha sinalizado 93 escolas (10 privadas e 83 públicas), ou seja, 14%, face às 655 em que se realizaram provas do ensino secundário.

Assim, a divergência entre o número final (111) e o inicial (93) resulta do facto de algumas escolas se terem colocado em mais do que uma das situações indicadas.

No seu relatório, acabado de entregar à tutela, a IGEC garante que não identificou “elementos que permitam sustentar a existência de atuações deliberadas” que tenham comprometido “a integridade ou a confidencialidade das provas realizadas”. As ocorrências detetadas resultaram, sobretudo, de “lapsos procedimentais, falhas de verificação e erros operacionais associados aos processos de organização, conferência e expedição da documentação de exame”.

Desde logo, é de frisar que estas ocorrências são um quase nada, em comparação com os factos de que a comunicação social deu amplas notas públicas, tais como, e só a título de exemplo, dificuldade de acesso de professores classificadores às plataformas, respostas incompletas, provas desaparecidas (versão em PDF e/ou original), provas a chegar aos professores classificadores nos instantes finais de prazo ou já fora de prazo, itens remetidos por duas vezes, convocação de professores já aposentados ou que tinham mudado de escola e muitas mais situações. Aliás, grosso modo, estes incidentes já tinham ocorrido em 2025, com as provas de Filosofias, e os erros, não foram corrigidos, ampliaram-se com o alto número de cerca de 300 mil provas, contra as cerca de cerca de 27 mil do ano anterior.

Quanto ao atraso no pedido de reapreciação, é de referir a sua não linearidade, visto que o prazo se contava a partir do momento em que o aluno recebia a prova corrigida, para poder decidir sobre o pedido de reapreciação.  

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Nos termos do comunicado do MECI, de 28 de agosto, às 19h20, sob o título “IGEC analisou atraso das escolas no envio de exames e de pedidos de reapreciação” foram “detetados atrasos nos pedidos de reapreciação, em 69 estabelecimentos de ensino, públicos e privados, e atrasos, em 29 escolas, na entrega dos exames nacionais realizados na 1.ª fase.

Pelo que a “IGEC recomenda instauração de processos de inquérito complementar, em algumas situações” (era bom sabermos quais), e “propõe às escolas que os mecanismos de controlo sejam reforçados, ao Júri Nacional de Exames que os intervenientes no processo tenham formação e melhorias nas plataformas tecnológicas”.

A IGEC refere que “não foram identificados elementos que permitam sustentar a existência de atuações deliberadas” que tenham comprometido “a integridade ou a confidencialidade das provas realizadas”. As ocorrências detetadas pela IGEC resultam, sobretudo, de “lapsos procedimentais, falhas de verificação e erros operacionais associados aos processos de organização, conferência e expedição da documentação de exame”, lê-se no relatório.

Face às conclusões do relatório, a IGEC propõe: “a instauração de processos de inquérito nas situações que serão identificadas em informação complementar, de natureza confidencial”; ao JNE “o aperfeiçoamento/substituição das plataformas, atualmente em uso, de modo a reforçar a segurança e a confiança no processo, com a respetiva capacitação dos profissionais das escolas envolvidos na sua utilização e o reforço da articulação com a IGEC, no âmbito do processo de realização dos exames nacionais”; e às escolas, “o reforço dos mecanismos de controlo interno, no desenvolvimento do processo relacionado com a realização dos exames nacionais”.

O inquérito prendeu-se com o envio de provas de exames realizados para a INCM, já “após a sua recolha formal e entrega pelas forças de segurança, o que perturbou os processos da digitalização e da classificação eletrónica e o processo de avaliação externa”; e com o envio ao JNE, “com atraso, de pedidos de reapreciação de provas de exames realizados na 1.ª fase, inclusive após a afixação de pautas, o que afetou os alunos e os condicionou, nos prazos em que realizaram o seu processo de acesso ao ensino superior, gerando alarme público e pondo em causa a credibilidade do sistema de avaliação externa.

Não é crível que a perturbação dos “processos da digitalização e da classificação eletrónica e o processo de avaliação externa” tenha resultado do esporádico atraso de envio de provas (29 escolas, em 655!), até porque a digitalização de 300 mil provas é necessariamente morosa. Quanto ao atraso de envio de pedidos de reapreciação, além do que foi dito, é de referir que o alarme público e a questionação da credibilidade do sistema de avaliação externa (pela primeira vez, em 30 anos) ocorreram antes de surgirem as questões atinentes aos pedidos de reapreciação, isto é, logo que os professores e as escolas notaram os erros a falência das plataformas, com o MECI a garantir que tudo se resolvia e a atirar as culpas para as escolas e para os professores, que resistiam à mudança. Terá, alegadamente, colocado a hipótese de procedimento disciplinar a diretores que não cumprissem as datas de afixação de pautas.

Além disso, dizer que surgiram pedidos de reapreciação, após as notas terem sido afixadas, esquece, talvez por amnésia, que muitas pautas foram afixadas sem a inclusão de todas as notas, com algumas erradas e até algumas com números negativos (tipo -1; 14). Por isso, foi decidido, extraordinariamente, que o prazo do pedido de reapreciação se contava a partir da data da receção da prova pelo aluno, e não a partir da data da fixação das pautas, que foi adiada e que, em muitos casos, chegou a desoras, levando as escolas a estar abertas de noite e ao sábado.   

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A Missão Escola Pública (MEP) e a Federação Nacional dos Professores (FENPROF) contestam as conclusões da IGEC sobre as falhas registadas nos exames nacionais e sustentam que o relatório desvaloriza os problemas que marcaram a primeira experiência de classificação eletrónica. Para as duas organizações, os atrasos identificados em escolas, nomeadamente, na entrega de provas e de pedidos de reapreciação, não explicam o “caos” da época de exames e desviam a atenção das responsabilidades do ministro da Educação.

Entre as justificações apresentadas pelos diretores das escolas surgem lapsos ou esquecimentos dos responsáveis pela entrega (33%), erros no acondicionamento ou na expedição das provas, sobrecarga dos secretariados e problemas relacionados com a plataforma de reapreciação.

Cristina Mota, da MEP vê um relatório “pouco minucioso” e com “números pouco significativos”, face à dimensão dos constrangimentos registados nesta época de provas e das candidaturas de acesso ao ensino superior. “Claro que houve um ou outro constrangimento, mas são muito residuais, e não justificam o caos a que se assistiu”, afirma.

Para a porta-voz do movimento, o inquérito deveria ter ouvido outros intervenientes, por exemplo, o MECI e as forças de segurança responsáveis pela recolha das provas. E eu acrescento os professores classificadores. Os dados apresentados servem para “desculpabilização do próprio ministro ou, melhor dizendo, numa culpabilização dos outros”, opina Cristina Mota.

“Ainda hoje não conseguimos juntar todos os elementos de avaliação de todos os alunos”, afirma a responsável do MEP, frisando que muitos dos problemas ocorreram já depois de as provas terem saído das escolas, nomeadamente, com o desaparecimento de folhas de exame.

No final da tarde do dia 28, Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), defendeu que as “escolas fizeram de tudo para que esta nova modalidade de classificação [eletrónica] dos exames do secundário corresse o melhor possível” e que tinham sido elas o “sustentáculo do processo”.

A FENPROF faz leitura similar. “Os secretariados das escolas fazem este trabalho, há anos”, lembra Feliciano Costa, referindo a experiência acumulada na organização das salas, na vigilância, na selagem das provas e na recolha dos exames. Ante a informação a que teve acesso, o dirigente sindical, acredita que os secretariados de exames cumpriram as tarefas que lhes foram atribuídas. “Resumir todo o caos a estes casos é ir buscar uma agulha num palheiro”, aponta Feliciano Costa.

Para o sindicalista, a responsabilidade deve ser procurada, sobretudo, no MECI. “O processo correu todo mal”, afirma o dirigente sindical, acusando Fernando Alexandre de tentar “normalizar” o que aconteceu e de, ao destacar os atrasos nas escolas divulgados pelo IGEC, procurar “passar uma esponja” sobre a responsabilidade do seu ministério.

“O problema central não é esse, é todo o processo em si que começou mal, e [só] não foi pior pelo trabalho dos professores”, enfatiza. Para a FENPROF, o funcionamento da plataforma de classificação eletrónica foi o principal motor de problemas nos exames. O sistema apresentou provas em branco, exames mal digitalizados e períodos de indisponibilidade. Segundo Feliciano Costa, a plataforma falhou, “obrigando alguns professores a trabalhar durante a madrugada e aos fins de semana”.

O processo de digitalização contribuiu para atrasos na divulgação das notas da 1ª fase e no calendário da 2.ª fase. O processo estendeu-se pelo mês de agosto, período em que muitos professores estão de férias, o que levou muitos classificadores a terem de abdicar das férias para corrigirem provas, por ordem dos diretores, sob pressão do JNE.

A MEP aponta ainda falhas na informação transmitida às escolas. “Muitas das informações que chegavam aos secretariados não eram explícitas”, afirma Cristina Mota. Em alguns casos, “na véspera de exames, não se sabia como seria a entrega das mesmas”. A responsável refere exemplos como a falta de espaço, nos cadernos, para indicar a sessão das provas e a inexistência de procedimentos claros, para registar o número total de folhas de resposta.

Foram registados 21021 pedidos de reapreciação, na primeira fase, valor muito superior ao ano passado, mas a porta-voz do movimento sublinha que os prazos dependiam do momento em que cada aluno recebia a sua prova. “Nem todos os alunos receberam as provas ao mesmo tempo”, afirma, vincando que o processo de envio das reapreciações era “muito complexo e burocrático”.

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O relatório, obviamente, sem o pretender (a IGEC faz o que lhe é pedido pela tutela), esconde o essencial do problema, que se desdobra em questões como as seguintes: Qual é a pressa de generalizar a correção digital das provas a quase todas as disciplinas, sem corrigir os erros detetados, em 2025, numa disciplina? Por que não alargar o sistema, à medida que se corrigem os erros? Não se assacam responsabilidades ao(s) ator(es) político(s) e/ou administrativo(s) de quem partiu a decisão política e/ou administrativa, com base em informação e/ou promessa técnicas? Não se assacam responsabilidades contratuais a empresa(s) que se prontificam a fazer trabalho para o qual não têm capacidade, por via da complexidade e da dimensão? Face à necessidade de implementar um sistema novo e complexo, não se formam, adequadamente, todos os agentes que hão de intervir no processo (professores, diretores, informáticos, assistentes administrativos e, sobretudo, secretariados de exames) e não se fazem testes, durante o ano, nas escolas?  

E ainda: Se a folha de resposta a um item ou a um grupo de itens não basta para incluir toda ou todas as respostas do aluno e é necessária uma folha suplementar com a mesma configuração (o aluno não pode continuar a responder em folha de outros itens), porque não se distribuem, antecipadamente, folhas suplementares aos secretariados de exames, que as mandarão duplicar, conforme as necessidades, evitando que os professores vigilantes, nas salas, as mimetizem, a regra e a esquadro, em folhas em branco?

Porém, lidas algumas entrelinhas, a IGEC parece ter querido mostrar que a maior responsabilidade não é das escolas, mas a tinta falhou-lhe na caneta para o escrever. Com efeito, ao propor “a instauração de processos de inquérito nas situações que serão identificadas em informação complementar, de natureza confidencial”, não estará a insinuar falhas políticas e administrativas, sem expor o MECI? Ao recomendar ao JNE “o aperfeiçoamento/substituição das plataformas, atualmente em uso, de modo a reforçar a segurança e a confiança no processo”, não estará a insinuar falhas técnicas de responsabilidade contratual (estado-empresa) e, hipoteticamente, desmantelamento de estruturas no MECI e terceirização de serviços? Ao sugerir o reforço da capacitação dos profissionais das escolas envolvidos na utilização das plataformas e o reforço da articulação com a IGEC, não estará a acusar descuido da tutela no essencial da questão: o pouquíssimo investimento na formação, na iminência de implementação de novos programas e mecanismos, bem como a subestimação do trabalho da IGEC?

É óbvio que os professores se contorcem e fazem o trabalho, mas é lícito que se indisponham, porque têm razão, quando acusam os decisores políticos e exigem melhorias, a todos os níveis. É de se lhes aplicar o episódio do comerciante que, ao verificar que o frade achava caro artefacto que lhe vendia, intimou: “O irmão paga, e não bufa!” E o fradinho, resignado, mas insatisfeito, retorquiu: “Ó senhor, eu pago, mas bufo!”

É assim a enorme plêiade de professores que servem o país, em nome do interesse dos seus alunos. Já por lá andei, durante muitos anos.

2026.08.30 – Louro de Carvalho


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