quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Está em marcha um grande movimento contra a Inteligência Artificial

 

Eliza Monts – escritora e criadora de conteúdos populares nas redes sociais e residente em Charleston, Carolina do Sul, nos Estados Unidos da América (EUA), que estava ansiosa por conhecer as orientações de Leão XIV sobre inteligência artificial (IA), quando foi publicada, em maio, a encíclica “Magnifica humanitas”.

Numa primeira leitura, decidiu sintetizar a análise papal sobre IA numa lista objetiva de prós e de contras. Por exemplo, listou como “pró” a maior velocidade e a eficiência na execução de tarefas, enquanto os efeitos negativos do uso excessivo de IA na educação dos jovens entraram na lista de “contra”. Porém, após uma leitura atenta da encíclica, com 42 mil palavras, a análise não foi tão equilibrada. Contabilizou cinco pontos positivos e 37 negativos. Assim, o exercício serviu para reforçar as suas pré-existentes convicções sobre a IA. “Ser humano importa e é algo único, porque somos feitos à imagem e semelhança de Deus, e um robô não. […] Acredito, fortemente, no movimento que não quer ver o ser humano marginalizado em favor do robô”, disse Monts, de 27 anos, ao jornal National Catholic Register, da EWTN.

Esse movimento está a congregar um número crescente de católicos que decidiram não usar IA, especificamente, a variante “generativa”, ou seja, a tecnologia que, supostamente, cria textos, imagens, áudios ou códigos de computador, a partir de padrões estatísticos em bancos de dados massivos. A maioria dessas pessoas já teve contacto com IA generativa, por meio de chatbots como ChatGPT, Claude, Grok e Gemini.

Todavia, a oposição à IA generativa não é posição exclusiva de católicos, já que pessoas em várias partes do Mundo estão a organizar-se para desencorajarem a expansão dessa tecnologia. Aliás, alimentam a resistência outras preocupações importantes, como o impacto ambiental de centros de dados de IA. Porém, o grupo católico contra a IA acrescenta uma perspetiva baseada na fé, com centro na defesa da dignidade da pessoa humana, criada à imagem de Deus, com criatividade e intelecto concebidos como dons do Espírito Santo. E embora tais católicos não tenham obtido a forte condenação dos chatbots de IA, que esperavam, do Papa, acreditam que a sua posição está a ganhar força.

“Não está a acontecer num lugar específico ou só numa paróquia”, observou, sobre o movimento, Marc Barnes, professor da Faculdade de São José Operário em, Steubenville, nos EUA, e editor da revista católica New Polity, vincando que está a acontecer em todos os lugares onde as pessoas acham meio ridículo e deprimente que os amigos estejam a conversar com fake people (pessoas falsas).

Os católicos contrários à IA vêm de diversas origens, e os seus argumentos contra a tecnologia são tanto filosóficos como práticos. Ao mesmo tempo, o movimento tem jornalistas e pensadores influentes, como Matthew Walther, fundador da revista católica The Lamp, que chamou a IA de “um mal que todas as pessoas deveriam rejeitar”. E Lily Abadal, professora de Filosofia da Universidade do Sul da Florida, em St. Petersburg, nos EUA, diz que “o Espírito Santo não guia as ações” dos chatbots.

Artistas visuais, chocados com a proliferação online de “lixo” gerado por IA, têm-se manifestado veementemente. Chris Lewis, criador do estúdio de arte católica Baritus, chamou a arte de IA de “zombaria ou imitação da verdadeira e autêntica criatividade”. A artista sacra Kate Capato diz, em longa postagem em seu blogue, que os católicos “devem estar em guarda contra a infiltração de imagens de IA nos nossos espaços sagrados e, especialmente, na nossa liturgia”.

New Polity, publicação liderada por Marc Barnes, tornou-se ponto de encontro para a “aliança anti-chatbot”. Além de dedicar uma edição inteira aos males associados à IA, está a organizar um evento, em outubro, em Steubenville, Ohio, nos EUA, com o objetivo de formar uma resistência católica organizada à normalização da IA ​​generativa.

Alguns dos argumentos contra a IA que ganharam força na cultura em geral também agradam a muitos católicos. Por exemplo, centros de dados que consomem muitos recursos e são necessários para processar a IA têm impacto negativo no meio ambiente; há o perigo de usar a tecnologia para substituir a cognição humana, em vez de a aprimorar; e há ampla evidência a sugerir que os chatbots são perigosos para crianças.

Embora todos esses argumentos estejam a ser intensamente debatidos, a grande preocupação dos católicos é que falar com uma entidade não-humana de maneira similar à humana é antinatural, irracional e incompatível com a visão católica da dignidade humana, mesmo que os utilizadores saibam que não estão a falar com uma pessoa real. E Marc Barnes causou polémica, em 2025, com o ensaio intitulado “AI Chatbots Are Evil” (“Chatbots de IA são malignos”), posição que vem defendendo, desde então, em diversos debates que duram várias horas.

Pediu, enfaticamente, que o Magisterium AI – produto popular de IA treinado para se basear só em fontes católicas e que usa uma interface de conversação – seja “excluído” e reafirmou a sua opinião de que os chatbots, em geral, são malignos “porque, pela sua própria natureza, envolvem o ser humano num ato irracional”. Os chatbots selecionam as suas palavras só por meio da probabilidade, disse ele, e não podem, assim, “testemunhar”, pessoalmente, a verdade da fé católica como os seres humanos podem.

O Magisterium AI é a principal IA católica. É gratuito e fácil de usar, oferecendo respostas instantâneas e confiáveis, enraizadas na tradição católica. Projetado para crentes é para quem busca, é companheiro para explorar a fé, com clareza e com profundidade.

Porém, Barnes diz que os chatbots exacerbam condições já disseminadas de solidão e de alienação, ao incentivarem a conexão com uma entidade não-humana. Em contrapartida, quando a vida católica é vivida, plenamente, em comunhão com o próprio Cristo e com outros fiéis, “a IA torna-se cada vez menos atraente, como remédio para a doença da solidão que carateriza a nossa cultura”. E, embora vários católicos contrários à IA tenham dito ao Register que acreditam que a tecnologia de modelos de linguagem abrangentes (LLM) que sustenta a IA pode ter usos legítimos, o problema das interfaces baseadas em conversação, mesmo que usadas para IA “católicas”, continua a ser um sério ponto de atrito.

Monts diz que a mensagem de Leão XIV, de janeiro, para o 60.º Dia Mundial das Comunicações Sociais – em que o Sumo Pontífice descreveu o comportamento dos chatbots como “enganador, especialmente, para as pessoas mais vulneráveis” – é a base de suas opiniões sobre IA baseada em chat, que se alinham, fortemente, com as de Barnes.

Na plataforma online Substack, Monts publica, frequentemente, títulos, como: “Vale mesmo a pena destruir o seu intelecto por causa da IA?” e “Como desvincular sua vida da IA, ​​em 15 minutos” Numa publicação do fim de julho, na qual descreveu a sua luta pessoal, ao ver o conteúdo sobre IA a proliferar, implorou aos seus leitores que se importassem com o facto de, em sua opinião, milhões de pessoas estarem a diminuir, voluntariamente, os seus dons intelectuais e criativos dados por Deus, ao terceirizarem atividades intelectuais para robôs. “É preciso convencer as pessoas de que as desvantagens superam as vantagens”, advertiu.

Católicos contrários à IA disseram ao Register acreditar que os critérios de discernimento estabelecidos por Leão XIV, na encíclica, apoiam, decisivamente, a conclusão de que os católicos não devem usar IA generativa. Mas essa interpretação não é universal. Um dos trechos mais controversos da encíclica é o parágrafo 100, no qual o papa escreveu que a IA “pode ser uma ajuda preciosa, exigindo, ao mesmo tempo, uma abordagem sóbria e vigilante”.

Os católicos céticos em relação à IA interpretam o apelo do papa à moderação como justificativa para não conceder à tecnologia e aos seus criadores o benefício da dúvida. Já os católicos mais otimistas, quanto ao uso da IA, ​​veem tal passagem, menos como advertência para rejeitar a tecnologia e mais como desafio aos católicos para que usem e direcionem a tecnologia para bons fins e usos positivos. Matthew Harvey Sanders, criador da Magisterium AI, disse, após a publicação da encíclica, que as críticas de Leão XIV apontam para a conclusão de que os católicos não se devem retirar da IA, mas empenharem-se na construção de sistemas de IA melhores, desde o início. E Taylor Black, católico que é diretor de IA e de ecossistemas de empreendimentos da Microsoft, disse ao Register que não vê a IA como diferente de outras tecnologias que os católicos “batizaram” e usaram para ajudar a espalhar o Evangelho, ao longo dos séculos.

Em contraponto, alguns católicos bastante críticos da IA ​​disseram sentir preocupação com o facto de a orientação papal estar muito aquém da proibição universal. Por exemplo, Ned Desmond, ex-executivo do Vale do Silício, escreveu, na revista First Things que a Magnifica humanitas, foi uma “oportunidade perdida”, para destacar os perigos dos chatbots. E Matthew Walther, em contundente crítica para o jornal americano The New York Times, considerou o tratamento dado à IA na encíclica “dececionantemente comedido e cauteloso” e até “ingénuo”, pois a visão aparentemente positiva do papa sobre a IA como ferramenta com usos éticos corre o risco de ser mal interpretada como licença para deixar a IA proliferar.

Na ausência de proibição papal do uso de IA, Walther disse que os católicos devem mostrar presença pessoal, vivendo a sua fé e participando dos sacramentos, em vez de formarem qualquer tipo de relacionamento com uma entidade desencarnada, não-humana.

Embora as implicações da Magnifica humanitas sejam debatíveis, a encíclica não é a única orientação da Santa Sé sobre IA. Por exemplo, Leão XIV pediu a exclusão de certos usos da IA, advertindo os padres a não a usarem para homilias e dizendo aos jovens que não deixem a IA fazer-lhes os trabalhos de casa; alertou contra a simulação de vozes e de rostos humanos; e, na encíclica, expressou profunda preocupação com o uso bélico da IA.

Barnes aprecia o facto de o papa não ter proibido os católicos de usarem IA, mas de, com “o ritmo perfeito”, chamar os fiéis de volta aos princípios fundamentais, incentivando-os a cultivarem o seu próprio discernimento. Se uma condenação papal da IA ​​generativa vier a ocorrer, Barnes suspeita que isso só acontecerá, após muito debate, tal como sucedeu com a Igreja, que levou anos a estudar e a discernir, antes de afirmar a proibição do controlo artificial da natalidade, na década de 1960. Por sua vez, Monts disse estar focada em responder ao fenómeno da IA, com lógica, com argumentos e com oração. E falou da possibilidade de que, num futuro em que o conteúdo gerado por IA seja mais omnipresente, a oferta de palavras e de arte criadas por humanos seja considerada, extraoficialmente, a “oitava obra de misericórdia espiritual”.

Para Monts, os primeiros dias de resistência à IA, liderada, principalmente, por leigos, lembram o que leu sobre os primórdios do movimento pró-vida nos EUA, mas sente-se reconfortada com o crescente número de católicos que expressam ceticismo, em relação à IA generativa, e tomam a decisão contracultural de não a usarem. “Estatisticamente, a maré está a mudar. As pessoas odeiam centros de dados. Odeiam IA generativa. Nos EUA, em geral, as pessoas estão a manifestar-se, veementemente, contra”, disse, revelando que recebe mais mensagens de católicos a agradecerem a mensagem contra a IA do que a expressarem oposição. Não está só!

***

Leão XIV, em audiência, a 21 de agosto, na Sala Clementina, no Vaticano, aos participantes do 17.º encontro anual da Rede Internacional de Legisladores Católicos, relevou o facto de o tema do encontro deste ano, “Dignidade humana e inteligência artificial: desafios, oportunidades e controlo”, oferecer o ensejo de “refletir sobre uma das questões fundamentais da nossa época”, pois “o extraordinário progresso da IA abre horizontes que as gerações anteriores mal poderiam imaginar”. Mas o papa sustenta que cada avanço tecnológico põe a Humanidade ante uma questão moral: “Não apenas o que podemos fazer, mas o que devemos fazer?”

De facto, segundo Leão XIV, a família humana está perante uma escolha fundamental. Como escreveu, na Magnifica humanitas, “podemos ser tentados a construir uma nova Torre de Babel, onde o poder, a eficiência e o controlo obscurecem o rosto da pessoa humana”, ou a “construir uma civilização na qual a tecnologia sirva ao desenvolvimento integral de cada pessoa”.

Para o Santo Padre, a questão decisiva continua a mesma: “A tecnologia ajuda as pessoas a serem mais fraternas e responsáveis para consigo mesmas e umas para com as outras?” A esse respeito, os princípios da Doutrina Social da Igreja (DSI) – a dignidade inviolável de cada pessoa, o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade e a solidariedade – fornecem critérios seguros para o discernimento. E a vocação dos legisladores coloca-os no centro deste desafio. Responsáveis ​​por elaborarem políticas para a gestão da tecnologia para o bem comum, a sua tarefa não é impedir a inovação, mas guiá-la com sabedoria. A boa legislação incentiva a criatividade científica e tecnológica e salvaguarda os direitos humanos e as liberdades. Protege da exploração, zela pela privacidade pessoal, garante a transparência no uso das tecnologias emergentes e assegura que elas fortaleçam as instituições democráticas.

Para tanto, “são necessários quadros jurídicos adequados, vigilância independente, educação dos utilizadores, uma política que não renuncie à sua missão”, disse o Papa, para quem “essa vigilância pode atuar em diversos níveis – local, nacional e internacional –, facilitando o debate aberto sobre o código ético a utilizar, submetendo-o a critérios de justiça social partilhada” e “garantindo que nenhuma ideologia ou interesse específico dite os valores incorporados nos sistemas de IA”. Porém, advertiu que o rápido desenvolvimento da IA corre o risco de criar novas formas de dependência tecnológica, com as nações mais pobres cada vez mais dependentes das mais ricas, o que postula vigilância, para “evitar que a inovação se torne mais um veículo de colonialismo ideológico ou económico”.

Depois, denunciou a forma sutil de domínio, quando são os algoritmos que decidem quem é visto e quem permanece invisível, quando plataformas digitais influenciam o debate público, sem prestarem contas, e quando a dignidade dos trabalhadores é subordinada à otimização de sistemas. Ora, contra tal cultura do poder, a Igreja propõe a civilização do amor, que guie a IA, com sabedoria, formando corações capazes de caridade, de compaixão e de responsabilidade, sendo a família a primeira escola da Humanidade. E o papa encoraja à promoção de “políticas que fortaleçam o matrimónio e as famílias, que apoiem os pais na missão educativa e permitam aos jovens olharem o futuro com confiança”. “O Mundo não carece de IA que diminua a Humanidade, […] de inteligência humana iluminada pela sabedoria, de autoridade política guiada pela consciência e de inovação tecnológica impelida pela caridade. Só assim a IA deixará de ser rival da Humanidade, para se tornar servidora do bem comum”, disse o Pontífice.

***

A atitude primária contra a IA é tão insensata como estar contra outras coisas (jornais, cinema, rádio, televisão, telefone, telemóvel, redes sociais, dinamite, eletricidade, avião, comboio, política, etc.). A solução não é ignorar ou banir, mas promover a boa utilização e elidir a má, prevenindo os incautos. Cabe aos governos a regulamentação e aos cidadãos a vigilância.

2026.08.26 - Louro de Carvalho


Sem comentários:

Enviar um comentário