As
forças russas afirmaram, a 3 de agosto que intercetaram um drone de
reconhecimento Tekever AR3, desenvolvido pela empresa portuguesa Tekever e
fornecido à Ucrânia, que o utilizava. E Moscovo garante que o aparelho – por se
tratar de um modelo de reconhecimento “raro” – será analisado por especialistas
militares, num instituto de investigação militar, para estudarem a sua tecnologia:
o design, as especificações técnicas e as soluções de engenharia.
Segundo
a agência oficial russa Tass, o drone foi intercetado na região
fronteiriça de Briansk por um batalhão especializado em combate a veículos
aéreos não tripulados. E, de acordo com um comandante da unidade, citado pela
agência, os militares russos ficaram surpreendidos com o equipamento. “Nunca
tínhamos visto nada assim, antes. Quando chegámos ao local do acidente,
descobrimos que era um drone de reconhecimento português”, disse o comandante.
Segundo
a TASS, o drone voava a altitude próxima dos 2500 metros e a uma
velocidade entre os 90 e os 100 quilómetros, por hora. Os militares russos
afirmam que a perseguição durou cerca de meia hora e que intercetaram o
aparelho, pouco antes de esgotar a bateria do sistema antidrones utilizado, e
que, apesar da operação, a fuselagem e grande parte do equipamento eletrónico
terão permanecido intactos, ficando apenas danificado o motor.
Até
ao momento, nem a Ucrânia, nem a empresa portuguesa Tekever comentaram estas
alegações, que não puderam ser verificadas, de forma independente.
A
Tekever passou a fornecer drones à Ucrânia, em 2023, através do Fundo
Internacional para a Ucrânia (IFU), liderado pelo Reino Unido, para apoiar
operações de vigilância terrestre e marítima. Então, Ricardo Mendes, CEO e
cofundador da empresa, disse que a tecnológica portuguesa estava muito
orgulhosa, por contribuir para o esforço de defesa ucraniano, vincando que as
equipas trabalhavam na adaptação dos sistemas às exigências de batalha.
O
modelo AR3 é um drone de reconhecimento de longa duração, capaz de permanecer
até 16 horas em voo e de operar com diferentes configurações de sensores,
consoante a missão.
A
notícia surge depois de a Tekever anunciar um dos maiores contratos da sua História
com o Ministério da Defesa do Reino Unido. O acordo, com valor potencial de até
467 milhões de euros, ao longo de 10 anos, prevê o fornecimento do drone AR5 ao
programa Corvus, destinado a reforçar as capacidades de vigilância e de reconhecimento
do Exército britânico. E, segundo a Tekever, os drones AR5 já acumulam mais de
50 mil horas de voo em operações na Ucrânia, experiência que tem servido para
aperfeiçoar, continuamente, os sistemas autónomos desenvolvidos pela tecnológica
portuguesa.
Com
mais de 1500 colaboradores e operações em Portugal, no Reino Unido, na França, na
Estónia, na Ucrânia e nos Estados Unidos da América (EUA), a Tekever é,
atualmente, um dos principais fornecedores europeus de sistemas autónomos para
defesa e para segurança baseados em inteligência artificial (IA).
O
drone é um UAV (Unmanned Aerial Vehicle), também conhecido por VANT (veículo
aéreo não tripulado), é uma aeronave que voa sem nenhum piloto a bordo. Pode
ser controlado à distância por um operador, numa estação terrestre, ou voar
sozinho, de forma autónoma, através de programas de computador. Pode ser
pilotado por humanos, à distância, ou seguir rotas automáticas. Serve para
fotografias, para vídeos, para inspeção de pontes, para agricultura e para socorro
em emergências. E é usado para missões de vigilância, de reconhecimento de
terrenos e de transporte de carga (por vezes, demolidora ou letal).
***
“Um
drone de reconhecimento inimigo invadiu o nosso setor. Ficámos surpreendidos,
porque nunca tínhamos visto nada assim. O veículo aéreo não tripulado (UAV)
tinha estrutura diferente, na cauda e nas asas. Quando chegámos ao local do
acidente, descobrimos tratar-se de um drone de reconhecimento português. É
importante abater os UAV de reconhecimento, porque, primeiro, traçam rotas para
que os drones inimigos voem e, segundo, estão à procura das nossas posições
para nos poderem atacar”, explicou à TASS o comandante do batalhão
russo, que opera o drone intercetor “Lis” (Raposa), que, depois de abaterem o
Tekever AR3, este caiu intacto e que, embora o “motor tenha ficado danificado”,
a “fuselagem e a maior parte da estrutura tinham ficado intactas”.
O
modelo AR3, da Tekever, com quase quatro metros de envergadura, pesa 25
quilos e tem velocidade de cruzeiro entre 75 e 90 quilómetros, por hora (Km/h),
e um alcance de comunicação de até 230 km. São “computadores com asas”, no
dizer do CEO da Tekever, empresa fundada em 2001 e a maior exportadora de
drones para a Ucrânia. Em 2025, as exportações resultaram em lucros superiores
a 85 milhões de euros. Os UAV produzidos por aquela empresa estreitaram as
relações comerciais entre Portugal e a Ucrânia, que passaram da 75.ª para a 36.ª
posição, em seis anos (2019-2025), na tabela de exportações nacionais.
A
interceção deste aparelho junto à fronteira foi descrita pelo exército russo
como muito “desafiante”. Segundo os militares, após a deteção feita pelo radar,
o intercetor “Lis” iniciou uma perseguição de quase “30 minutos”. O AR3
“sobrevoava em círculos, a uma altitude de cerca de 2,5 quilómetros, à
velocidade de 90-100 km/h, impedindo-os de se aproximarem dele. Na aproximação
final, a bateria do “Lis” estava a ficar sem carga, mas a tripulação conseguiu,
mesmo assim, apanhar e destruir o drone de reconhecimento português.
O
“Lis” é um drone especializado em interceção aérea, desenvolvido por Moscovo. O
pequeno UAV de asa fixa está equipado com uma ogiva de cerca de um quilo e com um
sistema automático de aquisição de alvos. Após detetar um alvo por radar, é
lançado para o rastreio do alvo e, assim que fixa a cauda, detona a carga
explosiva, destruindo o UAV inimigo.
***
Lembro-me
de Marcelo Rebelo de Sousa, quando era Presidente da República, ter dito que a
guerra na Ucrânia beneficiava Portugal. Agora, confirma-se que, de quatro
milhões de euros, em 2022, ano do início da guerra, as receitas dispararam para
87,3 milhões, em 2025. As exportações portuguesas para a Ucrânia, cinco a 10
vezes abaixo, antes do conflito, representam, atualmente, o dobro das vendas à
Rússia.
As
vendas de drones à Ucrânia, por parte de Portugal, têm conhecido significativo
aumento, desde o início da guerra entre a Ucrânia e a Rússia, de tal modo que
só as exportações de sistemas não tripulados para Kiev superam o total de
vendas portuguesas à Rússia.
Segundo
o Jornal Económico, em 2022, ano da eclosão do conflito, as
receitas eram de quatro milhões de euros, tendo aumentado para 23 milhões, em
2023, e para 33 milhões, em 2024. A tendência de crescimento era notória
e, em 2025, a subida foi exponencial, com os lucros a chegarem aos 87,3
milhões de euros. O maior exportador nacional de drones para a Ucrânia é
a Tekever, uma empresa com sede nas Caldas da Rainha.
Os UAV
tiveram papel decisivo no estreitamento das relações comerciais entre Lisboa e
Kiev. A Rússia está agora em 50.º na lista dos países que mais compras fazem a
Portugal, quando, há sete anos, estava em 34.º. De entre os 100 principais
destinos, só Cuba, que baixou 20 posições, e a Síria, que caiu 19
lugares, tiveram quedas superiores às de Moscovo (16).
No
período anterior à guerra, as exportações lusas para a Ucrânia, neste século,
eram cinco a 10 vezes inferiores às vendas para a Rússia. Em 2023 e 2024, já se
notou um crescimento para 90% e, em 2025, representavam já o dobro.
Considerando
as compras feitas por empresas ucranianas a Portugal, o salto foi de 110%.
No top 100 das exportações nacionais, a Ucrânia é dos poucos países que
apresentam crescimento de dois a três dígitos. Esta trajetória ascendente terá
sido potenciada pelo acordo entre Portugal e a Ucrânia, de dezembro de
2025, para produção conjunta de UAV subaquáticos.
***
Com
tecnologia baseada em inteligência artificial (IA), projetada para operações de
longa duração e a grandes distâncias, os drones da Tekever tornaram-se ferramenta
fundamental de vigilância para os militares ucranianos, na linha da frente da
guerra. E Portugal tem vindo a intensificar a venda de drones à Ucrânia, desde
o início da guerra com a Rússia, de tal modo que a exportação de UAV para Kiev alcançou
os 87 milhões de euros, em 2025.
O
maior exportador nacional de drones para a Ucrânia é a Tekever, fundada em
2001, mas que se tornou um “unicórnio”, em maio de 2025, ao atingir avaliação
superior a 1,2 mil milhões de euros. Porém, não esteve sempre ligada à produção
de UAV.
Ao
saírem do Instituto Superior Técnico (IST), da informática, os cofundadores
estavam interessados em três áreas: IA, redes de comunicação móveis e sistemas
embebidos. Portanto, criaram uma empresa para desenvolver tecnologias para o
que achavam ser o futuro, em que tudo estaria ligado e o software estaria
a correr em todos os tipos de dispositivos, desde os computadores, os
telemóveis, até ao frigorífico ou ao carro e por aí fora. Com base na
tecnologia desenvolvida nos primeiros anos, perceberam que havia áreas nas
quais fazia sentido abordar problemas do ponto de vista do software,
da IA e de que as coisas estão em rede. Uma dessas áreas foi a área dos
sistemas autónomos. Ora tirar o piloto de dentro do avião é,
essencialmente, um problema de IA a bordo. E a empresa que vem desta área teve
uma boa possibilidade de vir a desenvolver algo único, a nível mundial.
A
segurança e a defesa são mercado natural para este tipo de sistemas, onde há
uma aplicação direta. Como a Tekever não foi pensada para desenvolver um
produto, para vender ao mercado de consumo, os seus grandes clientes são
da área da energia, bem como governos, forças armadas e forças de segurança. Os
primeiros grandes clientes dos sistemas autónomos foram a Agência de Segurança
Marítima Europeia e o governo britânico, para quem a empresa começou a fazer
a vigilância do Canal da Mancha, no final de 2018 e no início de 2019.
Por
essa altura, a Tekever já era o líder europeu, na área da vigilância marítima,
mas os sistemas que a empresa desenvolvia ainda não estavam preparados para
trabalharem num ambiente de guerra. E a entrada no campo da defesa, com
maior investimento, financeiro e tecnológico, deu-se com o conflito na Ucrânia,
porque percebeu que podia ser muito útil, neste caso, aos ucranianos, num
terreno da frente de batalha.
O
CEO da Tekever vê, na Ucrânia, uma oportunidade para a Europa aprender, pois este
conflito revela a nova natureza dos conflitos. E os países do Ocidente, em
particular, os europeus, devem aprender com o que sucede na Ucrânia e pensar
como montam a sua doutrina militar e de segurança. Os UAV Tekever, na linha da
frente, funcionam como os olhos dos serviços secretos ucranianos. É o que se designa
por Intelligence, Surveillance, Reconnaissance and Target Acquisition. Isto é, são
sistemas focados na recolha e na gestão de informação com um grande
conjunto de sensores: câmaras eletro-óticas, câmaras de infravermelhos, câmaras
térmicas, radares, leitores de radiofrequência nas mais diversas frequências,
entre outros.
Estes
“computadores com asas” são úteis para operações de longo curso e para
cobrir grandes áreas. Em alto-mar, o modelo AR5, com quase oito metros de
envergadura e pesando quase 200 quilos, é o principal responsável pela
vigilância do Mar Negro. Já em terra, usa-se um modelo com metade do tamanho, o
AR3, que tem cerca de quatro metros de envergadura e pesa 25 quilos. Trabalham
com as forças ucranianas, em grandes distâncias. Fazem missões, muitas vezes,
de 10, 12, 14, 16 horas no ar. O seu papel é fornecer informação em tempo real,
extremamente precisa, às forças ucranianas, sobre o que se está a passar, em
grandes áreas, por exemplo, no Mar Negro ou em grandes superfícies terrestres.
A
IA desempenha papel fundamental na operação destes sistemas, permitindo aos UAV
tomar decisões, alterar rotas ou regressar à base, em ambientes onde o GPS
(Global Positioning System) pode ser bloqueado ou as comunicações
interrompidas, devido à interferência de equipamentos de guerra eletrónica
hostis. Podem manter comunicações diretas, isto é, do solo ao drone, até 250,
300 quilómetros no máximo, porque, depois disso, há a curvatura da Terra. A
partir daí, a solução passa a ser de comunicação por satélite, o que quer dizer
que um drone que levante voo do outro lado do Mundo pode ser controlado, a
partir de Portugal.
A
Tekever é um mundo já muito abrangente, que emprega cerca de 1300 pessoas. Além
de Portugal, onde tem presença nas Caldas da Rainha, em Ponte de Sor, em Leiria,
em Lisboa e no Porto, tem escritórios e instalações na França, no Reino Unido e
na Ucrânia.
***
Também
os EUA têm os drones MQ-9 Reaper, que chegaram, em março-abril, à base das
Lajes, onde foram montados, mas Portugal quis saber que elementos técnicos os
compõem, os certificados dos pilotos que os operam e a área para amaragem, em
caso de emergência.
O
Reaper, assim batizado pelas forças aéreas dos EUA e do Reino Unido, pode ser
traduzido para “Ceifador” (como na figura da “Grim Reaper”, personificação da
morte na cultura ocidental), refletindo o papel de ataque. É uma arma de
guerra, a maior e mais poderosa aeronave de combate não tripulada, um dos
aparelhos mais avançados atualmente em operação. É desenhado para atuar como
aeronave de reconhecimento, mas pode estar equipado com mísseis Hellfire,
utilizados para atingir alvos, o que o faz importante aliado, num cenário de
ataque, pois tem a capacidade de atacar alvos estratégicos, com grande
precisão, podendo transportar mísseis AGM-114 Hellfire e bombas
guiadas por laser ou GPS (como GBU-12 e GBU-38).
O
MQ-9A realizou seu primeiro voo, em 2001, e custa cerca de 48 milhões de euros.
E, apesar de ser arma poderosíssima, ainda não foi adquirida por muitos países.
Foi comprado apenas pela força aérea de cinco países: os EUA, o Reino Unido, a Itália,
a França e a Espanha. Também a NASA possui esta arma assassina.
O
Reaper é um drone classificado como MALE (Medium Altitude, Long
Endurance), ou seja, voa a média altitude, mas mantém-se no ar, durante
longos períodos. Além disso, combina vigilância e reconhecimento com apoio a
tropas no terreno.
O
MQ-9 Reaper tem 11 metros de comprimento e uma envergadura de que pode ir até
aos 24 metros, o equivalente a um avião comercial pequeno. De acordo com o
fabricante, tem uma autonomia de mais de 27 horas, podendo voar até 15240
metros de altitude e transportar 1361 quilos de carga externa.
Este
drone não é autónomo, sendo controlado por pilotos e operadores em bases
terrestres. Pode também ser operado via satélite, o que permite missões globais
sem risco direto para pilotos.
***
Em
suma, temos a guerra a fazer-se também com pequenas aeronaves não tripuladas,
como a mão que se oculta por trás do arbusto, para surpreender a presa, ou como
quem usa a tática do “bate e foge”, se o deixarem. Parece-me guerrilha ou mesmo
terrorismo autorizado. Santo Deus!
2026.08.03
– Louro de Carvalho
Sem comentários:
Enviar um comentário