sábado, 22 de agosto de 2026

Vestígios das guerras mundiais: uns ameaçadores, outros peças de museu

 

Nos últimos meses, incêndios florestais devastadores vêm consumindo vastas áreas do oeste da Europa, com o continente a enfrentar temperaturas escaldantes e secas, e os bombeiros a encararem a ameaça adicional, potencialmente mortal, de projéteis que explodem. São bombas enterradas e não detonadas das I e II Guerras Mundiais, tendo-se registado explosões na França, na Alemanha, na Bélgica e nos Países Baixos. E há rios que recuam e mostram navios de guerra, uma moto da Wehrmacht (tropas nazis) e uma bomba.  

Sarah Njeri, especialista em paz e conflitos na School of Oriental and African Studies, em Londres, afirmou que “as alterações climáticas estão, agora, a fazer o trabalho de desenterrar e reativar aquilo que antes era estável”.

Tudo isto é relatado em artigos de Nathan Rennolds e de Nela Heidner, respetivamente, sob os títulos “Europa: fogos devastadores revelam ameaça de bombas enterradas da I e II Guerras Mundiais”, de 22 de agosto, e “Restos de dois soldados da Wehrmacht na Danúbio: um serviu na Waffen-SS”, de 12 de agosto, publicados pela Euronews.

Nathan Rennolds refere que “um incêndio perto da cidade de Bordéus, no sudoeste de França, revelou um conjunto de munições que se acredita serem da época da II Guerra Mundial, enquanto, na província de Liège, no leste da Bélgica, o governador local, Hervé Jamar, afirmou que os serviços de emergência se estão a adaptar para terem em conta munições enterradas na área do incêndio”, que “foram ouvidas algumas detonações esporádicas”, recentemente, e que nenhuma equipa de bombeiros corria perigo, mas os media locais publicaram fotos de um bombeiro manuseando uma bomba enferrujada.

Liège foi palco de intenso incêndio na área de High Fens, que se estende para lá da fronteira com a Alemanha. Ora a Batalha das Ardenas, um dos combates mais sangrentos da II Guerra Mundial, travou-se em High Fens e arredores. As forças alemãs lançaram grande ofensiva contra as tropas aliadas, na região, a 16 de dezembro de 1944, obtendo sucesso inicial, ao apanharem os militares norte-americanos de surpresa. Porém, o ataque esmoreceu, no final do mês, à medida que chegavam reforços aliados e os recursos alemães se esgotavam.

Igualmente, as secas, na Europa, têm trazido à superfície viaturas militares e armas da época, com rios em retração a revelarem navios de guerra alemães, uma moto da Wehrmacht e uma bomba. Christina Greene, investigadora na Universidade do Arizona, afirmou que “o legado da guerra continua a voltar à superfície”, devido às alterações climáticas, e acrescentou: “Estamos a reviver os legados de guerra e conflito de uma forma com que, há muito, não tínhamos de lidar em determinados locais.”

Tais bombas e minas enferrujadas põem em risco as equipas de combate a incêndios, pois alguns desses dispositivos detonaram, em virtude do calor intenso. Por isso, uma equipa de desativação de explosivos foi mobilizada para vasculhar uma floresta ameaçada pelas chamas perto dum local de intensos combates na província de Limburg, em 1944.

Impulsionados pelas mudanças climáticas, os incêndios e as explosões mostram que a “sorte climática do continente se está a esgotar. Antes, as temperaturas estáveis ​​e as chuvas previsíveis garantiam que a maioria das munições enterradas estivesse inativa. Agora, as alterações climáticas desenterram e reativam o que, antes, era estável. Os incêndios podem acender munições antigas ou queimar a vegetação rasteira e os arbustos que as escondem.

Segundo um estudo publicado, em julho, pelo grupo World Weather Attribution, esta temporada de incêndios florestais foi exacerbada pelas chuvas de janeiro, que favoreceram o crescimento de vegetação que tornou combustível para as chamas, no verão. As altas temperaturas, combinadas com a seca, a baixa humidade e os ventos fortes, geraram o ambiente ideal para incêndios. À medida que avançavam, as chamas espalharam-se por territórios onde havia munições não detonadas, um legado mortal que persistiu além do silêncio das armas.

Numa floresta seca e ressequida da França, um grande incêndio florestal nos arredores da cidade de Bordéus, no sudoeste do país, revelou um depósito do que se acredita ser munição da II Guerra Mundial, durante a qual armadilhas, bombas e minas foram espalhadas pela densa floresta de turfa da província, conhecida como Fagnes Heights. Nos primeiros quatro anos após a rendição da Alemanha, em 1945, as munições mataram seis civis, explicou Bernard Collard, historiador local e diretor do Museu Truschbaum, perto da fronteira entre a Bélgica e a Alemanha, que abriga uma coleção de artefactos de guerra, advertindo que, quando se entra numa floresta como aquela, não sabe onde estão os explosivos, e dizendo que se lembra de o seu pai ter detonado uma bomba que encontrou numa pedreira.

O incêndio nas Colinas de Fagnes e arredores, que ultrapassou a fronteira para o território alemão, alastrou sobre um campo de batalha (o das Ardenas) que foi palco de sangrentos combates entre os nazistas e as tropas aliadas e chegou perto do local de duas escaramuças menos conhecidas ao longo da crista de Elsenborn e na Floresta de Hürtgen, que duraram 88 dias e de resultou a morte de cerca de 33 mil soldados americanos e 28 mil alemães.

Bernard Collard está autorizado a usar um detetor de metais para procurar nos antigos campos de batalha, agora florestas, pastagens e terrenos agrícolas. Já encontrou projéteis de morteiro, metralhadoras, capacetes, caixas de cigarros e um esqueleto humano. “Nunca se sabe o que se pode encontrar, e não é algo a ser encarado de ânimo leve”, alertou ele, de pé num local que outrora foi palco de um banho de sangue. Nas proximidades, arbustos de mirtilo cobrem antigas trincheiras, valas e crateras profundas causadas por disparos de artilharia.

O historiador trabalha, frequentemente, com a equipa belga de retirada de minas, convivendo bem com isso, pois faz parte da História do país. E, em cada ano, o Serviço Belga de Desativação e Destruição de Artefactos Explosivos atende a mais de três mil solicitações, na Bélgica, e desativa entre 200 e 250 toneladas de munições das duas guerras mundiais.

Porém, os incêndios não são a única ameaça. Também a seca ajuda a revelar o passado: a queda no fluxo dos rios e nos níveis dos lagos expôs a presença de armas antigas. Na Eslováquia, o nível da água do Danúbio recuou, expondo duas minas navais que a polícia retirou da água e enterrou numa vala para detonação controlada. As autoridades húngaras fecharam a Ponte Margarida, em Budapeste, após uma bomba da guerra em causa ser revelada, na sua base, pela água que recuou. E a seca do Reno, mostrou às autoridades alemãs uma bomba da mesma guerra.

Christina Greene, que, juntamente com Sarah Njeri, foi coautora de um artigo sobre incêndios florestais, na Europa, e sobre o risco representado por munições não detonadas, disse que “o legado da guerra continua a ressurgir”, devido às mudanças climáticas, de uma forma com a qual não tivemos que lidar, durante muito tempo, em certos lugares”.

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Em mais de oito décadas, os corpos de dois soldados alemães permaneceram enterrados no lodo do Danúbio. Só o nível excecionalmente baixo do rio, em Budapeste, trouxe à luz a sua história. E, junto aos corpos, foram encontradas chapas de identificação alemãs totalmente intactas. Isso abre uma boa oportunidade de os identificar, mais de 80 anos depois.

A descoberta está ligada a uma DKW NZ 350-1, também em notável bom estado de conservação, localizada no início de agosto na margem do Danúbio, no lado de Buda.

Por baixo da moto ou na sua proximidade imediata, funcionários do Instituto e Museu Húngaro de História Militar encontraram restos humanos. Gábor Kohlrusz, colaborador do Volksbund Deutsche Kriegsgräberfürsorge (comissão alemã de sepulturas de guerra), ou simplesmente, Volksbund, retirou os ossos dos dois homens do leito do rio agora exposto.

Kohlrusz trabalha, na Hungria, como responsável pelas trasladações do Volksbund. Entre as suas tarefas, contam-se a procura, a recuperação e a documentação de mortos de guerra alemães, bem como a recolha de objetos pessoais e de chapas de identificação. E, com historiadores e parceiros locais, contribui para esclarecer a identidade dos soldados caídos e reconstruir destinos de guerra que permaneceram sem resposta, durante décadas.

Durante a II Guerra Mundial, as chapas de identificação dos soldados alemães mortos em combate eram partidas em duas: uma metade permanecia com o corpo, a outra era enviada para o serviço de informações da Wehrmacht, em Berlim, permitindo registar os óbitos e informar os familiares. Como, no caso destes dois homens, ambas as chapas estão intactas, tudo indica que as famílias terão esperado em vão por comunicação oficial.

Além das chapas, encontrou-se uma aliança e um emblema de manga Kuban. Se for atribuído, inequivocamente, o emblema a um dos soldados, fornecerá um dado relevante do seu percurso militar. O Kuban-Schild era concedido a militares alemães destacados, em 1943 (ano da criação do emblema), na cabeça de ponte de Kuban, no sul da União Soviética. E, se se confirmar que um deles o usava, indicará que, já anos antes da morte, servira na Frente Oriental.

Arne Schrader, responsável pelo serviço de sepulturas de guerra e pelas relações internacionais, sabe como é difícil fazer este tipo de correspondência. Para determinar se as duas chapas de identificação pertencem aos corpos encontrados, são necessárias várias análises. Os nomes dos titulares originais podem ser identificados relativamente depressa, mas isso não basta para esclarecer, por completo, a identidade. O ponto de partida é o exame rigoroso dos restos mortais. Desde logo, o comprimento de determinados ossos pode fornecer pistas sobre a estatura da pessoa. Para isso, recorre-se, se possível, a vários ossos, como tíbias e fémures. Dos diferentes dados recolhidos resulta, gradualmente, um quadro que pode ser comparado com as informações conhecidas sobre os possíveis titulares das chapas de identificação.

Para estimar a idade dos soldados, há diversos indicadores anatómicos que permitem avaliar, com grande probabilidade, se um osso pertence a alguém com menos de 20 anos, entre 20 e 25 anos, ou a pessoa mais velha, até mais de 40 anos. No caso, desconhece-se a idade dos dois soldados. O exame antropológico dos restos mortais deverá, entre outros aspetos, recorrer a ossos, epífises e dentes do siso, para determinar a sua idade aproximada.

Uma das chapas recuperadas no Danúbio pertencia a um soldado da Wehrmacht, a segunda a um membro da Waffen-SS (ramo militar da SS - Schutzstaffel, a organização paramilitar do Partido Nazista), mas é necessário verificar se cada chapa corresponde, efetivamente, a um dos corpos recuperados. Uma eventual identificação preliminar feita pelo Volksbund teria de ser oficialmente confirmada pelo Arquivo Federal alemão.

O local da descoberta situa-se numa zona de acumulação de lodo portuário, misturado com gasóleo. Estas condições terão contribuído para a conservação excecional de partes da moto e das chapas de identificação. E o Volksbund pode cruzar os dados das chapas com documentação militar, com participações de desaparecimento e a com a sua própria “Gräbersuche Online”, base de dados que já reúne cerca de 5,4 milhões de registos.

A moto é uma DKW NZ 350-1, fabricada na Saxónia. Este modelo começou a ser desenvolvido em 1944, para utilização em operações militares. Contudo, ter sido encontrada com os dois corpos não prova que os soldados a utilizavam. Há vários cenários possíveis: os dois podem tê-la conduzido, com um ao volante e o outro como passageiro; a DKW pode ter pertencido a uma unidade, sem ligação direta aos dois militares; e pode ter chegado ao local, após a morte deles, caindo ao Danúbio, durante os combates, ou sido afundada mais tarde.

Nos trabalhos de recuperação, teve de se recorrer ao serviço de desativação de explosivos porque, além de outro material militar, foram descobertas minas anticarro do tipo 35: minas alemãs da II Guerra Mundial. O Instituto Militar Húngaro admite que o local corresponda a uma zona de deposição de material de guerra e de resíduos, criada após o fim do cerco.

Do ponto de vista histórico, é plausível a ligação aos combates pela cidade de Budapeste. Com efeito, a batalha de Budapeste decorreu entre o final de outubro ou o início de novembro de 1944 e 13 de fevereiro de 1945 e foi um dos combates mais sangrentos e militarmente mais intensos da fase final da II Guerra Mundial, na Hungria. A cidade foi defendida por unidades alemãs e húngaras contra o Exército Vermelho soviético e conta as forças romenas. E, após o cerco, no fim de dezembro de 1944, o confronto transformou-se num cerco prolongado, que terminou com a tomada de Budapeste pelas tropas soviéticas, a 13 de fevereiro.

Só futuras investigações poderão confirmar se os dois homens recuperados do Danúbio morreram na batalha de Budapeste. Só se sabe que os seus restos mortais serão depositados no cemitério de guerra de Budaörs. E a descoberta mostra quantos vestígios do passado estarão escondidos nos rios europeus. O Danúbio foi sempre importante via de transporte e comunicação. E o Volksbund admite que, devido ao nível atualmente baixo das águas, possam recuperar-se outros mortos de guerra, a partir de destroços de navios que venham à tona.

A fotografia da moto da Wehrmacht recuperada em Budapeste está a correr mundo: desde a “Times of India” e a “Vietnam.VN” a meios britânicos, como o “Daily Mirror”, até plataformas norte‑americanas, como a Yahoo Autos, todos relatam a descoberta espetacular.  

As DKW NZ 250 e NZ 350 eram especialmente robustas e fiáveis. A partir de 1944 foi lançada a variante NZ 350-1, para o contexto de guerra. O museu húngaro recuperou-a, a 2 de agosto, na praça Batthyány, em frente ao Parlamento. A motocicleta está quase totalmente preservada. Como ficou encharcada de água e de lama, durante a operação de resgate, pesava mais de 200 quilos. Agora, está a ser limpa e conservada no hangar do museu, em Budapeste.

É de referir um detalhe que passa facilmente despercebido: na parte traseira do quadro existia uma espécie de aleta ou raspador de lama e neve, para impedir que a lama e a neve se acumulassem no pneu e entrassem no sistema de transmissão. Igualmente, sobressai o bloco do motor em ferro fundido cinzento, uma liga de ferro fundido com elevado teor de grafite. Uma das razões era a escassez de alumínio provocada pela guerra. Contudo, não é ainda possível datar o exemplar concreto, com dia ou com mês de produção.

Nos últimos dias, além da moto, foram encontrados no leito seco do Danúbio componentes do equipamento original, entre eles um jerricã de combustível, um arnês em Y e um porta-baioneta. O arnês em Y era um sistema de tiras de couro que se usava sobre os ombros e se ligava à frente e atrás a outras correias, para fixar equipamento ao corpo, como sacos de pão, bolsas de munições ou cantis (a designação “Y” deriva da forma das tiras sobre os ombros”. E o porta-baioneta é o suporte da baioneta, fixado ao cinto ou ao equipamento, ou seja, é aí que a baioneta é transportada quando não está montada na espingarda.

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As alterações climáticas revelam que alguns vestígios das Grandes Guerras são perigosos, mas que todos eles têm interesse histórico, a nível humano e a nível técnico-científico.

2026.08.22 – Louro de Carvalho


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