Nos
últimos meses, incêndios florestais devastadores vêm consumindo vastas áreas do
oeste da Europa, com o continente a enfrentar temperaturas escaldantes e secas,
e os bombeiros a encararem a ameaça adicional, potencialmente mortal, de
projéteis que explodem. São bombas enterradas e não detonadas das I e II
Guerras Mundiais, tendo-se registado explosões na França, na Alemanha, na Bélgica
e nos Países Baixos. E há rios que recuam e mostram navios de guerra, uma moto
da Wehrmacht (tropas nazis) e uma bomba.
Sarah
Njeri, especialista em paz e conflitos na School of Oriental and African
Studies, em Londres, afirmou que “as alterações climáticas estão, agora, a
fazer o trabalho de desenterrar e reativar aquilo que antes era estável”.
Tudo
isto é relatado em artigos de Nathan Rennolds e de Nela Heidner,
respetivamente, sob os títulos “Europa: fogos devastadores revelam ameaça de
bombas enterradas da I e II Guerras Mundiais”, de 22 de agosto, e “Restos de
dois soldados da Wehrmacht na Danúbio: um serviu na Waffen-SS”, de 12 de
agosto, publicados pela Euronews.
Nathan
Rennolds refere que “um incêndio perto da cidade de Bordéus, no sudoeste
de França, revelou um conjunto de munições que se acredita serem da época da II
Guerra Mundial, enquanto, na província de Liège, no leste da Bélgica, o
governador local, Hervé Jamar, afirmou que os serviços de emergência se estão a
adaptar para terem em conta munições enterradas na área do incêndio”, que
“foram ouvidas algumas detonações esporádicas”, recentemente, e que nenhuma
equipa de bombeiros corria perigo, mas os media locais publicaram fotos
de um bombeiro manuseando uma bomba enferrujada.
Liège
foi palco de intenso incêndio na área de High Fens, que se estende para lá da
fronteira com a Alemanha. Ora a Batalha das Ardenas, um dos combates mais
sangrentos da II Guerra Mundial, travou-se em High Fens e arredores. As forças
alemãs lançaram grande ofensiva contra as tropas aliadas, na região, a 16 de
dezembro de 1944, obtendo sucesso inicial, ao apanharem os militares
norte-americanos de surpresa. Porém, o ataque esmoreceu, no final do mês, à
medida que chegavam reforços aliados e os recursos alemães se esgotavam.
Igualmente,
as secas, na Europa, têm trazido à superfície viaturas militares e armas da
época, com rios em retração a revelarem navios de guerra alemães, uma moto da
Wehrmacht e uma bomba. Christina Greene, investigadora na Universidade do
Arizona, afirmou que “o legado da guerra continua a voltar à superfície”,
devido às alterações climáticas, e acrescentou: “Estamos a reviver os legados
de guerra e conflito de uma forma com que, há muito, não tínhamos de lidar em
determinados locais.”
Tais
bombas e minas enferrujadas põem em risco as equipas de combate a incêndios,
pois alguns desses dispositivos detonaram, em virtude do calor intenso. Por
isso, uma equipa de desativação de explosivos foi mobilizada para vasculhar uma
floresta ameaçada pelas chamas perto dum local de intensos combates na
província de Limburg, em 1944.
Impulsionados
pelas mudanças climáticas, os incêndios e as explosões mostram que a “sorte
climática do continente se está a esgotar. Antes, as temperaturas estáveis e as
chuvas previsíveis garantiam que a maioria das munições enterradas estivesse
inativa. Agora, as alterações climáticas desenterram e reativam o que, antes,
era estável. Os incêndios podem acender munições antigas ou queimar a vegetação
rasteira e os arbustos que as escondem.
Segundo
um estudo publicado, em julho, pelo grupo World Weather Attribution, esta
temporada de incêndios florestais foi exacerbada pelas chuvas de janeiro, que
favoreceram o crescimento de vegetação que tornou combustível para as chamas, no
verão. As altas temperaturas, combinadas com a seca, a baixa humidade e os
ventos fortes, geraram o ambiente ideal para incêndios. À medida que avançavam,
as chamas espalharam-se por territórios onde havia munições não detonadas, um
legado mortal que persistiu além do silêncio das armas.
Numa
floresta seca e ressequida da França, um grande incêndio florestal nos
arredores da cidade de Bordéus, no sudoeste do país, revelou um depósito do que
se acredita ser munição da II Guerra Mundial, durante a qual armadilhas, bombas
e minas foram espalhadas pela densa floresta de turfa da província, conhecida
como Fagnes Heights. Nos primeiros quatro anos após a rendição da Alemanha, em
1945, as munições mataram seis civis, explicou Bernard Collard, historiador local
e diretor do Museu Truschbaum, perto da fronteira entre a Bélgica e a Alemanha,
que abriga uma coleção de artefactos de guerra, advertindo que, quando se entra
numa floresta como aquela, não sabe onde estão os explosivos, e dizendo que se
lembra de o seu pai ter detonado uma bomba que encontrou numa pedreira.
O
incêndio nas Colinas de Fagnes e arredores, que ultrapassou a fronteira para o
território alemão, alastrou sobre um campo de batalha (o das Ardenas) que foi
palco de sangrentos combates entre os nazistas e as tropas aliadas e chegou
perto do local de duas escaramuças menos conhecidas ao longo da crista de
Elsenborn e na Floresta de Hürtgen, que duraram 88 dias e de resultou a morte
de cerca de 33 mil soldados americanos e 28 mil alemães.
Bernard
Collard está autorizado a usar um detetor de metais para procurar nos antigos
campos de batalha, agora florestas, pastagens e terrenos agrícolas. Já
encontrou projéteis de morteiro, metralhadoras, capacetes, caixas de cigarros e
um esqueleto humano. “Nunca se sabe o que se pode encontrar, e não é algo a ser
encarado de ânimo leve”, alertou ele, de pé num local que outrora foi palco de
um banho de sangue. Nas proximidades, arbustos de mirtilo cobrem antigas
trincheiras, valas e crateras profundas causadas por disparos de artilharia.
O
historiador trabalha, frequentemente, com a equipa belga de retirada de minas,
convivendo bem com isso, pois faz parte da História do país. E, em cada ano, o
Serviço Belga de Desativação e Destruição de Artefactos Explosivos atende a
mais de três mil solicitações, na Bélgica, e desativa entre 200 e 250 toneladas
de munições das duas guerras mundiais.
Porém,
os incêndios não são a única ameaça. Também a seca ajuda a revelar o passado: a
queda no fluxo dos rios e nos níveis dos lagos expôs a presença de armas
antigas. Na Eslováquia, o nível da água do Danúbio recuou, expondo duas minas
navais que a polícia retirou da água e enterrou numa vala para detonação
controlada. As autoridades húngaras fecharam a Ponte Margarida, em Budapeste, após
uma bomba da guerra em causa ser revelada, na sua base, pela água que recuou. E
a seca do Reno, mostrou às autoridades alemãs uma bomba da mesma guerra.
Christina
Greene, que, juntamente com Sarah Njeri, foi coautora de um artigo sobre
incêndios florestais, na Europa, e sobre o risco representado por munições não
detonadas, disse que “o legado da guerra continua a ressurgir”, devido às
mudanças climáticas, de uma forma com a qual não tivemos que lidar, durante
muito tempo, em certos lugares”.
***
Em
mais de oito décadas, os corpos de dois soldados alemães permaneceram
enterrados no lodo do Danúbio. Só o nível excecionalmente baixo do rio, em
Budapeste, trouxe à luz a sua história. E, junto aos corpos, foram encontradas
chapas de identificação alemãs totalmente intactas. Isso abre uma boa oportunidade
de os identificar, mais de 80 anos depois.
A
descoberta está ligada a uma DKW NZ 350-1, também em notável bom estado de
conservação, localizada no início de agosto na margem do Danúbio, no lado de
Buda.
Por
baixo da moto ou na sua proximidade imediata, funcionários do Instituto e Museu
Húngaro de História Militar encontraram restos humanos. Gábor Kohlrusz,
colaborador do Volksbund Deutsche Kriegsgräberfürsorge (comissão alemã de
sepulturas de guerra), ou simplesmente, Volksbund, retirou os ossos dos dois
homens do leito do rio agora exposto.
Kohlrusz
trabalha, na Hungria, como responsável pelas trasladações do Volksbund. Entre
as suas tarefas, contam-se a procura, a recuperação e a documentação de mortos
de guerra alemães, bem como a recolha de objetos pessoais e de chapas de
identificação. E, com historiadores e parceiros locais, contribui para
esclarecer a identidade dos soldados caídos e reconstruir destinos de guerra
que permaneceram sem resposta, durante décadas.
Durante
a II Guerra Mundial, as chapas de identificação dos soldados alemães mortos em
combate eram partidas em duas: uma metade permanecia com o corpo, a outra era
enviada para o serviço de informações da Wehrmacht, em Berlim, permitindo
registar os óbitos e informar os familiares. Como, no caso destes dois homens,
ambas as chapas estão intactas, tudo indica que as famílias terão esperado em
vão por comunicação oficial.
Além
das chapas, encontrou-se uma aliança e um emblema de manga Kuban. Se for atribuído,
inequivocamente, o emblema a um dos soldados, fornecerá um dado relevante do
seu percurso militar. O Kuban-Schild era concedido a militares alemães
destacados, em 1943 (ano da criação do emblema), na cabeça de ponte de Kuban,
no sul da União Soviética. E, se se confirmar que um deles o usava, indicará
que, já anos antes da morte, servira na Frente Oriental.
Arne
Schrader, responsável pelo serviço de sepulturas de guerra e pelas relações
internacionais, sabe como é difícil fazer este tipo de correspondência. Para
determinar se as duas chapas de identificação pertencem aos corpos encontrados,
são necessárias várias análises. Os nomes dos titulares originais podem ser
identificados relativamente depressa, mas isso não basta para esclarecer, por
completo, a identidade. O ponto de partida é o exame rigoroso dos restos
mortais. Desde logo, o comprimento de determinados ossos pode fornecer pistas
sobre a estatura da pessoa. Para isso, recorre-se, se possível, a vários ossos,
como tíbias e fémures. Dos diferentes dados recolhidos resulta, gradualmente,
um quadro que pode ser comparado com as informações conhecidas sobre os
possíveis titulares das chapas de identificação.
Para
estimar a idade dos soldados, há diversos indicadores anatómicos que permitem
avaliar, com grande probabilidade, se um osso pertence a alguém com menos de 20
anos, entre 20 e 25 anos, ou a pessoa mais velha, até mais de 40 anos. No caso,
desconhece-se a idade dos dois soldados. O exame antropológico dos restos
mortais deverá, entre outros aspetos, recorrer a ossos, epífises e dentes do
siso, para determinar a sua idade aproximada.
Uma
das chapas recuperadas no Danúbio pertencia a um soldado da Wehrmacht, a
segunda a um membro da Waffen-SS (ramo militar da SS - Schutzstaffel, a
organização paramilitar do Partido Nazista), mas é necessário verificar se cada
chapa corresponde, efetivamente, a um dos corpos recuperados. Uma eventual
identificação preliminar feita pelo Volksbund teria de ser oficialmente
confirmada pelo Arquivo Federal alemão.
O
local da descoberta situa-se numa zona de acumulação de lodo portuário,
misturado com gasóleo. Estas condições terão contribuído para a conservação
excecional de partes da moto e das chapas de identificação. E o Volksbund pode
cruzar os dados das chapas com documentação militar, com participações de
desaparecimento e a com a sua própria “Gräbersuche Online”, base de dados que
já reúne cerca de 5,4 milhões de registos.
A
moto é uma DKW NZ 350-1, fabricada na Saxónia. Este modelo começou a ser
desenvolvido em 1944, para utilização em operações militares. Contudo, ter sido
encontrada com os dois corpos não prova que os soldados a utilizavam. Há vários
cenários possíveis: os dois podem tê-la conduzido, com um ao volante e o outro
como passageiro; a DKW pode ter pertencido a uma unidade, sem ligação direta
aos dois militares; e pode ter chegado ao local, após a morte deles, caindo ao
Danúbio, durante os combates, ou sido afundada mais tarde.
Nos
trabalhos de recuperação, teve de se recorrer ao serviço de desativação de
explosivos porque, além de outro material militar, foram descobertas minas
anticarro do tipo 35: minas alemãs da II Guerra Mundial. O Instituto Militar
Húngaro admite que o local corresponda a uma zona de deposição de material de
guerra e de resíduos, criada após o fim do cerco.
Do
ponto de vista histórico, é plausível a ligação aos combates pela cidade de Budapeste.
Com efeito, a batalha de Budapeste decorreu entre o final de outubro ou o
início de novembro de 1944 e 13 de fevereiro de 1945 e foi um dos combates mais
sangrentos e militarmente mais intensos da fase final da II Guerra Mundial, na
Hungria. A cidade foi defendida por unidades alemãs e húngaras contra o
Exército Vermelho soviético e conta as forças romenas. E, após o cerco, no fim
de dezembro de 1944, o confronto transformou-se num cerco prolongado, que
terminou com a tomada de Budapeste pelas tropas soviéticas, a 13 de fevereiro.
Só
futuras investigações poderão confirmar se os dois homens recuperados do
Danúbio morreram na batalha de Budapeste. Só se sabe que os seus restos mortais
serão depositados no cemitério de guerra de Budaörs. E a descoberta mostra
quantos vestígios do passado estarão escondidos nos rios europeus. O Danúbio
foi sempre importante via de transporte e comunicação. E o Volksbund admite
que, devido ao nível atualmente baixo das águas, possam recuperar-se outros
mortos de guerra, a partir de destroços de navios que venham à tona.
A
fotografia da moto da Wehrmacht recuperada em Budapeste está a correr mundo:
desde a “Times of India” e a “Vietnam.VN” a meios britânicos, como o “Daily
Mirror”, até plataformas norte‑americanas, como a Yahoo Autos, todos relatam a
descoberta espetacular.
As
DKW NZ 250 e NZ 350 eram especialmente robustas e fiáveis. A partir de 1944 foi
lançada a variante NZ 350-1, para o contexto de guerra. O museu húngaro
recuperou-a, a 2 de agosto, na praça Batthyány, em frente ao Parlamento. A
motocicleta está quase totalmente preservada. Como ficou encharcada de água e de
lama, durante a operação de resgate, pesava mais de 200 quilos. Agora, está a
ser limpa e conservada no hangar do museu, em Budapeste.
É
de referir um detalhe que passa facilmente despercebido: na parte traseira do
quadro existia uma espécie de aleta ou raspador de lama e neve, para impedir
que a lama e a neve se acumulassem no pneu e entrassem no sistema de
transmissão. Igualmente, sobressai o bloco do motor em ferro fundido cinzento,
uma liga de ferro fundido com elevado teor de grafite. Uma das razões era a
escassez de alumínio provocada pela guerra. Contudo, não é ainda possível datar
o exemplar concreto, com dia ou com mês de produção.
Nos
últimos dias, além da moto, foram encontrados no leito seco do Danúbio componentes
do equipamento original, entre eles um jerricã de combustível, um arnês em Y e
um porta-baioneta. O arnês em Y era um sistema de tiras de couro que se usava
sobre os ombros e se ligava à frente e atrás a outras correias, para fixar
equipamento ao corpo, como sacos de pão, bolsas de munições ou cantis (a designação
“Y” deriva da forma das tiras sobre os ombros”. E o porta-baioneta é o suporte
da baioneta, fixado ao cinto ou ao equipamento, ou seja, é aí que a baioneta é
transportada quando não está montada na espingarda.
***
As
alterações climáticas revelam que alguns vestígios das Grandes Guerras são
perigosos, mas que todos eles têm interesse histórico, a nível humano e a nível
técnico-científico.
2026.08.22
– Louro de Carvalho
Sem comentários:
Enviar um comentário