quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Nepal e Tibete atingidos por chuvas de monção e por colapso de glaciar

 

Cheias devastadoras que, a 26 e a 27 de agosto, atingiram o Nepal, na região da fronteira com o Tibete, varreram comunidades e causaram a morte de, pelo menos, 359 pessoas e o desaparecimento de 1500. Porém, o balanço está a aumentar e está longe do fecho.

No Nepal, estão contabilizados mais de 800 desaparecidos, perto de 400 de nacionalidade estrangeira, número que inclui quatro cidadãos portugueses. Porém, as contagens e números oficiais variam consoante as fontes. Entretanto, imagens de drone mostraram estradas destruídas e edifícios soterrados por água trovejante da cor de cimento húmido. No Tibete, a agência noticiosa chinesa Xinhua indicou, a 27 de agosto, que derrocadas de lama, provocadas pelo colapso de glaciar, causaram três mortos e 558 desaparecidos, e a televisão estatal CCTV adiantou que cerca de 260 das 558 pessoas desaparecidas no Tibete são estrangeiras.

Entre os desaparecidos no Nepal, contam-se três portugueses. Na recente atualização do balanço de vítimas e após ter sido divulgado que se encontravam nesta situação dois cidadãos nacionais do sexo masculino e duas cidadãs do sexo feminino, o Ministério dos Negócios Estrangeiros informou que um deles, tido por desaparecido, desde o dia 26, fora localizado. “Encontra-se bem de saúde e em segurança, ainda na fronteira com o Tibete, mas aparentemente longe do sucedido”, disse fonte diplomática, observando que se encontram três portugueses desaparecidos, “um cidadão do sexo masculino e duas [cidadãs] do sexo feminino”.

Responsáveis no Nepal tinham indicado, antes, que 403 pessoas, incluindo 341 estrangeiros, eram dadas como desaparecidas. Sunil Sharma, porta-voz do Conselho de Turismo, afirmou que 133 eram da Índia e estava, em peregrinação ao monte Kailash, no Tibete, local sagrado para os hindus. Também estão desaparecidos 47 cidadãos dos Estados Unidos da América (EUA), 34 da Austrália, 33 do Reino Unido e 24 do Canadá. E o Departamento de Estado norte-americano referiu estar ciente de cidadãos americanos afetados.

A ministra dos Negócios Estrangeiros da Austrália, Penny Wong, disse aos jornalistas, no dia 27, que, pelo menos, 34 australianos em peregrinações e em viagens de trekking estão desaparecidos. “Percebemos que estes australianos integravam diferentes grupos de peregrinos e de turistas”, afirmou Wong, em Adelaide, na Austrália, referindo que, embora o governo do Nepal ainda não tivesse pedido ajuda, a Austrália coordena com o Nepal, com as Nações Unidas, com a Cruz Vermelha e com outras organizações uma resposta humanitária.

De acordo com o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Malásia, 55 malaios, em Katmandu (a capital), estavam incontactáveis, devido a sérias perturbações nas infraestruturas, o que levou o Ministério a aumentar, no dia 27, o número de desaparecidos. O titular da pasta disse que está a trabalhar de perto com as autoridades, para determinar a segurança e a localização dos cidadãos malaios afetados, mas ainda não há confirmação oficial da sua presença.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) comunicou, inicialmente, um terramoto de magnitude 4,4, ocorrido na madrugada do dia 26, a cerca de 66 quilómetros (41 milhas) a norte de Katmandu, perto da fronteira. Porém, mais tarde, indicou que o fenómeno sísmico registado correspondia ao colapso de um glaciar de magnitude 5,2, que fez descer detritos ao longo do curso de água com impacto catastrófico nas comunidades. E referiu que tal conclusão se baseia em dados de estações sísmicas próximas, em ondas sísmicas de longo período e em imagens de satélite, não tendo ocorrido  qualquer terramoto.

Especialistas em clima do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas, sediado em Katmandu, afirmaram que uma avalanche de um glaciar causou as cheias repentinas do dia 26. “As observações hidrológicas indicam a velocidade excecional e a magnitude da onda de cheia”, referiram, em comunicado enviado por correio eletrónico, assinalando que, num ponto do rio Trishuli, o nível da água subiu até nove metros, em meia hora, e que o rio Lhende Khola, afluente do Bhotekoshi, registou a cheia máxima.

“O Lhende Khola inundou duas vezes, em 14 meses, [mas foi,] desta vez, devido a uma avalanche de blocos de gelo proveniente de um glaciar no lado nepalês, que bloqueou o rio e libertou uma vaga súbita a jusante”, explicou Saswata Sanyal, especialista em redução do risco de catástrofes no grupo de investigação climática.

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A catástrofe no Tibete e no Nepal não é caso isolado. Em apenas 14 meses, o sistema fluvial do Lhende Khola inundou, duas vezes e numa das áreas mais densamente povoadas do planeta, deixando em risco populações, infraestruturas e reservas de água, devido ao sistema glaciário dos Himalaias, cada vez mais instável.

Os vales íngremes da região são vias vitais para a economia e corredores de circulação, mas revelam-se frágeis, quando ocorre uma catástrofe. As imagens mostravam o que pareciam ser segundos andares de edifícios, no distrito nepalês de Nuwakot, um dos mais atingidos, cobertos de lama, após a passagem da torrente. Havia detritos pendurados nos ramos das árvores e nos cabos, veículos soterrados e sobreviventes em choque completamente cobertos de lama.

A região registou cheias repentinas similares, em agosto de 2025, quando um lago glaciário no Tibete transbordou, devido a elevadas temperaturas. Morreram, então, nove pessoas e ficaram danificadas infraestruturas críticas, incluindo uma ponte que liga o Nepal à China.

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No dia 26, as inundações e os deslizamentos de terra eram atribuídos às chuvas de monção. O termo “monção” vem do árabe “malsim”, que significa “estação”. Chuvas de monção são intensas e volumosas precipitações causadas por ventos sazonais que mudam de direção, de acordo com a época do ano. No verão, o continente aquece mais rápido do que o oceano, criando uma área de baixa pressão que puxa os ventos húmidos do mar em direção à terra, resultando chuvas torrenciais. No inverno, o sentido do vento inverte-se. O ar frio e seco sopra do continente para o oceano, provocando longo período de seca e de estiagem.

O fenómeno afeta regiões tropicais e subtropicais, sendo extremamente intenso no Sul e no Sudeste da Ásia. As chuvas de verão ocorrem entre junho e setembro, provocam, regularmente, inundações e deslizamentos de terra mortíferos em todo o Sul da Ásia. A área afetada inclui a zona de fronteira com a China.

Assim, a 26 de agosto, era noticiado que inundações de grande dimensão, no Nepal, a partir das 08h40, causaram a morte de, pelo menos, 160 pessoas, segundo os números da agência Associated Press (AP). Os media estatais chineses relatavam graves baixas provocadas por um deslizamento de terras, num porto, no Tibete, do lado chinês da fronteira partilhada. A polícia nepalesa, centenas de pessoas estão desaparecidas, incluindo mais de 340 cidadãos estrangeiros. Segundo informação do Ministério dos Negócios Estrangeiros, entre esses desaparecidos, estava uma portuguesa que se encontrava num posto fronteiriço, do lado nepalês.

Imagens divulgadas pela polícia nepalesa mostravam a água das cheias a galgar um rio e a arrastar casas, enquanto fotografias da AFP mostravam o último piso de uma casa a sobressair do solo enlameado. “Até agora, foram encontrados oito corpos. As operações de salvamento estão em curso”, disse à AFP o porta-voz da polícia do Nepal, Abi Narayan Kafle.

Vídeos partilhados pela polícia nepalesa e por outros utilizadores, nas redes sociais, mostravam torrentes de água barrenta a atravessar vales de montanha no distrito himalaio junto à fronteira com a China. “Vi a cheia arrastar oito ou nove camiões, bem como casas e pessoas. […] Foi absolutamente angustiante. Nunca tinha visto uma devastação assim”, contou à AFP, no distrito de Nuwakot, Suman Chalise, um professor de 34 anos.

O porta-voz da polícia afirmou, antes, que as autoridades desconheciam a dimensão dos estragos, mas que alertaram “as pessoas que vivem perto da margem do rio para se deslocarem”. O Exército do Nepal disse ter destacado helicópteros e equipas de resposta a catástrofes para a zona afetada. E a Autoridade de Eletricidade do Nepal referiu que foram danificados cerca de 430 megawatts de capacidade de produção, incluindo centrais hidroelétricas e instalações solares. “O desastre danificou as instalações de produção, transporte e distribuição da Autoridade, resultando na interrupção do fornecimento de eletricidade”, vincou.

Sarthak Shrestha, analista de deteção remota e informação geográfica no Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado de Montanhas (ICIMOD), sediado em Katmandu, afirmou que uma avaliação preliminar não detetou “anomalias” do lado chinês da fronteira. “Acreditamos que ocorreu uma avalanche de rocha e gelo no Nepal, que bloqueou o rio Lhende e desencadeou uma série de cheias sucessivas”, explicou.

A televisão estatal chinesa CCTV informou, no dia 26, que “um deslizamento de terras no lado nepalês provocou graves baixas e desaparecidos na zona do porto de Gyirong”, no Tibete. As imagens divulgadas pela estação mostravam água em forte corrente a arrastar ramos de árvores e detritos, bem como uma estrada inundada. E foram encerradas algumas vias principais.

A Xinhua adiantou que o presidente chinês apelou a operações de salvamento “sem poupar esforços”, mas não divulgou números de feridos ou mortos. Segundo a CCTV, Xi Jinping afirmou que “a tarefa mais urgente é fazer tudo o possível para procurar e resgatar as pessoas desaparecidas, tratar rapidamente os feridos e reduzir as vítimas ao mínimo”. E as autoridades rodoviárias de Shigatse, no Tibete, indicaram, nas redes sociais, que as estradas na zona estavam “em risco de deslizamentos de terras e sem condições de segurança para a circulação”.

Entretanto, a Autoridade Nacional para a Redução e Gestão de Riscos de Desastres do Nepal alerta para a possibilidade de nova enxurrada, quando ainda se procuram os desaparecidos da tragédia. Numa mensagem nas redes sociais, esta autoridade avisa que informações de satélite da China sugerem que o rio foi “bloqueado” e que se formou um “lago” perto da enxurrada. E as informações sugerem que “o lago está a subir e há risco de rutura”, pelo que as autoridades avisam os residentes e as equipas de resgate na zona a jusante para que “tenham cautela redobrada” e permaneçam em locais seguros, longe das margens do rio.

Segundo a mensagem, o bloqueio está 18 quilómetros acima da fronteira de Rasuwagadhi, tendo o lago já 110 mil metros quadrados (o tamanho de cerca de 15 campos de futebol).

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Cheias repentinas fizeram subir as águas do rio Trishuli, no Nepal, após grande volume de água ter entrado no Bhote Koshi, a partir do lado tibetano. Imagens dos distritos de Nuwakot e Dhading mostravam água barrenta a descer a corrente, enquanto as ruas estavam cobertas de lama e detritos e a polícia pedia aos residentes que se mantivessem vigilantes.

As inundações seguiram-se a forte subida do caudal do Bhote Koshi, na parte norte do distrito de Rasuwa, onde aldeias, estradas e infraestruturas ficaram danificadas. As autoridades alertaram as populações para se manterem afastadas das margens dos rios Bhote Koshi, Trishuli e Narayani, enquanto as equipas de salvamento avaliavam a situação.

As cheias afetaram também Galchhi, em Dhading, onde o rio Trishuli trazia volumoso caudal de água barrenta. Imagens filmadas pela Cruz Vermelha nepalesa mostram as águas das cheias a avançar com força pelo distrito de Rasuwa, no Nepal, depois de uma avalanche de gelo e de rochas ter bloqueado um afluente perto da fronteira com o Tibete. A barragem natural rompeu‑se e lançou uma torrente de água e detritos pelo vale de Trishuli.

O desastre começou pelas 8h40, com grave destruição nas zonas de Rasuwagadhi, Timure e Syabrubesi. Estradas, pontes, mercados e infraestruturas hidroelétricas foram danificados ou arrastados. E, no vizinho distrito de Nuwakot, equipas de resgate e um cão pisteiro procuravam sobreviventes em zonas de lama, as viaturas estavam enterradas no lodo e eram danificadas as casas. Pelo menos, 19 pontes rodoviárias e cerca de 40 quilómetros de estradas foram destruídos ou muito danificados, interrompendo a rota comercial Kathmandu-Kerung. Em Kathmandu, familiares de desaparecidos reuniram‑se no hospital Bir, com fotografias dos seus entes queridos. O governo declarou os distritos de Rasuwa, Nuwakot e Dhading zonas em crise devido ao desastre e mobilizou o exército, a polícia e helicópteros. O mau tempo e a instabilidade das encostas continuam a dificultar as operações de resgate.

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Os cientistas reúnem informação de satélite e dados recolhidos no terreno para perceberem o que sucedeu. “Um grande pedaço de glaciar caiu de cerca de 5200 metros para um vale”, disse à AFP Simon Cox, cientista principal do instituto neozelandês GNS Science, explicando que o pedaço se transformou “numa massa furiosa de detritos que apanha rochas, sedimentos, árvores e tudo o que encontra pelo caminho e o projeta pelo desfiladeiro abaixo”.

A muralha de água atingiu, primeiro, um posto fronteiriço, com imagens de videovigilância a mostrarem lama e detritos a engolir a zona, enquanto as pessoas fugiam. Depois avançou rio abaixo para o Nepal, inundando aldeias e destruindo pontes e edifícios.

As primeiras hipóteses apontavam para cheia súbita, por rutura de lago glaciário (GLOF), que ocorre quando a barreira que retém água de degelo de glaciar colapsa de repente e liberta o fluxo. “A água circula dentro dos glaciares e por baixo dos glaciares”, explicou à AFP Adrian McCallum, glaciólogo da University of the Sunshine Coast, para quem a única razão para grande volume de água descer de repente a um vale é ter sido libertado.

Porém, outros especialistas, que dizem não ter encontrado lagos glaciários perto do local do colapso, sugerem que a água pode ter-se acumulado debaixo do glaciar e sido libertada quando o gelo caiu. Outra possibilidade é o gelo em queda ter bloqueado, temporariamente, o rio, permitindo que a água se acumulasse antes de ser libertada de forma súbita.

Para Cox, o degelo estival dos glaciares e as chuvas de monção podem ter elevado os níveis dos rios, enquanto os detritos e a lama arrastados aumentaram mais o volume do fluxo. O certo é que o colapso do glaciar foi tão poderoso que foi registado como sismo de magnitude 5,2 às 08h37, tendo sido, inicialmente, confundido com um terramoto.

Com grande parte da área afetada inacessível, os especialistas estão a usar imagens de satélite e medições disponíveis no terreno para reconstruir o desastre. “Podemos analisar imagens de satélite captadas antes e depois do evento e tentar ver o que mudou, basicamente procurando o que desapareceu das montanhas nas imagens de ‘depois’”, explicou Lauren Vargo, glacióloga da Victoria University of Wellington, na Nova Zelândia.

Segundo McCallum, quem vive numa comunidade situada sob um grande glaciar e sob lago glaciário, onde pode ocorrer GLOF, está sentado em cima de “uma bomba-relógio”.

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Fenómenos destes já ocorriam, mas as alterações climáticas, por via do aquecimento global que apressa o degelo glaciar, tornam-nos mais frequentes e mais devastadores.

2026.08.27 – Louro de Carvalho


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