Trata-se
do Navio da República Portuguesa (NRP) D. João II, assim batizado em
homenagem ao “príncipe perfeito”, o cognome do rei português do século XV que
investiu numa política de exploração e expansão marítima, fazendo do país uma
potência global. O projeto resulta da ambição estratégica do almirante
Henrique Gouveia e Melo, quando desempenhava o cargo de chefe do Estado-Maior
da Armada (CEMA), e que se candidatou à Presidência da República, nas eleições
deste ano de 2026, tendo sido eliminado na primeira volta, a 18 de janeiro. Não
obstante, o eminente submarinista amadureceu o projeto, desde o final da última
década para criar a chamada Plataforma Naval Multifuncional (PNM).
A informação vem detalhada em artigo do jornalista João Azevedo, intitulado “´Revolucionário´: Portugal será o primeiro país da UE a ter um porta-drones”, publicado, a 29 de janeiro, pela Euronews e que vale a pena ler devagar,
A informação vem detalhada em artigo do jornalista João Azevedo, intitulado “´Revolucionário´: Portugal será o primeiro país da UE a ter um porta-drones”, publicado, a 29 de janeiro, pela Euronews e que vale a pena ler devagar,
O
NRP D. João II, cuja entrega está prevista para o corrente ano e que pode alojar
até 200 pessoas, lançará e recuperará drones aéreos e marítimos para
investigação científica e para vigilância em missões de longa duração, reforçando,
na ótica do jornalista, a capacidade de o país “controlar a sua vasta área
marinha e de enfrentar ameaças híbridas”.
Com
o custo de 132 milhões de euros, assegurado maioritariamente (94,5 milhões) por
fundos europeus do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), lançado para
apoiar os países da União Europeia (UE) no pós-covid, e correspondendo o
restante (37,5 milhões) a investimento do Estado, o navio, com entrega
aprazada para o 2.º semestre, está a ser construído pela neerlandesa Damen nos
estaleiros da empresa em Galati, na Roménia, onde foi feito o corte da primeira
chapa, em outubro de 2024.
Em
novembro de 2023, na assinatura do contrato, em Lisboa, o CEMA anunciava “um
ponto de não retorno para a modernidade”, falando de navio transformador,
inserido na estratégia de uma “Marinha holística, tecnologicamente
avançada, disruptiva e robotizada”. Porém, apesar de o conceito ter sido desenvolvido,
na íntegra, pela nossa Marinha, esta não ficou com a patente, por isso implicar
o investimento de milhões de euros, tendo a empresa vencedora do concurso para
a construção do navio recebido manifestações de interesse de outros países
europeus. Em novembro de 2025, em entrevista à Euronews, o
almirante falava de algo “revolucionário”, que responde à “forma de estar
e [de] atuar no ambiente militar do século XXI”.
Incorporando
os atributos de porta-drones, com condições para operar sistemas não tripulados
aéreos e marítimos, incluindo à superfície da água e subaquáticos, o NRP D.
João II apresenta grande facilidade para, em curto período, se adaptar a
diferentes missões, podendo-se tirar muitos sistemas que estão implementados e
trocá-los por outros, dando-lhe novas capacidades, segundo o engenheiro naval
Barbosa Rodrigues. Isto, no dizer de Ricardo Sá Granja, porta-voz da Marinha, “permite
que o navio mantenha elevada flexibilidade funcional, alternando entre
diferentes perfis de missão sem compromissos estruturais significativos”, constituindo
a embarcação “um marco significativo no percurso de modernização da
instituição”, por “uma mudança estrutural na forma como são concebidas e
empregues as capacidades navais”, num enquadramento “sustentado por um
ecossistema de inovação já existente na Marinha”.
Sublinha
o jornalista que a dinâmica da segurança marítima tem sido “influenciada pelo
desenvolvimento da tecnologia de drones”, que evoluíram de sistemas de
reconhecimento para instrumentos de ataque, prevendo-se que se transformem em
caças aéreos. Com estes sistemas, continua João Azevedo, “as forças militares
de países de pequeno e médio porte, privadas do orçamento necessário para
recorrer aos porta-aviões tradicionais” podem “alargar o seu alcance
operacional a custos reduzidos”. E citando Michael Peck, especialista em
Defesa, num artigo na 19FortyFive, um porta-aviões nuclear da classe
Ford dos Estados Unidos da América (EUA), com 100 mil toneladas, “custa cerca
de 13 mil milhões de dólares”.
Além
do aspeto financeiro, as soluções autónomas revelam-se mais ágeis: ao
contrário dos porta-aviões, cujo destacamento implica enorme esforço logístico,
os drones possibilitam concentração e projeção de força mais rápidas, com
riscos menores para quem os opera, podendo
vir a tornar os porta-aviões obsoletos.
***
O primeiro
esboço documentado de um porta-drones de raiz foi o UXV Combatant,
da empresa britânica BVT Surface Fleet, em 2007. Era um navio de guerra
multifuncional, de oito mil toneladas, que corporizava o conceito de “nave-mãe” para
sistemas não tripulados. Contudo, aspetos, como a autonomia da embarcação e a
coordenação no lançamento de drones aéreos não estavam devidamente consolidados
e o projeto não foi avante. Hoje, três marinhas (a da China, a do Irão e a da Turquia)
adquiriram ou estão a desenvolver navios de convés plano para o transporte de
sistemas aéreos autónomos. Na UE, como diz o jornalista, Portugal, fazendo
valer a experiência e o conhecimento dos
drones, é o primeiro país a dar este passo.
Com 107,6 metros de comprimento, o NRP D. João II atingirá a velocidade de 15,5 nós e contará com uma guarnição de 48 elementos, e terá espaço para transportar 42 especialistas, entre cientistas e operadores de sistemas não tripulados. Em caso de auxílio ou emergência, pode alojar mais 100 a 200 pessoas. O convés amplo e corrido, com cerca de 94 metros de comprimento, possibilita a aterragem e o lançamento de drones aéreos e está dotado de um hangar destinado à montagem, à preparação e à manutenção destes veículos. Para a operação dos drones de superfície e de subsuperfície, além de hangares, há sistemas e equipamentos, nomeadamente, a rampa à popa, para lançamento, recolha e posterior comunicação do posicionamento.
Com 107,6 metros de comprimento, o NRP D. João II atingirá a velocidade de 15,5 nós e contará com uma guarnição de 48 elementos, e terá espaço para transportar 42 especialistas, entre cientistas e operadores de sistemas não tripulados. Em caso de auxílio ou emergência, pode alojar mais 100 a 200 pessoas. O convés amplo e corrido, com cerca de 94 metros de comprimento, possibilita a aterragem e o lançamento de drones aéreos e está dotado de um hangar destinado à montagem, à preparação e à manutenção destes veículos. Para a operação dos drones de superfície e de subsuperfície, além de hangares, há sistemas e equipamentos, nomeadamente, a rampa à popa, para lançamento, recolha e posterior comunicação do posicionamento.
A
PNM estará equipada com um convés de voo e correspondente
hangar, para helicópteros médios (tipo NH90 ou SH60), conferindo-lhe a
configuração desta estrutura capacidade para aterrar e para fazer descolar
um helicóptero pesado baseado em terra (tipo EH-101). Será possível colocar,
no navio, 18 contentores de 20 pés, incluindo câmaras hiperbáricas e estrutura
hospitalar, 18 viaturas ligeiras, entre as quais ambulâncias, bem
como dez embarcações, para além da sua dotação normal. Está ainda prevista a
inclusão de uma grua “que põe 30 toneladas a 14 metros”, o que garante
autossuficiência, e do ROV Luso, veículo de operação remota capaz de
alcançar uma profundidade de seis mil metros.
O
navio foi projetado para uma autonomia de até 45 dias, o que lhe permite, segundo
Ricardo Sá Granja, “operar por longos períodos, sem necessidade de apoio
logístico próximo”, o que, aliado à arquitetura modular, “amplia
significativamente o raio de ação nacional e permite a execução contínua
de um vasto conjunto de missões”. E foi concebido à luz de arquitetura “baseada em princípios de sistemas
abertos”, o que facilita a “integração gradual e controlada de tecnologias
emergentes”, como as aplicações de inteligência artificial (IA), valências que poderão,
segundo Ricardo Sá Granja, ser aplicadas “no processamento e na análise de
grandes volumes de dados, na navegação assistida ou autónoma, na fusão de
informação proveniente de múltiplos sensores e no apoio à decisão”, mas ficando
sempre salvaguardadas a “supervisão humana, [a] rastreabilidade dos processos e
[a] conformidade com os requisitos éticos, legais e de segurança operacional”.
Sá
Granja sustenta que, além de uma “melhor compreensão do ambiente marítimo”, a
informação obtida a partir de vários sensores, incluindo sistemas não
tripulados, tornará possível “a identificação atempada de padrões ou
atividades anómalas”.
As
operações científicas contemplam a recolha, o processamento, o tratamento
e a transmissão de dados em tempo real sobre o mar, bem como tarefas de
observação e monitorização ambiental. Está prevista a instalação
de laboratórios permanentes, na lógica de colaboração com as universidades
e de “elevada interoperabilidade entre entidades civis e militares”. A
segurança é outro eixo de atuação do navio, que levará a cabo operações
de busca e de salvamento, em articulação com a Proteção Civil. O
navio estará ao serviço da proteção da soberania, ao proporcionar a
vigilância, a inspeção e a fiscalização no mar português, bem como ao poder retirar
cidadãos de zonas perigosas ou de conflito.
O
navio está apto a operar múltiplos veículos não tripulados, em simultâneo,
sendo os drones aéreos e de superfície acionados na monitorização ambiental, na
vigilância marítima, assim como no apoio às comunicações e à recolha de dados
oceanográficos.
Os
veículos subaquáticos não tripulados servirão para atividades de inspeção,
de deteção e de mapeamento do fundo marinho. O uso destes sistemas, segundo o
porta-voz da Marinha, “assenta num conceito modular e escalável,
permitindo diferentes combinações de meios, conforme a natureza
científica, civil ou militar das missões atribuídas”.
Refere
o jornalista que o alcance dos drones varia consoante o tipo de veículo, a
missão em causa e as condições operacionais, “sendo definido, caso a caso, de
acordo com parâmetros técnicos, regulamentares e de segurança”. E os sistemas
não tripulados a bordo da PNM serão, “sempre que possível, soluções de
fabrico nacional”, tendo a Marinha estabelecido protocolos com empresas
portuguesas que produzem veículos destes e as tecnologias associadas. Porém,
não estão excluídas parcerias internacionais. Com efeito, no final de 2025, na
sua primeira visita a Kiev como primeiro-ministro, Luís Montenegro participou
na celebração de um acordo entre Portugal e a Ucrânia para a produção conjunta
de drones subaquáticos.
Este
tipo de cooperação, de acordo com o porta-voz da Marinha, pode constituir uma
mais-valia técnica e concetual, “na medida em que permite a partilha de lições
aprendidas, [de] boas práticas e [do] conhecimento acumulado sobre a operação
de sistemas não tripulados em ambientes exigentes”, e coloca Portugal “entre
os países europeus mais ativos” o lançamento, na recuperação e no emprego
integrado de veículos não tripulados em ambiente marítimo”.
Portugal
beneficia de longa tradição naval e tem no mar um ativo estratégico. O espaço
marítimo nacional abrange cerca de quatro milhões de quilómetros quadrados, o
que dá ao país o estatuto de maior Estado costeiro da UE e um dos maiores
do Mundo. Com a terceira maior Zona Económica Exclusiva (ZEE) da Europa,
18 vezes superior ao território continental, Portugal tem acrescidas responsabilidades
no ecossistema azul. Por isso, o NRP D. João II “foi projetado para
assegurar presença sustentada no mar”, com papel crucial na defesa da
posição portuguesa, no Atlântico e noutras áreas estratégicas de interesse
nacional.
Sá
Granja Lembra que Portugal é “amplamente reconhecido, no contexto europeu e
aliado, como interveniente relevante no domínio da experimentação, [da] validação
e [da] integração operacional de sistemas não tripulados a partir de
plataformas navais”. Para tanto, contribuiu o REPMUS, segundo a Marinha,
o maior exercício de experimentação operacional de sistemas não tripulados
do Mundo. Foi iniciado em 2010, na sequência de protocolo entre a Marinha
e a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), atraindo,
anualmente, a solo nacional mais de mil pessoas e dezenas de instituições,
entre empresas e universidades.
***
A
atividade naval da Rússia no Atlântico têm aumentado. A Marinha acompanhou
143 navios russos, ao longo da costa, entre 2022 e 2024; e, em 2025, foram
detetados, pelo menos, oito em águas sob jurisdição de Portugal, nomeadamente,
submarinos equipados com mísseis de longo alcance e navios-espiões capazes de
destruir cabos submarinos. Ora, a recolha de dados, feita a bordo da PNM,
será relevante para contrariar as “ameaças híbridas contemporâneas” identificadas
pela Marinha, como a sabotagem de infraestruturas críticas submersas ou ações
encobertas. O navio terá intervenção, a nível nacional e na UE, “reforçando
a capacidade de resposta aos desafios comuns no domínio marítimo”, salienta o
representante da Marinha.
O comando e o controlo de frotas dispersas de veículos não tripulados são tarefas difíceis e dependem de ligações de dados seguras que podem sofrer interferências. Para Sá Granja, trata-se de “desafio técnico exigente” e a Marinha vem desenvolvendo arquiteturas baseadas em princípios, como “a redundância de ligações de dados, a utilização de mecanismos robustos de encriptação, a segmentação de redes e a capacidade de operação degradada ou autónoma”, para garantir “a continuidade das missões dentro de parâmetros aceitáveis de risco e de controlo humano, mesmo em ambientes complexos”. Independentemente destas preocupações, os sistemas não tripulados no contexto marítimo trazem muitas vantagens, desde logo, por viabilizarem destacamentos simultâneos prolongados, com ganhos evidentes na capacidade de vigilância e na recolha de dados. Aliás, até as forças navais dos principais países do Mundo, que privilegiam os meios tradicionais mais pesados, estão a seguir este rumo.
O comando e o controlo de frotas dispersas de veículos não tripulados são tarefas difíceis e dependem de ligações de dados seguras que podem sofrer interferências. Para Sá Granja, trata-se de “desafio técnico exigente” e a Marinha vem desenvolvendo arquiteturas baseadas em princípios, como “a redundância de ligações de dados, a utilização de mecanismos robustos de encriptação, a segmentação de redes e a capacidade de operação degradada ou autónoma”, para garantir “a continuidade das missões dentro de parâmetros aceitáveis de risco e de controlo humano, mesmo em ambientes complexos”. Independentemente destas preocupações, os sistemas não tripulados no contexto marítimo trazem muitas vantagens, desde logo, por viabilizarem destacamentos simultâneos prolongados, com ganhos evidentes na capacidade de vigilância e na recolha de dados. Aliás, até as forças navais dos principais países do Mundo, que privilegiam os meios tradicionais mais pesados, estão a seguir este rumo.
A
Marinha quer manter-se no rumo da tecnologia e, ante “o crescente peso do software,
da automação e da gestão avançada de dados nas operações marítimas”, admite que
o navio, em função da sua modularidade, pode atualizar os conceitos
operacionais e integrar “novas valências ou capacidades”, se tal for decidido
pelas autoridades, mas sem pôr em causa a vocação primordial da plataforma,
enquanto navio multifunções.
***
Também
neste âmbito, Portugal está em linha com as necessidades da Europa. Em
entrevista à Euronews, o general irlandês Seán Clancy, presidente do
Comité Militar da UE (CEUMC), em dezembro de 2025, falou da preparação da
Europa para lidar com ataques com drones e com cibernético, sustentando que a utilização
de drones na guerra da Ucrânia e a violação do espaço aéreo da UE por essas
aeronaves, exigem o realinhamento da estratégia de defesa, de acordo
com o principal oficial militar da UE, devendo “todas as estruturas militares,
políticas e económicas da UE estar preparadas e prontas para se defenderem”.
Para tal, a UE e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) têm de trabalhar em conjunto, de forma mais estreita e com coerência, eliminando, quanto possível, a duplicação de esforços. E a Iniciativa de Defesa contra Drones (IDCD) visa criar “maior coesão entre a sociedade civil, as forças armadas e os aliados na ótica do CEUMC.
Para tal, a UE e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) têm de trabalhar em conjunto, de forma mais estreita e com coerência, eliminando, quanto possível, a duplicação de esforços. E a Iniciativa de Defesa contra Drones (IDCD) visa criar “maior coesão entre a sociedade civil, as forças armadas e os aliados na ótica do CEUMC.
O
objetivo da IDCD passa por reforçar a resiliência da Europa contra ameaças
militares e híbridas emergentes e por reforçar a autonomia estratégica e a
prontidão operacional. estabelecendo uma rede multicamada capaz de
detetar, de rastrear e de neutralizar drones hostis, bem como oferecer
capacidades de ataque de precisão através de plataformas avançadas de drones. “Esta
é questão pan-europeia. E as ameaças híbridas não têm fronteiras. […] A
primeira e principal responsabilidade, claro, recai sobre cada Estado-membro”,
advertiu Seán Clancy.
***
Se
o almirante, não tivesse almejado ser o príncipe perfeito, como Presidente da
República, e continuasse CEMA, acompanharia o seu NRP e recebê-lo-ia como líder
da Marinha.
2026.01.29 – Louro de Carvalho
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