No
Livro de Isaías, insere-se o “Livro da Consolação” (cf Is 40-55), em que
se apresenta a saga da vocação de um “servo de Javé” (Is 49,3.5-6),
escolhido por Deus, “desde o seio materno”, para ser “luz das nações” e para levar
a salvação de Deus “até aos confins da Terra”. Cônscio de que Deus o sustenta
com a sua força, dispõe-se a cumprir a missão que lhe é confiada, significando
que, quando Deus nos inclui no seu plano, a resposta só pode ser o “sim”.
O
cântico “servo de Javé” constitui uma sua declaração solene “às ilhas” e “aos
povos de longe”, sobre a sua vocação e missão. Este servo de Javé era, na ótica
do profeta, o próprio povo de Israel, escolhido por Deus para fazer com os
homens a experiência de salvação, que serviria de farol para todos os outros
povos. Contudo, às mínimas contrariedades e, no desejo de imitar os outros
povos, Israel foi perdendo o brilho e deixou de ser a luz das nações.
Teve
de se encontrar um outro “servo de Javé”, capaz de cumprir a vontade de Deus e
que irrompeu nestes tempos, que são os últimos – Jesus de Nazaré.
Na
sua declaração, o “servo de Javé” manifesta, antes de mais, a consciência de
que é “eleito” de Deus, desde o primeiro instante da sua existência: Javé
escolheu-o, desde o seio materno, e chamou-o pelo nome, antes de ele nascer. O
mesmo segmento textual, que aparece no relato de vocação do profeta Jeremias, põe
em relevo a origem e o fundamento de toda a vocação profética: Deus que, por
razões e vias que só Ele conhece, escolhe, chama e envia quem quer, como quer e
quando quer. Sendo Israel o servo do cântico em referência, a designação
aludirá à origem do Povo, à eleição e à Aliança: Deus escolheu Israel, entre os
povos Ta terra, iniciou com ele um diálogo, revelou-lhe o seu rosto,
constituiu-o como Povo, libertou-o da escravidão do Egito, guiou-o pelo deserto
e firmou com ele especial relação de comunhão e de Aliança.
A
eleição e a Aliança pressupõem a missão e o testemunho. Deus chama com vista à
missão. A missão do servo que Deus escolheu e chamou é “reconduzir Jacob e
reunir Israel” junto de Javé. Os verbos “reconduzir” e “reunir” referem-se ao
regresso de Israel à comunhão com Deus (rompida pela idolatria, pelas
injustiças, pelo desrespeito pelos mandamentos, pelo pecado), à reunião de
todos os exilados e ao regresso à Terra Prometida.
No
entanto, a missão do servo não se esgota na reunião dos tradicionais filhos de
Abraão e na sua recondução a Deus, mas alarga-se ao Mundo inteiro: “Vou fazer
de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da Terra”
(v. 6). Israel deve, pois, testemunhar a salvação de Deus e fazer com
que ela chegue aos homens e mulheres de toda a Terra. O servo, com o seu
testemunho, será uma luz que brilhará no meio do Mundo e que o iluminará com a
glória de Deus.
Soará
a desígnio estranho a entrega de missão tão grandiosa e exigente a um povo
esgotado e desanimado, exilado em terra estrangeira, que parece sem futuro,
como um conjunto de ossos ressequidos e sem vida. Porém, é algo que se repete
em diversos passos da História da Salvação: Deus recorre a instrumentos frágeis
e indignos para intervir no Mundo e para concretizar o seu plano salvador. É na
fraqueza que se revela a força de Deus.
Como
nos ensina a História de Israel, este povo foi-se desligando do compromisso com
Deus. Foi, pois, necessário o envio do seu Filho Unigénito, que Se fez homem,
sem deixar de ser Deus, para cumprir a vontade do Pai. Ele, como rezam os
Evangelhos Sinóticos, quis submeter-se ao Batismo de João Batista (de
purificação e de penitência, de que não precisava, mas no respeito pela lógica
da encarnação, que o levou a assumir as limitações humanas), para se
comprometer, publicamente, com a missão messiânica que o Pai Lhe destinou. E,
como referem os Evangelhos Sinóticos, Ele é apresentado como o Filho muito
amado do Pai e na plenitude da complacência do mesmo Pai e, obviamente, como o
Ungido para o messianismo.
***
Por
isso, a seguir ao texto profético em referência, é conveniente ver o que diz o
Evangelho de João (Jo 1,29-34), no qual outro João, o Batista, apresenta
Jesus como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do Mundo”, o “Filho de Deus”
que possui a plenitude do Espírito e que batizará os homens no Espírito. Jesus
recebeu do Pai a missão de oferecer aos homens a vida nova de Deus; e cumpri-la-á
com absoluta fidelidade. Porém, assumindo a vontade do Pai de que a missão é
obra de um coletivo dirigido por Deus, há que formar, em torno de Jesus, um
novo povo. Para tanto, o Cordeiro de Deus escolhe discípulos que decidem segui-Lo
e continuarão, em união com Ele, a sua obra, pelo que são enviados a levar ao Mundo
a salvação de Deus.
***
“João
Baptista viu Jesus, que vinha ao seu encontro, e exclamou: ‘Eis o Cordeiro de
Deus, que tira o pecado do Mundo.’ Era d’Ele que eu dizia: “Depois de mim virá
um homem, que passou à minha frente, porque existia antes de mim”. Eu não O
conhecia, mas, para Ele Se manifestar a Israel, é que eu vim batizar em água.“João
deu mais este testemunho: ‘Eu vi o Espírito Santo descer do Céu como uma pomba
e repousar sobre Ele. Eu não O conhecia, mas quem me enviou a batizar em água é
que me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e repousar é que
batiza no Espírito Santo.’
Ora, eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus.”
***
O
trecho evangélico integra a secção introdutória do Quarto Evangelho (cf Jo 1,19-3,36),
em que a principal preocupação é apresentar a figura de Jesus.
Ante
os nossos olhos, diversas personagens vão entrando em cena e apresentam-nos
Jesus. As falas que lhes são atribuídas são afirmações categóricas, carregadas
de significado teológico, que nos convidam a mergulhar no mistério de Jesus. O
quadro final que resulta destas intervenções mostra Jesus como o Messias, Filho
de Deus, que possui o Espírito e que vem ao encontro dos homens para fazer
aparecer o Homem Novo, nascido da água e do Espírito.
João
Baptista tem lugar especial no cenário. O seu testemunho aparece no início e no
fim da secção, porque é decisivo. De facto, a catequese cristã sempre viu o
Batista como “o precursor do Messias”, que Deus enviou para preparar os homens
para acolherem Jesus.
Neste
quadro, o narrador não define o auditório a que João se dirige, porque pretende sugerir que o testemunho de João é
perene, dirigido aos homens e mulheres de todos os tempos e com eco permanente
na comunidade cristã. A cena passa-se em Betânia, povoação situada na margem
oriental do rio Jordão, perto de Jericó e até agora não identificada (Orígenes
fala de “Bethabara”, ou “Casa da Passagem”). Alguns séculos antes, tinha sido
da margem oriental do Jordão que os Hebreus, libertados do Egito e conduzidos
por Josué, passaram para a Terra Prometida.
João,
o Batista, postado na Casa da Passagem, espera pelo enviado de Deus, Aquele que
está para chegar e a quem não se julga digno “de desatar a correia das
sandálias” (Jo 1,27). Quando vê Jesus que vem ao seu encontro,
apresenta-O ao Mundo. O momento em que Jesus irrompe na História e é
apresentado aos que o esperam ansiosamente é o momento da passagem do tempo
velho da antiga Aliança para o tempo da nova Aliança. Com a entrada em cena de
Jesus, começa o tempo do Messias e da sua Igreja.
Esta
catequese sobre Jesus expressa-se por três asserções com profundo significado
teológico: Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do Mundo; é o Filho de
Deus que possui a plenitude do Espírito; é Aquele que batiza os homens no
Espírito.
A
asserção “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” evoca duas imagens que
a catequese tradicional de Israel conhecia bem. Por um lado, evoca a imagem do
“servo sofredor”, o “cordeiro levado para o matadouro” que entregou a sua vida
à morte e sofreu pelos pecados do povo; por outro, evoca a imagem do cordeiro
pascal, o símbolo por excelência da ação libertadora de Deus em favor de Israel,
na noite em que os Hebreus saíram da escravidão do Egito e começaram a sua
peregrinação para a Terra Prometida. Nos dois casos, a imagem do cordeiro
encaixa numa narrativa que nos situa no contexto da ação libertadora de Deus em
favor dos homens.
Jesus,
o “Cordeiro de Deus”, veio para tirar (eliminar) “o pecado do Mundo”. O termo
“pecado”, no singular: não designa os “pecados” dos homens, mas o “pecado”
único (estrutural) que oprime a Humanidade inteira. Na catequese joânica, esse pecado
consiste na recusa da vida que Deus insiste dar aos homens. É dessa recusa que
resulta o pecado histórico que desfeia o Mundo e que oprime os homens. O “Mundo”,
neste contexto, designa a Humanidade orgulhosa (dona de tudo) e autossuficiente
que resiste à salvação e que recusa a luz/vida que Deus lhe oferece. A missão
de Jesus, o Cordeiro de Deus, será libertar os homens prisioneiros do egoísmo,
da injustiça, da violência, da maldade, do pecado, da morte. O Cordeiro de Deus
protagonizará um novo êxodo: fará passar os homens da terra da escravidão para
a terra da liberdade.
A
asserção “Jesus é o ‘Filho de Deus’ que possui a plenitude do Espírito Santo”
completa e aprofunda a anterior. Jesus é o Filho de Deus que possui a plenitude
da vida do Pai, toda a riqueza do Pai, todo o amor do Pai (o Espírito). É um
com o Pai (“Eu e o Pai somos um” – Jo 10,30). Por mandato do Pai, veio
ao encontro dos homens e instalou-se no Mundo (“montou a sua tenda no meio dos
homens” – Jo 1,14). Assim, quem O encontra encontra Deus; quem O acolhe acolhe
a vida de Deus. João, o Batista, compreendeu que Jesus é o Filho de Deus,
quando viu “o Espírito Santo descer do Céu como uma pomba e repousar” sobre
Jesus (Jo 1,32): percebeu que, em Jesus, está presente e atuante o
Espírito de Deus, está presente a própria vida de Deus. Depois de ver (“eu vi”)
o Espírito descer e permanecer sobre Jesus, João pode garantir que Jesus é a
presença de Deus no Mundo e tem a missão de comunicar aos homens a vida divina
que Ele possui em plenitude. A finalidade dessa comunicação (do Espírito) é
tornar possível ao homem escapar da morte e alcançar a vida eterna.
Para
concretizar esta missão, Jesus foi investido como Messias: foi “ungido”
(“messias”) com o Espírito. Cumpre-se a profecia messiânica de Isaías: “Brotará
um rebento do tronco de Jessé, um rebento brotará das suas raízes. Sobre ele
repousará o espírito do Senhor” (Is 11,1-2). Animado pelo Espírito de
Deus, o Messias concretizará a sua missão à maneira do Servo de Javé, ungido com
o Espírito de Deus e enviado ao Mundo para ser “luz das nações”, para “abrir os
olhos aos cegos”, para “tirar do cárcere os prisioneiros”, para libertar das
suas “prisões aqueles que vivem nas trevas” (Is 42,6-7). Como o Servo de
Javé, Jesus parte ao encontro dos homens para lhes levar a salvação de Deus.
A
asserção “Jesus é Aquele ‘que vai batizar no Espírito’ – Jo 1,33”
refere-se à concretização da missão de Jesus: Ele comunicará aos homens o
Espírito de Deus e transformá-los em “Homens Novos”, que vivem sob o dinamismo
do Espírito. Os que estiverem dispostos a aderir a Jesus e a acolher a sua propostas
receberão o Espírito de Deus; e, com a força do Espírito, abandonarão a vida da
escravidão e das trevas. Alcançarão o pleno desenvolvimento, conhecerão a vida
plena. Integrarão a comunidade do Povo de Deus, a família de Deus.
As
declarações de João, o Batista, o apresentador oficial de Jesus, instam os
homens de todas as épocas a voltarem-se para Jesus e a acolherem a proposta que,
em nome de Deus, Ele faz: só com o encontro com Jesus se chegará à vida plena,
à meta final do Homem Novo.
***
Paulo
de Tarso (1Cor 1,1-3), lembra aos cristãos da cidade de Corinto que
todos são chamados a cumprir a missão que Deus lhes destina. Paulo, chamado por
Deus a ser apóstolo de Jesus Cristo, anunciará o Evangelho em todo o lado aonde
a vida o levar; os Coríntios, chamados à santidade, devem viver de forma
coerente com a vida nova que assumiram no dia em que se comprometeram com Jesus
e com o Evangelho.
A
introdução à carta inclui o remetente, “Paulo”, e o destinatário, “a Igreja de
Deus que está em Corinto”. Porém, o mais importante nestes versículos iniciais
é a caraterização que Paulo faz de um e de outro: sobre si próprio, diz que foi
“chamado (klêtos), por vontade de Deus, para apóstolo de Cristo Jesus”; sobre
os Coríntios, diz que foram “chamados (klêtois) à santidade”. O vocábulo
“klêtos” (“chamado”, “convocado”, “eleito”) assume aqui lugar fundamental.
Sugere que, tanto Paulo como os cristãos de Corinto, cada qual à sua maneira,
são chamados a desempenhar um papel no projeto de Deus.
Quanto
a Paulo, foi escolhido por Deus para ser apóstolo de Cristo Jesus. Deus
elegeu-o e enviou-o a dar testemunho da Boa Nova de Jesus em toda a Terra,
inclusive em Corinto. É essa a missão. Custe o que custar, o apóstolo tenciona
cumpri-la. Sentindo que o seu testemunho estava a ser posto em causa por alguns
membros da comunidade, Paulo evoca o chamamento que lhe foi feito e o mandato
que recebeu de Deus como fundamento da sua autoridade. Chamado e mandatado por
Deus, tem legitimidade para proclamar a verdade do Evangelho.
Os
Coríntios são uma comunidade de “chamados” por Deus à santidade. Na linguagem,
paulina, “santos” são todos os que acolheram a proposta libertadora de Cristo e
que abraçaram a salvação de Deus. Separados do Mundo velho do egoísmo e do
pecado, os que aderiram a Jesus escolheram abraçar a vida do Homem Novo e
dispuseram-se a viver para o serviço de Deus. A vida cristã é uma vocação.
Paulo, enquanto apóstolo de Deus, sente a obrigação de lembrar aos cristãos que
devem viver de forma coerente com a vocação a que foram chamados.
Além
disso, os cristãos de Corinto devem ter sempre presente que fazem parte de uma
família universal, constituída por “todos os que invocam, em qualquer lugar, o
nome do Senhor Jesus Cristo”. É uma bela definição de “Igreja”. Nessa “família”,
não há lugar para divisões ou fraturas.
***
Por
tudo isto, é justo assumir o salmo em que o servo de Javé, Cristo, a Igreja e
cada crente porfiam fazer a vontade de Deus:
“Eu
venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.”
“Esperei
no senhor com toda a confiança / e Ele atendeu-me. / Pôs em meus lábios um
cântico novo, / um hino de louvor ao nosso Deus.
“Não
Vos agradaram sacrifícios nem oblações, / mas abristes-me os ouvidos; / não
pedistes holocaustos nem expiações, / então clamei: ‘Aqui estou.’
“De
mim está escrito no livro da Lei / que faça a vossa vontade. / Assim o quero, ó
meu Deus, /
a vossa lei está no meu coração.
“Proclamei
a justiça na grande assembleia, / não fechei os meus lábios, Senhor, bem o
sabeis. / Não escondi a vossa justiça no fundo do coração, / proclamei a vossa
fidelidade e salvação.”
***
É
salutar saudar o Verbo feito homem para nos dar a dignidade de filhos de Deus:
“Aleluia.
Aleluia. O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós. / Àqueles que O receberam deu-lhes
o poder de se tornarem filhos de Deus.”
2025.01.27
– Louro de Carvalho
Sem comentários:
Enviar um comentário