sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Fórum Económico Mundial aponta novo paradigma geopolítico

 

De 19 a 23 de janeiro de 2026, Davos-Klosters, na Suíça, foi o epicentro da governação global com o WEF – World Economic Forum Annual Meeting 2026 (Fórum Económico Mundial 2026), sob o lema “A Spirit of Dialogue” (“Um espírito de diálogo”), reunindo chefes de Estado, líderes empresariais, académicos e representantes da sociedade civil, para discussão de prioridades globais, no contexto de crescente complexidade geopolítica e económica.
Esta edição assume especial relevância, mercê da urgência de ações coordenadas para enfrentar desafios, como tensões geopolíticas, desigualdades sociais e impactos das alterações climáticas. O programa foi estruturado em torno de cinco desafios globais, que orientaram os debates e as sessões plenárias: cooperação num Mundo contestado, novas fontes de crescimento económico, investimento nas pessoas, inovação responsável e prosperidade, dentro dos limites planetários. São eixos que refletem a ambição do WEF em alinhar o crescimento económico com a responsabilidade ambiental e a com a justiça social, assumindo a cooperação público-privada como rota para soluções sustentáveis e inclusivas.
Entre os momentos mais aguardados, figurou o discurso do presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald John Trump, mas, logo a seguir, destacaram-se os do primeiro-ministro do Canadá e do chanceler da Alemanha. Além disso, o programa incluiu debates temáticos com líderes globais, podcasts e transmissões diárias que ofereceram análises sobre tendências emergentes e decisões estratégicas.
A reunião do WEF é reconhecida como um dos fóruns mais influentes do Mundo, e o objetivo, em 2026, era reforçar a capacidade de diálogo num cenário internacional marcado por incertezas, promovendo o crescimento, a resiliência e a inovação. E, no último dia do evento, desfilou pelas ruas de Davos, num espetáculo tecnológico ao vivo, um grupo de robôs, cativando pessoas de todas as idades, a anunciar o Davos Tech Summit, evento tecnológico que se realiza, pela primeira, em julho, sob o tema “Touching Intelligence”, e que reunirá líderes da indústria, da ciência e da política, para debaterem como os robôs avançados interagem com o mundo físico.

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O presidente dos EUA fez uma série de afirmações, repetindo a declaração sobre o fim de oito guerras e evocando a História da II Guerra Mundial, para reivindicar a Gronelândia.
Criticou a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) e seus membros, alegadamente, por não fazerem o seu trabalho, queixou-se de os EUA receberem muito pouco da aliança e lançou dúvidas sobre se esta apoiaria o seu país num ataque. “Estaremos lá a 100% para a NATO, mas não tenho a certeza se eles estarão lá para nós”, vincou, esquecendo que os EUA são o único país que invocou o artigo 5.º da NATO, que obriga cada país a prestar assistência. Isso ocorreu por causa dos atentados de 11 de setembro de 2001, com a NATO a ajudar de várias formas.
Além disso, Trump atacou as políticas energéticas dos países europeus e afirmou que os preços da eletricidade, na Alemanha, são 64% mais elevados do que em 2017. Este país gera menos 22% e a culpa não é do atual chanceler, mas dos seus antecessores.
É verdade que a Alemanha tem produzido menos eletricidade, nos últimos anos, e que as energias renováveis representam uma parte muito maior da produção total de energia do país – mudança que tem crescido de forma constante, ao longo de décadas.
Donald Trump culpa as políticas de energias renováveis dos governos de esquerda pelos “preços extremamente elevados” e pelo que chamou de “nova fraude verde”. “Há moinhos de vento por todo o lado e são uns falhados”, disse à plateia.
O inquilino da Casa Branca considerou que o Reino Unido “produz apenas um terço da energia total de todas as fontes que produzia em 1999”, quando tem o território em cima do Mar do Norte – uma das maiores reservas do Mundo, que não a utiliza. E os dados do governo britânico mostram que a produção de energia em 2023 diminuirá 66%, ou seja, cerca de um terço, em relação a 1999, ano em que “a produção do Reino Unido atingiu o seu pico”.
No seu discurso, o líder norte-americano reiterou a afirmação de que pôs fim a oito guerras, desde o início do seu segundo mandato presidencial, em janeiro de 2025.
Ora, ainda que tenha desempenhado um papel nos esforços de mediação em vários conflitos, o seu impacto não é tão claro como alega e, em dezembro, eclodiram novos combates entre o Camboja e a Tailândia. Embora tenha anunciado o lançamento da segunda fase do plano de cessar-fogo em Gaza, os próximos passos do processo em meados de janeiro, continuavam incertos e muitos dos pontos da primeira fase do plano de 20 pontos não se concretizaram. E a fricção entre o Egito e a Etiópia sobre a Grande Barragem do Renascimento Etíope é descrita como uma tensão acrescida, não como uma guerra.
Donald Trump afirmou, várias vezes, no discurso, que os EUA tinham devolvido a Gronelândia à Dinamarca, após a II Guerra Mundial.
Na realidade, embora os EUA tenham assumido a responsabilidade pela defesa da Gronelândia durante a guerra, tal não afetou a soberania da Dinamarca sobre a ilha. Após o conflito, a Dinamarca foi obrigada a inscrever a Gronelândia na lista das Nações Unidas como um “território não autónomo”, reconhecendo, efetivamente, o seu estatuto colonial.
Os EUA procuraram comprar a Gronelândia, em várias ocasiões, ao longo do século XX. Em 1946, o presidente Harry Truman ofereceu à Dinamarca 100 milhões de dólares em ouro, oferta que Copenhaga rejeitou. Ao abrigo de um acordo de defesa de 1951, Washington reconheceu, formalmente, a “soberania do Reino da Dinamarca sobre a Gronelândia”.

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Mark Carney, primeiro-ministro canadiano proferiu um discurso que tem boas hipóteses de resistir ao teste do tempo. Falou da “rutura na ordem mundial, o fim de uma bela história e o início de uma realidade brutal, na qual as relações entre grandes potências se fazem sem quaisquer limites à sua atuação”. Porém, contrapôs que “os outros países, em particular as chamadas potências médias […] têm a capacidade de construir uma nova ordem que incorpore os nossos valores, como o respeito pelos direitos humanos, pelo desenvolvimento sustentável, a solidariedade, a soberania e a integridade territorial dos Estados”. Efetivamente, como enfatiza, “o poder dos menos poderosos começa com a honestidade”.
Citando o aforismo de Tucídides segundo o qual “os fortes fazem o que querem, e os fracos sofrem o que têm de sofrer”, tido como inevitável, acusa a “forte tendência para os países se acomodarem, de forma a evitarem problemas”, esperando que a “aceitação lhes traga segurança”, que não traz.
A seguir, citou o ensaio “O Poder dos Impotentes”, de 1978, do checo Václav Havel, em que pergunta: “Como é que o sistema comunista se sustentava?” E a resposta é: com o merceeiro que, todas as manhãs, põe o cartaz na montra: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” Ninguém acredita, nem ele, mas coloca o cartaz na mesma, para evitar problemas. Isto é “viver dentro da mentira”, isto é, da disposição de todos a representarem o poder “como se fosse verdade”.
Países como o Canadá prosperaram sob a ordem internacional baseada em regras. Sabia-se que “esta ordem internacional era parcialmente falsa”, pois “os mais fortes se eximiriam, quando lhes fosse conveniente”, aplicavam as regras comerciais “de forma assimétrica” e o direito internacional, “com rigor variado, dependendo da identidade do acusado ou da vítima”. Contudo, foi uma útil ficção, que já não funciona, porque “as grandes potências começaram a usar a integração económica como arma: tarifas, como vantagem negocial, a infraestrutura financeira, como coerção, as cadeias de abastecimento, como vulnerabilidades a serem exploradas”.
Porém, apontou que, se as grandes potências abandonarem a aparência de regras e valores pela busca desenfreada dos seus interesses, os ganhos do transnacionalismo tornam-se difíceis de replicar, e “os aliados vão diversificar, para se protegerem contra a incerteza: contrair seguros, multiplicar opções”, o que lhes traz de volta a soberania, com uma diferença: a soberania, que “estava ancorada em regras”, estará “cada vez mais ancorada na capacidade de resistir à pressão, o que tem inerente um risco, que se previne com a partilha. Com efeito, segundo Mark Carney, “padrões partilhados reduzem a fragmentação” e “as complementaridades são de soma positiva”.
O primeiro-ministro canadiano aponta este rumo e desafia os aliados da NATO e todos os outros países a segui-lo: “manter o princípio do nosso compromisso com valores fundamentais: soberania e integridade territorial, a proibição do uso da força, exceto quando consistente com a Carta das Nações Unidas, respeito pelos direitos humanos”.
Todavia, o governante não deixa de apresentar o Canadá como superpotência energética, com vastas reservas de minerais e com a população mais instruída do Mundo – “uma sociedade plural que funciona”, com “uma praça pública barulhenta, diversa e livre”. Enfim, os “Canadianos mantêm-se comprometidos com a sustentabilidade”, acentua.
Só um reparo: não é certo que a velha ordem não voltará. Os visionários podem surgir e ninguém os travará.

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Por sua vez, Friedrich Merz descreveu um Mundo cada vez mais hostil, em que a política de pressão aumenta, e giza um plano estratégico para a Europa, com limites claros, em relação aos EUA: “Ameaças de violência contra o território europeu são inaceitáveis.”
O seu diagnóstico revela que a ordem mundial dominada pelos EUA está a desintegrar-se, e o Mundo entrou numa “era de política de grandes potências”. É um Mundo “construído com base no poder, na força e, se necessário, na violência”. Porém, considera que “a Europa não está à mercê dessa evolução e pode ajudar a moldá-la”. O chanceler alemão dirigiu-se, expressamente, à elite económica internacional: a Europa e a Alemanha “entenderam a mensagem”, mas precisam de agir com determinação.
Em referência ao agravamento do conflito em torno da Gronelândia e às relações com o presidente dos EUA, Friedrich Merz saudou a cedência de Trump, após um primeiro acordo sobre a Gronelândia (“este é o caminho certo”), mas deixou claro: “Qualquer ameaça para ocupar território europeu pela força é inaceitável.” E, quanto à espiral de tarifas, observou que novas tarifas minariam os alicerces das relações transatlânticas, ao que a Europa teria de reagir, de forma “unida, calma, adequada e forte”.
No respeitante à política de segurança, sustenta que a Europa deve reforçar a sua capacidade de defesa, mas sem comprometer, levianamente, a aliança com os EUA, e que a parceria transatlântica não deve ser “precipitadamente descartada”, atendendo ao papel da NATO como âncora de segurança baseada na confiança.
Em termos da agenda de trabalho europeia, diz que a Ucrânia deve continuar a ser apoiada para que seja possível a “paz justa”; a Europa deve ser capaz de se defender, pelo que tem de investir largamente, na sua própria segurança; deve reduzir as dependências que a tornam vulnerável; e tem de garantir que a sua economia possa explorar todo o seu “potencial”. 
Apresentou o acordo da União Europeia (UE) com o Mercosul como alavanca central para um maior crescimento e considerou-o “justo e equilibrado”.
No atinente à política interna, o chanceler enfatizou a Alemanha e a Europa desperdiçaram um “incrível potencial de crescimento”, devido ao adiamento de reformas; e que a UE se tornou o “campeão mundial do excesso de regulamentação”. Por isso, defendeu um travão de emergência à burocracia e à legislação, bem como um orçamento modernizado; e fez referência à cimeira extraordinária da UE, a 12 de fevereiro, na qual os chefes de Estado e de Governo deverão discutir medidas para reforçar a competitividade.

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O painel “Global Economic Outlook” do último dia do WEF serviu para um certo balanço, fazer previsões e deixar alguns apelos. Assim, reduzir dependências e desigualdades, separar os verdadeiros sinais do ruído e ter nervos de aço foram as mensagens-chave.
A presidente do Banco Central Europeu (BCE), e as diretoras-gerais do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Organização Mundial do Comércio (OMC), deixaram, a 23 de janeiro, uma receita para lidar com um Mundo que não voltará ao que era, há anos.
As mulheres em palco discordam da asserção de Mark Carney, que “estamos no meio de uma rutura, não de uma transição”. “Não tenho a certeza se devemos falar de rutura. Devemos estar a falar de alternativas. Do ponto de vista económico e dos negócios, dependemos um dos outros e temos ligações muito poderosas”, afirmou Christine Lagarde, presidente do BCE.
Ngozi Okonjo-Iweala, diretora-geral da OMC, defendeu que “alguns dos sistemas que construímos, nos últimos 80 anos, foram muito bem construídos” e que, apesar de todas as disrupções, há alguma resiliência”.  Se não há rutura, para Ngozi Okonjo-Iweala, também é certo que já “não vamos voltar ao que éramos”: Se eu fosse um líder político ou de negócios, estaria planear contra um Mundo que não vai voltar ao que era”, disse.
“Temos de abraçar duas novas caraterísticas. Estamos num Mundo mais propício a choques – somos surpreendidos pela geopolítica, [pel]a tecnologia, [pel]o clima – e estamos num Mundo multipolar. Há regiões que têm significado geopolítico e económico que não tinham”, afirmou a diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva.
A presidente do BCE defendeu que é preciso distinguir “os sinais do ruído”, já que, em Davos, existiu “muito ruído”. Por exemplo, as projeções com dados nominais para evolução do produto interno bruto “PIB” não têm em conta a inflação, distorcendo os “números reais”. “Temos de ter cuidado com a distribuição da riqueza e com a desigualdade, que está ficar mais profunda e maior”, enfatizou Christine Lagarde.
A diretora-geral da OMC deixou mais um conselho: “O que devemos aprender é que não podemos ter demasiadas dependências. Os líderes empresariais e políticos que deixarem este sítio sem perceberem que têm de gerir as suas dependências, não aprenderam a lição.”
Kristalina Giorgieva apelou à não complacência, pois “o crescimento não é suficientemente forte. E, sobre o impacto da inteligência artificial (IA), afirmou que 60% dos empregos nas economias avançadas serão afetados por ela, mas o valor do humano prevalecerá.

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Enfim, os EUA não conseguiram, em Davos, fazer ruir a política de segurança, nem impedir os paladinos da estratégia de sobrevivência entre as superpotências de seguirem o seu rumo. Antes sobressaíram o sangue-frio, a determinação e a sensatez. O respeito é muito bonito!   

2026.01.23 – Louro de Carvalho

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