A
18 de janeiro, o eleitorado português acorreu às urnas com uma das maiores
comparências de sempre em eleições presidenciais, do que resultou a passagem à
segunda volta (agendada para 8 de fevereiro) do candidato António José Seguro,
o vencedor da primeira volta, e do candidato André Ventura, que logrou o
segundo lugar.
O socialista António José Seguro, protagonista de candidatura dita apartidária, mas oficialmente apoiada pelo Partido Socialista (PS) agradeceu a votação massiva pela qual lutou, mas avisou que nada está garantido, pelo que foi claro ao convocar para a causa todos os democratas, pretendendo nova campanha inclusiva e aberta a todos, porque todos somos portugueses e não cidadãos de primeira e cidadãos de segunda. Garantiu que o governo teria, com ele, todas as condições para governar, mas que o estado da saúde não podia continuar como está, bem como a desigualdade entre homens e mulheres na sociedade, nomeadamente, no campo laboral.
O socialista António José Seguro, protagonista de candidatura dita apartidária, mas oficialmente apoiada pelo Partido Socialista (PS) agradeceu a votação massiva pela qual lutou, mas avisou que nada está garantido, pelo que foi claro ao convocar para a causa todos os democratas, pretendendo nova campanha inclusiva e aberta a todos, porque todos somos portugueses e não cidadãos de primeira e cidadãos de segunda. Garantiu que o governo teria, com ele, todas as condições para governar, mas que o estado da saúde não podia continuar como está, bem como a desigualdade entre homens e mulheres na sociedade, nomeadamente, no campo laboral.
Por
seu turno, André Ventura, protagonista de uma candidatura expressamente do seu
partido, o Chega, afirmou-se já como vencedor, se não da eleição presidencial,
pelo menos, como líder da direita que reconhece ter chegado ao limite da
fragmentação. Por isso, surgiu, assumidamente, como salvador da direita
política (incluindo o PSD), fazendo jus ao facto de liderar a segunda força
parlamentar, e dando a entender que a nova direita há de ter nova configuração:
mais portuguesa, mais rácica e mais xenófoba, sem corrupção e sem
subsidiodependência. E deu a entender que a vitória estava certa, pois o
socialismo mata, mas já acabou.
É
já de anotar um certo atipicismo neste ato eleitoral: clara postura partidária
a dominar o horizonte eleitoral para a escolha do novo Presidente da República,
algo a que não assistíamos. Até agora, os inquilinos do Palácio de Belém, todos
oriundos de partidos, à exceção de Ramalho Eanes, mostraram grande contenção,
face ao espaço partidário de onde provieram; e, embora, de vez em quando, lhes
fugisse a chinela para fora dos pés, mantiveram um equilíbrio geral (genuíno ou
forçado – o que não importa para o caso).
Recordo
que Pinheiro de Azevedo, que era primeiro-ministro (PM) do VI Governo
Provisório, em 1976, logo que se assumiu como candidato às eleições
presidenciais, cessou as funções governativas, passando o seu ministro da
Administração Interna, Vasco Fernando Leote Almeida Costa, a exercer,
interinamente, as funções de chefe do governo. Porém, André Ventura, manteve-se
líder partidário, ao invés de Mário Soares (até entregou o cartão de militante
do PS), de Jorge Sampaio, de Cavaco Silva e de Marcelo Rebelo de Sousa.
***
Como
só dois candidatos são admitidos à segunda volta, obviamente, os votos
depositados nos outros nove candidatos serão distribuídos pelos atuais dois:
Seguro e Ventura.
Luís
Marques Mendes, apoiado pelo Partido Social Democrata (PSD) e pelo partido do
Centro Democrático Social (CDS), que ficou num desconfortável 5.º lugar,
declarou não endossar, nem transferir os votos que recebeu do eleitorado,
porque não é dono desses votos, cabendo aos eleitores dispor deles com a
liberdade que lhes assiste. Gouveia e Melo, que ficou no, há quase um ano,
inimaginável 4.º lugar, questionado sobre se recomendaria a votação em algum
dos dois candidatos, respondeu, com alguma prudência, que era cedo para tomar
uma decisão nesse sentido, pelo que iria pensar.
Por
mim, entendo que os candidatos excluídos não têm obrigação de se pronunciar
sobre essa matéria, em noite eleitoral, aliás como penso que os partidos não
tinham necessidade de o fazer. Por isso, também achei sensata a resposta de
Mariana Leitão, presidente da Iniciativa Liberal (IL), à mesma questão: tinha
de consultar os órgãos do partido.
A
este respeito, é de referir que todos os candidatos derrotados assumiram,
pessoalmente, a derrota, incluindo Cotrim de Figueiredo, o candidato da IL, que
ficou em 3.º lugar. Porém, este culpou o PM de não ter posto o interesse do
país acima dos interesses partidários, como o fizera Sá Carneiro. Referia-se à
carta que, ao ver que Marques Mendes estava a ficar para trás, enviou ao líder
PSD uma carta a prometer cooperação intensa com o governo, no caso de ser
eleito (tacitamente estava a solicitar para si a transferência do apoio do PSD
e do CDS).
Entretanto,
Jorge Pinto, com o Livre, Catarina Martins, com o Bloco de Esquerda (BE), o
Partido Comunista Português (PCP), Poiares Maduro (do PSD, mas em nome pessoal)
recomendaram a votação em António José Seguro.
Ao
mesmo tempo, Luís Montenegro, PM e presidente do PSD, fez uma intervenção
lamentável, do meu ponto de vista. É certo que declarou aceitar, “com
humildade”, a vontade do povo. Todavia, considerando que o PSD não está
representado na segunda parte da tarefa eleitoral, afirmou que o seu partido
não declara apoio a nenhum dos dois candidatos: um à esquerda do PSD e outro à
direita do PSD. Com efeito, com qualquer um deles a Presidente da República, o
governo tem condições para funcionar, durante quatro anos.
Não
me apetece adjetivar esta atitude, mas é verdade que me faz lembrar Pôncio
Pilatos, que
foi governador ou prefeito da província romana da Judeia, entre os anos 26 e 36
d.C., que se declarou não responsável pela morte de Jesus Cristo – apesar de
não ter visto nele indício de crime algum – pelo que o entregou nas mãos dos
guardas para a crucifixão. Por isso, o “Credo de la Misa Campesina” chama a
Poncio Pilato “un puñetero desalmado”.
Luís
Montenegro coloca em pé de igualdade (já parece Gouveia e Melo a falar da tropa)
Seguro, inclusivo e conciliador, e Ventura, que aspira a demolir o sistema.
A
este respeito, o constitucionalista Vital Moreira tem longo artigo no blogue
“Causa nossa”, sob o título “Eleições presidenciais (39): Sem doutrina nem
visão”, que vale a pena ler.
O autor vinca a responsabilidade do líder do PSD como “partido fundador da nossa democracia constitucional e comprometido com a UE [União Europeia] e os seus valores” e censura o facto de, para o PM ser equivalente “ter um ou outro daqueles candidatos em Belém”. Ao mesmo tempo, sublinha que o PM não contestou “a provocatória reivindicação de Ventura” de que é o “líder político da direita”, incluindo o PSD, e pôs “no mesmo pé os candidatos que vão à 2.ª volta”.
O autor vinca a responsabilidade do líder do PSD como “partido fundador da nossa democracia constitucional e comprometido com a UE [União Europeia] e os seus valores” e censura o facto de, para o PM ser equivalente “ter um ou outro daqueles candidatos em Belém”. Ao mesmo tempo, sublinha que o PM não contestou “a provocatória reivindicação de Ventura” de que é o “líder político da direita”, incluindo o PSD, e pôs “no mesmo pé os candidatos que vão à 2.ª volta”.
O
constitucionalista imputa ao PM a principal responsabilidade pela “hecatombe eleitoral”
do candidato presidencial do PSD, com “a normalização do Chega e da IL como
aliados do governo na aprovação de leis ‘celeradas’, como a lei dos
estrangeiros e a lei da nacionalidade – ambas com normas declaradas
inconstitucionais no Tribunal Constitucional –, e [com] a adoção de uma
linguagem comum, em matéria de imigração e noutras, que libertaram muitos
eleitores do PSD para votarem nos candidatos da direita ‘amiga’, de visual mais
cativante”.
Com
o não-é-não “a coligações formais de governo com Ventura” a tornar-se
em sim-é-sim “a
políticas comuns com o Chega (e com a IL), os eleitores do PSD”
sentiram-se dispensados do vínculo “ao voto no seu candidato partidário”, ou
seja, como explicita Vital Moreira, “ao
apagar a distinção essencial entre a direita constitucional, a que o PSD
pertence, e a direita hostil à Constituição, em que o Chega de Ventura se
integra”, o PM “franqueou a fronteira ao livre trânsito eleitoral entre os dois
campos”.
Apontando,
como mais grave, o abandono, pelo PM e pelo PSD, “de qualquer perspetiva doutrinária,
nesta disputa”, reduzindo-a a pleito entre a direita, dita “mais amiga da
liberdade individual”, e a esquerda, dita “mais estatista”, o líder do PSD “falha
gravemente”, no dizer de Vital Moreira, em considerar estas eleições como “uma
reedição das eleições parlamentares” ou como visando “escolher a quem cabe a
condução da política geral do País” e não ver que aquilo que está em causa “é quem está em
melhores condições para representar a República, como coletividade de todos os
cidadãos, sem discriminações, dentro e fora de portas, e de fazer respeitar a
Constituição e o regular funcionamento das instituições”. Aliás, o secretário-geral
do PS, José Luís Carneiro, acentuou tal perspetiva na sua intervenção na noite
eleitoral.
Depois,
o constitucionalista estabelece as dicotomias entre os dois candidatos: “democracia
liberal versus ‘democracia iliberal’; amizade à
Constituição versus hostilidade à Constituição; defesa da
dignidade humana e dos direitos humanos versus medidas
contrárias a uma e a outros (como o desprezo das minorias ou a defesa de penas
infamantes ou degradantes); tolerância e contenção no debate
político versus intolerância e agressividade; decência política
versus trauliteirismo político; conceção não-governante do PR (como ‘poder
moderador’) versus conceção intervencionista do PR (como poder
cogovernante, de tutela sobre os governos em funções); experiência governativa
e externa (deputado ao PE) versus experiência nula em qualquer
dessas dimensões; alinhamento externo do País com as democracias liberais versus
alinhamento com os governos iliberais (como Orbán ou Trump).”
Também
Vital Moreira evoca, no caso, a postura de Pôncio Pilatos.
Por
outro lado, o articulista sustenta que o PM, seja qual for o resultado da eleição
presidencial, “mantém a legitimidade para governar, que ganhou nas eleições
parlamentares, e que não depende da confiança política de Belém”, mas que não lhe
é lícito “ignorar que não é indiferente quem lá esteja”. Por isso, tem de optar
por um PR respeitador do seu mandato constitucional, não abusando do veto
legislativo, nem do poder de dissolução da Assembleia da República (AR), ou por
um PR que engavetará, logo que possível, a Constituição, que reclamará “a
condição de ‘líder político do País’”, que infernizará “a vida do governo
(abusando do poder de veto, propondo a demissão de ministros, criticando,
publicamente, o governo e ameaçando com a dissolução parlamentar), sem excluir
a reivindicação do convite para chefiar o Conselho de Ministros e da
representação do País no Conselho Europeu da UE, em vez do PM...”.
***
Porém,
há que tecer outros considerandos. Luís Marques Mendes (LMM) não ganhou, nem ficou
em segundo lugar, em nenhum distrito, como só ganhou em três concelhos (e todos
do interior). Há quem diga que a culpa foi do seu partido ou do governo. Porém,
ele disso ilibou o governo e assumiu a inteira responsabilidade da derrota. Por
mim, creio que o governo foi objeto de reparos graves em plena campanha
eleitoral que se repercutiram na candidatura de LMM, por o verem colado ao governo,
situação de que não soube libertar-se. Ao invés, consta que o PSD se metera em
demasia na campanha, disponibilizando endereços de militantes, aparecendo
abertamente e enviando mensagens aos militantes.
Sendo assim, a estrondosa derrota pode explicar-se pelo facto de o povo não ter gostado de o ver envolvido em disputa pessoal, taco a taco e enfadonha, com o almirante Gouveia e Melo – razão principal pela qual (além da impreparação política e de certa arrogância suprapartidária) também o militar na reserva caiu imenso, nas intenções de voto. Contudo, há outra razão: LMM usou um método de contexto para a candidatura semelhante ao de Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) – o comentário televisivo na SIC –, esquecendo que MRS tinha invejáveis antecedentes de traquejo na comunicação social, que a cópia é pior do que o original, que Paulo Portas era comentador seu concorrente na TVI e que MRS, enquanto PR, nunca deixou de ser comentador político, quase a toda a hora, nem sempre com intervenções ajustadas à situação. É natural que o eleitorado, saturado de comentários políticos, não quisesse ver repetida a proeza em Belém.
Sendo assim, a estrondosa derrota pode explicar-se pelo facto de o povo não ter gostado de o ver envolvido em disputa pessoal, taco a taco e enfadonha, com o almirante Gouveia e Melo – razão principal pela qual (além da impreparação política e de certa arrogância suprapartidária) também o militar na reserva caiu imenso, nas intenções de voto. Contudo, há outra razão: LMM usou um método de contexto para a candidatura semelhante ao de Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) – o comentário televisivo na SIC –, esquecendo que MRS tinha invejáveis antecedentes de traquejo na comunicação social, que a cópia é pior do que o original, que Paulo Portas era comentador seu concorrente na TVI e que MRS, enquanto PR, nunca deixou de ser comentador político, quase a toda a hora, nem sempre com intervenções ajustadas à situação. É natural que o eleitorado, saturado de comentários políticos, não quisesse ver repetida a proeza em Belém.
E
não tenhamos ilusões: as eleições presidenciais são apartidárias, mas candidatura
que não tenha apoio e máquina de um grande partido (ou mais) dificilmente ganha.
E o almirante ainda teve fôlego, mercê da aura criada pelas vacinas, em 2021, e
pelo apoio de figuras partidárias de relevo. Tudo, porém, cessou com a entrada dos
partidos na campanha.
Quanto
às suspeitas de ilegalidade ou, pelo menos, de falta de ética, que tenham ensombrado
algumas candidaturas, ocorre-me os seguintes considerandos:
É
verdade que, em alguns casos, arguidos e condenados mereceram, em atos eleitorais,
o voto do povo. Houve o caso de um político que estava na prisão, foi eleito
deputado municipal e só não tomou posse porque o tribunal o impediu. O presidente
do governo regional da Madeira foi eleito deputado da Assembleia Legislativa
Regional na condição de arguido.
Quanto
a simples suspeitos, António Costa caiu por força dum parágrafo atamancado no
fim de um comunicado da Procuradoria-Geral da República; os casos e casinhos do
seu governo fizeram cair ministros e secretários de Estado, mas nada disso
aconteceu nos governos subsequentes. O próprio PM, envolto num caso de suspeição,
apresentou uma moção de confiança cuja não aprovação fez cair o seu primeiro executivo,
mas ele e o seu partido ficaram reforçados nas eleições parlamentares subsequentes
e o Chega cresceu 20%.
Nos
últimos anos, as eleições mostram que tanto o Ministério Público (MP), que
parece ter uma agenda político-partidária (tantas são as coincidências de suspeições
que vêm a lume, em tempos eleitorais ou sobre figuras públicas, quando isso
lhes cria mais transtorno), como o eleitorado não são uniformes na apreciação das
condutas dos políticos.
Nestas
eleições, a LMM foram apontadas alguns casos de falta de ética profissional. O MP,
ao invés do que fizera com Luís Montenegro, rapidamente, declarou não haver indício
de qualquer ilícito e o próprio publicou a lista dos clientes da sua empresa,
que foi encerrada antes da assunção da candidatura presidencial. Ao almirante
foram apontados contratos por ajuste direto, quando era comandante naval. O
Tribunal de Contas (TdC) perdoara-lhe algumas irregularidades financeiras,
aceitando as suas justificações, mas a Polícia Judiciária Militar (PJM), que
remetera o caso para o MP, não desistiu. Por fim, lá veio o PM a declarar que o
almirante não era arguido. E a Cotrim de Figueiredo foi apontado um caso de assédio
por uma ex-colaboradora, que a IL negou e que tendo 30 ex-colaboradoras abonado,
em carta, a favor do candidato, que apresentou queixa, por difamação, no MP.
Ficamos
sem saber se este casos influíram no afastamentos dos candidatos da segunda
volta.
Em
todo o caso, evocando ainda o 5.º centenário do nascimento de Luís de Camões (ainda
não havia MP, nem TdC, nem PJM), termino com a transcrição de uma das suas esparsas:
Ao
desconcerto do mundo
“Os bons vi sempre
passar
No mundo graves
tormentos;
E para mais me
espantar,
Os maus vi sempre
nadar
Em mar de
contentamentos.
Cuidando alcançar
assim
O bem tão mal
ordenado,
Fui mau, mas fui
castigado:
Assim que só para
mim
Anda o mundo
concertado.”
2026.01.19
– Louro de Carvalho
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