quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Trump quer envolver a NATO na americanização da Gronelândia

 

A 14 de janeiro, poucas horas antes de o vice-presidente dos Estados Unidos da América (EUA), James David Vance, receber as autoridades dinamarquesas e gronelandesas, o presidente dos EUA escreveu, na rede social Truth Social, que qualquer coisa que não seja o controlo americano sobre aquele território “é inaceitável”. “Os EUA precisam da Gronelândia, para fins de segurança nacional. A NATO [Organização do Tratado do Atlântico Norte] devia liderar este processo para que consigamos este objetivo. Se não conseguirmos, a Rússia ou a China vão fazê-lo, mas isso não vai acontecer. A NATO torna-se muito mais formidável e eficaz com a Gronelândia nas mãos dos Estados Unidos. Qualquer coisa menos que isso é inaceitável”, escreveu.
Já na semana anterior, Donald Trump já tinha afirmado que a Gronelândia iria ser território norte-americano, pela forma mais fácil ou difícil, mas esta é uma questão que se afigura bastante complicada, porque a Dinamarca já fez saber que o território não está à venda.
Os EUA, no caso de compra da Gronelândia à Dinamarca, de acordo com a televisão norte-americana NBC, estão disponíveis para desembolsar até 700 mil milhões de euros. Ou seja, segundo estes cálculos, esse montante excederia metade do orçamento anual do Departamento de Defesa dos EUA. Porém, a NBC cita um alto funcionário da Casa Branca que garante ter o secretário de Estado, Marco Rubio, recebido instruções para, nas próximas semanas, apresentar uma proposta para a compra da Gronelândia, sublinhando que este plano tem “alta prioridade” para Donald Trump.
Será uma batalha complexa para a administração americana, visto que, à chegada a Washington, no dia 13, Vivian Motzfeldt, ministra dos Negócios Estrangeiros da Gronelândia, deixou clara a sua posição: “A Gronelândia não quer ser propriedade dos Estados Unidos [da América], governada por eles ou fazer parte deles. Escolhemos a Gronelândia que conhecemos, hoje, como parte do Reino da Dinamarca.”
Território autónomo da Dinamarca, a Gronelândia é a maior ilha do Mundo, com enorme importância geoestratégica e com inúmeras riquezas naturais (a maior parte por explorar) sob o gelo que cobre 85% da sua superfície a atrair o interesse dos EUA.
Geopoliticamente europeia, pertencente ao continente americano e situada no Ártico, a ilha tem área (2,1 milhões de quilómetros quadrados) superior ao somatório das áreas da França, da Grã-Bretanha, da Espanha, da Itália e da Alemanha juntas, segundo o jornal norte-americano The New York Times, de 14 de janeiro, que refere que, “se Trump conseguisse conquistá-la, seria a maior aquisição territorial da história dos EUA, incluindo o Alasca e a Califórnia”.
Desde a entrada em vigor da nova lei da autonomia, de 2009, cabe aos Gronelandeses decidir sobre o uso das matérias-primas da ilha, bem como declarar a independência, se a pretenderem. O governo local, que tem na pesca a principal fonte de rendimento, destaca as riquezas do subsolo, embora apenas duas minas estejam em atividade e a produção seja limitada. Todavia, a crescente procura por metais e por minerais, a corrida a recursos inexplorados levam a Gronelândia a poder afirmar-se como um “eldorado”, apesar do ambiente polar inóspito e das infraestruturas precárias. E o acesso a estes recursos é considerado crucial pelos norte-americanos, que assinaram, em 2019, um memorando de cooperação no setor.
Por seu turno, Bruxelas identificou, na ilha, 25 dos 34 minerais da lista oficial da União Europeia (UE) de matérias-primas essenciais, incluindo terras raras. E a Amaroq, empresa de mineração e exploração que opera no Sul da Gronelândia, explorando a mina de ouro do território, pretende desenvolver a extração de terras raras, de zinco, de chumbo e de prata, além de elementos críticos como o germânio e o gálio, podendo a produção arrancar em 2027 ou em 2028.
Economicamente, a Gronelândia depende de uma subvenção de Copenhaga que representa um quinto do produto interno bruto (PIB) da ilha. Contudo, embora a justiça, a política monetária, externa e de defesa dependam de Copenhaga, a capital gronelandesa, Nuuk, está mais próxima de Nova Iorque do que da Dinamarca.
Entretanto, Washington mantém uma base militar ativa no Nordeste da ilha, em Pituffik, um elo essencial do escudo antimíssil norte-americano. Efetivamente, durante a II Guerra Mundial, como referiu à Agência France Presse (AFP) a historiadora Astrid Andersen, “quando a Dinamarca estava ocupada pela Alemanha, os Estados Unidos [da América] apoderaram-se da Gronelândia e, de certa forma, nunca a deixaram”. Contudo, para colmatar a falta de vigilância aérea e submarina, a Leste, a Dinamarca investe em patrulhas árticas, em drones e em radares costeiros.
Situada entre o Atlântico Norte e o Ártico, próxima dos EUA, do Canadá e da Rússia, a Gronelândia ocupa uma posição geográfica estratégica, mas Donald Trump acusa Copenhaga de não garantir a segurança do território, face à Rússia e à China. A Dinamarca rejeita as críticas e recorda o investimento de cerca de 12 mil milhões de euros, para reforço da presença militar no Ártico. E, horas antes do referido encontro crucial das autoridades gronelandesas e dinamarquesas, em Washington com os responsáveis norte-americanos, o vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa dinamarquês, Troels Lund Poulsen, prometeu “reforçar a presença militar”, na ilha, e intensificar o diálogo com a NATO.
A Gronelândia tem entre 56 mil e 60 mil habitantes, dos quais mais de 19 600 residem em Nuuk, a capital, segundo dados do Conselho Nórdico, de que faz parte. A ilha integra a NATO, desde 1949, como parte da Dinamarca, mas saiu da UE, em 1985. Todavia, mantém um acordo de pescas especial e é reconhecida como um dos territórios com associação especial à UE.
O rei Frederico X da Dinamarca é o chefe de Estado da Gronelândia, que tem um estatuto de autonomia, com um parlamento (Inatsisartut, 31 deputados) e com um governo próprio, liderado pelo primeiro-ministro Jens-Frederik Nielsen, desde abril de 2025. Naquele território, o 21 de junho é o dia mais longo do ano e é o dia nacional.

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A presidente da Comissão Europeia manifestou o seu apoio à Gronelândia, afirmando que a ilha ártica que o presidente dos EUA prometeu confiscar “pertence ao seu povo”. “Para mim, é importante que os Gronelandeses saibam que respeitamos os desejos e os interesses dos Gronelandeses e que podem contar connosco”, afirmou Ursula von der Leyen, numa conferência de imprensa, em Bruxelas.
O vice-presidente dos EUA, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio, receberam os ministros dos Negócios Estrangeiros dinamarquês e gronelandês, na Casa Branca, no dia 14. Efetivamente, como o próprio revelou aos jornalistas, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen, e a sua homóloga da Gronelândia, Vivian Motzfeldt, solicitaram uma reunião com o presidente dos EUA, Donald Trump, depois de este ter intensificado as suas ameaças de anexar o território dinamarquês autónomo. “A razão pela qual solicitámos a reunião que, agora, nos foi concedida foi para levar toda esta discussão para uma sala de reuniões onde nos possamos olhar nos olhos e falar sobre estes assuntos”, afirmou Rasmussen, em Copenhaga, no dia 13.
As tensões entre os EUA, a Dinamarca e a Gronelândia aumentaram, neste mês, à medida que Donald Trump e a sua administração continuam a insistir na questão. O presidente dos EUA, que se recusou, repetidamente, a descartar o uso da força militar para tomar a ilha, disse, no dia 14, que o controlo da Gronelândia pelos EUA é “vital” para o seu sistema de defesa aérea e antimíssil Golden Dome. “Os Estados Unidos precisam da Gronelândia para efeitos de segurança nacional. É vital para o Golden Dome que estamos a construir”, escreveu Donald Trump, numa publicação nas redes sociais, insistindo: “A NATO torna-se muito mais formidável e eficaz com a Gronelândia nas mãos dos Estados Unidos. Qualquer coisa menos do que isso é inaceitável.”
O ministro da Defesa da Dinamarca prometeu “reforçar” a sua presença militar no território ártico e que estava em diálogo com os aliados da NATO. “Vamos continuar a reforçar a nossa presença militar na Gronelândia, mas também vamos ter uma maior atenção no seio da NATO, com mais exercícios e com uma maior presença da NATO no Ártico”, disse Troels Lund Poulsen, vincando que a Dinamarca “tem um diálogo contínuo com os seus aliados sobre novas e maiores atividades, em 2026”.
No dia 12, o presidente dos EUA troçou das forças de segurança da Gronelândia, dizendo: “Vocês sabem qual é a defesa deles, dois trenós puxados por cães”, enquanto afirmava que a Rússia e a China têm “destroyers e submarinos por todo o lado”. E a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, afirmou que o seu país enfrenta um “momento decisivo” na batalha diplomática com os EUA sobre a Gronelândia, avisando que, se Washington usar a força para se apoderar da ilha, isso assinalará o fim da NATO.
Entretanto, o primeiro-ministro da Gronelândia disse que, a ter de escolher, o território autónomo optaria por permanecer dinamarquês, em vez de se tornar parte dos EUA. “Estamos, agora, a enfrentar uma crise geopolítica e, se tivermos de escolher entre os Estados Unidos e a Dinamarca, aqui e agora, escolhemos a Dinamarca”, afirmou Jens-Frederik Nielsen, numa conferência de imprensa, em Copenhaga.
Estas declarações foram proferidas, um dia antes de importantes conversações sobre o território, em Washington.
No dia 9, o primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, e os outros líderes políticos da ilha emitiram declaração conjunta, a reiterar que o futuro da Gronelândia deve ser decidido pelo seu povo e frisando o “desejo de que o desprezo dos Estados Unidos pelo nosso país termine”.
A NATO e o governo da Gronelândia afirmaram, no dia 12, que tencionam trabalhar para reforçar a defesa do território semiautónomo: “A nossa segurança e defesa pertencem à NATO. Esta é uma linha fundamental e firme”, afirmou Nielsen, numa publicação nas redes sociais.
A ex-ministra dinamarquesa e ex-comissária europeia Margrethe Vestager disse à Euronews que uma intervenção dos EUA na Gronelândia representa “a maior ameaça existencial à NATO, na sua História. Entretanto, uma delegação bipartidária do Congresso norte-americano (pelo menos, nove membros), liderada pelo senador Chris Coons, deslocar-se-á a Copenhaga, nos dias 16 e 17, para mostrar unidade entre os EUA e a Dinamarca.
Chris Coons diz que a delegação pretende enviar uma mensagem de que “compreende o valor da parceria que tem, há muito tempo, com a Dinamarca e não pretende, de forma alguma, interferir nas suas discussões internas sobre o estatuto da Gronelândia”.
Colónia dinamarquesa até 1953, adquiriu o direito à autonomia, 26 anos depois (1979), reforçado em 2009, tem ponderado a possibilidade de se desvincular da Dinamarca, mas as sondagens indicam que a grande maioria dos Gronelandeses não quer pertencer aos EUA.

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A Dinamarca vai reforçar a presença militar na Gronelândia e insistir no reforço da NATO no Ártico, afirmou, a 14 de janeiro, o vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa dinamarquês.
As suas declarações, por escrito, foram divulgadas poucas horas antes do encontro na Casa Branca, sede da presidência dos EUA, em Washington, entre responsáveis gronelandeses, dinamarqueses e norte-americanos, sobre o futuro do território dinamarquês.
O presidente norte-americano quer tomar a Gronelândia, a bem ou a mal, por considerar esta ilha ártica fundamental para a defesa dos EUA. O primeiro-ministro da Gronelândia assegurou que o governo da ilha optaria pela Dinamarca, se tivesse de escolher entre o país europeu e os EUA. E a presidente da Comissão Europeia garantiu aos habitantes da Gronelândia que podem contar com a UE para respeitar os seus desejos e interesses.
Entretanto, no dia 14, um grupo de trinta eurodeputados, incluindo a portuguesa Catarina Martins, escreveu uma carta a pedir ao Parlamento Europeu (PE) o congelamento da aprovação do acordo comercial com os EUA, devido às ameaças sobre a Gronelândia.
A carta, divulgada nas redes sociais pelo eurodeputado dinamarquês Per Clausen, é dirigida à presidente do PE, Roberta Metsola, e aos líderes dos grupos políticos europeus, e foi subscrita por 30 eurodeputados, num total de 720. Do seu teor consta que os eurodeputados referem que o PE está prestes a concluir os trabalhos para aprovar (ou rejeitar) o acordo [comercial] fechado entre a presidente da Comissão Europeia e o presidente dos EUA, no verão passado, estando prevista a votação em plenário, em fevereiro.
Os 30 eurodeputados – de 13 estados-membros da UE, pertencentes aos grupos dos Socialistas e Democratas (S&D), Verdes Europeus e A Esquerda – sustentam que, se o PE aprovar o acordo (que Trump viu como vitória pessoal), numa altura em que reivindica a posse da Gronelândia e recusa a excluir qualquer forma de a concretizar, isso será visto como recompensa “a ele e às suas ações” e que “nem a Gronelândia, nem a Dinamarca, nem a UE sairiam beneficiadas”, caso seja ratificado o acordo com os EUA no atual contexto.
Nesse sentido, grupo propõe que o PE “congele, imediatamente, qualquer trâmite relativo ao acordo comercial com os EUA, enquanto forem feitas reivindicações ou ameaças sobre a Gronelândia” pela administração norte-americana, e que o mesmo PE comunique, de forma clara e serena, ao Conselho Europeu, à Comissão Europeia e aos EUA que a instituição não tenciona celebrar acordos com países que ameaçam a integridade territorial do bloco europeu.
Os 30 eurodeputados instam, ainda, o PE a “incentivar a Comissão a suspender quaisquer negociações adicionais” com os EUA, até deixarem de ser feitas ameaças contra a UE ou contra qualquer um dos seus Estados-membros”.
No verão passado, a UE e os EUA atingiram um acordo que estabelece a tarifa de base de 15% sobre a maioria das exportações europeias para os EUA, incluindo setores, como automóveis, semicondutores e produtos farmacêuticos, com esse valor a servir como teto claro para os direitos aduaneiros. Ao mesmo tempo, foi acordada a eliminação das tarifas para produtos estratégicos.

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A ilha ártica é importante para a segurança dos EUA e Donald Trump, como a UE, a Rússia e a China e outros países, pretendem explorar as riquezas gronelandesas e controlar o Ártico. Neste contexto, fazem-se declarações acertadas ou peregrinas, mas nem a Dinamarca, nem a NATO, nem a UE têm cuidado da defesa da Gronelândia, nem do devido controlo do Ártico. Só depois de Trump abanar o espantalho da ocupação, é que a Dinamarca, em concertação com a NATO, resolve ocupar militarmente a ilha. Que andaram a fazer a UE e a NATO? E é de questionar se a NATO, com o seu atual líder, optará pelos EUA, como deseja Trump, ou pela UE. Uma coisa é certa: território desocupado não está defendido e quem está mais perto tende a proceder à ocupação, a menos que os de longe tenham maior poder militar. É um alerta!

2026.01.14 – Louro de Carvalho


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