A
14 de janeiro, poucas horas antes de o vice-presidente dos Estados Unidos da
América (EUA), James David Vance, receber as autoridades dinamarquesas e gronelandesas,
o presidente dos EUA escreveu, na rede social Truth Social, que qualquer
coisa que não seja o controlo americano sobre aquele território “é inaceitável”.
“Os EUA precisam da Gronelândia, para fins de segurança nacional. A NATO [Organização
do Tratado do Atlântico Norte] devia liderar este processo para que consigamos
este objetivo. Se não conseguirmos, a Rússia ou a China vão fazê-lo, mas isso
não vai acontecer. A NATO torna-se muito mais formidável e eficaz com a
Gronelândia nas mãos dos Estados Unidos. Qualquer coisa menos que isso é
inaceitável”, escreveu.
Já
na semana anterior, Donald Trump já tinha afirmado que a Gronelândia iria ser
território norte-americano, pela forma mais fácil ou difícil, mas esta é uma
questão que se afigura bastante complicada, porque a Dinamarca já fez saber que
o território não está à venda.
Os
EUA, no caso de compra da Gronelândia à Dinamarca, de acordo com a televisão norte-americana
NBC, estão disponíveis para desembolsar até 700 mil milhões de euros. Ou
seja, segundo estes cálculos, esse montante excederia metade do orçamento anual
do Departamento de Defesa dos EUA. Porém, a NBC cita um alto funcionário
da Casa Branca que garante ter o secretário de Estado, Marco Rubio, recebido
instruções para, nas próximas semanas, apresentar uma proposta para a compra da
Gronelândia, sublinhando que este plano tem “alta prioridade” para Donald Trump.
Será
uma batalha complexa para a administração americana, visto que, à chegada a
Washington, no dia 13, Vivian Motzfeldt, ministra dos Negócios Estrangeiros da
Gronelândia, deixou clara a sua posição: “A Gronelândia não quer ser
propriedade dos Estados Unidos [da América], governada por eles ou fazer parte
deles. Escolhemos a Gronelândia que conhecemos, hoje, como parte do Reino da
Dinamarca.”
Território
autónomo da Dinamarca, a Gronelândia é a maior ilha do Mundo, com enorme
importância geoestratégica e com inúmeras riquezas naturais (a maior parte por
explorar) sob o gelo que cobre 85% da sua superfície a atrair o interesse dos EUA.
Geopoliticamente
europeia, pertencente ao continente americano e situada no Ártico, a ilha tem
área (2,1 milhões de quilómetros quadrados) superior ao somatório das áreas da França,
da Grã-Bretanha, da Espanha, da Itália e da Alemanha juntas, segundo o jornal
norte-americano The New York Times, de 14 de janeiro, que refere que, “se
Trump conseguisse conquistá-la, seria a maior aquisição territorial da história
dos EUA, incluindo o Alasca e a Califórnia”.
Desde
a entrada em vigor da nova lei da autonomia, de 2009, cabe aos Gronelandeses
decidir sobre o uso das matérias-primas da ilha, bem como declarar a independência,
se a pretenderem. O governo local, que tem na pesca a principal fonte de
rendimento, destaca as riquezas do subsolo, embora apenas duas minas estejam em
atividade e a produção seja limitada. Todavia, a crescente procura por metais e
por minerais, a corrida a recursos inexplorados levam a Gronelândia a poder
afirmar-se como um “eldorado”, apesar do ambiente polar inóspito e das
infraestruturas precárias. E o acesso a estes recursos é considerado crucial
pelos norte-americanos, que assinaram, em 2019, um memorando de cooperação no
setor.
Por
seu turno, Bruxelas identificou, na ilha, 25 dos 34 minerais da lista oficial da
União Europeia (UE) de matérias-primas essenciais, incluindo terras raras. E a
Amaroq, empresa de mineração e exploração que opera no Sul da Gronelândia,
explorando a mina de ouro do território, pretende desenvolver a extração de
terras raras, de zinco, de chumbo e de prata, além de elementos críticos como o
germânio e o gálio, podendo a produção arrancar em 2027 ou em 2028.
Economicamente,
a Gronelândia depende de uma subvenção de Copenhaga que representa um quinto do
produto interno bruto (PIB) da ilha. Contudo, embora a justiça, a política
monetária, externa e de defesa dependam de Copenhaga, a capital gronelandesa,
Nuuk, está mais próxima de Nova Iorque do que da Dinamarca.
Entretanto,
Washington mantém uma base militar ativa no Nordeste da ilha, em Pituffik, um
elo essencial do escudo antimíssil norte-americano. Efetivamente, durante a II
Guerra Mundial, como referiu à Agência France Presse (AFP) a
historiadora Astrid Andersen, “quando a Dinamarca estava ocupada pela Alemanha,
os Estados Unidos [da América] apoderaram-se da Gronelândia e, de certa forma,
nunca a deixaram”. Contudo, para colmatar a falta de vigilância aérea e
submarina, a Leste, a Dinamarca investe em patrulhas árticas, em drones e em radares
costeiros.
Situada
entre o Atlântico Norte e o Ártico, próxima dos EUA, do Canadá e da Rússia, a
Gronelândia ocupa uma posição geográfica estratégica, mas Donald Trump acusa
Copenhaga de não garantir a segurança do território, face à Rússia e à China. A
Dinamarca rejeita as críticas e recorda o investimento de cerca de 12 mil
milhões de euros, para reforço da presença militar no Ártico. E, horas antes do
referido encontro crucial das autoridades gronelandesas e dinamarquesas, em Washington
com os responsáveis norte-americanos, o vice-primeiro-ministro e ministro da
Defesa dinamarquês, Troels Lund Poulsen, prometeu “reforçar a presença militar”,
na ilha, e intensificar o diálogo com a NATO.
A
Gronelândia tem entre 56 mil e 60 mil habitantes, dos quais mais de 19 600
residem em Nuuk, a capital, segundo dados do Conselho Nórdico, de que faz
parte. A ilha integra a NATO, desde 1949, como parte da Dinamarca, mas saiu da
UE, em 1985. Todavia, mantém um acordo de pescas especial e é reconhecida como
um dos territórios com associação especial à UE.
O
rei Frederico X da Dinamarca é o chefe de Estado da Gronelândia, que tem um
estatuto de autonomia, com um parlamento (Inatsisartut, 31 deputados) e com um
governo próprio, liderado pelo primeiro-ministro Jens-Frederik Nielsen, desde
abril de 2025. Naquele território, o 21 de junho é o dia mais longo do ano e é
o dia nacional.
***
A
presidente da Comissão Europeia manifestou o seu apoio à Gronelândia, afirmando
que a ilha ártica que o presidente dos EUA prometeu confiscar “pertence ao seu
povo”. “Para mim, é importante que os Gronelandeses saibam que respeitamos os
desejos e os interesses dos Gronelandeses e que podem contar connosco”, afirmou
Ursula von der Leyen, numa conferência de imprensa, em Bruxelas.
O
vice-presidente dos EUA, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio,
receberam os ministros dos Negócios Estrangeiros dinamarquês e gronelandês, na
Casa Branca, no dia 14. Efetivamente, como o próprio revelou aos jornalistas, o
ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen, e a sua
homóloga da Gronelândia, Vivian Motzfeldt, solicitaram uma reunião com o
presidente dos EUA, Donald Trump, depois de este ter intensificado as suas
ameaças de anexar o território dinamarquês autónomo. “A razão pela qual
solicitámos a reunião que, agora, nos foi concedida foi para levar toda esta
discussão para uma sala de reuniões onde nos possamos olhar nos olhos e falar
sobre estes assuntos”, afirmou Rasmussen, em Copenhaga, no dia 13.
As
tensões entre os EUA, a Dinamarca e a Gronelândia aumentaram, neste mês, à
medida que Donald Trump e a sua administração continuam a insistir na questão. O
presidente dos EUA, que se recusou, repetidamente, a descartar o uso da força
militar para tomar a ilha, disse, no dia 14, que o controlo da Gronelândia
pelos EUA é “vital” para o seu sistema de defesa aérea e antimíssil Golden
Dome. “Os Estados Unidos precisam da Gronelândia para efeitos de segurança
nacional. É vital para o Golden Dome que estamos a construir”, escreveu Donald Trump,
numa publicação nas redes sociais, insistindo: “A NATO torna-se muito mais
formidável e eficaz com a Gronelândia nas mãos dos Estados Unidos. Qualquer
coisa menos do que isso é inaceitável.”
O
ministro da Defesa da Dinamarca prometeu “reforçar” a sua presença militar no
território ártico e que estava em diálogo com os aliados da NATO. “Vamos
continuar a reforçar a nossa presença militar na Gronelândia, mas também vamos
ter uma maior atenção no seio da NATO, com mais exercícios e com uma maior
presença da NATO no Ártico”, disse Troels Lund Poulsen, vincando que a
Dinamarca “tem um diálogo contínuo com os seus aliados sobre novas e maiores atividades,
em 2026”.
No
dia 12, o presidente dos EUA troçou das forças de segurança da Gronelândia,
dizendo: “Vocês sabem qual é a defesa deles, dois trenós puxados por cães”,
enquanto afirmava que a Rússia e a China têm “destroyers e submarinos por todo
o lado”. E a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, afirmou que o
seu país enfrenta um “momento decisivo” na batalha diplomática com os EUA sobre
a Gronelândia, avisando que, se Washington usar a força para se apoderar da
ilha, isso assinalará o fim da NATO.
Entretanto,
o primeiro-ministro da Gronelândia disse que, a ter de escolher, o território
autónomo optaria por permanecer dinamarquês, em vez de se tornar parte dos EUA.
“Estamos, agora, a enfrentar uma crise geopolítica e, se tivermos de escolher
entre os Estados Unidos e a Dinamarca, aqui e agora, escolhemos a Dinamarca”,
afirmou Jens-Frederik Nielsen, numa conferência de imprensa, em Copenhaga.
Estas
declarações foram proferidas, um dia antes de importantes conversações sobre o
território, em Washington.
No
dia 9, o primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, e os outros
líderes políticos da ilha emitiram declaração conjunta, a reiterar que o futuro
da Gronelândia deve ser decidido pelo seu povo e frisando o “desejo de que o
desprezo dos Estados Unidos pelo nosso país termine”.
A
NATO e o governo da Gronelândia afirmaram, no dia 12, que tencionam
trabalhar para reforçar a defesa do território semiautónomo: “A nossa segurança
e defesa pertencem à NATO. Esta é uma linha fundamental e firme”, afirmou
Nielsen, numa publicação nas redes sociais.
A
ex-ministra dinamarquesa e ex-comissária europeia Margrethe Vestager disse
à Euronews que uma intervenção dos EUA na Gronelândia representa “a
maior ameaça existencial à NATO, na sua História. Entretanto, uma delegação
bipartidária do Congresso norte-americano (pelo menos, nove membros), liderada
pelo senador Chris Coons, deslocar-se-á a Copenhaga, nos dias 16 e 17, para
mostrar unidade entre os EUA e a Dinamarca.
Chris
Coons diz que a delegação pretende enviar uma mensagem de que “compreende o
valor da parceria que tem, há muito tempo, com a Dinamarca e não pretende, de
forma alguma, interferir nas suas discussões internas sobre o estatuto da
Gronelândia”.
Colónia
dinamarquesa até 1953, adquiriu o direito à autonomia, 26 anos depois (1979),
reforçado em 2009, tem ponderado a possibilidade de se desvincular da Dinamarca,
mas as sondagens indicam que a grande maioria dos Gronelandeses não quer
pertencer aos EUA.
***
A
Dinamarca vai reforçar a presença militar na Gronelândia e insistir no reforço
da NATO no Ártico, afirmou, a 14 de janeiro, o vice-primeiro-ministro e
ministro da Defesa dinamarquês.
As
suas declarações, por escrito, foram divulgadas poucas horas antes do encontro
na Casa Branca, sede da presidência dos EUA, em Washington, entre responsáveis
gronelandeses, dinamarqueses e norte-americanos, sobre o futuro do território dinamarquês.
O
presidente norte-americano quer tomar a Gronelândia, a bem ou a mal, por
considerar esta ilha ártica fundamental para a defesa dos EUA. O
primeiro-ministro da Gronelândia assegurou que o governo da ilha optaria pela
Dinamarca, se tivesse de escolher entre o país europeu e os EUA. E a presidente
da Comissão Europeia garantiu aos habitantes da Gronelândia que podem contar
com a UE para respeitar os seus desejos e interesses.
Entretanto,
no dia 14, um grupo de trinta eurodeputados, incluindo a portuguesa Catarina
Martins, escreveu uma carta a pedir ao Parlamento Europeu (PE) o congelamento da
aprovação do acordo comercial com os EUA, devido às ameaças sobre a
Gronelândia.
A
carta, divulgada nas redes sociais pelo eurodeputado dinamarquês Per Clausen, é
dirigida à presidente do PE, Roberta Metsola, e aos líderes dos grupos
políticos europeus, e foi subscrita por 30 eurodeputados, num total de 720. Do seu
teor consta que os eurodeputados referem que o PE está prestes a concluir os
trabalhos para aprovar (ou rejeitar) o acordo [comercial] fechado entre a
presidente da Comissão Europeia e o presidente dos EUA, no verão passado,
estando prevista a votação em plenário, em fevereiro.
Os
30 eurodeputados – de 13 estados-membros da UE, pertencentes aos grupos dos
Socialistas e Democratas (S&D), Verdes Europeus e A Esquerda – sustentam que,
se o PE aprovar o acordo (que Trump viu como vitória pessoal), numa altura em
que reivindica a posse da Gronelândia e recusa a excluir qualquer forma de a
concretizar, isso será visto como recompensa “a ele e às suas ações” e que “nem
a Gronelândia, nem a Dinamarca, nem a UE sairiam beneficiadas”, caso seja
ratificado o acordo com os EUA no atual contexto.
Nesse
sentido, grupo propõe que o PE “congele, imediatamente, qualquer trâmite
relativo ao acordo comercial com os EUA, enquanto forem feitas reivindicações
ou ameaças sobre a Gronelândia” pela administração norte-americana, e que o mesmo
PE comunique, de forma clara e serena, ao Conselho Europeu, à Comissão
Europeia e aos EUA que a instituição não tenciona celebrar acordos com países
que ameaçam a integridade territorial do bloco europeu.
Os
30 eurodeputados instam, ainda, o PE a “incentivar a Comissão a suspender
quaisquer negociações adicionais” com os EUA, até deixarem de ser feitas
ameaças contra a UE ou contra qualquer um dos seus Estados-membros”.
No
verão passado, a UE e os EUA atingiram um acordo que estabelece a tarifa de
base de 15% sobre a maioria das exportações europeias para os EUA, incluindo
setores, como automóveis, semicondutores e produtos farmacêuticos, com esse
valor a servir como teto claro para os direitos aduaneiros. Ao mesmo tempo, foi
acordada a eliminação das tarifas para produtos estratégicos.
***
A
ilha ártica é importante para a segurança dos EUA e Donald Trump, como a UE, a
Rússia e a China e outros países, pretendem explorar as riquezas gronelandesas
e controlar o Ártico. Neste contexto, fazem-se declarações acertadas ou
peregrinas, mas nem a Dinamarca, nem a NATO, nem a UE têm cuidado da defesa da Gronelândia,
nem do devido controlo do Ártico. Só depois de Trump abanar o espantalho da ocupação,
é que a Dinamarca, em concertação com a NATO, resolve ocupar militarmente a
ilha. Que andaram a fazer a UE e a NATO? E é de questionar se a NATO, com o seu
atual líder, optará pelos EUA, como deseja Trump, ou pela UE. Uma coisa é
certa: território desocupado não está defendido e quem está mais perto tende a proceder
à ocupação, a menos que os de longe tenham maior poder militar. É um alerta!
2026.01.14
– Louro de Carvalho
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