sábado, 10 de janeiro de 2026

A ambição histórica dos EUA pela Gronelândia tem mais de 150 anos

 

Na sequência de intenções enunciadas em 2025, o presidente dos Estados Unidos da América (EUA) iniciou 2026 a admitir, publicamente, a possibilidade de adquirir o território autónomo (há quem diga “semiautónomo”) pertencente ao Reino da Dinamarca, por razões de “segurança nacional”, no quadro da Estratégia de Segurança Nacional (ENS) dos EUA, publicada em dezembro de 2025. Porém, a insistência do inquilino da Casa Branca, em relação à Gronelândia, não é só capricho pessoal: tem razões históricas e objetivos estratégicos.

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A 9 de janeiro, Donald Trump afirmou que os EUA vão “fazer alguma coisa, em relação à Gronelândia, quer eles [os Europeus] gostem ou não”, e reiterou a ameaça de tomar, pela força, se necessário, a região autónoma da Dinamarca. Nesse sentido, justificou: “Porque, se não o fizermos, a Rússia ou a China apoderar-se-ão da Gronelândia. E nós não vamos ter a Rússia ou a China como vizinhos.”
Tais comentários foram proferidos, na Casa Branca, em reunião acompanhada pelo vice-presidente, James David Vance, pelo secretário de Estado, Marco Rubio, e por executivos do setor petrolífero, tendo o presidente afirmado que é um “grande fã” da Dinamarca e que gostaria de fazer um acordo. “Gostaria de chegar a um acordo, sabem, da forma mais fácil, mas, se não o fizermos da forma mais fácil, vamos fazê-lo da forma mais difícil”, explicitou.
Na verdade, a Gronelândia, ilha estrategicamente localizada e rica em minerais, é uma região autónoma da Dinamarca, aliada da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). Donald Trump menciona os interesses de segurança nacional, para justificar as suas intenções, em relação à ilha. Os ataques dos EUA à Venezuela e a captura do presidente, Nicolás Maduro, alimentaram preocupações crescentes sobre o que os EUA estão a planear para a Gronelândia. E enviados da Dinamarca e da Gronelândia reuniram-se, no dia 8, com funcionários dos EUA, em Washington, e deverão reencontrar-se, em breve, para discutirem nova tentativa da Casa Branca, que pondera várias opções para se apoderar da ilha, incluindo o uso da força.
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, frisou que os EUA “não têm o direito de anexar nenhuma das três nações do Reino da Dinamarca” e advertiu que uma tomada de posse norte-americana marcaria o fim da NATO. “Se os Estados Unidos decidirem atacar outro país da NATO, então tudo acabará, incluindo a NATO e a segurança que a aliança tem proporcionado, desde a Segunda Guerra Mundial”, declarou Mette Frederiksen.
Efetivamente, o artigo 5.º da NATO consagra o princípio da defesa coletiva, estabelecendo que um ataque armado contra um membro é um ataque contra todos, obrigando os outros a assistirem o país atacado, incluindo o uso da força armada, para restaurar a segurança. Todavia, nada se estipulou para o caso de ataque provindo de um estado-membro da aliança contra outro. Aliás, a experiência mostra como a própria Organização das Nações Unidas (ONU), que tem por missão recuperar a paz e fornecer ajuda humanitária, em conflito armado, tem tanta dificuldade em cumprir tais desideratos que se diz que a ONU não funciona.

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A Deutsche Welle, empresa pública de radiodifusão da Alemanha, com sedes em Bona e em Berlim, sustenta que o interesse dos EUA pela Gronelândia remonta ao século XIX e que a posição estratégica e os minerais da região instaram Washington a tentar comprar ou anexar o território, desde 1867, quando um relatório do Departamento de Estado, na presidência de Andrew Johnson, classificava ilha como uma “aquisição ideal”, pela sua localização estratégica e riqueza natural. Agora, Donald Trump justifica o interesse com a segurança nacional.
Após consolidar a captura de Nicolás Maduro e indicar que a pressão militar norte-americana no hemisfério ocidental não está encerrada, o líder dos EUA retomou a atenção à Gronelândia, mas a retórica da anexação do território autónomo remonta a interesse norte-americano disparado há mais de século e meio. A privilegiada posição da Gronelândia no Atlântico Norte levou os EUA a pensarem comprar ou a anexar o território, para consolidar o poder no hemisfério, no pós-guerra civil, ou para impedir o avanço russo na Guerra Fria.
Já em 1867 – ano em que os EUA compraram o Alasca da Rússia czarista por 7,2 milhões de dólares –, os políticos quiseram anexar a Gronelândia e a Islândia. O país norte-americano, saído da guerra civil, em 1866, acalentava o espírito expansionista e a consolidação das rotas marítimas estratégicas. E, a 1 de julho de 1868, quando ganhava fôlego a Doutrina Monroe e o desejo de libertar o continente da influência europeia, jornais americanos noticiaram que o secretário de Estado, William Henry Seward, estaria prestes a concluir a compra da Gronelândia por 5,5 milhões de dólares em ouro, pois o governo entendia que a ilha aumentaria a influência naval dos EUA, face ao crescente interesse europeu na região.
Um relatório encomendado por Seward, que também defendia a anexação do Canadá, mencionava a grande quantidade de vida animal e de minerais na Gronelândia, nomeadamente, a criolita, um mineral usado na indústria do alumínio. Todavia, a proposta da Casa Branca foi rejeitada no Congresso, por julgar imprópria a compra de terras, designadamente, um território tomado por gelo. Assim, o acordo não se concretizou, mas a ideia permaneceu.
Quase no início da II Guerra Mundial, em 1941, quando a Alemanha nazi ocupou a Dinamarca, os EUA, avançando sobre a Gronelândia para garantia da defesa do território, instalaram bases e sistemas militares que perduram hoje. E documentos desclassificados, desde a década de 1970, revelam que, em 1946, ao fim da guerra, o presidente dos EUA, Harry Truman, tentou comprar a Gronelândia por 100 milhões de dólares, pagos em ouro, avançando com a ideia da troca de terras ricas em petróleo, no Alasca, por partes estratégicas do território dinamarquês. A proposta não vingou, e a Dinamarca retomou a administração do território.
Contudo, após tentativas dinamarquesas de persuadir os EUA a deixarem a Gronelândia, de forma permanente, os dois países tornaram-se, em 1949, membros fundadores da NATO e, em 1951, assinaram o tratado bilateral de defesa, pelo qual Washington manteria as suas bases e se comprometeria a defender a Gronelândia de qualquer ameaça. Ao mesmo tempo, ficou autorizada pelo embaixador dinamarquês em Washington, Henrik Kauffman, a construção da Base Aérea de Thule, hoje, Base Espacial de Pituffik, que serve a vigilância espacial e é um pilar central do sistema norte-americano de alerta precoce para lançamentos de mísseis.
Em 1955, na Guerra Fria, assessores de segurança tentaram convencer o presidente dos EUA, Dwight David Eisenhower, a comprar a ilha, por oferecer posição fundamental para construir um sistema de vigilância e para monitorar movimentos da União Soviética. “À luz da ameaça soviético-comunista à segurança do Mundo Livre e nesta era de distâncias cada vez menores e de potenciais atómicos, a Gronelândia assumiu, progressivamente, importância estratégica cada vez maior para os Estados Unidos”, referia a Casa Branca, segundo a qual, pela primeira vez, os EUA deviam estar preparados para se defenderem de ataque surpresa de proporções devastadoras e para retaliarem, de forma rápida e eficaz, com todos os meios disponíveis.
Porém, com o tratado de defesa de 1951, a Dinamarca já tinha concedido aos EUA margem de atuação tão ampla que o governo considerou demasiado arriscado, do ponto de vista diplomático, avançar com a iniciativa. Além disso, havia o temor de a ação alimentar narrativas soviéticas contrárias ao imperialismo americano. De facto, o acordo dava amplos poderes a Washington para manter a atuação militar na Gronelândia, ante a baixa capacidade dinamarquesa de defender o território. Porém, a ideia ficou a marinar e passou a ser discutida, sobretudo, nos bastidores, e monitorada, no Pentágono. Em 2008, a exploração comercial das reservas minerais da ilha aguçou o interesse da Rússia e do Canadá. E Donald Trump, já no seu primeiro mandato presidencial (2018-2021), trouxe, novamente, à ribalta, a questão da anexação. Assim, em agosto de 2019, foi cancelada, à última hora, por Donald Trump, a visita de Estado à Dinamarca, após a primeira-ministra da Dinamarca ter classificado de absurda a ideia de vender a Gronelândia.
O presidente republicano retomou a questão, mais incisivamente, no segundo mandato, vincando o interesse pela anexação forçada do território. No seu discurso após a ação militar de captura de Nicolás Maduro, disse que Washington precisa da Gronelândia em razão da “segurança nacional”. Porém, a ideia foi, de novo, repelida por vários líderes europeus. “Deixei muito claro qual é a posição do Reino da Dinamarca, e a Gronelândia afirmou, repetidamente, que não deseja se tornar parte dos Estados Unidos da América, disse Mette Frederiksen, no dia 5, temendo ser preciso levar o presidente dos EUA a sério, quando diz que quer a Gronelândia.

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A Gronelândia, então habitada pelos povos Inuit, foi colonizada, primeiro, pelos Europeus, em 1721, quando a então Dinamarca-Noruega enviou a primeira expedição missionária, mas o período colonial terminou em 1953, passando a Gronelândia a integrar o Reino da Dinamarca, com representação no Parlamento dinamarquês. Em 1979, Copenhaga deu-lhe a capacidade de autogestão, uma lei de 2009 fortaleceu a autonomia e o Self‑Government Act ampliou os poderes do governo gronelandês e o seu controlo dos recursos naturais.
A soberania da Dinamarca sobre a Gronelândia é reconhecida internacionalmente, inclusive pelo Tribunal Internacional Permanente de Justiça, principal órgão judicial da ONU, de 1933. Porém, apesar de depender, economicamente, da Dinamarca, a Gronelândia tem, segundo os princípios do direito internacional da ONU, o direito à autodeterminação. E a lei de autonomia de 2009 inclui o direito dos gronelandeses de decidirem, em referendo, sobre a sua independência. Contudo, as discussão a esse respeito ganhou maior intensidade, nos últimos anos.
Hoje, a Gronelândia pertence à Dinamarca, politicamente, mas apenas a sua política externa e de segurança é definida em Copenhaga. Assim, face às declarações dos EUA, o primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, reafirmou que o respeito à soberania e à integridade territorial dos Estados é “inegociável”.
Ocupando cerca de metade do tamanho somado dos países da União Europeia (UE), a Gronelândia é a maior ilha do Mundo. Porém, nos pouco mais de dois milhões de quilómetros quadrados vivem, apenas cerca de 60 mil pessoas. A maioria pertence aos Inuit Kalaallit e vive em pequenas cidades costeiras. Cerca de um terço habita a capital, Nuuk.
A ilha estende-se do Atlântico Norte até ao gelo eterno do Ártico, de modo que 85% da superfície da Gronelândia é coberta por gelo. Só as regiões costeiras – porém, uma área um pouco maior do que a Alemanha – ficam livres de gelo, no verão. Todavia, o aquecimento global faz com que as massas de gelo, em todo o Oceano Ártico, encolham, gradualmente, o que torna o interior da Gronelândia mais acessível, abrindo novas rotas marítimas pelo Ártico e viabilizando a exploração de matérias-primas críticas. Entre elas, estão o urânio, o petróleo e o gás natural, além das duas maiores jazidas de terras raras do Mundo. Somam-se a isso o níquel, a platina, o cobre, o ouro, a grafite, o ferro, o alumínio, o urânio e tungsténio. A extração destes materiais foi interrompida pelo governo gronelandês, por motivos ambientais.
A baixa densidade demográfica contrasta com o seu enorme valor estratégico e económico. Estima-se a existência de cerca de 18 mil milhões de barris de petróleo por descobrir, além de importantes reservas de gás natural.
Segundo Donald Trump, que rejeita que o seu interesse esteja nos minerais da região, a ilha é um posto avançado estratégico no espaço ártico, especialmente, ante as atividades crescentes da Rússia e da China na região, o que exige limitar o acesso de outras grandes potências aos recursos do Ártico e ao controlo sobre novas rotas marítimas. E, caso a compra não seja viável, garante que a sua administração tem “diversas opções” para assumir o controlo da ilha, incluindo “o uso das Forças Armadas”. Porém, a resposta do governo da Gronelândia foi imediata: “A Gronelândia é nossa. Não estamos à venda nem nunca estaremos”, afirmou o primeiro-ministro da região autónoma, Múte Egede, rejeitando, categórica qualquer negociação nesse sentido e pedindo contenção face à escalada retórica de Washington.
Um dos principais fatores por detrás da atenção dos EUA são as terras raras, minerais essenciais para a indústria tecnológica e militar, utilizados em telemóveis, sistemas de armamento e bombas. A Gronelândia é considerada um dos maiores depósitos mundiais destes recursos. Segundo o Serviço Geológico da Dinamarca e da Gronelândia (GEUS), cerca de 25% das terras raras do Mundo localizam-se neste território. Atualmente, a China é um dos maiores fornecedores globais destes minerais, sendo o principal rival geopolítico dos EUA, no século XXI.
Geograficamente, a Gronelândia ocupa a rota mais curta entre a América do Norte e a Europa, com papel crucial na vigilância e na defesa antimíssil dos EUA. Ali se localiza a base espacial de Pituffik, o posto militar mais setentrional do Exército norte-americano, crucial para o sistema global de radar. A partir deste enclave, os EUA podem detetar e neutralizar eventuais mísseis provenientes da Rússia, da China ou da Coreia do Norte, além de permitir uma projeção militar mais rápida para a Europa ou a Ásia, se necessário. E, segundo o Instituto Espanhol de Estudos Estratégicos (IEEE), a Gronelândia integra o GIUK Gap, região que liga a Gronelândia, a Islândia e o Reino Unido, disputada pela Rússia ou pela antiga União Soviética. É uma zona de vital importância para a NATO e para Moscovo, pelo que a aceleração das alterações climáticas levará à intensificação das ações de todas estas grandes potências.
Os rivais estratégicos dos EUA têm interesses crescentes no Ártico. A China tem investido fortemente na região, adquirindo e encomendando rompe-gelos e promovendo a rota da seda polar, para criar vias comerciais marítimas, à medida que o gelo derrete. Pequim, na última década, duplicou ali os investimentos e tentou financiar infraestruturas, como aeroportos, estradas e sistemas de abastecimento de água, em troca de acesso a matérias-primas. Em 2018, os EUA bloquearam o financiamento chinês de três aeroportos na ilha. E a Rússia planeia investimentos de grande escala, para desenvolver cidades na costa siberiana, reforçando a sua presença no Ártico. E, porque grande parte da região não pertence, formalmente, a nenhum país, os analistas admitem a possibilidade de futuros confrontos entre superpotências.
Internamente, a Gronelândia oscila entre a autonomia e a dependência económica de Copenhaga, que lhe assegura parte significativa do orçamento, através de subsídios anuais. Os gronelandeses nunca votaram a independência, e especialistas consideram improvável que o façam, se isso implicar redução do nível de vida ou substituição por “novo amo colonial”.
A pretensão trumpiana levanta obstáculos jurídicos e políticos. O direito internacional não prevê compra de territórios entre Estados soberanos, e esse processo exigiria negociações e aprovações nos EUA, na Dinamarca, na Gronelândia e na UE. Além disso, a avaliação económica da ilha é complexa. O seu produto interno bruto (PIB) ultrapassa os 3200 milhões de dólares, valor a combinar com o seu potencial mineiro, energético e estratégico, tornando inviável qualquer estimativa. Porém, Trump defende investimentos em infraestruturas e desenvolvimento económico, em contrapartida aos recursos naturais, sugerindo apoiar a eventual independência da Gronelândia como passo intermédio para futura integração ou associação aos EUA – via que os especialistas julgam longa, incerta e explosiva.

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Enfim, a Gronelândia é crucial, do ponto de vista científico, estratégico, económico e climático.
A solução não é a independência (o número de habitantes é exíguo, face à dimensão territorial), nem a compra, nem a ocupação militar (não é aceitável a mudança de colonizador). A solução está na cooperação negociada. O Ocidente não pode rescindir da sua presença no Ártico, nem impedir a presença de outras potências. O Ártico tem donos, mas os seus recursos são mundiais, pelo que devem servir a todos.

2026.01.10 – Louro de Carvalho


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