Na
sequência do tratados internacionais assinados a 12 de junho, em Lisboa e em
Madrid, respetivamente, para o nosso país e para a Espanha, os dois países passaram
a integrar a então Comunidade Económica Europeia (CEE), a 1 de janeiro de 1986,
a qual passou a denominar-se União Europeia (UE) com a sua transformação em comunidade
política, através do Tratado de Maastricht, em 1992.
Nas comemorações do 40.º aniversário da assinatura do Tratado de Adesão, a 12 de junho de 2025, o primeiro-ministro (PM) de Portugal, Luís Montenegro, e o Presidente da República (PR), Marcelo Rebelo de Sousa, assinaram a Declaração de Lisboa, que “reafirma o firme empenho de Portugal em defender, valorizar e reforçar o projeto europeu, com o objetivo de contribuir para uma União Europeia mais segura, justa, inovadora e próspera, promovendo o progresso social, o crescimento económico, a convergência e a coesão, em benefício de todos os cidadãos”.
Nas comemorações do 40.º aniversário da assinatura do Tratado de Adesão, a 12 de junho de 2025, o primeiro-ministro (PM) de Portugal, Luís Montenegro, e o Presidente da República (PR), Marcelo Rebelo de Sousa, assinaram a Declaração de Lisboa, que “reafirma o firme empenho de Portugal em defender, valorizar e reforçar o projeto europeu, com o objetivo de contribuir para uma União Europeia mais segura, justa, inovadora e próspera, promovendo o progresso social, o crescimento económico, a convergência e a coesão, em benefício de todos os cidadãos”.
***
De
acordo com a Representação da Comissão Europeia em Portugal, passadas quatro décadas,
os números e as narrativas de vida de milhões de portugueses testemunham profunda
transformação: o país consolidou a democracia, modernizou a economia e
abraçou os valores europeus da liberdade, da igualdade e da dignidade
humana.
A adesão de Portugal à então CEE, marcou o início de nova era para Portugal. Como disse o escritor português Eduardo Lourenço, “nem na Europa nem fora dela éramos um povo que contava”.
A adesão de Portugal à então CEE, marcou o início de nova era para Portugal. Como disse o escritor português Eduardo Lourenço, “nem na Europa nem fora dela éramos um povo que contava”.
Saído
da ditadura, havia quase 12 anos, o país dava os primeiros passos para o
fortalecimento de um sistema democrático e pluralista, assente numa economia
social de mercado. E a adesão à CEE ajudou a consolidar o processo e
contribuiu, decisivamente, para a criação de uma sociedade aberta e
inclusiva, assente no Estado de direito e com liberdade de escolha para os
cidadãos.
Atualmente, 91%
dos portugueses concordam que o país beneficiou da adesão à UE, um
testemunho claro do impacto positivo desta parceria de quatro décadas.
A
presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, assinalou a
efeméride, sublinhando: “Há 40 anos, a nossa família europeia reuniu-se,
novamente. Portugal regressou ao seu lugar de direito, no coração da
família europeia. Nestes 40 anos, tornámo-nos muito mais fortes, juntos. Este
belo país, o jardim plantado à beira-mar, foi transformado do Minho ao Algarve.
Hoje, as pessoas vivem mais tempo e ganham mais. O vosso destino, está
aqui, no coração da Europa.”
Para
assinalar esta data, a Representação da Comissão Europeia em Portugal junta-se
a parceiros, como o Gabinete do Parlamento Europeu em Portugal e
o Comissariado para as Comemorações dos 40 Anos da Adesão de Portugal à
Comunidade Económica Europeia, entre outros, para eventos e para iniciativas de
sensibilização, ao longo de 2026.
Para
Sofia Moreira de Sousa, representante da Comissão Europeia em Portugal, nestas
quatro décadas, o país percorreu uma trajetória extraordinária de crescimento,
de modernização e de “reforço dos valores que nos unem: a liberdade,
a democracia, a igualdade e a dignidade humana”. Criou “oportunidades que
transformaram gerações de portugueses, dando-lhes liberdade para escolherem
o seu destino”. O investimento europeu nas regiões portuguesas “traduziu-se em
melhores infraestruturas, em melhores serviços de saúde e de educação e numa
economia mais dinâmica e competitiva”. Porém, tendo beneficiado da adesão à
CEE/UE, Portugal “também enriqueceu, profundamente, a União com a sua
cultura, [com] a sua solidariedade na linha da frente da proteção civil, [com] a
sua liderança na transição energética e na proteção dos oceanos, e [com] os
seus laços fortes, culturais e económicos com África e a América do Sul”.
É,
pois, “um exemplo real de que somos mais fortes juntos, de que os valores
europeus nos tornam melhores e de que o futuro se constrói sobre fundações
sólidas de cooperação, [de] respeito mútuo e [de] uma visão partilhada de
um continente mais justo, mais sustentável e mais humano”.
Desde
1986, a esperança média de vida dos portugueses aumentou de 72,9 para
81,2 anos, graças à melhoria das condições de vida, em especial, pelo reforço
da saúde e da segurança social; o abandono escolar baixou drasticamente,
de 50%, em 1990, para os atuais 6,6%; e o número de estudantes no ensino
superior quase triplicou; e mais de 100 mil estudantes portugueses participaram
em mobilidades académicas no estrangeiro, através do Erasmus+, beneficiando de
experiências únicas de aprendizagem e intercâmbio cultural.
Ajustado
à inflação, o produto interno bruto (PIB) per capita em Portugal
duplicou. O emprego cresceu de quatro milhões de postos de trabalho, em
1986, para 4,8 milhões, em 2024, fruto do crescimento económico. As exportações portuguesas
para França ou para a Alemanha multiplicaram por 12, e as exportações da Grécia
para Portugal quadruplicaram. Os acordos de comércio da UE
contribuíram para o aumento do peso das exportações de Portugal para fora da
UE, de 7,3% do PIB, em 1986, para 7,6% do PIB, em 2024. Cerca de 200 mil agricultores
recebem apoio vital, através da política agrícola da UE, em todos os
anos. Mais de 95 mil milhões de euros de fundos europeus foram
investidos nas regiões portuguesas, impulsionando a modernização de
infraestruturas, de serviços e de setores económicos. Sete mil projetos
de investigação científica foram apoiados com quase três mil milhões de
euros, fortalecendo a capacidade de inovação do país. Portugal respondeu a 27
emergências através do Mecanismo Europeu de Proteção Civil e recorreu
ao mesmo mecanismo, para combate a fogos florestais, demonstrando a
solidariedade europeia, em momentos críticos.
Também
Marcelo Rebelo de Sousa, assinalou a efeméride, frisando que percorremos “o
caminho da consolidação democrática, beneficiando das enormes vantagens da
pertença à União Europeia”, como a modernização económica, o desenvolvimento, a
estabilidade e o reforço da mobilidade dos cidadãos, pelo que, na ótica presidencial,
a integração europeia foi “uma das grandes conquistas do 25 de Abril”. Por outro
lado, o PR encareceu o importante contributo do país à UE, “trazendo uma
perspetiva única de abertura e [de] conexão com diferentes geografias, promoção
das políticas de coesão e defesa do mercado único”, pelo que é plausível assegurar
que “Portugal e os portugueses mantêm um compromisso inabalável para com a
União Europeia”. Na verdade, como enfatizou o chefe de Estado, “juntos, temos
mais força para fazer face aos enormes desafios que enfrentamos, a bem do
bem-estar e do futuro de todos nós”.
Olhando
o Mundo, percebe-se “a importância de seguirmos juntos”, com os parceiros da UE,
“para preservar e fortalecer o nosso espaço de democracia, liberdade,
solidariedade e dignidade humana, que construímos ao longo da nossa História
comum e que urge defender”.
***
Até
agora, tudo foram rosas. Talvez seja oportuno analisar, de outra forma, o processo.
Jesus Maturana e Rita Afonso, em artigo publicado, a 1 de janeiro, pela Euronews, intitulado “Quatro décadas na União Europeia: o percurso de Espanha e Portugal desde 1986”, fazem um apontamento menos romântico, o qual não desmente o essencial do que foi referido.
Jesus Maturana e Rita Afonso, em artigo publicado, a 1 de janeiro, pela Euronews, intitulado “Quatro décadas na União Europeia: o percurso de Espanha e Portugal desde 1986”, fazem um apontamento menos romântico, o qual não desmente o essencial do que foi referido.
Na
verdade, apontam que o “PIB espanhol sextuplicou, o desemprego baixou de 21%
para 11% e ambos os países receberam mais de 185 mil milhões de euros em fundos
europeus”.
Contudo,
sustentam que, aquando da sua adesão à CEE, não se imaginava aonde chegariam os
dois países ibéricos. Tinham saído de décadas de ditadura. Em Espanha, Franco
tinha morrido, 11 anos antes. E, em Portugal, a Revolução dos Cravos “mal
tinha começado a cicatrizar”.
O
PIB espanhol era de 226 mil milhões de euros, a taxa de desemprego (que “rondava
os 21%”) atingia mais de dois milhões de pessoas, a inflação tinha
atingido os 20%, nos anos anteriores, e o país ainda pagava as consequências da
crise petrolífera de 1973 e de uma transição política que tinha consumido
grande parte da energia do país.
Em
Portugal, após quase meio século de regime salazarista-caetanista, a economia era
uma das mais atrasadas da Europa Ocidental. Apenas tinha convergido para
60% da média do PIB europeu. A perda do império colonial deixara o país “sem
mercados protegidos e sem as fontes de acumulação de capital que tinham
sustentado a sua burguesia mercantil, durante gerações”. E, acresce, do meu
ponto de vista, a obrigação que o país teve de reintegrar mais de meio milhão
de retornados das ex-colónias, a situação económica se ressentiu das
vicissitudes da revolução e da crise do petróleo, o que implicou duas “ajudas”
do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Os
dois países tinham em comum o estarem de costas voltadas um para o outro, durante
décadas; as duas ditaduras “apoiavam-se, mutuamente, nos fóruns internacionais”,
mas “a ignorância e a desconfiança definiam a relação bilateral”; e a Europa
era “a única saída possível”.
Passados
40 anos, as perspetivas não são parecidas. A Espanha encerrará 2025 com um
PIB próximo dos 1,5 mil milhões de euros, ou seja, sextuplicou a sua economia,
que deixou de ser uma economia em desenvolvimento para se tornar a quarta maior
economia da UE. E o desemprego, embora continue a ser problema, desceu para
11%.
Foi
decisivo papel o papel dos fundos europeus. A Espanha recebeu mais de 185
mil milhões de euros, desde 1986, dinheiro que “foi utilizado para
construir autoestradas, [para] modernizar o espaço rural, [para] financiar
programas de emprego e [para] apoiar a inovação”, sem o que a convergência com
a UE, “teria sido muito mais lenta e dolorosa”.
Portugal
seguiu trajetória similar. O seu PIB duplicou, em termos reais, durante
as duas primeiras décadas, com taxas de crescimento de cerca de 6%, até ao
início do século XXI, superando a média europeia. O poder de compra do
português médio passou de 50% da média da então CEE, em 1986, para valores
próximos de 75% da atual média da UE.
Nos
dois países, os fundos estruturais permitiram modernizar infraestruturas tornadas
obsoletas, durante a ditadura. Segundo
os articulistas, “foi a ‘época de ouro’ das autoestradas, a melhoria das
estradas nacionais e das acessibilidades regionais, bem como [d]a modernização
dos portos e [dos] aeroportos, a eletrificação e a expansão do saneamento
básico e da formação profissional”.
Atualmente,
quase 200 mil agricultores portugueses recebem apoio direto das políticas
agrícolas da UE. Portugal recebeu mais de 100 mil milhões de euros de
fundos comunitários, sobretudo para infraestruturas rodoviárias e ferroviárias,
para saneamento básico, para a educação e para modernização administrativa.
Contudo,
em minha opinião, a ferrovia, que foi minimizada e descurada, durante décadas em
favor do betão e do betuminoso, teima em não aumentar e a não atingir patamares
adequados de modernização; e a burocracia, os custos de produção e o aumento da
carga fiscal e das taxas de telecomunicações e de outros serviços asfixiam cidadãos
e empresas.
E,
para lá da questão económica, é de salientar a livre circulação no espaço
Schengen, que mudou a vida de milhões de pessoas. Na verdade, 1,6 milhões
de espanhóis participaram no programa Erasmus. Mais de 55 mil estudantes
universitários estudaram no estrangeiro, graças a este programa. Viajar,
estudar ou trabalhar noutro país europeu já não é privilégio, mas questão
natural. A adoção do euro como moeda em 1999, oficializada em 2002,
foi um passo em frente para os dois países, mas criou, em minha opinião dificuldades
aos portugueses, visto que o custo de vida subiu e os salários e as pensões não
acompanharam tal subida.
De
facto, no dizer de Jesus Maturana e de Rita Afonso, “nem tudo foi fácil”. A
crise de 2008 afetou de forma dura, a Espanha e Portugal. A Espanha
atingiu 27% de desemprego, em 2013, e Portugal teve de pedir um resgate
financeiro, fundamentalmente, para a banca (o que – recordo – sucedeu na Espanha,
com uma diferença: Portugal assumiu o ónus do resgate, ao passo que o Estado
espanhol serviu de avalista pela sua banca). “Os cortes sociais e as políticas
de austeridade deixaram marcas que ainda se fazem sentir”, sublinham os autores
do artigo.
O
artigo menciona Pedro Sánchez, presidente do governo espanhol, cujo comentário,
no X, elege “a ânsia de progresso e de esperança” como “a maior alavanca
de transformação” do país. Por sua vez, o ministro dos Negócios
Estrangeiros, José Manuel Albares, deixou a seguinte menção de felicitação
pelo aniversário da então CEE, agora UE: “Hoje, uma Espanha forte e democrática
significa uma Europa forte e democrática.”
Não
obstante, ambos os países ibéricos ainda enfrentam problemas estruturais. A
produtividade espanhola é baixa, comparativamente com países, como a Alemanha e
a França. Portugal tem uma das taxas de natalidade mais baixas do Mundo, o que
ameaça o seu futuro crescimento. E embora o apoio público à UE continue a ser
elevado – 73% dos espanhóis e 91% dos portugueses a avaliam positivamente a
adesão à UE – esta enfrenta desafios que põem em causa o seu modelo.
Nas
comemorações do 40.º aniversário da assinatura do Tratado de Adesão, a 12 de
junho de 2025, o PM de Portugal, frisou que “o processo de integração
europeia mudou, irreversivelmente, o rumo do país, permitindo uma profunda
transformação económica, social e democrática”, e que a adesão “representou um
compromisso estratégico coletivo, decisivo para acelerar o crescimento
económico, consolidar as instituições democráticas e reforçar a coesão social e
territorial, afirmando Portugal como um membro ativo e empenhado no projeto
europeu”.
***
A
nova ordem mundial, com os Estados Unidos da América (EUA) e a China como polos
de poder e a Rússia como vizinho agressivo, obriga a Europa a
repensar a sua maneira de estar e a sua missão; a integração política
continua a ser tarefa inacabada; a ameaça de irrelevância ou de desintegração
está presente, ainda que muitos prefiram não a ver; enfim, o projeto europeu
pode ficar estagnado ou mesmo relegado para a prateleira.
A Europa tem, decididamente, de repensar o seu projeto, dando-lhe gás ou reformulando-o, pois está ameaçado pelos eurocéticos, pelos antieuropeístas – que estão a crescer, quase em progressão geométrica (perante a indiferença generalizada e com a simpatia de muitos) – e pelos que pretendem uma Europa à sua maneira.
A Europa tem, decididamente, de repensar o seu projeto, dando-lhe gás ou reformulando-o, pois está ameaçado pelos eurocéticos, pelos antieuropeístas – que estão a crescer, quase em progressão geométrica (perante a indiferença generalizada e com a simpatia de muitos) – e pelos que pretendem uma Europa à sua maneira.
Porém,
é conveniente celebrar este 40.º aniversário, o qual serve para recordar até
onde chegaram os dois países ibéricos que mal contavam na cena internacional,
em 1986. E, hoje, como rematam os dois articulistas, “a Espanha e Portugal são
membros de pleno direito do clube europeu”, o que é motivo de celebração e de
reforço do compromisso com o projeto europeu.
2026.01.01
– Louro de Carvalho
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