A
5 de janeiro, em entrevista ao canal de televisão norte-americano Fox News
Channel (FNC), a líder da oposição venezuelana, María Corina
Machado, disse querer partilhar o seu Prémio Nobel da Paz com o presidente dos
Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, e agradecer-lhe, pessoalmente,
após a intervenção militar da sua administração na Venezuela.
A laureada com o Prémio Nobel da Paz, em 2025, afirmou que a queda do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, em resultado das ações de Washington, no dia 3, foi um “enorme passo para a humanidade, para a liberdade e para a dignidade humana” e elogiou o presidente dos EUA pela destituição do líder venezuelano.
A laureada com o Prémio Nobel da Paz, em 2025, afirmou que a queda do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, em resultado das ações de Washington, no dia 3, foi um “enorme passo para a humanidade, para a liberdade e para a dignidade humana” e elogiou o presidente dos EUA pela destituição do líder venezuelano.
María
Corina Machado, de 58 anos, disse que não falava com Donald Trump, desde 10 de
outubro, dia em que foi anunciada como vencedora do Prémio Nobel da Paz, após ter
lançado o mais sério desafio pacífico ao governo de Nicolás Maduro, em muitos
anos. Já então, a laureada dedicou, parcialmente, o prémio a Donald Trump, que o
cobiçava, há muito, referindo que ele tinha merecido essa honra. Desta vez, declarou
que iria partilhar o prémio com o líder norte-americano. “Eu, certamente,
adoraria poder dizer-lhe, pessoalmente, que o povo venezuelano,
porque este é um prémio do povo venezuelano, certamente, quer dá-lo a ele,
e compartilhá-lo com ele”, disse Corina Machado a Sean Hannity, apresentador da
FNC.
Porém,
é de referir que, embora Donald Trump tenha telefonado a Corina Machado, em
outubro, para a felicitar pela atribuição do Prémio Nobel, os meios de
comunicação social norte-americanos noticiaram que ele ficou descontente com o
facto de ela ter aceitado o cobiçado prémio, em vez de o recusar e o dar a ele.
Curiosa e contraditoriamente, a entrevista de Corina Machado surgiu dias depois
de o inquilino da Casa Branca ter rejeitado a ideia de trabalhar com ela. “Acho
que seria muito difícil para ela ser a líder. […] Ela não tem o apoio ou o
respeito do país. É uma mulher muito simpática, mas não tem o respeito”,
declarou o presidente dos EUA.
Já
Delcy Rodríguez, a vice-presidente e ministra do petróleo da Venezuela, que
prometeu trabalhar com a administração norte-americana, foi empossada como
presidente interina, no dia 5, quando Nicolás Maduro compareceu num tribunal de
Nova York, indiciado de tráfico de droga.
No
entanto, a líder da oposição – que protagonizou uma breve aparição em público,
em dezembro, por ocasião da solene aceitação do Prémio Nobel da Paz, em Oslo
(mas sem participar na cerimónia) – disse querer regressar à Venezuela “o mais
rapidamente possível”.
Estava
escondida, desde 9 de janeiro de 2025, quando foi detida por algum tempo, depois
de participar num protesto contra o governo em Caracas, capital da Venezuela.
Com efeito, obteve retumbante vitória nas eleições primárias da oposição, em
2023, com 93% dos votos, mas foi impedida de exercer cargos públicos, o que a inibiu
de concorrer contra Nicolás Maduro, em 2024. Edmundo González, o candidato que
a substituiu, terá ganho por larga margem, de acordo com os resultados das
mesas de voto. No entanto, Nicolás Maduro foi declarado vencedor, no que
foi amplamente considerado como uma aparente fraude eleitoral.
Embora
se entenda que María Corina Machado saúde a intervenção de Washington pela
captura do líder venezuelano é difícil perceber como uma lutadora pela
democracia representativa nutre esta predileção por Donald Trump e quer, em
nome do povo venezuelano, partilhar com ele o Prémio Nobel da Paz, sob o
pretexto de que era ele que o merecia.
***
Entretanto,
no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), que reuniu, de
emergência, a 5 de janeiro, tanto os aliados como os adversários dos EUA
criticaram a operação militar de Washington, na Venezuela, no dia 3, que
derrubou e capturou Nicolás Maduro e a sua mulher, Cilia Flores. Os países
manifestaram a sua objeção, ainda que, por vezes, de forma discreta, à
intervenção do presidente dos EUA e criticaram os recentes comentários de Donald
Trump, que indicaram a possibilidade de estender a ação militar a outros países
sul-americanos, incluindo o México e a Colômbia, por acusação de tráfico de
droga.
Na sequência da impressionante e dramática operação, na Venezuela, o presidente republicano reiterou o interesse em ocupar o território dinamarquês da Gronelândia, em nome dos interesses de segurança dos EUA, o que gerou furiosa reação de Copenhaga e de Nuuk.
Na sequência da impressionante e dramática operação, na Venezuela, o presidente republicano reiterou o interesse em ocupar o território dinamarquês da Gronelândia, em nome dos interesses de segurança dos EUA, o que gerou furiosa reação de Copenhaga e de Nuuk.
A
Dinamarca, que tem jurisdição sobre a ilha rica em minerais, denunciou a
perspetiva de os EUA se apoderarem da Gronelândia, sem mencionar o nome do seu
aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). “A inviolabilidade
das fronteiras não é negociável”, declarou Christina Markus Lassen, embaixadora
dinamarquesa na ONU, defendendo a soberania da Venezuela e vincando que “nenhum
Estado deve procurar influenciar os resultados políticos na Venezuela, pela
ameaça de força ou por outros meios inconsistentes com o direito internacional”.
Embora
o presidente francês, Emmanuel Macron, tenha apoiado a captura de Nicolás Maduro,
o seu enviado da ONU acentuou que qualquer violação do direito internacional
pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, que incluem os
EUA, corrói “a própria base da ordem internacional”. “A operação militar que
levou à captura de Maduro é contrária ao princípio da resolução de disputas de
paz e é contrária ao princípio do não uso da força”, declarou Jay
Dharmadhikari, vice-embaixador francês na ONU.
Em
contraponto, Mike Waltz, enviado dos EUA, defendendo o ataque à Venezuela como justificada
“operação de aplicação da lei cirúrgica”, criticou o Conselho de 15 membros por
censurar o facto de ter como alvo Maduro, um ditador no hemisfério ocidental. “Se
as Nações Unidas, neste órgão, conferem legitimidade a um narcoterrorista
ilegítimo com o mesmo tratamento, na sua carta, de um presidente ou chefe de
Estado democraticamente eleito, que tipo de organização é esta?”, questionou o
ex-conselheiro de segurança nacional de Trump.
Mike
Waltz, vincando que Maduro, na Europa e na América do Norte, é tido como
presidente ilegítimo e não democraticamente eleito, evocou as irregularidades
nas eleições presidenciais de 2024, na Venezuela, que muitos países consideram
fraudulentas.
Em
comunicado, secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmando-se profundamente
preocupado com o facto de as regras do direito internacional não terem sido
respeitadas, no atinente à ação militar de 3 de janeiro”, sustentou que a ação “grave”
de Washington poderia criar um precedente para o desenvolvimento das futuras
relações entre as nações.
Samuel
Moncada, embaixador da Venezuela na ONU, instou o Conselho de Segurança a
exigir que Washington liberte Maduro e a esposa. “Se o rapto de um chefe de
Estado, o bombardeamento de um país soberano e a ameaça aberta de novas ações
armadas forem tolerados ou minimizados, a mensagem enviada ao Mundo é
devastadora: nomeadamente, que a lei é opcional e que a força é o verdadeiro
árbitro das relações internacionais, declarou Moncada, frisando que “aceitar
esta lógica significaria abrir a porta a um Mundo profundamente instável”.
Os
maiores críticos da política externa dos EUA, a China e a Rússia, membros
permanentes do Conselho de Segurança, pediram que este órgão se unisse para
rejeitar o regresso da América a uma “era de ilegalidade”. “Não podemos
permitir que os Estados Unidos da América se autoproclamem como uma espécie de
juiz supremo, com o direito de invadir qualquer país, [de] rotular culpados, [de]
aplicar punições, independentemente das noções de direito internacional, de soberania
e de não-intervenção”, disse Vassily Nebenzia, embaixador russo na ONU.
É
de recordar que Nicolás Maduro, como o seu antecessor, Hugo Chavez, criou
relação estreita com Moscovo e que Pequim era o destino da maior parte do
petróleo venezuelano.
***
A
Venezuela continua a lidar com as consequências dos ataques dos EUA que
atingiram a cidade costeira de Catia La Mar, a 3 de janeiro. Residentes afirmam
que os ataques atingiram um edifício de apartamentos e zonas portuárias
próximas, durante a operação, que tinha por alvo o presidente Nicolás Maduro.
Deflagraram incêndios, houve cortes de energia, em partes da cidade, e casas
ficaram gravemente danificadas nas imediações de La Guaira.
Divergem os relatos quanto ao balanço de vítimas. As autoridades venezuelanas confirmaram, pelo menos, uma morte civil e vários feridos graves, no local do edifício de apartamentos, enquanto outras fontes apontaram números de vítimas mais elevados, em vários locais. Por sua vez, os EUA indicaram que as suas forças sofreram apenas ferimentos ligeiros. Ainda não foi confirmado um balanço final de mortos civis.
Divergem os relatos quanto ao balanço de vítimas. As autoridades venezuelanas confirmaram, pelo menos, uma morte civil e vários feridos graves, no local do edifício de apartamentos, enquanto outras fontes apontaram números de vítimas mais elevados, em vários locais. Por sua vez, os EUA indicaram que as suas forças sofreram apenas ferimentos ligeiros. Ainda não foi confirmado um balanço final de mortos civis.
Nos
dias seguintes, residentes removeram destroços das estradas que ligam Catia La
Mar a Caracas e equipas de emergência concentraram esforços nas instalações
portuárias danificadas e em habitações danificadas. Imagens de satélite mostram
armazéns destruídos, veículos e um posto de segurança queimados. Para muitos
residentes, a recuperação prossegue em persistente clima de incerteza e de choque.
***
A
Comissão Europeia enquadrou o afastamento do líder venezuelano como “oportunidade
para uma transição democrática” a ser liderada pelo povo venezuelano, e não
pela sucessora imediata de Maduro, Delcy Rodríguez – o que situa a União
Europeia (UE) em divergência com o presidente dos EUA, que afirmou estar “no
comando” da Venezuela e querer “acesso total” às valiosas reservas de petróleo
do país, tendo advertido a presidente interina de que ou cede às exigências
norte-americanas ou pagará um “preço muito elevado”.
Depois de ter acusado os EUA de invasão ilegal da Venezuela, Delcy Rodríguez suavizou a sua postura e convidou a Casa Branca para “trabalhar, em conjunto, numa agenda de cooperação, orientada para o desenvolvimento partilhado”.
Depois de ter acusado os EUA de invasão ilegal da Venezuela, Delcy Rodríguez suavizou a sua postura e convidou a Casa Branca para “trabalhar, em conjunto, numa agenda de cooperação, orientada para o desenvolvimento partilhado”.
No
dia 5, a Comissão Europeia excluiu o reconhecimento de Delcy Rodríguez como
chefe de Estado legítimo, evocando as eleições presidenciais de 2024, em que o
líder da oposição, Edmundo González, apoiado por María Corina Machado, venceu
por larga margem. “Vale a pena recordar que Nicolás Maduro não tinha a
legitimidade de um líder democraticamente eleito e que, por isso, os
acontecimentos do fim de semana proporcionam a oportunidade de uma transição
democrática liderada pelo povo venezuelano”, disse Paula Pinho, porta-voz da
Comissão Europeia, vincando a necessidade de respeitar o direito internacional
e a Carta das Nações Unidas.
Paula
Pinho recusou pronunciar-se sobre a legalidade da intervenção norte-americana,
que muitos observadores jurídicos e políticos consideram um ataque à soberania
dos Estados. Ao invés, sublinhou a “possibilidade de os que foram
democraticamente eleitos na Venezuela poderem, efetivamente, governar o país”, em
alusão a Edmundo González e a Corina Machado. “É óbvio que cabe ao povo
venezuelano governar o país, como cabe a qualquer povo do Mundo, seja qual for
o país de que estamos a falar”, declarou.
Esta
posição reflete a linha adotada pela maioria dos líderes da UE, que enfatizam
na ilegitimidade do governo de Maduro e o potencial democrático do seu
afastamento.
Pedro
Sánchez, primeiro-ministro espanhol, tem sido o mais crítico da ação dos EUA a
esta violação do direito internacional, que abre um “precedente extremamente
perigoso”.
O
presidente francês, Emmanuel Macron afirmou que o seu país não aprova o método
de Washington para destituir o líder venezuelano. “A França apoia a soberania
popular, e esta foi expressa em 2024”, referiu no conselho de ministros, observando
que, se deve haver uma transição, “o vencedor de 2024 deve desempenhar um papel
central”.
As
declarações públicas das capitais da UE revelaram um fosso entre os dois lados
do Atlântico.
No
rescaldo da operação militar, Donald Trump tem reiterado que os EUA vão “governar”
a Venezuela e impor a sua vontade no país, prestando pouca atenção à possível
transição democrática. “Estamos a lidar com as pessoas que acabaram de tomar
posse”, declarou aos jornalistas, quando regressava da Florida, referindo-se a Delcy
Rodríguez.
Questionado
sobre as expectativas para o governo de Delcy Rodríguez, esclareceu que o objetivo
principal é explorar as reservas de petróleo da Venezuela, as maiores do Mundo.
E, segundo o secretário de Estado, Marco Rubio, o controlo será exercido por
uma quarentena militar sobre as exportações de petróleo do país, em vez de
tropas no terreno.
Após
declararem o controlo de facto sobre o país, os EUA afirmam que estarão “muito
fortemente envolvidos” na indústria petrolífera do país, que Trump descreveu
como “fracasso total”, pelo que enviará grandes petrolíferas norte-americanas
para investir “milhares de milhões de dólares” na reparação da infraestrutura
petrolífera, visando “gerar receitas para o país”, não pondo de parte a hipótese
de novos ataques, se tiverem se ser.
O
anúncio gerou forte reação de organizações não-governamentais (ONG), em todo o Mundo.
Os ambientalistas classificam a medida como “imprudente e perigosa” e reforçam
os apelos crescentes a transição justa para longe dos combustíveis fósseis, com
vista à proteção do planeta e ao apoio às comunidades na passagem para energias
limpas.
A
Venezuela detém as maiores reservas de crude do Mundo, com cerca de 303 mil
milhões de barris (Bbbl). Ultrapassa petroestados, como a Arábia Saudita e o
Irão, com 267,2 Bbbl e 208,6 Bbbl, respetivamente. Porém, a quantidade de
petróleo que produz é diminuta e a produção caiu, nas últimas duas décadas, por
o anterior governo ter apertado os controlos sobre a petrolífera estatal PDVSA.
Grande
parte do crude extrapesado da Venezuela situa-se no Cinturão do Orinoco, mas é
mais difícil e caro de extrair do que o crude convencional, mercê da sua textura
espessa e altamente viscosa. Petrolíferas ocidentais, como a Chevron continuam
a operar no país, mas em escala muito menor, após o alargamento das sanções dos
EUA às exportações de petróleo, impostas, pela primeira vez, em 2015, durante a
administração Obama, devido a alegações de violações dos direitos humanos, e
cortaram a Venezuela do investimento essencial na sua indústria de combustíveis
fósseis para aumentar a extração. E alguns analistas preveem que o plano de Donald
Trump para revitalizar a infraestrutura petrolífera do país possa duplicar ou
triplicar a atual produção, de cerca de 1,1 milhões de Bbbl, atingindo níveis
históricos, o que, apesar de anos de negligência, pode acontecer com relativa
rapidez.
Alguns
sustentam que, se a Venezuela se tornar uma potência do petróleo, os preços baixos
deste consolidar-se-ão e aumentará a pressão sobre a Rússia, pois a Europa e o
resto do Mundo obterão mais do gasóleo e do óleo pesado de que precisam, sem
comprarem à Rússia. Porém, a hipótese é desmentida por a Venezuela, integrando
a Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP), ter a produção
contabilizada e por haver excedente de petróleo no mercado global.
Enfim,
tudo se reduzirá a fogachada que pode matar.
2026.01.06
– Louro de Carvalho
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