O
presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, assinou, a 7 de
janeiro, uma ordem executiva que suspende a participação de Washington em
dezenas de agências, de comissões e de painéis consultivos da Organização das
Nações Unidas (ONU) dedicados ao clima, ao trabalho, à migração e a outras
questões que a sua administração descreve como promovendo iniciativas
“acordadas”. Tal medida significa que os EUA saem de 66 organizações
internacionais, incluindo o quadro do tratado climático da ONU, constituindo o
maior afastamento norte-americano da cooperação global na sua História moderna.
Num memorando dirigido aos altos responsáveis do aparelho do Estado, intitulado “Retirada dos Estados Unidos de organizações internacionais, convenções e tratados que sejam contrários aos interesses dos Estados Unidos”, Donald Trump deu instruções para as suas agências darem “passos imediatos” para a saída do país de 66 organismos multilaterais. Nos 31 casos em que abandona entidades da ONU, isso significa “deixar de participar ou [de] financiar, na medida em que a lei o permita”.
Num memorando dirigido aos altos responsáveis do aparelho do Estado, intitulado “Retirada dos Estados Unidos de organizações internacionais, convenções e tratados que sejam contrários aos interesses dos Estados Unidos”, Donald Trump deu instruções para as suas agências darem “passos imediatos” para a saída do país de 66 organismos multilaterais. Nos 31 casos em que abandona entidades da ONU, isso significa “deixar de participar ou [de] financiar, na medida em que a lei o permita”.
Já
antes, um responsável norte-americano que falou à Associated Press (AP)
sob anonimato, por se tratar de uma decisão presidencial que ainda não tinha
sido anunciada publicamente, referia que fora ordenada a revisão da
participação e do financiamento dos EUA em todas as organizações
internacionais. Com efeito, o presidente norte-americano tinha assinado uma
ordem executiva que suspende o apoio dos EUA a 66 organizações, agências e
comissões, dando instruções para que a sua Administração reveja a participação
e o financiamento em todas as organizações internacionais, incluindo as ligadas
às Nações Unidas.
A
retirada da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC)
– o tratado de 1992 que está na base do acordo climático de Paris – deixa os
EUA como o único país fora do quadro climático global. De facto, pouco depois
de regressar à Casa Branca, Donald Trump, por considerar as alterações
climáticas uma farsa, retirou-se do acordo de Paris.
Para
o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, as instituições em causa são
“redundantes, no seu âmbito, mal geridas, desnecessárias, esbanjadoras,
capturadas pelos interesses de agentes que promovem as suas próprias agendas”,
contrárias às dos EUA, ou uma ameaça à sua soberania. E, de facto, um
comunicado do Departamento de Estado citado pela AP, é bem explícito, ao
relevar: “A Administração Trump considerou estas instituições redundantes, no
seu âmbito, mal geridas, desnecessárias, desperdiçadoras, mal administradas,
capturadas pelos interesses de atores que promovem as suas próprias agendas em
detrimento das nossas, ou uma ameaça à soberania, liberdades e prosperidade
geral da nossa nação.”
A
administração norte-americana já tinha suspendido o apoio à Organização Mundial
de Saúde (OMS), à agência da ONU para os refugiados palestinianos (UNRWA), ao
Conselho dos Direitos Humanos da ONU e à Organização das Nações Unidas para a
Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Adotou o que os altos funcionários
descrevem como abordagem “à la carte” ao financiamento da ONU, só apoiando
operações alinhadas com a agenda de Trump.
Daniel
Forti, diretor de assuntos da ONU no Grupo de Crise Internacional (GCI), disse
que a abordagem representa “a cristalização da abordagem dos EUA ao
multilateralismo, que é ‘o meu caminho ou a autoestrada’”. A mudança marca um
afastamento da forma como as administrações republicana e democrata se
envolveram, historicamente, com a ONU. E este organismo mundial respondeu com
cortes de pessoal e de programas, enquanto numerosas organizações não
governamentais (ONG) encerraram projetos, depois de Trump ter cortado a ajuda
externa, através da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento
Internacional (USAID).
Os
EUA vão abandonar também o Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA),
que presta serviços de saúde sexual e reprodutiva em todo o Mundo.
No
seu primeiro mandato, Donald Trump cortou o financiamento desta agência, devido
a acusações dos republicanos de que esta participava em práticas de aborto
coercivo na China. No entanto, uma revisão do Departamento de Estado, em 2022,
não encontrou provas que apoiassem essas alegações.
Outras
organizações incluídas na lista de retirada são: o Painel Intergovernamental
sobre Alterações Climáticas (IPCC), o Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (PNUD), o Conselho Económico e Social da ONU (ECOSOC), a
Comissão de Direitos Humanos, a Aliança das Civilizações, o Pacto de Energia
Livre de Carbono, a Universidade das Nações Unidas, o Comité Consultivo
Internacional do Algodão, a Organização Internacional de Madeiras Tropicais, a
Parceria para a Cooperação Atlântica, o Instituto Pan-Americano de Geografia e
História, a Federação Internacional de Conselhos de Artes e Agências Culturais,
o Grupo Internacional de Estudos de Chumbo e Zinco e muitas outras organizações.
Além
disso, o Departamento de Estado afirmou que estão a decorrer revisões
adicionais.
Os
funcionários da administração Trump dizem que pretendem concentrar os recursos
na expansão da influência dos EUA nos organismos de normalização da ONU, onde
competem com a China, nomeadamente, na União Internacional das Telecomunicações
(UIT), na Organização Marítima Internacional (OMI) e na Organização
Internacional do Trabalho (OIT).
Estas
saídas ocorrem num momento em que Donald Trump, depois de impor (ou de
conseguir que parceiros negociem sob pressão) uma série de medidas de âmbito
comercial, tem perturbado aliados e adversários com ações militares, incluindo
a captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e ameaças de anexação da
Gronelândia.
A
ordem executiva em causa do presidente dos EUA suscitou fortes críticas de
especialistas e de antigos funcionários de Washington. Assim, Gina McCarthy,
ex-conselheira nacional para o clima da Casa Branca, sustentando que a decisão
foi “míope, embaraçosa e insensata”, em declarações ao “The Guardian”, alertou
para o facto de os EUA estarem a perder a capacidade de influenciar biliões de
dólares, em investimentos e em políticas climáticas. E o cientista climático
Rob Jackson, que preside ao Projeto Carbono Global, que acompanha as emissões
globais, afirmou que a retirada “dá a outras nações a desculpa para adiarem as
suas próprias ações e compromissos”, em matéria de redução dos gases com efeito
de estufa (GEE).
“Como
único país do Mundo que não faz parte do tratado da UNFCCC, a administração norte-americana
está a desperdiçar décadas de liderança dos EUA, em matéria de alterações
climáticas e de colaboração global. Esta administração está a comprometer a
capacidade do nosso país de influenciar biliões de dólares em investimentos,
políticas e decisões que iriam impulsionar a nossa economia e proteger-nos de
desastres dispendiosos que causam estragos no nosso país”, vincou a
ex-conselheira de Joe Biden.
***
A
associação ambientalista Zero, em nota aos jornalistas, classificou como
“profundamente lamentável e dramática, para o Mundo”, a decisão norte-americana
de abandonar 66 organizações internacionais (31 entidades da ONU), convenções e
tratados, incluindo a UNFCCC e o IPCC, que suportam o conhecimento e a
concertação à escala mundial para o combate às alterações climáticas.
Francisco Ferreira, presidente da Zero, observando que a decisão do inquilino da Casa Branca é “um ato de desresponsabilização profundamente condenável, com consequências principalmente para aqueles que menos meios têm para lidar com um futuro pior em termos ambientais e sociais”, lembrou que o anúncio surge quando “é preciso implementar, com urgência, soluções globais” para três crises planetárias globais e de longo prazo: a crise climática, o decrescimento da biodiversidade e o excesso de uso de recursos naturais e poluição, além da crise de paz. “Estamos também longe de atingir as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável [ODS] para 2030”, alertou.
Francisco Ferreira, presidente da Zero, observando que a decisão do inquilino da Casa Branca é “um ato de desresponsabilização profundamente condenável, com consequências principalmente para aqueles que menos meios têm para lidar com um futuro pior em termos ambientais e sociais”, lembrou que o anúncio surge quando “é preciso implementar, com urgência, soluções globais” para três crises planetárias globais e de longo prazo: a crise climática, o decrescimento da biodiversidade e o excesso de uso de recursos naturais e poluição, além da crise de paz. “Estamos também longe de atingir as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável [ODS] para 2030”, alertou.
O
comissário europeu para a Ação Climática, o neerlandês Wopke Hoekstra, lastimou
o abandono da UNFCCC pelos EUA, garantindo empenho da União Europeia (UE) na
cooperação internacional. “A UNFCCC é a base para a ação climática global.
Reúne os países para apoiarem ações climáticas, [para] reduzirem as emissões, [para]
se adaptarem às mudanças climáticas e [para] monitorizarem a evolução. A
decisão da maior economia do Mundo e do segundo maior emissor de se retirar é
lamentável e infeliz”, escreveu Hoekstra, na plataforma digital LinkedIn.
O
membro do executivo comunitário europeu e democrata-cristão dos Países Baixos
frisou que a UE vai continuar a “apoiar de forma inequívoca a investigação
climática internacional, como a base do nosso conhecimento e do nosso
trabalho”, e vai manter a “cooperação climática internacional e, no âmbito
interno”, prosseguir com a “agenda de ação climática, competitividade e
independência”.
A
UNFCCC, um acordo de 1992 entre 198 países para apoiar financeiramente
atividades de mudança climática em países em desenvolvimento, é o tratado
subjacente ao histórico Acordo de Paris sobre o clima. Porém, Donald Trump, que chama às alterações
climáticas uma farsa, retirou-se desse acordo, pouco depois de recuperar a posse
da Casa Branca.
O
IPCC é uma organização científico-política criada em 1988 no âmbito da ONU, com
o objetivo principal sintetizar e divulgar o conhecimento mais avançado sobre
as alterações climáticas. É considerado a maior autoridade mundial sobre
alterações climáticas e tem sido a principal base para o estabelecimento de
políticas climáticas mundiais e nacionais.
O
anúncio da Casa Branca também foi mal recebido em Pequim. Nesse sentido, a
porta-voz da diplomacia chinesa criticou a deriva unilateral de
Washington e disse aos jornalistas que, “só com o funcionamento eficaz do
sistema multilateral se pode impedir a propagação da lei da selva e evitar que
a ordem internacional seja dominada pela lógica de que ‘a força faz a
justiça’”.
Mao
Ning acrescentou que estes organismos não existem para atender aos interesses
das grandes potências, mas para proteger os Estados menores e a ordem
internacional baseada em regras. “A China defende o multilateralismo e a ONU, no
seu papel fundamental nos assuntos internacionais”, afirmou a porta-voz do
Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, concluindo que “a comunidade
internacional deve agir para impedir que Washington se torne o ‘xerife do Mundo’
e evitar uma invasão à Venezuela”.
***
A
maioria dos alvos de Donald Trump são agências, comissões e painéis consultivos
relacionados com a ONU, que se concentram em questões de clima, de trabalho e de
outros assuntos que a administração norte-americana tem considerado como
voltados para a diversidade e para iniciativas “woke”.
“Woke”
é um termo político de origem afro-americana que se refere a uma perceção
e a uma consciência das questões relativas à justiça social e racial. Deriva
da expressão inglesa afro-americana “stay woke” (“mantenha-se desperto”),
cujo aspeto gramatical se refere a uma consciência contínua dessas
questões.
No
final da década de 2010, “woke" foi adotado como uma gíria
mais genérica, amplamente associada a políticas identitárias, a causas
socialmente liberais, como o feminismo, o ativismo LGBT, a cultura
afro-americana, e a questões culturais (também com o uso das expressões “woke
culture” e “woke politics”). Tem sido alvo de memes, de uso irónico
e de críticas. O seu uso generalizado desde 2014 é resultado do
movimento Black Lives Matter.
Como
dissemos, a decisão trumpiana de retirar os EUA de organizações que promovem a
cooperação entre nações para enfrentar desafios globais surge num momento em
que a Casa Branca lança esforços militares ou emite ameaças que inquietam tanto
aliados como adversários, em que acontece a captura do líder autocrático
venezuelano Nicolás Maduro e em que indica a intenção de assumir a Gronelândia.
Esta
é a mais recente retirada dos EUA de agências globais. A Administração Trump já
tinha suspendido o apoio a agências, como a OMS, a UNRWA, o Conselho de
Direitos Humanos da ONU e a UNESCO, bem como adotado uma abordagem mais seletiva
no pagamento das suas contribuições para a ONU, escolhendo as operações e
agências que acredita estarem alinhadas com a sua agenda, em detrimento das que
já não servem os interesses dos EUA.
Esta
postura marcou uma mudança significativa – e mesmo uma rutura –, em relação a
administrações anteriores, tanto republicanas como democratas (isto mesmo é
referido na nova Estratégia de Segurança Nacional), e forçou a ONU, já a passar
por uma reflexão interna, a responder com uma série de cortes de pessoal e
programas.
Muitas
agências independentes não-governamentais, algumas que trabalham com a ONU,
citaram numerosos encerramentos de projetos, devido à decisão da administração
dos EUA, em 2025, de cortar a assistência externa, através da USAID, a maior
agência mundial de ajuda humanitária.
Apesar
da mudança drástica, os responsáveis dos EUA, incluindo Donald Trump, dizem ter
reconhecido o potencial da ONU e querem, em alternativa, concentrar o dinheiro
dos contribuintes norte-americanos na expansão e influência norte-americana em
muitas das iniciativas da ONU que definem padrões, onde há competição com a China,
como a UIT, a OMI e a OIT.
A
retirada da UNFCCC é o mais recente esforço de Trump e dos seus aliados para
distanciar os EUA de organizações internacionais focadas no clima e no combate
às alterações climáticas. A UNFCCC, um acordo de 1992 entre 198 países para
apoiar financeiramente atividades de mudança climática em países em
desenvolvimento, é o tratado subjacente ao histórico Acordo e Paris sobre o
clima.
***
A
posição isolacionista dos EUA, além de fragilizar a solidariedade das nações,
empobrecendo as suas organizações humanitárias, culturais e científicas que
promovem a saúde das pessoas e do planeta e cavam a erradicação da pobreza,
enfraquece a ONU, vocacionada a estabelecer a paz, a partir dos seus alicerces,
como a saúde, os direitos humanos, o diálogo, a educação, o respeito pela
dignidade humana, e provocou a quase desintegração da Organização do Tratado do
Atlântico Norte (NATO), grande aliança para significativo grupo de países (Que
falta para ela acabar?). Além disso, tal isolacionismo pode virar-se contra o
próprio país norte-americano.
Face a tudo isto, é de registar a quase subserviência da UE e do governo português.
Face a tudo isto, é de registar a quase subserviência da UE e do governo português.
2026.01.08
– Louro de Carvalho
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