Enquanto
a solenidade do Natal celebra o mistério da encarnação da Palavra de Deus feita
homem e acontece num contexto judaico, a solenidade da Epifania do Senhor, faz
transpor o Natal das fronteiras de Israel, mesmo as da diáspora judaica, as quais
ultrapassam as barreiras geográficas, para benefício e obrigação do Mundo
inteiro.
Na
verdade, o Natal, que surgiu na Casa da Israel, não podia ficar ali
enclausurado, tinha de se abrir ao Mundo, porque é o Mundo todo que precisa de
ser justificado.
Assim,
a liturgia da solenidade celebra a manifestação de Jesus a todos os homens,
pois o Menino do presépio é a “luz” que se acende na noite do Mundo, atraindo a
si todos os povos da Terra. Esta “luz” encarnou na nossa História, iluminou os
caminhos dos homens, guiou-os ao encontro da salvação e da vida definitiva. Não
podia ficar refém do povo judeu.
***
A primeira
leitura (Is 60,1-6) anuncia a Jerusalém a chegada da luz salvadora
de Deus, luz que transfigurará o rosto da cidade, iluminará o regresso a casa
dos exilados na Babilónia e atrairá à cidade de Deus os povos de toda a Terra.
Os
capítulos 56-66 do Livro de Isaías apresentam um conjunto de profecias cuja
proveniência não é consensual. Para alguns, são textos de um profeta anónimo
pós-exílico, que profetizou em Jerusalém, após o regresso dos exilados da
Babilónia, nos anos 537/520 a.C. Contudo, para a maioria, são textos de
diversos autores pós-exílicos redigidos ao longo de um arco de tempo
relativamente longo (provavelmente, entre os séculos. VI e V a.C.).
Estas
profecias situam-nos em Jerusalém, cidade que os Babilónios deixaram em ruínas,
em 586 a.C., e que, agora, começa a reerguer-se. As marcas do passado notam-se nas
pedras calcinadas; os filhos e as filhas de Jerusalém que regressaram do exílio
na Babilónia são em número reduzido; a pobreza obriga à lentidão e à modéstia da
reconstrução; os inimigos estão à espreita e a população está desanimada. Porém,
sonha-se com o dia em que Deus vai voltar à sua cidade, para trazer a salvação
definitiva ao Povo. Jerusalém voltará a ser a cidade bela e harmoniosa, o
Templo será reconstruído e Deus habitará para sempre no meio do seu Povo.
O
trecho em apreço é uma glorificação de Jerusalém, a cidade da luz, a “cidade
dos dois sóis” (o sol nascente e o sol poente: pela sua situação geográfica, no
alto das montanhas da Judeia, a cidade é iluminada desde o nascer do dia, até
ao pôr do sol).
Jerusalém
está mergulhada na obscuridade da noite. De súbito, brada a sentinela,
anunciando a aurora. O Sol aparece atrás das montanhas, no Oriente, e ilumina
as pedras brancas do casario. A cidade, em reconstrução, parece transfigurada
pela luz matutina. É como se tivesse tirado os vestidos negros de viúva e se
vestisse de branco, como noiva preparada para acolher o amado.
O
profeta/poeta que viu esta transformação sente-se inspirado por ela e sonha com
a Jerusalém nova, iluminada pela luz salvadora de Deus. Quando a luz de Deus se
levantar sobre Jerusalém e a iluminar, novamente, a cidade que parecia viúva
triste, sem marido (porque Deus já não residia no Templo, queimado e destruído)
e abandonada pelos filhos (exilados na Babilónia), vestir-se-á de alegria, como
jovem resplandecente no vestido de noiva e adornada com suas belíssimas joias.
Os filhos, exilados em terra estrangeira, regressarão em triunfo (“trazidos nos
braços”), devolvendo a alegria e a vida à cidade. Mas a luz salvadora de Deus
que brilha sobre Jerusalém fará ainda mais: atrairá homens e mulheres de todas
as raças e nações, que convergirão para Jerusalém, inundando-a de riquezas (sobretudo,
de incenso, para o serviço do Templo) e cantando os louvores de Deus.
Este
anúncio profético acende a esperança nos corações cansados e abatidos dos
exilados. Todos ficarão à espera do dia supremamente festivo em que começará a
brilhar a luz salvadora e transformadora. Mateus liga esta profecia à chegada
de Jesus. Todavia, esta profecia apenas enfatiza a caminhada para Jerusalém. E,
embora tenha o mérito de incluir nessa caminhada povos de todas as etnias (e não
só os judeus dispersos), ainda lhe falta a caminhada inversa – de Jerusalém
para todos os confins do Mundo.
Na
catequese cristã primeva, a Jerusalém nova, que já “não necessita de Sol nem de
Lua para a iluminar, porque é iluminada pela glória de Deus”, é a Igreja – a
comunidade dos que aderem a Jesus e acolhem a luz salvadora que Ele veio trazer.
Será que nas nossas comunidades cristãs e religiosas brilha a luz libertadora
de Jesus, que leva a superar desavenças e conflitos, falta de amor e de
partilha, ciúmes e rivalidades, passividade e conformismo? Haverá, na
comunidade cristã, espaço e voz para todos os que buscam a luz libertadora de
Deus, de modo que os irmãos cuja vida é considerada irregular ou não condizente
com a visão oficial são acolhidos, respeitados e amados, assim como as
diferenças próprias da diversidade de culturas são vistas como uma riqueza que
importa preservar? A nossa comunidade
cristã é o hospital onde “todos, todos, todos” podem curar as feridas que a
vida lhes infligiu?
***
No Evangelho
(MT 2,1-12), vê-se a concretização desta promessa do Livro de Isaías:
ao encontro de Jesus vêm uns “magos” do Oriente, que representam todos os povos
da Terra. Atentos aos sinais da chegada do Messias, os magos procuram-No, com
esperança até O encontrarem, reconhecem n’Ele a “salvação de Deus” e aceitam-No
como “o Senhor”. A salvação rejeitada pelos habitantes de Jerusalém torna-se
dom que Deus oferece a todos os homens, sem exceção. Para Ele não havia lugar
na Judeia, mas há-o no Mundo.
O
episódio mateano da visita dos magos ao Menino de Belém é um episódio de grande
beleza, que se tornou, rapidamente, muito popular, entre os cristãos. Ao longo
dos séculos, a piedade popular embelezou-o com acrescentos que, na maior parte
dos casos, não encontram eco no texto evangélico. Chamam-lhes reis, quando o
texto fala de “uns magos”. E até lhes atribuem nomes – Melquior (também chamado
Melchior ou Belchior), Baltasar e Gaspar – que significam, em hebraico, respetivamente,
“rei da luz” (melichior), “o branco” (gathaspa) e “senhor dos tesouros”
(bithisarea).
Os
biblistas estão de acordo em que este relato se encaixa na categoria do midrash
haggádico, um método de leitura e de exploração do texto bíblico muito
utilizado pelos rabis de Israel, que incluía o recurso a histórias fantasiosas,
para ilustrar um ensinamento. Na verdade, Mateus não pretende descrever a
visita de personagens importantes ao Menino do presépio, mas apresentar Jesus
como o enviado de Deus Pai, que vem oferecer a salvação de Deus aos homens de
toda a Terra.
Na
base da inspiração de Mateus pode estar a crença generalizada, na região do
Crescente Fértil, de que qualquer criança que nascia tinha a sua própria
estrela e de que uma nova estrela anunciava um acontecimento que mudaria a História
humana. Ainda hoje, se diz de alguém que a sua estrela o favoreceu ou que ele/a
deixou de ver a sua estrela.
Também
é provável que Mateus se tenha inspirado, para construir esta narrativa, num
texto do Livro dos Números onde um profeta chamado Balaão, “o homem de
olhar penetrante” (Nm 24,15), anuncia “uma estrela que sai de Jacob e um
cetro flamejante que surge do seio de Israel” (Nm 24,27). Esse anúncio
teve, sempre, para os teólogos de Israel, claro sabor messiânico.
Além
disso, o relato de Mateus faz referência ao rei que governava a Palestina, por
ocasião do nascimento de Jesus: Herodes, “o Grande”, falecido no ano 4 a.C.,
cerca de dois anos após o nascimento de Jesus. Embora se tenha distinguido
pelas grandes obras que levou a cabo, foi um rei cruel e despótico, sempre
pronto a matar para defender o trono.
A
análise dos vários pormenores do relato confirma que a preocupação do evangelista
não é de tipo histórico, mas catequético.
Antes
de mais, Mateus insiste no facto de Jesus ter nascido em Belém de Judá. Para
entender esta insistência, temos de recordar que Belém era a terra natal do rei
David e que era a Belém que estava ligada a família de David. Afirmar que Jesus
nasceu em Belém é ligá-Lo aos anúncios proféticos que falavam do Messias como o
descendente de David que havia de nascer em Belém e restaurar o reino ideal de
seu pai. Lucas diz que o Messias, o Santo, é descendente de David, se sentará
no seu trono e será chamado Filho do Altíssimo e Filho de Deus.
Em
segundo lugar, a referência a uma estrela que apareceu no céu por esta altura e
que conduziu os “magos” para Belém, interpretada como facto histórico, levou
alguém a cálculos astronómicos complicados para concluir que, no ano 6 a.C.,
uma conjunção de planetas explicaria o fenómeno luminoso da estrela refulgente
mencionada por Mateus; outros andaram à procura de um cometa que, por esta
época, devia ter sulcado os céus do Médio Oriente. Tudo isso pode ser verdade,
mas é inútil procurar, nos céus, a estrela ou cometa em causa, pois Mateus está,
simplesmente, a dizer-nos que o Menino de Belém é essa “estrela de Jacob” de
que falava o anúncio profético de Balaão e que, pelo seu nascimento, se
concretiza a chegada da “luz salvadora” de que falava Isaías e que vai brilhar
sobre Jerusalém e atrair à cidade santa povos de toda a Terra.
Quanto
às figuras dos “magos”, é de referir que o vocábulo “mágos” (que parece ser de
origem persa) abarca vasto leque de significados e é aplicado a personalidades
muito diversas: mágicos, feiticeiros, charlatães, sacerdotes persas,
propagandistas religiosos. Aqui, poderia designar astrólogos mesopotâmios, em
contacto com o messianismo judaico. Em todo o caso, esses magos representam, na
catequese de Mateus, os povos estrangeiros de que falava o Livro de Isaías
(cf. Is 60,1-6), que se põem a caminho de Jerusalém com as suas riquezas
– ouro, incenso e mirra, que significam, respetivamente, a realeza, a divindade
e a humanidade – para encontrarem a luz salvadora de Deus que brilha sobre a
cidade santa. Jesus é, na opinião de Mateus e da catequese da Igreja primitiva,
essa “luz”.
Além
de uma catequese sobre Jesus, o relato assinala, paradigmaticamente, duas
atitudes que se repetirão ao longo de todo o Evangelho: o Povo de Israel
rejeita Jesus, enquanto os magos do Oriente (que são pagãos e estrangeiros) O
adoram; Herodes e Jerusalém “ficam perturbados”, ante a notícia do nascimento
do menino e planeiam a sua morte, ao passo que os pagãos sentem uma grande
alegria e reconhecem em Jesus o seu salvador.
Mateus
anuncia, desta forma, que Jesus será rejeitado pelo seu Povo, mas será acolhido
pelos pagãos, que entrarão a fazer parte do novo Povo de Deus. O itinerário
seguido pelos magos reflete a caminhada que os pagãos percorreram para
encontrarem Jesus: estão atentos aos sinais (estrela), percebem que Jesus é a
luz que traz a salvação, põem-se, decididamente, a caminho para O encontrarem,
perguntam aos judeus – que conhecem as Escrituras – o que fazer, encontram
Jesus e adoram-No como “o Senhor”. É possível que grande número de
pagano-cristãos da comunidade de Mateus descobrisse, neste relato, as etapas do
seu caminho em direção a Jesus.
Elucidativo,
na questão da universalidade da salvação em Cristo, é o grande quadro renascentista
“Adoração dos Reis Magos”, de Vasco Fernandes (Grão Vasco) e Francisco
Henriques, exposto no Museu Grão Vasco, em Viseu, que se destaca, por
apresentar o primeiro índio brasileiro na arte ocidental, substituindo
Baltazar, num gesto simbólico da evangelização e da nova era dos
Descobrimentos, exibindo trajes exóticos e elementos ameríndios. A
salvação é para os povos de toda a parte e de todos os tempos.
***
A segunda
leitura (Ef 3,2-3a.5-6) apresenta o projeto salvador de Deus como
uma realidade que vai atingir toda a Humanidade, juntando judeus e pagãos na
mesma comunidade de irmãos – a comunidade de Jesus.
O
tema mais importante da Carta aos Efésios é o que o epistológrafo chama “o
mistério”, ou seja, o projeto salvador de Deus, definido e elaborado, desde
sempre, oculto, durante séculos, revelado e concretizado, plenamente, em Jesus,
comunicado aos apóstolos e, nos “últimos tempos”, tornado presente no Mundo
pela Igreja.
Na
parte dogmática da carta (cf. Ef 1,3-3,19), Paulo apresenta a catequese
sobre “o mistério”: após um hino que celebra a ação do Pai, do Filho e do
Espírito Santo na obra da salvação, fala da soberania de Cristo sobre os
poderes angélicos e do seu papel como cabeça da Igreja; depois, reflete sobre a
situação universal do homem, mergulhado no pecado, e afirma a iniciativa
salvadora e gratuita de Deus em favor do homem; e expõe, a seguir, Cristo, que,
realizando “o mistério”, operou a reconciliação de judeus e de pagãos num só
corpo, que é a Igreja.
O
trecho em causa vem nesta sequência: Paulo apresenta-se como testemunha do
“mistério”, ante os judeus e ante dos pagãos.
A
Paulo, apóstolo como os Doze, também foi revelado “o mistério”, que Paulo aqui
desvela aos crentes da Ásia Menor. O apóstolo das Gentes insiste que, em
Cristo, chegou a salvação definitiva para os homens; e essa salvação não se
destina, exclusivamente, aos judeus, mas a todos os povos da Terra, sem
exceção. Paulo é, por chamamento divino, pregoeiro desta novidade. Percebemos,
assim, porque se fez Paulo o grande arauto da “boa nova” de Jesus, entre os
pagãos.
Agora,
judeus e gentios são membros do mesmo e único corpo (o “corpo de Cristo” ou
Igreja), partilham o mesmo desígnio salvador que os faz, em igualdade de
circunstâncias com os judeus, “filhos de Deus”; e todos participam da promessa
feita por Deus a Abraão, promessa cuja realização Cristo levou a cabo e para
cuja concretização, em toda a parte, fez dos discípulos apóstolos para levarem
a todos os confins da Terra o anúncio da Salvação. Era preciso ir por todo o Mundo
a fazer discípulos em todas as nações, ensinando e fazendo o que e como Ele ensinou
e fez, mas deixando a todos a liberdade de crer ou de não crer.
***
Ilustram
a universalidade da salvação, por exemplo:
*
O Salmo 72, que serve de cântico responsorial, na solenidade
“Virão
adorar-Vos, Senhor, todos os povos da Terra.”
“Ó
Deus, concedei ao rei o poder de julgar / e a vossa justiça ao filho do rei. / Ele
governará o vosso povo com justiça / e os vossos pobres com equidade.
“Florescerá
a justiça nos seus dias / e uma grande paz até ao fim dos tempos. / Ele
dominará de um ao outro mar, / do grande rio até aos confins da Terra.
“Os
reis de Társis e das ilhas virão com presentes, / os reis da Arábia e de Sabá
trarão as suas ofertas. / Prostrar-se-ão diante dele todos os reis, / todos os
povos o hão de servir.
“Socorrerá
o pobre que pede auxílio / e o miserável que não tem amparo. / Terá compaixão
dos fracos e dos pobres / e defenderá a vida dos oprimidos.”
*
O Salmo 98
“Cantai
ao Senhor um cântico novo, / porque Ele fez maravilhas! / A sua mão direita e o
seu santo braço / lhe deram a vitória.
“O
Senhor anunciou a sua vitória, / revelou a sua justiça aos olhos dos povos. / Lembrou-se
da sua misericórdia e fidelidade / para com a casa de Israel.
“Todos
os confins da terra viram / a salvação do nosso Deus. / “Aclamai o Senhor,
terra inteira, / gritai, rejubilai e cantai.
“Cantai
ao Senhor, ao som da harpa, / ao som da harpa e da lira. / Com as trombetas e
ao som do cornetim, / aclamai na presença do Senhor, que é rei.
“Ressoe
o mar e tudo o que ele contém, / o Mundo e os que nele habitam. / Que os rios
batam palmas, em coro, as montanhas gritem de alegria, / diante do Senhor, que
vem julgar a Terra! * Ele
julga o Mundo com justiça / e os povos com retidão.”
*
O Salmo 96
“Cantai
ao Senhor um cântico novo, / cantai ao Senhor, Terra inteira! / Cantai ao
Senhor, bendizei o seu nome, /anunciai, de dia em dia, a sua salvação.
“Ide
contar entre os povos a sua glória, / em todas as nações, as suas maravilhas. /
Pois o Senhor é grande e digno de todo o louvor, / é mais temível do que todos
os deuses.
“Todos
os deuses dos povos são apenas ídolos, / mas o Senhor é que fez os céus. /Na
sua presença, há majestade e esplendor, / no seu santuário, beleza e poder.
“Dai
ao Senhor, famílias dos povos, / dai ao Senhor glória e poder. / Dai ao Senhor
a glória do seu nome, / levai as ofertas e entrai nos seus átrios.
“Inclinai-vos
diante do Senhor no esplendor do santuário; / e trema diante dele a terra
inteira! / Proclamai entre os povos: ‘O Senhor é rei!’. / Por isso, a
terra está firme, sem vacilar, * pois Ele faz justiça aos povos com equidade.
“Alegrem-se
os Céus e rejubile a Terra; / ressoe o mar e tudo o que ele contém. / Regozijem-se
os campos e tudo o que neles existe / e que todas as árvores da floresta
rejubilem:
“Diante
do Senhor que vem, / que vem para julgar a Terra! / Ele julga o Mundo com
justiça / e os povos com a sua fidelidade.”
***
Se
é necessário que o Senhor venha, também é preciso que partamos ao seu encontro:
“Aleluia.
Aleluia. Vimos a sua estrela no Oriente / e viemos adorar o Senhor.”
2026.01.04
– Louro de Carvalho
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