domingo, 4 de janeiro de 2026

O Natal é a encarnação do Verbo, a Epifania é a sua revelação ao Mundo

 

Enquanto a solenidade do Natal celebra o mistério da encarnação da Palavra de Deus feita homem e acontece num contexto judaico, a solenidade da Epifania do Senhor, faz transpor o Natal das fronteiras de Israel, mesmo as da diáspora judaica, as quais ultrapassam as barreiras geográficas, para benefício e obrigação do Mundo inteiro.
Na verdade, o Natal, que surgiu na Casa da Israel, não podia ficar ali enclausurado, tinha de se abrir ao Mundo, porque é o Mundo todo que precisa de ser justificado.
Assim, a liturgia da solenidade celebra a manifestação de Jesus a todos os homens, pois o Menino do presépio é a “luz” que se acende na noite do Mundo, atraindo a si todos os povos da Terra. Esta “luz” encarnou na nossa História, iluminou os caminhos dos homens, guiou-os ao encontro da salvação e da vida definitiva. Não podia ficar refém do povo judeu.

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A primeira leitura (Is 60,1-6) anuncia a Jerusalém a chegada da luz salvadora de Deus, luz que transfigurará o rosto da cidade, iluminará o regresso a casa dos exilados na Babilónia e atrairá à cidade de Deus os povos de toda a Terra.
Os capítulos 56-66 do Livro de Isaías apresentam um conjunto de profecias cuja proveniência não é consensual. Para alguns, são textos de um profeta anónimo pós-exílico, que profetizou em Jerusalém, após o regresso dos exilados da Babilónia, nos anos 537/520 a.C. Contudo, para a maioria, são textos de diversos autores pós-exílicos redigidos ao longo de um arco de tempo relativamente longo (provavelmente, entre os séculos. VI e V a.C.).
Estas profecias situam-nos em Jerusalém, cidade que os Babilónios deixaram em ruínas, em 586 a.C., e que, agora, começa a reerguer-se. As marcas do passado notam-se nas pedras calcinadas; os filhos e as filhas de Jerusalém que regressaram do exílio na Babilónia são em número reduzido; a pobreza obriga à lentidão e à modéstia da reconstrução; os inimigos estão à espreita e a população está desanimada. Porém, sonha-se com o dia em que Deus vai voltar à sua cidade, para trazer a salvação definitiva ao Povo. Jerusalém voltará a ser a cidade bela e harmoniosa, o Templo será reconstruído e Deus habitará para sempre no meio do seu Povo.
O trecho em apreço é uma glorificação de Jerusalém, a cidade da luz, a “cidade dos dois sóis” (o sol nascente e o sol poente: pela sua situação geográfica, no alto das montanhas da Judeia, a cidade é iluminada desde o nascer do dia, até ao pôr do sol).
Jerusalém está mergulhada na obscuridade da noite. De súbito, brada a sentinela, anunciando a aurora. O Sol aparece atrás das montanhas, no Oriente, e ilumina as pedras brancas do casario. A cidade, em reconstrução, parece transfigurada pela luz matutina. É como se tivesse tirado os vestidos negros de viúva e se vestisse de branco, como noiva preparada para acolher o amado.
O profeta/poeta que viu esta transformação sente-se inspirado por ela e sonha com a Jerusalém nova, iluminada pela luz salvadora de Deus. Quando a luz de Deus se levantar sobre Jerusalém e a iluminar, novamente, a cidade que parecia viúva triste, sem marido (porque Deus já não residia no Templo, queimado e destruído) e abandonada pelos filhos (exilados na Babilónia), vestir-se-á de alegria, como jovem resplandecente no vestido de noiva e adornada com suas belíssimas joias. Os filhos, exilados em terra estrangeira, regressarão em triunfo (“trazidos nos braços”), devolvendo a alegria e a vida à cidade. Mas a luz salvadora de Deus que brilha sobre Jerusalém fará ainda mais: atrairá homens e mulheres de todas as raças e nações, que convergirão para Jerusalém, inundando-a de riquezas (sobretudo, de incenso, para o serviço do Templo) e cantando os louvores de Deus.
Este anúncio profético acende a esperança nos corações cansados e abatidos dos exilados. Todos ficarão à espera do dia supremamente festivo em que começará a brilhar a luz salvadora e transformadora. Mateus liga esta profecia à chegada de Jesus. Todavia, esta profecia apenas enfatiza a caminhada para Jerusalém. E, embora tenha o mérito de incluir nessa caminhada povos de todas as etnias (e não só os judeus dispersos), ainda lhe falta a caminhada inversa – de Jerusalém para todos os confins do Mundo.  
Na catequese cristã primeva, a Jerusalém nova, que já “não necessita de Sol nem de Lua para a iluminar, porque é iluminada pela glória de Deus”, é a Igreja – a comunidade dos que aderem a Jesus e acolhem a luz salvadora que Ele veio trazer. Será que nas nossas comunidades cristãs e religiosas brilha a luz libertadora de Jesus, que leva a superar desavenças e conflitos, falta de amor e de partilha, ciúmes e rivalidades, passividade e conformismo? Haverá, na comunidade cristã, espaço e voz para todos os que buscam a luz libertadora de Deus, de modo que os irmãos cuja vida é considerada irregular ou não condizente com a visão oficial são acolhidos, respeitados e amados, assim como as diferenças próprias da diversidade de culturas são vistas como uma riqueza que importa preservar?  A nossa comunidade cristã é o hospital onde “todos, todos, todos” podem curar as feridas que a vida lhes infligiu?

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No Evangelho (MT 2,1-12), vê-se a concretização desta promessa do Livro de Isaías: ao encontro de Jesus vêm uns “magos” do Oriente, que representam todos os povos da Terra. Atentos aos sinais da chegada do Messias, os magos procuram-No, com esperança até O encontrarem, reconhecem n’Ele a “salvação de Deus” e aceitam-No como “o Senhor”. A salvação rejeitada pelos habitantes de Jerusalém torna-se dom que Deus oferece a todos os homens, sem exceção. Para Ele não havia lugar na Judeia, mas há-o no Mundo.
O episódio mateano da visita dos magos ao Menino de Belém é um episódio de grande beleza, que se tornou, rapidamente, muito popular, entre os cristãos. Ao longo dos séculos, a piedade popular embelezou-o com acrescentos que, na maior parte dos casos, não encontram eco no texto evangélico. Chamam-lhes reis, quando o texto fala de “uns magos”. E até lhes atribuem nomes – Melquior (também chamado Melchior ou Belchior), Baltasar e Gaspar – que significam, em hebraico, respetivamente, “rei da luz” (melichior), “o branco” (gathaspa) e “senhor dos tesouros” (bithisarea).
Os biblistas estão de acordo em que este relato se encaixa na categoria do midrash haggádico, um método de leitura e de exploração do texto bíblico muito utilizado pelos rabis de Israel, que incluía o recurso a histórias fantasiosas, para ilustrar um ensinamento. Na verdade, Mateus não pretende descrever a visita de personagens importantes ao Menino do presépio, mas apresentar Jesus como o enviado de Deus Pai, que vem oferecer a salvação de Deus aos homens de toda a Terra.
Na base da inspiração de Mateus pode estar a crença generalizada, na região do Crescente Fértil, de que qualquer criança que nascia tinha a sua própria estrela e de que uma nova estrela anunciava um acontecimento que mudaria a História humana. Ainda hoje, se diz de alguém que a sua estrela o favoreceu ou que ele/a deixou de ver a sua estrela.
Também é provável que Mateus se tenha inspirado, para construir esta narrativa, num texto do Livro dos Números onde um profeta chamado Balaão, “o homem de olhar penetrante” (Nm 24,15), anuncia “uma estrela que sai de Jacob e um cetro flamejante que surge do seio de Israel” (Nm 24,27). Esse anúncio teve, sempre, para os teólogos de Israel, claro sabor messiânico.
Além disso, o relato de Mateus faz referência ao rei que governava a Palestina, por ocasião do nascimento de Jesus: Herodes, “o Grande”, falecido no ano 4 a.C., cerca de dois anos após o nascimento de Jesus. Embora se tenha distinguido pelas grandes obras que levou a cabo, foi um rei cruel e despótico, sempre pronto a matar para defender o trono.
A análise dos vários pormenores do relato confirma que a preocupação do evangelista não é de tipo histórico, mas catequético.
Antes de mais, Mateus insiste no facto de Jesus ter nascido em Belém de Judá. Para entender esta insistência, temos de recordar que Belém era a terra natal do rei David e que era a Belém que estava ligada a família de David. Afirmar que Jesus nasceu em Belém é ligá-Lo aos anúncios proféticos que falavam do Messias como o descendente de David que havia de nascer em Belém e restaurar o reino ideal de seu pai. Lucas diz que o Messias, o Santo, é descendente de David, se sentará no seu trono e será chamado Filho do Altíssimo e Filho de Deus.
Em segundo lugar, a referência a uma estrela que apareceu no céu por esta altura e que conduziu os “magos” para Belém, interpretada como facto histórico, levou alguém a cálculos astronómicos complicados para concluir que, no ano 6 a.C., uma conjunção de planetas explicaria o fenómeno luminoso da estrela refulgente mencionada por Mateus; outros andaram à procura de um cometa que, por esta época, devia ter sulcado os céus do Médio Oriente. Tudo isso pode ser verdade, mas é inútil procurar, nos céus, a estrela ou cometa em causa, pois Mateus está, simplesmente, a dizer-nos que o Menino de Belém é essa “estrela de Jacob” de que falava o anúncio profético de Balaão e que, pelo seu nascimento, se concretiza a chegada da “luz salvadora” de que falava Isaías e que vai brilhar sobre Jerusalém e atrair à cidade santa povos de toda a Terra.
Quanto às figuras dos “magos”, é de referir que o vocábulo “mágos” (que parece ser de origem persa) abarca vasto leque de significados e é aplicado a personalidades muito diversas: mágicos, feiticeiros, charlatães, sacerdotes persas, propagandistas religiosos. Aqui, poderia designar astrólogos mesopotâmios, em contacto com o messianismo judaico. Em todo o caso, esses magos representam, na catequese de Mateus, os povos estrangeiros de que falava o Livro de Isaías (cf. Is 60,1-6), que se põem a caminho de Jerusalém com as suas riquezas – ouro, incenso e mirra, que significam, respetivamente, a realeza, a divindade e a humanidade – para encontrarem a luz salvadora de Deus que brilha sobre a cidade santa. Jesus é, na opinião de Mateus e da catequese da Igreja primitiva, essa “luz”.
Além de uma catequese sobre Jesus, o relato assinala, paradigmaticamente, duas atitudes que se repetirão ao longo de todo o Evangelho: o Povo de Israel rejeita Jesus, enquanto os magos do Oriente (que são pagãos e estrangeiros) O adoram; Herodes e Jerusalém “ficam perturbados”, ante a notícia do nascimento do menino e planeiam a sua morte, ao passo que os pagãos sentem uma grande alegria e reconhecem em Jesus o seu salvador.
Mateus anuncia, desta forma, que Jesus será rejeitado pelo seu Povo, mas será acolhido pelos pagãos, que entrarão a fazer parte do novo Povo de Deus. O itinerário seguido pelos magos reflete a caminhada que os pagãos percorreram para encontrarem Jesus: estão atentos aos sinais (estrela), percebem que Jesus é a luz que traz a salvação, põem-se, decididamente, a caminho para O encontrarem, perguntam aos judeus – que conhecem as Escrituras – o que fazer, encontram Jesus e adoram-No como “o Senhor”. É possível que grande número de pagano-cristãos da comunidade de Mateus descobrisse, neste relato, as etapas do seu caminho em direção a Jesus. 
Elucidativo, na questão da universalidade da salvação em Cristo, é o grande quadro renascentista “Adoração dos Reis Magos”, de Vasco Fernandes (Grão Vasco) e Francisco Henriques, exposto no Museu Grão Vasco, em Viseu, que se destaca, por apresentar o primeiro índio brasileiro na arte ocidental, substituindo Baltazar, num gesto simbólico da evangelização e da nova era dos Descobrimentos, exibindo trajes exóticos e elementos ameríndios. A salvação é para os povos de toda a parte e de todos os tempos.

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A segunda leitura (Ef 3,2-3a.5-6) apresenta o projeto salvador de Deus como uma realidade que vai atingir toda a Humanidade, juntando judeus e pagãos na mesma comunidade de irmãos – a comunidade de Jesus.
O tema mais importante da Carta aos Efésios é o que o epistológrafo chama “o mistério”, ou seja, o projeto salvador de Deus, definido e elaborado, desde sempre, oculto, durante séculos, revelado e concretizado, plenamente, em Jesus, comunicado aos apóstolos e, nos “últimos tempos”, tornado presente no Mundo pela Igreja.
Na parte dogmática da carta (cf. Ef 1,3-3,19), Paulo apresenta a catequese sobre “o mistério”: após um hino que celebra a ação do Pai, do Filho e do Espírito Santo na obra da salvação, fala da soberania de Cristo sobre os poderes angélicos e do seu papel como cabeça da Igreja; depois, reflete sobre a situação universal do homem, mergulhado no pecado, e afirma a iniciativa salvadora e gratuita de Deus em favor do homem; e expõe, a seguir, Cristo, que, realizando “o mistério”, operou a reconciliação de judeus e de pagãos num só corpo, que é a Igreja.
O trecho em causa vem nesta sequência: Paulo apresenta-se como testemunha do “mistério”, ante os judeus e ante dos pagãos.
A Paulo, apóstolo como os Doze, também foi revelado “o mistério”, que Paulo aqui desvela aos crentes da Ásia Menor. O apóstolo das Gentes insiste que, em Cristo, chegou a salvação definitiva para os homens; e essa salvação não se destina, exclusivamente, aos judeus, mas a todos os povos da Terra, sem exceção. Paulo é, por chamamento divino, pregoeiro desta novidade. Percebemos, assim, porque se fez Paulo o grande arauto da “boa nova” de Jesus, entre os pagãos.
Agora, judeus e gentios são membros do mesmo e único corpo (o “corpo de Cristo” ou Igreja), partilham o mesmo desígnio salvador que os faz, em igualdade de circunstâncias com os judeus, “filhos de Deus”; e todos participam da promessa feita por Deus a Abraão, promessa cuja realização Cristo levou a cabo e para cuja concretização, em toda a parte, fez dos discípulos apóstolos para levarem a todos os confins da Terra o anúncio da Salvação. Era preciso ir por todo o Mundo a fazer discípulos em todas as nações, ensinando e fazendo o que e como Ele ensinou e fez, mas deixando a todos a liberdade de crer ou de não crer.

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Ilustram a universalidade da salvação, por exemplo:

* O Salmo 72, que serve de cântico responsorial, na solenidade

“Virão adorar-Vos, Senhor, todos os povos da Terra.”

“Ó Deus, concedei ao rei o poder de julgar / e a vossa justiça ao filho do rei. / Ele governará o vosso povo com justiça / e os vossos pobres com equidade.

“Florescerá a justiça nos seus dias / e uma grande paz até ao fim dos tempos. / Ele dominará de um ao outro mar, / do grande rio até aos confins da Terra.

“Os reis de Társis e das ilhas virão com presentes, / os reis da Arábia e de Sabá trarão as suas ofertas. / Prostrar-se-ão diante dele todos os reis, / todos os povos o hão de servir.

“Socorrerá o pobre que pede auxílio / e o miserável que não tem amparo. / Terá compaixão dos fracos e dos pobres / e defenderá a vida dos oprimidos.”

* O Salmo 98

“Cantai ao Senhor um cântico novo, / porque Ele fez maravilhas! / A sua mão direita e o seu santo braço / lhe deram a vitória.

“O Senhor anunciou a sua vitória, / revelou a sua justiça aos olhos dos povos. / Lembrou-se da sua misericórdia e fidelidade / para com a casa de Israel.

“Todos os confins da terra viram / a salvação do nosso Deus. / “Aclamai o Senhor, terra inteira, / gritai, rejubilai e cantai.

“Cantai ao Senhor, ao som da harpa, / ao som da harpa e da lira. / Com as trombetas e ao som do cornetim, / aclamai na presença do Senhor, que é rei.

“Ressoe o mar e tudo o que ele contém, / o Mundo e os que nele habitam. / Que os rios batam palmas, em coro, as montanhas gritem de alegria, / diante do Senhor, que vem julgar a Terra! * Ele julga o Mundo com justiça / e os povos com retidão.”

* O Salmo 96

“Cantai ao Senhor um cântico novo, / cantai ao Senhor, Terra inteira! / Cantai ao Senhor, bendizei o seu nome, /anunciai, de dia em dia, a sua salvação.

“Ide contar entre os povos a sua glória, / em todas as nações, as suas maravilhas. / Pois o Senhor é grande e digno de todo o louvor, / é mais temível do que todos os deuses.

“Todos os deuses dos povos são apenas ídolos, / mas o Senhor é que fez os céus. /Na sua presença, há majestade e esplendor, / no seu santuário, beleza e poder.

“Dai ao Senhor, famílias dos povos, / dai ao Senhor glória e poder. / Dai ao Senhor a glória do seu nome, / levai as ofertas e entrai nos seus átrios.

“Inclinai-vos diante do Senhor no esplendor do santuário; / e trema diante dele a terra inteira! / Proclamai entre os povos: ‘O Senhor é rei!’. / Por isso, a terra está firme, sem vacilar, * pois Ele faz justiça aos povos com equidade.

“Alegrem-se os Céus e rejubile a Terra; / ressoe o mar e tudo o que ele contém. / Regozijem-se os campos e tudo o que neles existe / e que todas as árvores da floresta rejubilem:

“Diante do Senhor que vem, / que vem para julgar a Terra! / Ele julga o Mundo com justiça / e os povos com a sua fidelidade.”

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Se é necessário que o Senhor venha, também é preciso que partamos ao seu encontro:

“Aleluia. Aleluia. Vimos a sua estrela no Oriente / e viemos adorar o Senhor.”

2026.01.04 – Louro de Carvalho


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