domingo, 4 de janeiro de 2026

Tragédia na Suíça ensombrou o primeiro dia do ano de 2026


A polícia suíça revelou, nas primeiras horas de 1 de janeiro, que várias dezenas pessoas morreram e mais de cem pessoas ficaram feridas, na passagem de ano, quando uma explosão devastou um bar, que estava cheio, na luxuosa estância de esqui de Crans-Montana, no coração dos Alpes Suíços, a apenas 40 quilómetros (25 milhas) a Norte do Matterhorn, o que levou os investigadores a trabalharem para determinarem a causa do incêndio.
O incêndio, que deflagrou pela 1h30 da madrugada de 1 de Janeiro, destruiu o bar Le Constellation da estância de esqui de Crans-Montana, no sudoeste da Suíça. Imagens divulgadas pelos meios de comunicação suíços mostravam o edifício em chamas e os serviços de emergência nas proximidades. E, segundo Gaetan Lathion, porta-voz da polícia do Cantão de Valais, foi criado um centro de acolhimento e uma linha de apoio para as famílias afetadas.

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Os números do balanço das autoridades sobre incêndio que deflagrou, durante a festa de Ano Novo, onde centenas de pessoas, sobretudo jovens, festejavam a chegada de 2026, dão conta de, pelo menos, 49 mortos e 119 feridos (a maioria com queimaduras), 113 dos quais já foram identificados. Entre os feridos, foram identificados 71 cidadãos suíços, 14 franceses, 11 italianos, quatro sérvios, um bósnio, um português, um polaco, um belga e um luxemburguês, conforme foi revelado em conferência de imprensa, na tarde de 1 de janeiro.
Posteriormente, em esclarecimento à agência Lusa, Emídio Sousa, secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, detalhou que o cidadão português ferido é uma mulher, que tinha sido internada num hospital, em Sion, na Suíça, e que tem origens em Mirandela, no distrito de Bragança. E, em declarações posteriores à SIC Notícias, identificou a vítima como sendo Liliana Mateus Baptista, “na casa dos 40 anos”, sobre a qual não foi ainda possível detalhar a gravidade dos ferimentos. Além deste caso, o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas reportou o desaparecimento de Fanny Pinheiro Magalhães, cidadã portuguesa de 22 anos originária de Santa Maria da Feira.
“As nossas equipas estão a fazer o máximo para salvar vidas, [para] apoiar as famílias e [para] identificar as vítimas, o mais rapidamente possível”, declarou Mathias Reynard, presidente do cantão de Valais.
O presidente suíço, Guy Parmelin, disse que o incêndio foi uma das piores tragédias que o país já viveu. As autoridades adiantaram que alguns dos feridos estão a ser transportados para hospitais em países vizinhos, depois de a Itália, a França, a Alemanha e a União Europeia (UE) terem oferecido a sua assistência. Três deles já estão a receber assistência na França e outros oito estão a ser transferidos. Foi celebrada missa na noite do dia 1, em homenagem às vítimas do incêndio, na igreja da vila, com a presença de 400 pessoas. Além desta, está agendada, para 9 de janeiro, uma outra cerimónia em Crans-Montana, para recordar todos aqueles e aquelas que perderam a vida. E o governo suíço anunciou cinco dias de luto nacional.
De acordo com a RTP, anteriormente, o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas tinha assegurado que o governo estava em contacto permanente com as autoridades da Suíça. Serão cerca de 270 mil os portugueses que vivem no país e no Cantão de Valais, onde se situa esta estância, serão cerca de 64 mil.
As autoridades classificaram a ocorrência como um “incêndio generalizado”, expressão usada pelos bombeiros para descrever como um incêndio pode provocar a libertação de gases combustíveis que podem inflamar-se violentamente.
A cadeia de televisão francesa BFMTV mostrou fotografias, tiradas por sobreviventes do episódio trágico, em que se veem jovens a festejar com “velas-foguete” acesas presas a garrafas de champanhe. Numa das fotos, uma jovem está aos ombros de outra pessoa, brandindo duas garrafas com velas muito próximas do teto da cave do bar. E, noutra fotografia, parece ver-se uma dessas velas a pegar fogo ao teto. “Esta noite deveria ter sido um momento de celebração e união, mas transformou-se num pesadelo”, disse Mathias Rénard, chefe do governo regional.
Entretanto, na tarde do dia 3, em conferência de imprensa, a procuradora-geral de Valais, Beatrice Pilloud, sustentou que “tudo leva a crer que o incêndio teve origem nas velas incandescentes e nos fogos de artifício colocados nas garrafas”. “A partir daí, tudo pegou fogo”, disse.
Vídeos, testemunhos e verificações no local permitiram chegar a esta conclusão. Os dois gerentes franceses do estabelecimento foram ouvidos, no âmbito deste caso. A investigação centra-se, agora, nas recentes obras realizadas no bar, nos materiais utilizados, nas autorizações necessárias, nas medidas de segurança e no número de pessoas presentes, aquando do incidente.
Segundo as autoridades, “helicópteros e ambulâncias correram para o local, para ajudar as vítimas, incluindo algumas de diferentes países”. Porém, “os feridos eram tantos que a unidade de cuidados intensivos e a sala de operações do hospital regional, rapidamente, atingiram a sua capacidade máxima”, relatou Matias Rénard.

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Como dissemos, a comunidade de Crans-Montana fica no coração dos Alpes suíços, a apenas 40 quilómetros (25 milhas), a Norte do Matterhorn, num mais famosos dos picos alpinos nevados e de floresta de pinheiros, e a 130 quilómetros (81 milhas), a Sul de Zurique. E o ponto mais alto de Crans-Montana, com uma população de 10 mil habitantes, fica à altitude de quase três mil metros, de acordo com o site do município, que afirma que as autoridades estão a tentar afastar-se da cultura turística e a atrair investigação e desenvolvimento de alta tecnologia.
O município foi formado, há apenas nove anos, a 1 de janeiro de 2017, quando várias cidades se fundiram. Estende-se por 590 hectares (2,3 milhas quadradas) desde o Vale do Ródano até ao glaciar Plaine Morte.
Crans-Montana é um dos principais locais de competição do circuito da Taça do Mundo de esqui alpino e sediará o próximo campeonato mundial, durante duas semanas, em fevereiro de 2027. Daqui a quatro semanas, o resort receberá os melhores esquiadores masculinos e femininos de descida livre para as suas últimas provas, antes das Olimpíadas de Milão Cortina, que começam a 6 de fevereiro.
A estância é também um local privilegiado para o golfe internacional. O clube Crans-sur-Sierre organiza o European Masters, todos os anos, em agosto, num campo pitoresco com vistas deslumbrantes para as montanhas.

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Na tarde de três de janeiro, foi revelado que os corpos das pessoas identificadas tinham sido entregues às famílias, que os feridos graves estavam a ser tratados, no país e no estrangeiro, e que estão a decorrer investigações sobre a segurança contra incêndios, sobre os defeitos estruturais e sobre a eventual responsabilidade criminal.
De acordo com o jornal suíço “Blick”, a polícia cantonal do Valais identificou ainda quatro vítimas mortais. Trata-se de duas mulheres suíças, de 21 e 16 anos, e de dois homens suíços, de 18 e 16 anos. Após a identificação, os corpos foram entregues às famílias.
Paralelamente, está a ser organizada a ajuda internacional às muitas vítimas gravemente feridas. A Alemanha está particularmente empenhada no tratamento das vítimas da catástrofe. Quatro pacientes já foram admitidos em hospitais alemães, logo após a catástrofe, e seguiram-se mais sete, de acordo com o Gabinete Federal de Proteção Civil e Assistência a Catástrofes (BBK). Também estão disponíveis capacidades adicionais de transporte e de tratamento.
De acordo com o Serviço Federal Suíço de Proteção Civil, um total de 50 pessoas feridas deverá ser transferido para hospitais no estrangeiro, até ao dia 11. Além da Alemanha, estão previstos hospitais na França, na Itália e na Bélgica para receber os feridos. Muitos dos sobreviventes estão a ser submetidos a tratamentos prolongados. Cinco menores de idade vítimas de queimaduras estão a ser tratados no Hospital Pediátrico de Zurique, como disse à SRF Kathrin Neuhaus, médica-chefe do centro de queimaduras. Em alguns casos, mais de 70% da superfície corporal foi queimada. Além disso, muitas pessoas afetadas sofreram graves danos nos pulmões, devido à inalação de fumo.
Enquanto prossegue o tratamento das vítimas do incêndio, aumentam as críticas à segurança contra incêndios e às caraterísticas estruturais do bar. Segundo testemunhas oculares, verificou-se maciço esmagamento numa escada estreita que vai da cave ao rés do chão, quando as pessoas tentavam sair do bar “Le Constellation”. E o “Blick” informou que, de acordo com fotografias na página de Facebook do operador, esta escada foi aparentemente, estreitada durante um projeto de remodelação, em 2015.
Um empregado de bar, de 31 anos, de Crans-Montana, refere que havia apenas uma entrada e uma saída combinadas, bem como outra saída de emergência, mas que esta estava sempre bloqueada, durante as suas visitas. A saída de emergência estava localizada numa sala separada, que era utilizada como sala de fumo. “Toda a gente na cidade sabia que isto iria correr mal, em algum momento”, declarou ao jornal alemão “BILD”.
Os especialistas em segurança contra incêndios, Peter Wilkinson e Edwin Galea, disseram à BBC que a espuma de poliuretano que absorve o som no teto se terá inflamado durante o incêndio. Este material é extremamente inflamável e pode libertar fumo denso e tóxico, o que reduz, consideravelmente, o tempo de fuga.
Segundo a procuradora-geral Beatrice Pilloud, o Ministério Público (MP) está a examinar, entre outros aspetos, as transformações, os materiais utilizados, as licenças de exploração, as precauções de segurança e as vias de evacuação, assim como está a investigar se os sobreviventes presentes podem ser processados. Fotografias e vídeos mostram os foliões com fogo de artifício em garrafas de champanhe, o que, de acordo com as primeiras conclusões, poderia ter incendiado a espuma no teto. Segundo Pilloud, poderá ser considerada a hipótese de fogo posto por negligência ou de homicídio involuntário. Porém, até à data, não há indícios correspondentes.
Os proprietários do bar, Jacques e Jessica Moretti, foram interrogados pela polícia, no dia 3, pois, de acordo com o jornal francês “Le Parisien”, Jacques Moretti é conhecido da polícia da França por crimes anteriores.

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A estância de Crans-Montana, conhecida como local internacional de esqui e de golfe, viu o seu bar Le Constellation a passar de local de folia para o local de uma das piores tragédias da Suíça.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, expressou solidariedade ao seu homólogo suíço, “pela tragédia que assinalou a passagem do ano, provocando tantos mortos e feridos, num momento que se desejaria ser de júbilo e de esperança”.
A nacionalidade de 14 pessoas ainda não foi determinada, como adiantaram, ao início da tarde do dia 3, as autoridades locais, em conferência de imprensa.
O canal de televisão francês BFMTV divulgou uma fotografia que mostra aquele que parece ser o momento em que deflagrou o fogo. Na imagem, veem-se vários jovens com tochas nas mãos, elevadas e próximas do teto, o que aparentemente terá provocado as chamas. Terá sido a partir daqui que o fogo alastrou. A procuradora-geral do cantão de Valais diz que o incêndio poderá ter começado em velas com faíscas colocadas em garrafas de champanhe. E as autoridades estão também a investigar o revestimento do teto.
O incêndio levou a tentativa desesperada de fuga. Duas mulheres contaram ao canal francês BFMTV que estavam no interior do estabelecimento, quando viram um barman a transportar uma barman aos ombros, enquanto esta segurava uma vela acesa numa garrafa. As chamas propagaram-se, derrubando o teto de madeira. “As pessoas tentaram desesperadamente escapar da discoteca no subsolo, subindo uma escada estreita e passando por uma porta estreita, formando uma multidão”, disse uma das mulheres.
Um jovem, que estava no local, disse que as pessoas partiram janelas, para escaparem ao incêndio. Viu cerca de 20 pessoas em luta, para saírem do fumo e das chamas, algo comparável a um filme de terror.
As vítimas sofreram queimaduras graves e inalação de fumo. Algumas foram levadas, de avião, para hospitais especializados de todo o país. A maioria dos feridos será tratada, durante “muito tempo” e “precisará de reabilitação”. Por isso, em face da sobrecarga no sistema de saúde, as autoridades pediram à população que tenha cuidado, nos próximos dias, para evitar acidentes que sobrecarreguem ainda mais os recursos médicos já saturados.
O governo suíço disse que já recebeu várias mensagens e telefonemas de condolências e solidariedade de governos, após o incêndio, e precisou que vários deles se ofereceram para receberem feridos com queimaduras muito graves e extensas.
A primeira vítima foi identificada no dia 3. É Emanuele Galeppini, jovem golfista italiano, de 17 anos. A confirmação foi feita pela Federação Italiana de Golfe (FIG), por nota publicada no site oficial, lamentando a morte do jovem atleta que trazia consigo “paixão e valores autênticos”.
A Comissão Europeia disse estar “em contacto” com as autoridades suíças, para prestar assistência médica às vítimas do incêndio. E o governo belga declarou que vai disponibilizar tratamento, nos seus hospitais, a cinco doentes com queimaduras graves e a dois que necessitam de cuidados intermédios.
Apesar de terem referido que era muito cedo para determinar a causa do incêndio, as autoridades suíças descartaram a possibilidade de ter sido um atentado.
Guy Parmelin, presidente da Suíça, afirmou que é “um drama de dimensão desconhecida” e prestou homenagem às muitas “vidas jovens que se perderam e [que] foram interrompidas”. E revela o “The Guardian” que, após o anúncio dos cinco dias de luto nacional, Guy Parmelin sublinhou que a Suíça deve às vítimas, cujos projetos, esperanças e sonhos foram abruptamente cortados, a tomada de medidas, para que jamais ocorra tragédia semelhante.

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Como se entrelê, a Suíça, aliás como outros países, nem sempre é exemplo no rigor da qualidade das instalações que servem público. O lucro tende a sobrepor-se à segurança. E, quando vale tudo, em diversão e em folia, sem que as administrações estejam vigilantes e moderadoras, as tragédias podem acontecer. Não é preciso um ataque terrorista para haver vítimas.
Homenageiem-se os mortos, amparem-se as suas famílias e trate-se dos feridos – o que postula solidariedade –, mas aprenda-se a lição para futuro.  

2026.01.04 – Louro de Carvalho


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