sábado, 17 de janeiro de 2026

Conselho de Paz para a Faixa de Gaza está formado, mas inverno aflige

 

 

O presidente dos Estados Unidos da América (EUA) divulgou, a 16 de janeiro, a composição do Conselho de Paz para a Faixa de Gaza, a que presidirá, e que inclui o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, e o antigo primeiro-ministro britânico, Tony Blair.
“Tenho a honra de anunciar que o Conselho de Paz foi formado. A lista de membros do conselho será divulgada em breve”, escreveu Donald Trump, na sua plataforma de rede social, Truth Social.
Também integrará o órgão o enviado especial do presidente norte-americano, Steve Witkoff, assim como o genro do presidente, Jared Kushner, o presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, o vice-conselheiro de segurança nacional norte-americano, Robert Gabriel, e o bilionário norte-americano Marc Rowan.
Nickolay Mladenov, antigo político búlgaro e enviado das Nações Unidas para o Médio Oriente, será o representante do conselho executivo que supervisiona as questões do dia a dia.
A Casa Branca anunciou também os membros de um outro conselho, o “Conselho Executivo de Gaza”, que trabalhará com Nickolay Mladenov, o conselho de administração, o comité tecnocrático e a força internacional de estabilização.
Steve Witkoff, Jared Kushner, Tony Blair, Marc Rowan e Nickolay Mladenov também farão parte do conselho executivo. Outros membros incluem o ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Hakan Fidan, o diplomata do Qatar, Ali Al-Thawadi, e o diretor da Agência Geral de Informações do Egito, Hassan Rashad. E o conselho de administração incluirá o ministro dos Emirados Árabes Unidos (EAU), Reem Al-Hashimy, o empresário israelita Yakir Gabay e a antiga vice-primeira-ministra dos Países Baixos e especialista em Médio Oriente, Sigrid Kaag.
O Conselho de Paz vai supervisionar um comité palestiniano de tecnocratas que iniciou os seus trabalhos no Cairo, com o objetivo de administrar, provisoriamente, o território durante a transição do conflito para a paz.
Segundo a Casa Branca, cada um dos nomeados supervisionará “uma pasta definida, crucial para a estabilização e [para] o sucesso a longo prazo de Gaza, incluindo, entre outros, o desenvolvimento, a governação, as relações regionais, a reconstrução, a atração de investimento, o financiamento em grande escala e a mobilização de capital”.
O Conselho de Paz tutelará o recém-criado comité tecnocrático composto por 15 personalidades palestinianas que deverá administrar, provisoriamente, o território e que, segundo noticiou a al-Qahera News, um meio de comunicação social ligado ao Egito, se reuniu, pela primeira vez, no dia 16, na cidade do Cairo, no Egito.
O Egito anunciou um consenso sobre os nomes dos 15 membros do comité tecnocrático palestiniano que vai administrar a Faixa de Gaza, nos termos do plano do Presidente norte-americano, Donald Trump.
“A formação do comité é um passo no bom sentido. Isto é essencial para consolidar o cessar-fogo, impedir um regresso à guerra, [para] enfrentar a crise humanitária catastrófica e [para] preparar uma reconstrução global”, declarou Bassem Naim, uma das principais figuras do movimento islamista palestiniano, num comunicado.
Aliás, a maioria dos movimentos palestinianos manifestaram apoio ao comité tecnocrático palestiniano de 15 membros encarregado de administrar a Faixa de Gaza, após o Egito ter anunciado um acordo de todas as partes sobre a sua composição.
Num comunicado divulgado no final de uma reunião no Cairo, o movimento islamita Hamas, a presidência da Autoridade Palestiniana (AP) e o grupo Jihad Islâmica afirmaram “apoiar os esforços dos mediadores para a formação do comité nacional palestiniano transitório”.
Noutro comunicado, citado pela agência de notícias oficial Wafa, a presidência palestiniana, com sede em Ramallah, expressou também o total apoio a este órgão, o que, de acordo com uma fonte da presidência, “reflete a posição da Fatah”, partido liderado pelo presidente palestiniano, Mahmud Abbas.
O enviado especial de Donald Trump para a Faixa de Gaza e Ucrânia, Steve Witkoff, tinha anunciado, no dia 14, que o plano norte-americano para o fim da guerra no território tinha entrado na segunda fase.
Esta fase, centrada no desarmamento do movimento islamita palestiniano Hamas, inclui a formação do Conselho de Paz para Gaza, que supervisionará um comité palestiniano de tecnocratas, temporário e apolítico. “O Conselho de Paz desempenhará um papel essencial no cumprimento dos 20 pontos do plano presidencial, proporcionando supervisão estratégica, mobilizando recursos internacionais e garantindo a responsabilização à medida que Gaza transita do conflito para a paz e o desenvolvimento”, refere um comunicado da Casa Branca.
De acordo com o mesmo comunicado, “para concretizar a visão do Conselho de Paz sob a presidência Trump, foi formado um conselho executivo fundador, composto por líderes nas áreas da diplomacia, desenvolvimento, infraestruturas e estratégia económica”.
Os trabalhos de reconstrução “assentarão, essencialmente”, no plano egípcio, que envolve árabes e islâmicos, afirmou o presidente do comité, Ali Shaath, antigo vice-ministro palestiniano, numa entrevista à al-Qahera News.
O plano em vigor, aprovado em março, com o apoio de países europeus, em resposta à proposta então apresentada por Trump de assumir o controlo do território palestiniano e de expulsar os seus habitantes (a famigerada nova Riviera), prevê a reconstrução da Faixa de Gaza, sem deslocar os seus mais de dois milhões de habitantes. “O dossiê da habitação é muito importante, depois da destruição de 85% das casas”, sublinhou Ali Shaath, engenheiro civil, destacando a necessidade de devolver a “dignidade ao cidadão palestiniano sentado em tendas levadas pelo vento”.
O acordo de cessar-fogo, iniciado a 10 de outubro de 2025, na Faixa de Gaza, prevê, igualmente, o desarmamento do Hamas, a retirada progressiva das tropas israelitas e o destacamento de uma força internacional de estabilização.
Donald Trump, alegando que, desde o cessar-fogo, os EUA contribuíram para o envio de níveis recorde de ajuda humanitária para Gaza, que tem chegado à população civil a uma velocidade e escala históricas, afirmou, no dia 16, que será obtido um “acordo abrangente de desmilitarização” com o Hamas, incluindo a “entrega de todas as armas e o desmantelamento de todos os túneis” na Faixa de Gaza.
No entanto, há meses que as organizações não-governamentais (ONG) a operar no território palestiniano lamentam os obstáculos impostos por Israel para deixar entrar mantimentos essenciais. Em contraponto, um alto responsável do Hamas saudou, no dia 15, a formação do comité de peritos (presidido por Nickolay Mladenov) encarregado de administrar a Faixa de Gaza, após a guerra, afirmando que este contribuirá para consolidar o cessar-fogo e [para] impedir o regresso aos combates.

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O líder do referido comité, Ali Shaath, engenheiro e antigo funcionário da Autoridade Palestiniana de Gaza, comprometeu-se a começar a trabalhar, rapidamente, para melhorar as condições de vida dos 2,1 milhões de habitantes do território. O povo palestiniano esperava, ansiosamente, por este comité, pela sua criação e pelo seu trabalho de salvamento”, declarou Shaath após a reunião, numa entrevista televisiva nos meios de comunicação social egípcios.
O presidente dos EUA apoia os esforços do grupo para governar Gaza, após a guerra de dois anos entre Israel e o Hamas, tendo as tropas israelitas retirado de partes de Gaza, após a entrada em vigor do cessar-fogo, a 10 de outubro, e tendo milhares de palestinianos deslocados regressado ao que resta das suas casas.
A próxima fase das tréguas coloca ainda uma série de grandes desafios, nomeadamente, o envio de uma força de segurança internacional, para supervisionar o acordo de cessar-fogo e o difícil processo de desarmamento do Hamas.
De acordo com o plano de Donald Trump, o comité tecnocrático de Shaath gerirá os assuntos do dia a dia, em Gaza, sob a supervisão do “Conselho de Paz” liderado por Trump, cujos membros já foram nomeados.
Washington ainda não anunciou os papéis diretos que irá desempenhar cada uma das pessoas nomeadas, nem quando se espera que comecem a trabalhar, mas referiu que os pormenores serão divulgados nas próximas semanas.

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Já no dia 11, o Hamas tinha anunciado que irá dissolver a sua atual administração, em Gaza, depois de um comité de liderança tecnocrático palestiniano assumir o controlo da região, tal como exigido pelo plano negociado com os EUA para o enclave.
O grupo militante de Gaza e a rival Autoridade Palestiniana (AP), representante dos palestinianos reconhecido internacionalmente, não anunciaram os nomes dos tecnocratas, que não devem ter filiação política, e ainda não está claro se Israel e os EUA os aprovarão.
Já nessa data, constava que o governo e outros elementos da trégua que entrou em vigor a 10 de outubro, como o desarmamento do Hamas e o envio da força de segurança internacional seriam supervisionados pelo “Conselho de Paz”, um organismo internacional presidido pelo presidente dos EUA, embora os membros do conselho ainda não fossem conhecidos.
Em comentários publicados no seu canal no Telegram, no dia 11, o porta-voz do Hamas, Hazem Kassem, apelou à aceleração da criação do comité tecnocrático.
Trump disse que o “Conselho de Paz” irá monitorizar o comité e tratar do desarmamento do Hamas, do destacamento de uma força de segurança internacional, de novas retiradas das tropas israelitas e da reconstrução de Gaza.
Os EUA diziam ter registado poucos progressos em qualquer uma destas frentes, embora se esperasse que os membros do conselho fossem anunciados, na semana em curso, como realmente o foram. Entretanto, o número de mortos após o cessar-fogo continuou a aumentar em Gaza, com os disparos israelitas a terem matado três palestinianos, de acordo com fontes hospitalares.
É de recordar que o cessar-fogo começou com a suspensão dos combates e com a libertação dos reféns detidos em Gaza em troca de milhares de palestinianos detidos por Israel. 
No dia 11, o acordo ainda estava na sua primeira fase (o início da segunda só foi declarado no dia 14), visto que persistiam os esforços para recuperar os restos mortais do último refém que permanece em Gaza.
Um funcionário egípcio, que falou sob anonimato para discutir informações confidenciais, indicou que o Hamas estava a enviar uma delegação para conversações com funcionários do Egito, do Qatar e da Turquia sobre a passagem à segunda fase.
O funcionário egípcio disse que o Hamas se reuniria com outras fações palestinianas, na semana em curso, para finalizar a formação do comité. “A delegação do Hamas será presidida pelo negociador de topo Khalil al-Hayya”, revelou a mesma fonte.

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Após a guerra, juntamente com as suas consequências, a população da Faixa de Gaza enfrenta, agora, uma situação dramática, por força às tempestades de um inverno como há muito não se via na região. A chuva e o vento forte dos últimos dias destruíram os frágeis abrigos de milhares de palestinianos. Muitas tendas foram arrancadas pela força do vento e outras ficaram alagadas. 
Num campo onde vivem centenas de deslocados, o mau tempo provocou o desabamento de um prédio em ruínas e ficaram soterradas várias tendas. 
Pelo menos duas mulheres e uma adolescente ficaram debaixo dos escombros. 
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) fala numa situação grave com milhares de crianças a ficarem sem teto, com os colchões e roupa molhados, e a correrem, agora, o risco de hipotermia. 
Além disso, as fracas condições de higiene e de saneamento conjugadas com a fome, devido à guerra, torna propícia a propagação de doenças transmitidas pela água. 
A Agência das Nações Unidas para os refugiados alerta que as condições de vida na Faixa de Gaza. Já difíceis, mercê dos dois anos de conflito entre Israel e o Hamas, degradaram-se, nas últimas semanas, com um inverno particularmente severo. 
Sem acesso a materiais de construção e com a entrada insuficiente de ajuda e bens essenciais no território, os palestinianos tentam reerguer a vida como podem. Assim, em Khan Younis, uma família está a utilizar os destroços, pedras e lama para reconstruir as casas. 
As organizações humanitárias têm estado no terreno a distribuir tendas, coberturas plásticas e mantas pela população, mas avisam que mais de um milhão de pessoas continua com necessidade urgente de abrigo.

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Não há mal que venha só. Na verdade, a guerra provocou deslocações forçadas, destruição, fome, doenças, estropiamentos e mortes. Puderam os trânsfugas regressar à sua terra, mas encontraram casas e infraestruturas destruídas. E, para compor o cenário trágico, o inverno manda tempestades de água e de frio. É o fenómeno impiedoso das alterações climáticas a adensar o cenário desolador do pós-guerra. Por isso, a ajuda humanitária, em vez de diminuir, deve ser reforçada, pois, a fome continua e a doença e a morte continuam a ameaçar.

2026.01.16 – Louro de Carvalho

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