As
instituições europeias teimam em não se entenderem. O Parlamento Europeu (PE) votou,
a 21 de janeiro, a favor do envio do acordo comercial UE-Mercosul para o
Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE), deliberação que o atrasa,
significativamente, e até pode fazer descarrilar a sua aprovação final. Como
esperado, a votação foi apertada, com 334 eurodeputados a favor do recurso, 324
contra e 11 abstenções.
Ultrapassados os principais obstáculos políticos, ao fim de mais de duas décadas, o gigantesco acordo comercial enfrenta novo atraso na pendência de veredito judicial.
Ultrapassados os principais obstáculos políticos, ao fim de mais de duas décadas, o gigantesco acordo comercial enfrenta novo atraso na pendência de veredito judicial.
Assinado
a 17 de janeiro, em Assunção, no Paraguai, o instrumento de diplomacia
comercial que irá criar uma zona de comércio livre com mais de 700 milhões de
pessoas, é controverso, na União Europeia (UE), e vários países, como a França
e a Polónia, opuseram-se-lhe.
Os
seus defensores consideram-no uma grande oportunidade para as indústrias
europeias e uma forma de reforçar a posição geoestratégica da UE,
especialmente, numa altura de constante fricção com os Estados Unidos da
América (EUA). Porém, não se pode ignorar que suscitou a indignação dos
agricultores, preocupados com as implicações da entrada no mercado europeu de
alimentos baratos e de baixa qualidade provindos de países sul-americanos.
Tanto assim é que, na véspera da votação europarlamentar, houve protestos em
massa, em Estrasburgo, com milhares de agricultores a conduzirem tratores à
volta do edifício do PE e a entrarem em confronto direto com a polícia.
O
TJUE vai, pois, analisar se o acordo UE-Mercosul é compatível com os tratados
da UE.
Os
eurodeputados proponentes do recurso sustentam que a divisão do acordo de forma
a deixar a parte comercial apenas para aprovação do Conselho da UE e do PE foi
uma tática da Comissão Europeia para impedir os parlamentos nacionais dos estados-membros
de se pronunciarem sobre o acordo, o que pode ser considerado ilegal pelos
juízes. A ver vamos.
Além
disso, a resolução do PE que leva à impugnação do acordo questiona a legalidade
do “mecanismo de reequilíbrio” introduzido no acordo, que permite aos países do
Mercosul adotar medidas compensatórias, se futuras leis da UE reduzirem as suas
exportações para a Europa.
A
recente deliberação do PE suspende o processo da necessária aprovação no PE, prevista
em votação final, nos próximos meses. E a tomada de posição do TJUE poderá
demorar mais de um ano a ser emitida, pelo que a aprovação do acordo ficará
congelada. Todavia, a Comissão Europeia pode avançar com a sua aplicação
provisória, enquanto o recurso do PE está em análise, apesar de ter prometido,
em e-mails enviados aos eurodeputados, que não o faria.
Seja
como for, pelo resultado da votação, verifica-se que o PE está dividido ao meio
e vários grupos políticos estão divididos, quanto a esta relação com os países sul-americanos.
O
grupo Renew Europe (RE), os Verdes/ALE e a Esquerda promoveram a consulta e
são, em geral, contra o acordo comercial, embora com exceções. O grupo de
extrema-direita Patriotas pela Europa, que era a favor da consulta, não se
absteve de votar a favor de uma iniciativa vinda do lado esquerdo do PE, como
anunciado pelo presidente do grupo, Jordan Bardella.
Os
maiores grupos europarlamentares, o Partido Popular Europeu (PPE) e os
Socialistas e Democratas (S&D), defenderam o acordo e votaram contra o
recurso ao TJUE, mas, em ambas as famílias políticas, alguns eurodeputados
contestaram a posição do respetivo grupo.
Os
Conservadores e Reformistas Europeus deram liberdade de voto aos seus deputados
e surgiu mais uma divisão: os deputados polacos e franceses votaram a favor do
recurso, enquanto os deputados italianos, checos, belgas e dos Estados bálticos
votaram contra.
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Em
artigo intitulado “Como o Parlamento Europeu ainda pode bloquear o acordo com o
Mercosul”, publicado a 15 de janeiro pela Euronews, Peggy Corlin
sustentava que o acordo não podia ser aplicado (pelo menos, em definitivo), sem
a aprovação dos eurodeputados, que iriam votar, no dia 21, o projeto de
resolução a solicitar a análise da legalidade do mesmo.
Assim, em sua opinião, este instrumento estratégico da UE, “ainda não está fora de perigo”. Na verdade, vários países, sob a batuta da França, continuam a fazer-lhe cerrada oposição, aduzindo que “exporia os agricultores da UE a uma concorrência desleal, devido a normas de produção menos rigorosas na América Latina”.
Assim, em sua opinião, este instrumento estratégico da UE, “ainda não está fora de perigo”. Na verdade, vários países, sob a batuta da França, continuam a fazer-lhe cerrada oposição, aduzindo que “exporia os agricultores da UE a uma concorrência desleal, devido a normas de produção menos rigorosas na América Latina”.
“A
assinatura do acordo não marca o fim da História”, escrevia o presidente
francês, Emmanuel Macron, na rede social X, enquanto a presidente da
Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu,
António Costa, se preparavam para assinar o acordo, no dia 17, na América
Latina.
A
França estava determinada a levar a luta até ao PE, onde os eurodeputados poderiam
fazer descarrilar o acordo, visto que os tratados da UE exigem a aprovação parlamentar
para a ratificação dos acordos comerciais. E alguns críticos do acordo esperavam
“interpor uma ação judicial” junto do TJUE, a fim de o declarar ilegal, o que
aconteceu efetivamente.
O
projeto de resolução, de acordo com a Euronews, foi apresentado
pelas eurodeputadas dos Verdes, Majdouline Sbai (da França), e Saskia Bricmont
(da Bélgica), juntamente com Manon Aubry (da França), do grupo A Esquerda. Sendo
dada luz verde ao projeto de resolução, o PE poderá contestar a legalidade do “mecanismo
de reequilíbrio” previsto no acordo, que permite aos países do Mercosul tomar
medidas compensatórias, caso futuras leis comunitárias reduzam as suas
exportações para a Europa.
Os
opositores do acordo entendiam que “reunir uma maioria à volta de uma ação
judicial” podia “ser mais fácil do que bloquear o acordo” e que uma revisão
judicial “suspenderia todo o processo de ratificação”. “É útil pedir ao
Tribunal que, além das dinâmicas políticas e das posições sobre o Mercosul,
garanta que todas as disposições estão em conformidade com os tratados da UE e
não comprometem a independência ou a soberania legislativa da UE”, disse
Valérie Hayer, eurodeputada francesa que lidera o grupo liberal Renew. Ora, se
o TJUE considerar partes do acordo ilegais, as negociações com os países do
Mercosul terão de ser reiniciadas, apesar de a Comissão Europeia já ter passado
25 anos em negociações. Não obstante, a Comissão poderá aplicá-lo,
provisoriamente, após a sua assinatura.
Os
países que apoiam o acordo, entre os quais a Alemanha e a Espanha, insistem
numa aplicação o mais rápida possível, mesmo que provisória, antes da votação
final do PE, na tentativa de contrariar a influência dos EUA e da China na
América Latina. Contudo, a principal responsável da Comissão Europeia pelo
comércio, Sabine Weyand, disse aos eurodeputados, por mensagens de correio
eletrónico, que a aplicação provisória não começaria antes de o PE aprovar o
acordo. E Valérie Hayer considerou que, pelo contexto político, pela
sensibilidade do dossiê e pela instabilidade do PE, a presidente da Comissão
correria grande risco político, se decidisse fazer uma aplicação provisória.
Os
eurodeputados estavam profundamente divididos, consoante os países de que são oriundos.
A França, a Áustria, a Polónia, a Hungria e a Irlanda opuseram-se ao acordo, na
votação do dia 9, enquanto a Bélgica se absteve. Apenas 15 a 20 eurodeputados
poderiam influenciar o resultado.
Em
outubro, 269 deputados rejeitaram um parágrafo que saudava a conclusão do
acordo com o Mercosul numa resolução sobre a estratégia UE-América Latina,
enquanto 259 votaram a favor.
Os
apoiantes do acordo esperavam que o apoio dos governos da UE ajudasse a fazer
pender a balança do PE a favor da parceria com o Mercosul.
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A
18 de janeiro, a Euronews publicava mais um artigo de Peggy Corlin, sob
o título “UE aposta no Mercosul numa altura em que a geopolítica se confronta
com a reação dos eurocéticos”, a apontar que “as tensões geoeconómicas estão a
levar os apoiantes do acordo comercial UE-Mercosul a pressionar no sentido de
uma rápida ratificação”, correndo o acordo “o risco de inflamar o
euroceticismo, sobretudo em França, onde a maioria das forças políticas se lhe
opõe”.
Peggy Corlin lembrava que o acordo, destinado “a reforçar a posição geoestratégica da UE”, no entanto, “já expôs profundas falhas políticas no seio do bloco, com a França a emergir como o opositor mais vocal”.
Peggy Corlin lembrava que o acordo, destinado “a reforçar a posição geoestratégica da UE”, no entanto, “já expôs profundas falhas políticas no seio do bloco, com a França a emergir como o opositor mais vocal”.
Por
sua vez, durante a sua intervenção na cerimónia da assinatura, em Assunção, no
Paraguai, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmava a
escolha do “comércio justo, em vez das tarifas”, de “uma parceria produtiva a
longo prazo, em vez do isolamento”; e, em mensagem no X, qualificou o
acordo, “que já dura há 25 anos”, como uma “conquista de uma geração”, para “benefício
das gerações vindouras”.
Porém,
isso contraria a vontade de Paris, que votou contra o acordo, em votação-chave
do Conselho, a 9 de janeiro, apesar de a maioria dos estados-membros o ter
apoiado, divisão que, no dizer de Peggy Corlin, “corre o risco de alimentar a
narrativa de que o acordo do Mercosul está a ser imposto à França por Bruxelas”,
o que, segundo alguns analistas, revela a fraqueza negocial de Emmanuel Macron,
a nível europeu, graças à divisão que enfrenta no seu país.
Os
apoiantes aduzem que o acordo, que vai criar uma zona de comércio livre
transatlântica, é fundamental, para contrariar a crescente influência da China
na América Latina. E, em Bruxelas, é também considerado essencial para
diversificar os laços comerciais da UE, numa altura em que os EUA restringem o
acesso ao mercado e Pequim continua a reforçar a dependência europeia, em
relação aos materiais e tecnologias chineses.
De
acordo com o articulista, em França, a saga UE-Mercosul “transformou-se num
ponto de inflamação política que pode aprofundar o euroceticismo, num país cuja
maior delegação no Parlamento já vem do Rassemblement National (RN), de
extrema-direita, que está à frente nas sondagens para as próximas eleições
presidenciais”. Com efeito, o líder do RN, Jordan Bardella, deu início a um
voto de desconfiança no PE, e apresentou uma moção de desconfiança na
Assembleia Nacional (AN) de França, que foi rejeitada.
O
debate, em Paris, contrapõe os críticos, que “argumentam que o acordo exporia
os agricultores da UE à concorrência desleal das importações latino-americanas
que não cumprem as normas de produção do bloco”, aos apoiantes, segundo os quais
“os problemas agrícolas da França são de origem interna” tornando-se a relação
UE-Mercosul “um conveniente bode expiatório”.
Apesar
de tudo, como refere Peggy Corlin, os opositores garantiram disposições
ambientais fundamentais, contingentes pautais para produtos sensíveis, como a
carne de bovino e de aves de capoeira, e cláusulas de salvaguarda, para evitar
perturbações no mercado, e a Comissão Europeia prometeu 45 mil milhões de euros
de apoio aos agricultores da UE, a partir de 2028. Estes compromissos concitaram
o apoio da Itália, mas não o da França, que salienta os magros ganhos
económicos do acordo, ou seja, que o acordo aumentaria o produto interno bruto
(PIB) da UE, em apenas 0,05%, até 2040. E os direitos aduaneiros sobre os
automóveis da UE – atualmente, de 35% e um dos principais motores do apoio
alemão – só seriam eliminados ao longo de 18 anos, quando os fabricantes de
automóveis chineses poderão ter assegurado significativa quota de mercado nos
países do Mercosul.
Os
eurodeputados que apoiam o acordo afirmam que outros setores podem ganhar em
áreas, como os serviços, os produtos lácteos, o vinho e as bebidas
espirituosas, enquanto as empresas da UE terão acesso aos mercados de contratos
públicos. Todavia, tais argumentos têm tido dificuldade em ganhar força, na
França, onde a resistência aos acordos de comércio livre é profunda. O acordo
de comércio UE-Canadá (CETA), provisoriamente em vigor, desde 2017, ainda não
foi ratificado pelo parlamento francês e o Senado votou contra, em 2024. E, nos
países que se opõem ao acordo com o Mercosul, os apoiantes têm dificuldade em
fazer-se ouvir, pois, em alguns, foi apresentado como “algo que tinha de ser
combatido, para garantir certas concessões”.
Assim,
25 anos depois do início das negociações, o acordo do UE-Mercosul corre o risco
de alimentar um ressentimento, especialmente intempestivo, em relação à UE.
***
Não
obstante, o presidente do Conselho Europeu, o ex-primeiro-ministro português António
Costa, afasta o discurso de “derrota”, no caso da deliberação do PE de
enviar o acordo entre a UE e o Mercosul para o TJUE e afirma que a UE avançará
com a sua aplicação provisória, assim que os quatro países sul-americanos o ratificarem
nos parlamentos nacionais.
De acordo com António Costa, a consulta ao TJUE, aprovada no PE com a diferença de apenas dez votos, “não tem efeito suspensivo”. “O acordo pode ser aplicado”, declarou aos jornalistas, em Estrasburgo, reforçando que “não há dúvidas substanciais” sobre a sua legalidade. “Foi apenas uma forma de alguns deputados não terem de se pronunciar sobre a substância da questão”, explicou, insistindo que a Comissão Europeia tem “todas as condições para proceder à aplicação provisória” do acordo, e é isso que vai acontecer, logo que os quatro países signatários – o Brasil, a Argentina, o Paraguai e o Uruguai – o ratificarem, a nível nacional.
De acordo com António Costa, a consulta ao TJUE, aprovada no PE com a diferença de apenas dez votos, “não tem efeito suspensivo”. “O acordo pode ser aplicado”, declarou aos jornalistas, em Estrasburgo, reforçando que “não há dúvidas substanciais” sobre a sua legalidade. “Foi apenas uma forma de alguns deputados não terem de se pronunciar sobre a substância da questão”, explicou, insistindo que a Comissão Europeia tem “todas as condições para proceder à aplicação provisória” do acordo, e é isso que vai acontecer, logo que os quatro países signatários – o Brasil, a Argentina, o Paraguai e o Uruguai – o ratificarem, a nível nacional.
De
resto, essa ratificação não tem de acontecer ao mesmo tempo, e o acordo UE-Mercosul
pode entrar em vigor, a várias velocidades. Não obstante, junho é apontado como
o mês limite para as ratificações estarem concluídas.
A
aplicação provisória não é caso único, lembrou o presidente do Conselho Europeu. “O
acordo comercial com o Canadá está, há sete anos, com uma aplicação provisória
e tem sido excelente para economia europeia e canadiana”, disse, afirmando que
o mesmo pode acontecer com a economia do Mercosul.
***
Vamos
aguardar pelo veredicto do TJUE e, no caso de este não objetar à legalidade de
nenhuma das suas cláusulas, pela deliberação final do PE, assim como é de esperar
pela reação dos parlamentos dos quatro países do Mercosul.
Seja como for, é pena que a UE, em matéria de tamanha importância estratégica, não fale a uma só voz, mas reflita as divisões e, sobretudo, os interesses de alguns grupos reacionários dentro dos seus estados-membros. Está em causa a diversidade de proveniência de recursos, para evitar dependências indesejáveis e para reforço de outros blocos político-económicos no planeta.
Seja como for, é pena que a UE, em matéria de tamanha importância estratégica, não fale a uma só voz, mas reflita as divisões e, sobretudo, os interesses de alguns grupos reacionários dentro dos seus estados-membros. Está em causa a diversidade de proveniência de recursos, para evitar dependências indesejáveis e para reforço de outros blocos político-económicos no planeta.
2026.01.21
– Louro de Carvalho
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