terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Colapso da moeda iraniana força novo paradigma político (?)

  

A 28 de dezembro, o colapso histórico do rial, a moeda iraniana, desencadeou, no país, uma enorme onda de protestos. E, ao invés do que sugerem as manchetes de muitos meios de comunicação, não se trata se simples “motins por comida”, mas da ação determinada e persistente de profundo, estruturado e complexo movimento, com replicação em muitas metrópoles mundiais, que apoiam a nova revolução popular iraniana.
Assim, mal começou o ano de 2026, as ruas de Teerão e de dezenas de outras cidades iranianas enchem-se de gente a protestar. E, embora a comunicação social se tenha focado na remoção dos subsídios monetários e no vertiginoso aumento do custo dos bens essenciais, a linha da frente não é protagonizada só pelos desfavorecidos. Antes, convoca o protesto generalizado e desafiador da classe média chutada para baixo da linha da pobreza e de uma geração privada de futuro. Não se trata, pois, de uma revolução clássica do século XX pelo pão, mas da “rebelião dos desclassificados”, isto é, de pessoas cuja educação, competências e padrões cognitivos são típicos da classe média global, mas cuja realidade as força à luta visceral pela sobrevivência. Não vêm para a rua só por pão mais barato, mas pelo direito à herança do futuro.
O Irão, segundo os sociólogos, está a passar pelo fenómeno de “A Grande Desvalorização”. Efetivamente, de acordo com estatísticas, sob a pressão da queda de 94% no poder de compra público e do aumento de 3.319% na taxa de câmbio do dólar americano no mercado livre, nos últimos oito anos, profissionais que trabalham a tempo inteiro (por exemplo, médicos, engenheiros de software e artistas, não conseguem comprar um modesto apartamento ou um computador portátil. Assim, as pessoas não perderam a sua identidade cultural, mas o seu estatuto social, desfeado pela crónica inflação.
Numa economia normal, o tempo é coadjuvante: trabalha-se com vista a objetivos, como a compra de casa ou a progressão na educação. Em contraponto, se a inflação ultrapassa a poupança, quanto mais rápido corre o tempo, mais afasta as pessoas das suas legítimas aspirações. Esta geração, prisioneira de um presente inclemente e privado de futuro, gasta as suas energias na sobrevivência imediata, sem um horizonte de uma vida melhor, no futuro.
A pessoa desclassificada entra na máquina do tempo inversa: em vez de almejar o seu futuro e o dos vindouros, sente-se atirada, à força, para um passado remoto. Por exemplo, compras que eram rotineiras, há uma década, como o carro económico, a viagem internacional, o acesso aos media globais, a escolha pessoal de roupas, a segurança no emprego ou a substituição de dispositivos digitais, incluindo a Internet de alta velocidade, passaram a luxos inacessíveis, o que provoca algo parecido com a indignação do novo oprimido, a “raiva de status”.
Os manifestantes sentem-se a pagar o preço por um padrão de vida do século XXI, mas a experienciar qualidade de vida de antanho. Porém, enquanto a classe média lamenta a perda de qualidade de vida, os grupos marginalizados lutam pela sobrevivência biológica, pois, com os disparados preços de bens indispensáveis, como a habitação e as proteínas, muitos ficam excluídos do ciclo social. Na verdade, fenómenos, como dormir em telhados alugados, refletem o colapso do limiar de sobrevivência. Ora, a situação contrasta com as promessas do governo chegado ao poder, em 1979, de apoio aos menos privilegiados, mas visto, em 2026, como motor de exacerbado capitalismo de compadrio. De facto, em vez da atenção aos problemas dos deserdados da sorte, criou outros deserdados e apostou nas infraestruturas da energia nuclear, tendente a dotar a República Islâmica do Irão de armamento nuclear, o que desagradou a Israel e aos Estados Unidos da América (EUA), tendo-lhe estes bombardeado três centrais nucleares.
Não obstante, um pequeno grupo de indivíduos ligados ao governo exibe, nas redes sociais, carros de luxo e estilos de vida opulentos, enquanto prega o ascetismo ao público, o que transformou a pobreza em injustiça política.
Enquanto, nas revoluções clássicas, a classe média se alia ao Estado, por medo do caos, no Irão, a classe média sente-se vítima do sistema. Quando o trabalhador privado do seu salário, há meses, se alia ao estudante que não terá emprego, o diálogo do sofrimento dá azo à unificação do movimento de revolta. Já não se pergunta quem governará, mas como se viverá. Exigir vida normal, Internet livre e moeda estável não é negociar por poder político, mas reivindicar espaço vital como o ar que se respira. É luta difícil, porque o poder tenciona sacrificar, até à exaustão, a normalidade dos cidadãos para impor dogmas ideológicos. E os subsídios estatais ou as doações beneficentes já não diminuem a humilhação podo povo que sabe que a pobreza decorre, não da falta de recursos, mas da má gestão política, o que sucede em muitos países.
Assim, o Mundo testemunha, não uma perturbação cíclica, mas o surgimento de novo paradigma político. Com efeito, o movimento nacional unificado é liderado por uma geração globalmente conectada e pela classe média devastada, convictas de que “o custo do silêncio” excede “o custo do protesto”. O escopo não é substituir a ideologia reinante por outra, mas substituir a ideologia opressiva pela possibilidade radical de vida normal e do futuro a que todos têm direito.

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No entanto, o governo tenta calar os protestos. Com efeito, já em junho de 1989, após a morte do Ayatollah Khomeini, cortou as ligações telefónicas com o estrangeiro, para limitar a capacidade de comunicação dos opositores com o exterior. Ou seja, o regime tornou o encerramento dos meios de comunicação com o exterior um dos instrumentos mais eficazes para as autoridades controlarem o fluxo de informação – um padrão verificado, por várias vezes, ao longo dos anos, aplicado com intensidades variáveis. Por exemplo, no conflito de 12 dias com Israel, em junho de 2025, a largura de banda da Internet do Irão foi altamente reduzida; e, desta vez, o corte da Internet decidido, a 8 de janeiro, pelas autoridades, devido aos protestos, continua em vigor.
Nos protestos de novembro de 2019 contra o aumento dos preços dos combustíveis, o acesso dos utilizadores comuns à Internet foi quase totalmente cortado, embora algumas instituições e pessoas tenham mantido um acesso limitado e controlado. Durante os protestos “Mulheres, Vida e Liberdade”, por ocasião da morte de Mahsa Amini, foram muito reduzidas as velocidades da Internet e registadas interrupções generalizadas, mas as ligações nunca foram totalmente cortadas, permitindo, pelo menos, um fluxo mínimo de informação.
Porém, nos protestos mais recentes, a situação alterou-se radicalmente. Foi cortado, complemente, o acesso à Internet e ficaram fora de serviço as redes de telemóveis e as chamadas internacionais. A única linha de comunicação relativamente estável é a das chamadas por telefone fixo no interior do país. É um nível de restrição das comunicações que vai muito além das anteriores medidas de controlo da Internet, a indicar que as medidas do governo ultrapassaram o espaço digital para toda a infraestrutura de telecomunicações.
O principal objetivo do encerramento da Internet é impedir a transmissão de imagens, de vídeos e de notícias do interior, obstando a que meios de comunicação social independentes deem informação sobre o país, ficando o governo como o único relator dos acontecimentos. Também, eliminada a capacidade de coordenação dos manifestantes pelas redes sociais e pelas aplicações de mensagens, cria-se o bloqueio da comunicação direta entre os cidadãos. Além disso, a República Islâmica Iraniana, há muito que perturba os canais de satélite de língua persa, através de sinais de interferência, impedindo a receção e a emissão destas redes, o que limita, ainda mais, o acesso aos meios de comunicação social estrangeiros e completa o ciclo de controlo da informação por parte do governo.
Tudo o que está a acontecer no Irão não tem precedentes na História recente. Os protestos alarmaram de tal modo as autoridades que estas se obrigaram a empregar toda a extensão dos seus instrumentos de controlo das comunicações.

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A 8 de janeiro, os protestos nas ruas entraram no seu 13.º dia consecutivo. Simultaneamente, o encerramento generalizado e, em alguns casos, quase total, da Internet reduziu ao mínimo a comunicação com o interior do Irão. As poucas imagens e vídeos que circulam nas redes sociais e nas aplicações de mensagens sugerem que os protestos estão a alastrar a várias cidades, mas não é possível efetuar a verificação independente de todos os relatos.
As imagens do Irão, na noite do dia 8 para o dia 9, lembram a um público alemão os dias que antecederam a queda do Muro de Berlim, enquanto, para muitos iranianos, evocam os últimos dias do regime do Xá Reza Pahlavi, em 1979. O presidente dos EUA, Donald Trump, descreveu os acontecimentos como “os maiores protestos que alguma vez vi”, observação que recebeu ampla cobertura nos media internacionais.
Dada a rapidez dos acontecimentos, o bloqueio das comunicações e a falta de imagem clara do equilíbrio de poderes, os analistas delineiam vários cenários para o futuro próximo.
Um dos cenários envolve a escalada da repressão. No dia 9, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão – o mais alto órgão de decisão em matéria de segurança do país – emitiu uma resolução a anunciar uma “resposta muito decisiva” aos protestos, alegando que as recentes manifestações se desviaram das “legítimas exigências do público” e são conduzidas para a instabilidade pela orientação e pelo planeamento de Israel e dos EUA. Embora tal narrativa divirja da realidade, sinaliza que as autoridades enquadram a situação como ameaça à segurança nacional e os críticos pensam que abre caminho ao uso alargado da força, pois os manifestantes já não são tratados como cidadãos insatisfeitos, mas como agentes de “projeto inimigo”.
Entretanto, a repressão tornou-se mais severa, com detenções em massa e com recurso à força letal. Embora tais medidas acalmem as ruas, a curto prazo, os analistas dizem que só aprofundarão a crise de legitimidade do regime e intensificarão as queixas acumuladas. Para muitos observadores, o facto de se ignorarem tais avisos assinala o encerramento dos canais de mediação e a mudança decisiva para soluções puramente baseadas na segurança.
Por outro lado, a erosão nas fileiras das forças militares e de segurança representa um dos cenários mais críticos. Os relatos de protestos, em grande escala, em cidades, como Mashhad – o local de nascimento do Ayatollah Ali Khamenei do Irão – combinados com as referências de Donald Trump à fuga das forças de segurança, concitaram significativa atenção. As dificuldades económicas, a crescente consciencialização do destino de regimes similares e as revelações em curso sobre a corrupção generalizada, os estilos de vida da elite e a presença de filhos de oficiais em países ocidentais enfraquecem a lealdade de parte das forças armadas.
Ao mesmo tempo, alguns analistas creem que os acontecimentos do dia 8 marcam um ponto de viragem. Assim, o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (IRGC) concluirá que não tem outra opção senão intervir totalmente. E, embora isso gere medo e intimidação, a curto prazo, um confronto prolongado pode aumentar o risco de deserções de forças leais. Porém, não houve mudança fundamental no equilíbrio de poderes.
Em qualquer um dos cenários emergentes, a República Islâmica não abdicará, prontamente, do controlo, ainda que seja preciso suportar prolongada instabilidade e a erosão interna. Para já, além da repressão física, a guerra na Internet tornou-se elemento central da resposta do governo, e as autoridades estarão a utilizar táticas, como o empastelamento ou a interrupção das comunicações por satélite ou da infraestrutura Starlink, para lá do encerramento total da Internet – métodos que foram utilizados contra as redes de televisão por satélite.
Tais medidas assinalam a entrada do Irão numa fase mais avançada de controlo das comunicações e num esforço deliberado para isolar o espaço de informação, podendo refletir a profunda preocupação do regime com a persistência e a expansão dos protestos. E os comentários de Donald Trump sobre o príncipe herdeiro, Reza Pahlavi, adicionaram à crise mais ambiguidade. Contudo, apesar de Trump o ter descrito como “um bom rapaz”, não está previsto um encontro direto entre os dois, no dia 13, em Mar-a-Lago, na Florida.
As especulações sobre o cancelamento do encontro vão desde considerações legais a esforços para evitar dar à República Islâmica justificação para a repressão, alegando interferência estrangeira, mas alguns observadores duvidam destas explicações, considerando o historial de Trump, que pode atacar, novamente o Irão. No entanto, a reação da opinião pública ao apelo lançado pelo filho do último xá do Irão excedeu as expectativas iniciais.
Os manifestantes entoam cânticos contra o vértice do poder e, em numerosos casos, há referências à restauração da monarquia. Em contrapartida, o líder supremo do Irão, Ali Khamenei, reiterou que o sistema não recuará e que os manifestantes, “desordeiros”, são “indivíduos nocivos” ao país e têm por objetivo agradar ao presidente dos EUA.
Os custos de uma mudança de regime para os EUA, a experiência venezuelana na sequência de intervenção externa e o facto de a persistência da República Islâmica servir determinados interesses regionais e mundiais criaram a ideia de que uma figura do interior do sistema poderia ser encarregue das reformas, sem alterar a estrutura de poder, mas é difícil identificar tal figura. Alguns apontam o antigo presidente Hassan Rouhani, enquanto outros sugeriram o aparecimento de uma figura militar menos conhecida que restaure a ordem.
Outro cenário que tem vindo a ganhar força envolve a partida ou a fuga de figuras de topo da República Islâmica, fazendo eco de elementos do modelo sírio. Na verdade, têm circulado notícias de voos russos suspeitos, de alegadas transferências de ouro do Irão e de especulações sobre a possível mudança de Khamenei e da sua família para Moscovo, assim como surgiram notícias, não confirmadas, sobre pedidos de visto do presidente do parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e da sua família para França, ou sobre a presença da família de Abbas Araghchi, durante a sua viagem ao Líbano.
Em contraponto, a experiência da Venezuela sob a presidência de Nicolás Maduro indica que, ao arrepio das expectativas iniciais, a estrutura de poder não entrou em colapso, o que levou alguns observadores a pensar que o objetivo de Trump pode ser o afastamento pessoal de Khamenei, com a atribuição de autoridade a uma figura do sistema para gerir a transição.
Ora, dada a natureza crescente dos protestos, não é claro se tal cenário tem peso. Uma possibilidade mais à vista é um modelo que não é o da Síria nem o da Venezuela, mas que resulta na emergência de uma liderança alinhada com o Ocidente. Porém, é incerto o que se seguiria ao afastamento do Líder Supremo: fragmentação, insegurança ou intensificação das reivindicações étnicas e das minorias ou unidade em torno de uma figura salvadora” do país?
Entretanto, é improvável que potências como a China – e, em menor grau, a Rússia – permaneçam passivas, sendo quase certo que desempenharão um papel nesta recalibração histórica.
Quando os líderes abusam, a rua imporá as regras do exercício do poder.
2026.01.12 – Louro de Carvalho

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