As
forças de segurança iranianas mataram, pelo menos, 3428 manifestantes e prenderam
mais de dez mil pessoas, durante a repressão das manifestações, de acordo com informação
prestada, a 14 de janeiro, pela organização não governamental (ONG) Iran Human
Rights (IHR), com sede na Noruega, devendo-se o aumento do número de mortos a
novas informações recebidas dos ministérios da Saúde e da Educação iranianos, reveladoras
de que, pelo menos, 3379 mortes ocorreram durante o auge do movimento de
protesto, de 8 a 12 de janeiro.
A este respeito, o diretor do IHR, Mahmood Amiry-Moghaddam, declarou, em comunicado, que o poder judicial da República Islâmica ameaça os manifestantes com execuções em grande escala, o que a comunidade internacional deve levar a sério, “porque os funcionários da República Islâmica cometeram crimes similares, na década de 1980, para manterem o poder.
A este respeito, o diretor do IHR, Mahmood Amiry-Moghaddam, declarou, em comunicado, que o poder judicial da República Islâmica ameaça os manifestantes com execuções em grande escala, o que a comunidade internacional deve levar a sério, “porque os funcionários da República Islâmica cometeram crimes similares, na década de 1980, para manterem o poder.
Estes
comentários surgem depois de o chefe do poder judicial iraniano ter assinalado
que haveria julgamentos rápidos e execuções para os suspeitos detidos nos
protestos, apesar dos repetidos avisos do presidente Donald Trump de que os Estados
Unidos da América (EUA) poderiam tomar medidas militares, se os manifestantes
fossem mortos.
Entretanto,
na sequência de afirmações de detentores do poder político de que os protestos
têm origem em grupos terroristas e em inimigos estrangeiros, o chefe do Corpo
de Guardas da Revolução Islâmica afirmou que o Irão está pronto a responder, “decisivamente”,
aos inimigos, acusando os EUA e Israel de estarem por trás dos protestos.
Na
verdade, o chefe do poder judicial iraniano, Gholamhossein Mohseni-Ejei,
divulgou, em vídeo partilhado pela televisão estatal iraniana, a ideia de que é
preciso agir rapidamente, porque fazê-lo mais tarde – “dois ou três meses
depois” – não tem o mesmo efeito.
Informações
anteriores indicavam que Arfan Soltani foi julgado, em apenas alguns dias, num
processo não considerado justo, e que lhe fora negado o acesso a um advogado da
sua escolha e outros direitos legais, desde a detenção até à sentença.
O
homem está preso em Karaj, nos arredores de Teerão, após ter sido detido, e
enfrenta acusações de propaganda contra o sistema islâmico do Irão e
de atos contra a segurança nacional. Não foi condenado à morte e, se for
considerado culpado, a punição, de acordo com a lei, passará pela
prisão, porque a pena de morte não existe para tais acusações. Porém, informações
anteriores davam conta de que Soltani, de 26 anos, seria executado, no dia 14, menos
de uma semana após a detenção, a 8 de janeiro, na sua casa em Fardis. Por
exemplo, a organização de defesa dos direitos humanos, Hengaw, tinha referido
que as autoridades judiciais tinham informado a família de Soltani, quatro dias
após a sua detenção, de que tinha sido proferida e confirmada a sentença
de morte, pelo que ordenaram à família que se deslocasse à prisão de
Qazl-Hisar, em Karaj, no dia 13, para se encontrar com Soltani, o que suscitou
preocupações de que este seria um último encontro, antes da execução.
Fonte
próxima da família indicou à Hengaw que a irmã de Arfan Sultani, que é
advogada, se candidatou para assumir a sua defesa e rever o caso, mas as
autoridades barraram-lhe o acesso ao processo. A família não foi informada
dos detalhes das acusações ou do processo judicial. E as organizações de defesa
dos direitos humanos, com grande preocupação com a criação de tribunais de
campo e com o uso da pena de morte, como ferramenta para reprimir
protestos, pediram a intervenção de organismos internacionais.
As
manifestações começaram a 28 de dezembro, inicialmente, por causa do colapso do
rial, visto que a economia do país está pressionada pelas sanções
internacionais impostas, em parte, devido ao programa nuclear. Donald Trump tem
alertado, reiteradamente, para potencial ação militar dos EUA, devido à morte
de manifestantes pacíficos, poucos meses depois de as forças americanas terem
bombardeado instalações nucleares iranianas, num conflito de 12 dias lançado
por Israel contra a República Islâmica, em junho. E o Irão ameaçou que poderia
fazer um ataque preventivo, depois de alegar, sem provas, que Israel e os EUA
orquestraram os protestos, o que levou os EUA a retirar o pessoal das suas
bases instaladas no Médio Oriente.
O
comandante Mohammad Pakpour, da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), disse,
em declaração escrita, citada pela televisão estatal, que o presidente dos EUA e
o primeiro-ministro israelita são os “assassinos da juventude do Irão”.
Também
é de referir que a 14 de janeiro, se realizou o funeral coletivo de cerca de
100 membros das forças de segurança mortos nas manifestações. Dezenas de
milhares de pessoas participaram no funeral, com bandeiras iranianas e
fotografias do Ayatollah Ali Khamenei. Os caixões, cobertos com bandeiras
iranianas, estavam empilhados a, pelo menos, três metros de altura. Rosas
vermelhas e brancas e fotografias emolduradas dos mortos cobriam-nos. Noutros
locais, as pessoas andavam receosas nas ruas. As forças de segurança à paisana rondavam
alguns bairros, embora a polícia antimotim e os membros da força paramilitar
Basij da Guarda Revolucionária, totalmente voluntária, tenham sido reenviados para
os seus quartéis.
A
“paz” foi retomada, mas as escolas estão fechadas e os pais receiam mandar os
filhos à escola.
***
Enquanto
os EUA têm feito ouvir a sua voz, a Rússia permaneceu quase em silêncio,
durante duas semanas após o início dos protestos em massa no Irão, com o
ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, a afirmar, no dia 15, que “nenhuma
terceira parte pode alterar a natureza fundamental das relações entre os dois
países”. E Maria Zakharova, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores,
comentou, pela primeira vez, no dia 13, que a situação no Irão, vem a
intensificar-se, há quase 20 dias, culpando o que apelidou de “pressão ilegal
das sanções” do Ocidente que, no seu dizer, “cria problemas económicos e
sociais”; afirmou que a “tensão pública” está a ser usada “para desestabilizar
e destruir o Estado iraniano”; e repetiu os argumentos do Kremlin sobre as “revoluções
coloridas”.
O analista político Nikita Smagin disse à Euronews que a Rússia abordou a questão “com muita cautela” e só ao nível da embaixada russa no Irão, porque o Kremlin está a observar a situação e a ponderar a possibilidade da mudança de regime ou outras mudanças radicais. Na verdade, Moscovo sustenta que, no meio da repressão dos protestos, as autoridades iranianas não estão sob ameaça e podem ser apoiadas, para facilitar as relações entre os dois países.
O analista político Nikita Smagin disse à Euronews que a Rússia abordou a questão “com muita cautela” e só ao nível da embaixada russa no Irão, porque o Kremlin está a observar a situação e a ponderar a possibilidade da mudança de regime ou outras mudanças radicais. Na verdade, Moscovo sustenta que, no meio da repressão dos protestos, as autoridades iranianas não estão sob ameaça e podem ser apoiadas, para facilitar as relações entre os dois países.
Moscovo
e Teerão aproximaram-se após a invasão da Ucrânia pela Rússia e, há um ano, firmaram
um acordo de parceria estratégica, cujos principais pilares são a cooperação
militar e económica, sobretudo, no setor energético, bem como esforços para
mitigar o impacto das sanções. Não são aliados, mas parceiros estratégicos,
dada a desconfiança mútua e pelo facto de a aproximação ser impulsionada pela
necessidade, com ambos a ter poucas vias de envolvimento no cenário
internacional. Com efeito, os laços económicos não cresceram muito, desde 2022,
apesar de todos os esforços, e o volume de negócios comercial mudou apenas
marginalmente.
Diz
Nikita Smagin que, para aprofundar os laços, há projetos potenciais, como acordos
preliminares para a Rússia construir novas centrais nucleares no Irão, ativação
do corredor de transporte Norte-Sul, construção de uma linha ferroviária, e
investimento e participação russos no setor do petróleo e gás, incluindo
esforços para transformar o Irão num centro de gás para o trânsito de gás
russo. Porém, ainda estão em fase de desenvolvimento.
Desde
o início da invasão escala da Ucrânia, a Rússia tem usado drones iranianos
Shahed, para realizar ataques a infraestruturas civis. De acordo com a Bloomberg,
desde outubro de 2021, vários meses antes da invasão da Ucrânia, a Rússia
comprou mais de quatro mil milhões de dólares em armas do Irão, incluindo
mísseis balísticos. Em 2022, a União Europeia (UE) impôs sanções a funcionários
e ao fabricante de drones no Irão.
A
cooperação militar está a expandir-se, segundo Nikita Smagin. A Rússia produz
Shaheds, no seu território, renomeando-os “Geran-2”, após comprar a tecnologia
do Irão, em 2023. Localizou, em grande parte, a produção destes drones e
começou a fabricar os seus próprios. Porém, está a inverter-se a dinâmica: a
Rússia procura cada vez mais fornecer armas ao Irão, o que inclui vários tipos
de armamento, como caças Su-35 e helicópteros de ataque Mi-28. E os primeiros
helicópteros deste tipo terão chegado ao Irão, durante os protestos. E há
outras categorias não declaradas, publicamente, mas que surgiram em relatórios,
incluindo veículos blindados Spartak, sistemas de guerra eletrónica e radares.
Assim,
o Irão está a tornar-se um destinatário significativo das exportações militares
russas, mas a Rússia “não se comprometeu totalmente nessa direção, pois está
absorvida pela guerra com a Ucrânia” e tem capacidades limitadas. E, apesar dos
reveses na Síria e na Venezuela, Moscovo tem capacidade para ajudar os
parceiros em dificuldades, mas não protagoniza uma intervenção direta no Irão,
embora queira reforçar o aparelho de segurança interna do regime, suspeitando-se
que os sistemas de guerra eletrónica russos estejam a ajudar o Irão a
interferir com o Starlink ou a perturbar o funcionamento do serviço de Internet
por satélite de Elon Musk.
***
Em
contraste com a ajuda russa, a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, apresentou,
a 15 de janeiro, aos estados-membros mais sanções contra o Irão, pela repressão
dos protestos. Tais medidas inserem-se no regime de sanções da UE, em matéria
de direitos humanos, contra o Irão e somam-se às proibições de viagem e ao
congelamentos de bens em vigor.
No dia 14, uma organização norte-americana de direitos humanos dizia que, pelo menos, 2571 pessoas foram mortas nos protestos, mas números não oficiais sugeriam que o total real poderá ser cinco vezes superior. E o presidente dos EUA, sem identificar fontes nem avançar pormenores deu a entender que “as mortes estão a parar” e que não haveria execuções.
No dia 14, uma organização norte-americana de direitos humanos dizia que, pelo menos, 2571 pessoas foram mortas nos protestos, mas números não oficiais sugeriam que o total real poderá ser cinco vezes superior. E o presidente dos EUA, sem identificar fontes nem avançar pormenores deu a entender que “as mortes estão a parar” e que não haveria execuções.
A
região preparava-se para uma intervenção militar dos EUA, após Trump ter
apelado, no dia 12, aos manifestantes para resistirem, pois a ajuda americana estava
a caminho.
Até
à data, a UE sancionou mais de 230 iranianos, incluindo o ministro do Interior,
Ahmad Vahidi, mais de 40 entidades e membros do Corpo da Guarda Revolucionária
Islâmica, apesar de este não constar da lista de organizações terroristas da UE.
Desta feita, os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE deverão discutir as
sanções propostas na reunião de 29 de janeiro, presidida por Kaja Kallas.
***
Fontes
internas no Irão disseram à Euronews que se teme que o número de
mortos seja muito maior, na ordem dos cerca de 15 mil, uma vez que o
regime de Teerão teria intensificado a repressão violenta contra as
manifestações nos últimos dias.
Os detalhes da repressão começaram a surgir, no dia 13, quando os iranianos reestabeleceram ligações telefónicas com o exterior, depois de as autoridades terem cortado as comunicações em todo o país, quando os protestos eclodiram. E os ativistas alertaram que a execução dos detidos por enforcamento poderia ocorrer, em breve, o que as autoridades negam.
Os detalhes da repressão começaram a surgir, no dia 13, quando os iranianos reestabeleceram ligações telefónicas com o exterior, depois de as autoridades terem cortado as comunicações em todo o país, quando os protestos eclodiram. E os ativistas alertaram que a execução dos detidos por enforcamento poderia ocorrer, em breve, o que as autoridades negam.
Simultaneamente,
alguns funcionários de importante base militar dos EUA, no Qatar, foram
aconselhados a sair, incluindo a embaixada no Kuwait, que ordenou ao pessoal
que suspendesse, temporariamente, as deslocações às bases militares naquele
país do Golfo.
O
Irão, sem explicações, restringiu o seu espaço aéreo a aviões comerciais
durante horas, no dia 15, porque as tensões com os EUA pela brutal repressão de
Teerão aos protestos em todo o país estiveram elevadas e Donald Trump disse, no
dia 14, que não exclui uma ação militar norte-americana contra o país. Segundo
as orientações dos pilotos emitidas pelo Irão, que se situa em rota de voo
importante entre o Oriente e o Ocidente, o encerramento durou mais de quatro
horas e as transportadoras internacionais foram desviadas para Norte e para Sul
em redor do Irão.
A
este respeito, lia-se, na página Web SafeAirspace, “várias
companhias aéreas já reduziram ou suspenderam os serviços e a maior parte das
transportadoras está a evitar o espaço aéreo iraniano”, podendo a situação “indiciar
novas atividades militares ou de segurança”, como lançamento de mísseis ou
reforço da defesa aérea, com risco de identificação incorreta do tráfego civil.
Os
meios de comunicação social sugerem que, após um prolongamento, o encerramento,
que se repercutiu na aviação mundial, porque o Irão se situa em rota
fundamental para as companhias aéreas no sentido Este-Oeste, parecia ter
expirado e vários voos domésticos estavam em andamento, pouco depois das sete
horas da manhã.
O
Irão já tinha fechado o seu espaço aéreo, durante a guerra de 12 dias contra
Israel, em junho, quando trocou tiros com Israel, na guerra entre Israel e o
Hamas. Desta vez, no dia 14, Donald Trump, continuou com as suas declarações
vagas que não esclarecem qual a ação norte-americana, se alguma houver, que
terá lugar contra o Irão. De facto, em comentários aos jornalistas, sem
fornecer detalhes, o presidente dos EUA disse ter sido informado de que os
planos de execução tinham parado.
O
ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, moderou a
retórica, instando os EUA a encontrar uma solução através de negociação. E, questionado
pela Fox News sobre o que diria a Trump, respondeu que a sua mensagem é
entre guerra e diplomacia, sendo esta o melhor caminho, embora não haja nenhuma
experiência positiva com os EUA.
A
mudança de tom entre Washington e Teerão ocorreu horas depois de o chefe do
poder judicial iraniano ter dito que o governo deve agir, rapidamente, para
punir os milhares de pessoas que foram detidas. E, enquanto os ativistas
avisavam que os enforcamentos de detidos estariam para breve, Trump fez uma
declaração vaga, dizendo que lhe foi dito “por boa autoridade” que os planos
para as execuções pararam, mesmo quando Teerão indicou julgamentos rápidos e
execuções futuras na sua repressão contra os manifestantes.
No
dia 12, o líder da Casa Branca, prometendo agir militarmente, impôs tarifas de
25% aos países que negociam com Teerão e exortou os iranianos a continuarem a
protestar, mas não deu pormenores sobre a forma como os EUA responderão e
continua a não ser claro se concretizará as suas ameaças de ação militar e o
que ela implicará.
Enfim,
cerca de 3500 pessoas foram mortas na repressão levada a cabo pelas forças de
segurança iranianas contra os protestos, segundo a Agência de Notícias dos
Ativistas dos Direitos Humanos, sediada nos EUA, mas elementos das forças de
segurança também morreram.
***
Quando
não há pão e faltam as condições de vida condigna, os oprimidos cansam-se de
esperar. E reprimir o povo em luta por melhores dias é deixar de estar ao
serviço do povo e colocar o povo ao serviço dos grandes. Isto não é governar: é
despotismo, por mais iluminado que seja.
2026.01.15
– Louro de Carvalho
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