Eleitores
de todo o continente europeu terão grandes escolhas a fazer em termos eleitorais.
Em alguns casos, a situação política manter-se-á praticamente inalterável, ao passo
que, em outros, as alterações podem ser significativas.
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Portugal
é um dos países em que as eleições presidenciais dificilmente mudarão o panorama
político nacional. Na verdade, as eleições presidenciais, marcadas para 18 de
janeiro, porque o mandato de Marcelo Rebelo de Sousa terminará a 9 de março, vão
determinar quem será o próximo Presidente da República. Porém, uma coisa é dada
como garantida: a disputa não será decidida à primeira volta, pelo que se prevê
uma segunda volta a realizar a 8 de fevereiro.
A um mês da primeira volta das eleições presidenciais, as sondagens pareciam mostrar outro cenário evidente: a incerteza sobre quem serão os dois candidatos que irão a votos numa eventual segunda volta.
A um mês da primeira volta das eleições presidenciais, as sondagens pareciam mostrar outro cenário evidente: a incerteza sobre quem serão os dois candidatos que irão a votos numa eventual segunda volta.
Uma
análise da Rádio Renascença, com base em sondagens divulgadas nos últimos
dois meses, os resultados agregados desses inquéritos de opinião sustentam que Luís
Marques Mendes, candidato apoiado pelos partidos que formam a coligação governamental
AD (Aliança Democrática) – o Partido Social Democrata (PSD), de que é oriundo, e
o partido do Centro Democrático Social (CDS) – vai na frente, com 20,7%
das intenções de voto. Segue-se André Ventura, líder do partido Chega (considerado
antissistema), com 19,9%, vindo, logo a seguir, Henrique Gouveia e Melo (que
vem de fora do sistema partidário) logo, com 18,9%.
Tal
panorama configura, de acordo com alguns observadores um empate técnico e não
exclui a ida à uma segunda volta de António José Seguro, apoiado pelo Partido Socialista
(PS), de que foi secretário-geral, de 2011 a 2014.
A
não ser que André Ventura obtenha a vitória eleitoral, a situação política
manter-se-á. Com efeito, apesar de eventuais divergências em relação ao atual
governo, os sinais passados ao eleitorado são de complacência com o atual
governo. E o PS tem revelado, na atual conjuntura, uma certa anemia política.
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De
acordo com alguns analistas, 2025 foi um ano crucial para eleições de alto
risco em toda a União Europeia (UE).
A Roménia esteve no turbilhão de campanhas coordenadas de interferência estrangeira nas redes sociais, e o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, não consolidou a posição do seu partido contra os conservadores na corrida presidencial. E enquanto os democratas-cristãos regressaram ao poder na Alemanha, o bilionário de direita Andrej Babiš foi reeleito na Chéquia.
A Roménia esteve no turbilhão de campanhas coordenadas de interferência estrangeira nas redes sociais, e o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, não consolidou a posição do seu partido contra os conservadores na corrida presidencial. E enquanto os democratas-cristãos regressaram ao poder na Alemanha, o bilionário de direita Andrej Babiš foi reeleito na Chéquia.
A
UE entra em 2026 com a guerra da Rússia na Ucrânia na sua fronteira oriental a
prosseguir, já no seu quarto ano. Os estados-membros estão divididos sobre a
melhor forma de apoiar Kiev e as tensões a aumentam entre o bloco europeu e os Estados
Unidos da América (EUA). O presidente russo Vladimir Putin, trata os europeus
com insultuoso desdém. O presidente norte-americano, Donald Trump, depois de
alguns ditos e atos de desdém, em relação à Europa, definiu contra ela a sua Estratégia
de Segurança Nacional (ENS). Não obstante, a UE ainda considera os EUA como um aliado
fundamental e, na sua mediocridade pouco vertebrada, até subscreveu um acordo
comercial bilateral que revela uma vergonhosa subserviência.
Por
isso, é possível e expectável que as principais eleições do ano poderão, mais
uma vez, transformar a posição política e geopolítica da Europa.
Em
2026, poderá chegar ao seu termo o mais longo período de permanência contínua
no poder na UE. Na verdade, Viktor Orbán foi primeiro-ministro da Hungria,
entre 1998 e 2002, e pontifica, desde a sua reeleição, em 2010. Todavia, na
corrida para um sexto mandato, enfrenta um sério adversário: Péter Magyar, antigo
membro do Fidesz que se tornou líder da oposição.
O
partido de Viktor Orbán, o Fidesz, e o partido de Magyar, o Tisza, não diferem em
questões sociais, como os direitos LGBTQ+ e a migração, mas Magyar defende,
fortemente, a melhoria do poder de compra dos húngaros, um dos mais baixos da
Europa, e melhores relações com a UE, a qual mantém o condicionamento dos
pagamentos multimilionários do Fundo de Coesão ao respeito pelo Estado de
Direito.
A
campanha eleitoral está a dar frutos, pois as últimas sondagens colocam o Tisza
com 13% de vantagem. Porém, qualquer que seja o resultado, a votação terá
ramificações muito para lá das fronteiras da Hungria.
O
primeiro-ministro, Viktor Orbán, detém posição central no campo
nacional-conservador, alinhando, estreitamente, com a mundivisão do presidente
dos EUA e desafiando, abertamente, as posições dominantes da UE, em matéria de
migração, em padrões democráticos e, em particular, na guerra na Ucrânia,
arrastando consigo a Eslováquia e a Chéquia. Até a Bélgica logrou impedir o uso
ativos russos para reparações diretas à Ucrânia.
Na
verdade, a relutância de Budapeste em sancionar Moscovo ou em apoiar Kiev cavou
divisões no seio do bloco. Por conseguinte, uma eventual mudança de liderança
pode alterar a dinâmica do poder no Conselho Europeu, num momento crucial para
o futuro da Ucrânia.
Quatro
das maiores potências da UE – A Espanha, a Alemanha, a França e a Itália – preparam-se
para eleições regionais e autárquicas, que deverão confirmar a força da
extrema-direita e servir para medir a crescente desconfiança, em relação às
autoridades de Madrid, de Berlim, de Paris e de Roma.
Em
Espanha, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), do primeiro-ministro,
Pedro Sánchez, está a ressentir-se da derrota nas eleições regionais de 21 de
dezembro de 2025, na Estremadura, com o seu pior resultado de sempre naquele
que era um seu reduto tradicional. Ao mesmo tempo, em Madrid, a coligação
governamental de Pedro Sánchez está sob pressão, depois de vários escândalos de
corrupção e está a lutar para aprovar um orçamento, pelo terceiro ano
consecutivo. Por outro lado, as próximas eleições regionais, em Aragão, a 8 de
fevereiro, em Castela e Leão, a 15 de março, e na Andaluzia, a maior região de
Espanha em dimensão e em população, a última a 30 de junho, serão testes
cruciais, para o PSOE, e para o Partido Popular (PP), na oposição de
centro-direita.
A
questão é saber se o PP assegurará maiorias, antes das eleições gerais de 2027,
sem depender do apoio do partido de extrema-direita, o Vox.
Também
a 15 e 22 de março, os franceses vão às urnas para eleger presidentes de câmara
em todo o país e, tal como em Espanha, estas eleições locais servirão de
indicador antes das presidenciais de 2027. Com efeito, a França enfrenta uma
crise política de instabilidade governamental prolongada, índices de aprovação
do presidente Emmanuel Macron, nunca dantes atingidos, e a contínua ascensão do
Rassemblement Nacional (RN) de extrema-direita, apesar de a sua líder Marine Le
Pen estar impedida de se candidatar. Tudo isto decorre das decisão de Emmanuel
Macron ter precipitado a convocação de eleições legislativas antecipadas,
devido à derrota do seu partido nas eleições para o Parlamento Europeu (PE), em
2024, tendo ficado a Assembleia Nacional fragmentada em três blocos partidários,
do que resulta difícil a formação de um executivo coerente e consistente.
Na
Itália, as eleições municipais, nas principais cidades de Roma, de Milão, de Bolonha
e de Turim foram adiadas, durante a pandemia (já lá vão mais de cinco anos), e
reagendadas para a primavera de 2027. Porém, os eleitores irão às urnas em 2026,
apenas num número reduzido de cidades, como Veneza, Reggio Calabria, Arezzo,
Andria e Pistoia.
Além
disso, os italianos serão chamados a um referendo sobre uma reforma
constitucional do sistema judicial, que será apresentado na próxima primavera,
mas cuja data ainda não foi fixada, e que será visto como um teste ao apoio da
opinião pública à coligação de Giorgia Meloni, antes das eleições gerais de
2027.
Também
vários Estados alemães se preparam para eleições regionais: Baden-Württemberg e
Renânia-Palatinado, em março, e Saxónia-Anhalt, Berlim e
Mecklenburg-Vorpommern, em setembro. Trata-se de eleições estaduais que testarão
a popularidade do chanceler, Friedrich Merz, no cargo desde maio de 2025, e que
medirão a ascensão da extrema-direita na desindustrializada antiga Alemanha de
Leste e na mais rica Alemanha Ocidental.
Na
perspetiva das eleições legislativas de setembro, o primeiro-ministro sueco,
Ulf Kristersson, escreveu, no X, que, “quando a Suécia for às urnas, no
próximo ano, fá-lo-emos numa situação de segurança grave que temos de ter em
conta”.
Ulf
Kristersson lidera uma coligação governativa de centristas, de socialistas, de liberais
e de democratas-cristãos, que está, atualmente, a obter níveis semelhantes aos
resultados das eleições de 2023, ano desde o qual a Suécia tem enfrentado um considerável
aumento da criminalidade violenta, alimentando a retórica de direita (de discurso
de ódio, de xenofobia e de racismo – capeado de nacionalismo) ouvida em toda a
Europa, em que o fenómeno é, muitas vezes, enfatizado para fornecer argumentos
contra a imigração.
Todavia,
a “grave situação de segurança” que preocupa líder do executivo é a ameaça de
interferência estrangeira. Em novembro passado, o Ministério da Defesa afirmou
que reforçara as suas capacidades de cibersegurança e que estava em alerta para
interferências eleitorais, como as que se verificaram na Alemanha, insistindo
que, neste ano, a Rússia iria “pagar um preço” pelos seus “ataques híbridos” às
infraestruturas eleitorais.
Ora,
estas operações de interferência estrangeira são suscetíveis de beneficiar os
partidos críticos da imigração, céticos em relação à integração na UE e mais
ambíguos na sua posição, face a Moscovo, uma tendência exemplificada pelos democratas
da Suécia. Por isso, as eleições, na Suécia, deverão funcionar como teste à
resiliência democrática na UE, na sequência da aplicação da Lei dos Serviços
Digitais (DSA), que combate a interferência eleitoral nas redes sociais, e do
Escudo da Democracia proposto pelo bloco.
No
reino da Dinamarca, após ter perdido Copenhaga, pela primeira vez, desde 1938, a
primeira-ministra, Mette Frederiksen, e os seus sociais-democratas vão enfrentar
uma votação nacional. As sondagens sustentam que Mette Frederiksen, no poder
desde 2019, pode perder o cargo, pois a sua coligação governativa, que inclui
partidos do centro-esquerda ao centro-direita, parece cada vez mais frágil. A
votação deverá ter lugar antes de outubro de 2026, mas a data ainda não foi
confirmada.
A
Dinamarca também está seriamente preocupada com a sua integridade territorial. Com
efeito, no início deste mês, Donald Trump reiterou as suas intenções
expansionistas, em relação à Gronelândia, território autónomo do Reino da
Dinamarca, tendo promovido ações de pesquisa in loco, através de um enviado
especial, e não excluindo o uso da força armada.
A
partir de 1 de janeiro de 2026, a Bulgária adota, oficialmente, o euro como
moeda. Contudo, o país tem vivido uma situação de grande instabilidade política,
desde dezembro, na sequência da demissão do governo, em resultado de grandes
protestos de rua contra a corrupção e contra a influência oligárquica. As
eleições presidenciais estão marcadas para 8 de novembro, esperando-se que uma
votação parlamentar resolva o impasse político.
Na
Eslovénia, as sondagens mostram o Partido Democrático, de centro-direita e na
oposição, ligeiramente à frente do Movimento da Liberdade, partido de
centro-esquerda liderado pelo primeiro-ministro, Robert Golob. Os analistas consideram
será difícil a formação de um governo após as eleições, já que vários partidos
novos e mais pequenos estão a entrar na corrida.
Na
Letónia, as eleições determinarão quem sucederá à coligação de centro-direita
liderada pela primeira-ministra, Evika Siliņa, cujo partido está em segundo
lugar nas sondagens, logo atrás da Aliança Nacional conservadora.
No
início de 2025, as eleições locais revelaram fragilidades no sistema
informático de votação, mas a Comissão Eleitoral Central diz que as resolveu
antes da votação de outubro.
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Entretanto,
a UE não está só à mercê dos seus próprios eleitores.
Na verdade, os EUA, o Brasil, Israel, a Rússia e, eventualmente, e Ucrânia terão eleições globais com implicações para o bloco europeu.
Na verdade, os EUA, o Brasil, Israel, a Rússia e, eventualmente, e Ucrânia terão eleições globais com implicações para o bloco europeu.
Assim,
em novembro de 2026, os eleitores norte-americanos irão às urnas para as
eleições intercalares do Congresso, que determinam a composição da Câmara dos
Representantes dos EUA e um terço dos lugares do Senado. O seu resultado poderá
decidir o poder que a administração Trump poderá exercer, a nível interno e
externo, o que põe de sobreaviso os europeus
No
início de dezembro findo, a administração dos EUA publicou a Estratégia de
Segurança Nacional (ENS), a que já nos referimos, na qual prometeu “cultivar a
resistência à atual trajetória da Europa dentro das nações europeias”, para
impedir o seu “declínio civilizacional”.
Os
brasileiros vão às urnas, em outubro de 2026, devendo o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, o favorito nas sondagens, tentar a reeleição. O que está em jogo
para a UE, nesta votação, é o futuro do acordo do Mercosul, acordo de comércio
livre em elaboração, há mais de duas décadas, cuja minuta foi rubricada em
2025, mas cuja assinatura foi protelada para janeiro de 2026, a instâncias de
alguns estados-membros da UE, nomeadamente, a Itália de Giorgia Meloni
Israel
também realizará eleições legislativas, de que poderá resultar um novo
primeiro-ministro, o que poderá alterar a dinâmica de poder que tem moldado os
conflitos na região.
Os
russos vão votar em eleições parlamentares, mas prevê-se que o resultado seja
manipulado a favor do presidente Vladimir Putin, com os partidos da oposição em
grande parte silenciados e a liberdade de imprensa cada vez mais escassa.
Por
fim, também a Ucrânia, a concretizar-se, em 2026, o plano de paz, irá a
eleições de que poderá resultar um novo presidente, mais do agrado de Vladimir Putin
e de Donald Trump, o que, se vier a acontecer, forçará novo referendo nas regiões
que a Rússia reivindica como seu território, com vista à opção de pertença à
Ucrânia ou à Rússia.
O
voto é a arma do povo, mas alguns tentam orientá-la de forma abusiva e iníqua.
***
Seria
bom que bom que 2026 trouxesse à Europa e ao resto do Mundo uma onda do reequilíbrio
de forças, com maior estabilidade governativa, baseada na genuína vontade popular
a ditar as regras da democracia, sem as temíveis interferências externas e,
sobretudo, com a paz justa como objetivo. Não mais a guerra, sim à paz, pelo
diálogo e pela cooperação!
2025.12.31
– Louro de Carvalho
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