A
terceira etapa do caminho da preparação da vinda do Senhor, inicia-se com o III
domingo do Advento, no Ano A, denominado “domingo Gaudete (Alegrai-vos)”, em
eco do convite paulino à alegria, à alegria confecionada no interior de cada
pessoa e no coração da comunidade. Esta alegria, que parte do interior, deve
manifestar-se exteriormente. Ora, um santo triste é um triste santo, como
diziam os antigos. Porém, se a alegria é meramente exterior, é vã e oca. E há cristãos
que respiram a vanidade da vida, como há cristãos cuja vida parece um pesado fardo.
Ora, o III domingo do advento convida-nos à alegria, porque a vinda do Senhor se
aproxima e a nossa libertação está perto. Os cristãos têm motivos fortes para
se sentirem e mostrarem alegres.
***
Na primeira
leitura (Is 35,1-6a.10), o profeta anuncia aos habitantes de Judá,
exilados na Babilónia, que está prestes a acabar tempo de tristeza e que vai chegar
o tempo novo da alegria e da esperança, porque Deus “aí está para fazer
justiça”. Intervirá na História, salvará Judá do cativeiro, abrirá a estrada no
deserto para o Povo regressar a Sião, em procissão triunfal. Deus nunca desiste
dos seus filhos. Enfim, após anos de desolação, chegarão os tempos novos da
alegria exuberante (menciona-se a alegria por 10 vezes, recorrendo a quatro
sinónimos).
O
profeta interpela a Natureza e insta-a a preparar-se para a ação libertadora de
Deus em favor do seu Povo. O deserto e o descampado, estéreis e desolados, são
convidados a vestirem-se de vida abundante – como o Líbano, o monte Carmelo ou
a planície do Sharon (zonas proverbiais de vida e de fecundidade) – e a ornarem-se
de flores de todas as formas e cores. Assim, vestida de vida e de festa, a Natureza
manifestará a sua alegria pela intervenção misericordiosa de Javé e será o
cenário apropriado para a intervenção gloriosa de Deus, destinada a levar a vida
nova ao Povo. A magnificência das árvores e das plantas, tornada imagem da
glória e da beleza do Senhor, falará a todos da grandeza de Deus, da sua
capacidade para fazer brotar vida onde há morte, desolação e esterilidade.
Depois,
o profeta dirige-se aos homens, dizendo-lhes: “Nada de desânimo, nada de
cobardia, nada de baixar os braços: Deus aí está para salvar e libertar o seu
Povo”. Os exilados devem unir-se à Natureza nessa corrente de alegria e de vida
nova, pois a libertação chegou.
O
resultado da iniciativa libertadora de Deus será mesmo impactante: os olhos dos
cegos abrir-se-ão e desimpedir-se-ão os ouvidos dos surdos; o coxo não andará e
saltará como o veado; o mudo falará e cantará de alegria. Efetivamente, a
intervenção de Deus é excessiva, imensa, exuberante, transformadora e geradora
de vida em abundância. Os exilados regressarão à sua terra. A marcha do Povo da
terra da escravidão para a terra da liberdade será o novo êxodo, onde se
repetirão as maravilhas operadas pelo Deus libertador aquando do primeiro êxodo.
Porém, este êxodo será mais grandioso, quanto à manifestação e à ação de Deus.
Será peregrinação festiva ou procissão solene de alegria e de festa. O resultado
do novo êxodo será o reencontro com Sião, a eterna felicidade, a alegria infinda.
***
No Evangelho
(Mt 11,2-11), Jesus define a missão que o Pai Lhe confiou, quando O
enviou ao encontro dos homens: dar vista aos cegos e tirá-los da escuridão onde
se afundam, libertar os coxos de tudo o que os impede de caminhar, curar os
leprosos e reintegrá-los na família de Deus, abrir os ouvidos dos surdos, que
vivem fechados no seu casulo de autossuficiência, devolver a vida aos que se
sentem às portas da morte, anunciar aos pobres a Boa Notícia do amor de Deus.
Com Jesus, o Reino de Deus chegou à vida e à História dos homens.
O
trecho em apreço apresenta duas partes. Na primeira (vv. 2-6), Jesus responde à pergunta de João e define a sua
identidade messiânica; na segunda (vv. 7-11), comenta, com a multidão, a
figura e a ação profética de João.
À
questão trazida pelos discípulos de João, Jesus responde de forma
desconcertante. Recorrendo às Escrituras, refere as obras que o discurso
profético atribui ao Messias: dar vida aos mortos, abrir os olhos dos cegos,
desimpedir os ouvidos dos surdos, dar liberdade de movimentos aos coxos, fazer
falar os mudos, anunciar a Boa Nova aos pobres. Ora, Jesus, ao realizar tais
obras, não precisa de dizer que é o Messias. Chegaram, de facto, os dias messiânicos. Jesus
é o Messias, enviado por Deus para libertar o seu povo de tudo o que lhe rouba
a vida. É o Messias que, propondo e construindo o Mundo novo, o Reino de Deus, cumpre
as promessas divinas.
Os
gestos de Jesus – próprios do Messias – não são sinais de condenação, mas de
salvação. João, o Batista, estava enganado, ao falar de um enviado de Deus que
deveria vir para julgar e para condenar. Para escândalo dos chefes judaicos, o
ano da vingança de Deus, anunciado por Isaías, juntamente com o ano da graça,
não faz parte do caderno de encargos de Jesus. Só o ano da graça!
A
missão que Jesus recebeu do Pai é a de salvar e dar vida. Talvez o Batista
fique escandalizado, por verificar que o Messias atua de forma diversa do
esperado. Por isso, Jesus deixa-lhe o recado: “Feliz aquele que não encontrar
em Mim motivo de escândalo.” Será feliz quem reconhecer e acolher Jesus como o
Messias enviado, para oferecer aos homens a salvação de Deus.
Depois
de os discípulos de João terem ido embora, Jesus comenta com os circunstantes a
figura e a missão de João, o Batista. Mateus lança mão de um recurso retórico
muito conhecido: uma série de perguntas que suscitam respostas concretas dos
ouvintes, mas que Jesus adianta. A resposta às duas primeiras questões formuladas
por Jesus é, obviamente, negativa: João não é pregador oportunista que se
inclina ante os poderosos e que diz o que eles querem ouvir, nem é um
interesseiro, à procura de vida cómoda, que gosta do luxo e do esbanjamento.
João é homem íntegro, verdadeiro, capaz de enfrentar, de peito aberto, os
poderosos e de denunciar as mentiras em que vivem. É um homem despojado, que
vive com simplicidade, que não dá atenção aos valores fúteis e que está focado
no que é eterno.
Depois,
Jesus deixa no ar a questão se o Batista é um profeta, para, a seguir, dar a
resposta: “Sim – Eu vo-lo digo – e mais que profeta.” João é o profeta
escolhido por Deus e enviado ao Mundo para ser, no meio dos homens. um sinal de
Deus. Mais: é o “mensageiro” que os profetas anunciaram, aquele que Deus
prometeu enviar à Sua frente para Lhe preparar o caminho (cf Ml 3,1:
“eis que envio o meu mensageiro diante de ti, para te preparar o caminho”). E,
como a tradição judaica liga esse “mensageiro” à figura de Elias, Jesus acrescenta:
“Ele é o Elias que estava para vir”. Enfim, João foi um profeta singular. Foi o
mensageiro, o arauto, que Deus enviou para anunciar a presença do Messias no Mundo
e para preparar os caminhos por onde o Messias devia chegar ao coração e à vida
dos homens. O Batista é a “voz” profética que abre caminho à Palavra, que é
Jesus, o Verbo de Deus. A voz tine, mas a palavra entra, alegra e transforma.
O
testemunho de Jesus sobre João termina com um comentário singular final: “Não
há ninguém maior do que João. No entanto, o menor no reino dos Céus é maior do
que ele”. Ou seja, aqueles que escutam Jesus e que acolhem o dinamismo do Reino
de Deus, os que se dispõem a seguir Jesus e a acolher a salvação que Ele trouxe
são maiores do que João.
***
Na segunda
leitura (Tg 5,7-10), Tiago, que se apresenta como “servo de Deus e do
Senhor Jesus Cristo”, avisa os pobres, vítimas das prepotências dos poderosos, de
que o Senhor, o juiz dos homens, está a chegar para fazer justiça. A sua vinda
libertá-los-á da opressão a que estão sujeitos. Porém, enquanto esperam, devem pôr
a sua confiança em Deus e continuar, com fidelidade e sem desânimo, o caminho
que têm pela frente.
A
tradição liga o autor da Carta a Tiago, “irmão” (parente) do Senhor, que
presidiu à Igreja de Jerusalém e do qual os Evangelhos falam como filho de
Maria. De acordo com Flávio Josefo, teria sido martirizado em Jerusalém, no ano
62. Porém, a atribuição do escrito a essa personagem levanta dificuldades. O
mais certo é estarmos perante um outro Tiago, desconhecido até agora. Tiago,
filho de Alfeu e Tiago, filho de Zebedeu e irmão de João, também não se
encaixam neste perfil. Em todo o caso, trata-se de um autor que escreve bem,
recorrendo até a recursos retóricos, como a diatribe (género recorrente na
filosofia popular helénica), a perguntas retóricas e a jogos de paradoxos e de contrastes.
Inspira-se, particularmente, na literatura sapiencial, para extrair lições de
moral prática, mas depende, profundamente, dos ensinamentos do Evangelho. É um
sábio judeo-cristão que repensa, de forma original, as máximas da sabedoria
judaica, em função do cumprimento que encontraram nas palavras e no ensinamento
de Jesus.
A
carta de Tiago foi enviada “às doze tribos que vivem na Diáspora”. A expressão
aludirá a cristãos de origem judaica, dispersos no universo greco-romano,
sobretudo, em regiões próximas da Palestina, como a Síria ou o Egito, mas pode
referir-se, em termos metafóricos, à totalidade da comunidade de Jesus,
dispersa pelo Mundo greco-romano. Exorta os crentes a não perderem os valores
cristãos autênticos herdados do judaísmo, através dos ensinamentos de Cristo. E
apela a que os cristãos vivam, com coerência e com verdade, a própria fé.
O
trecho em referência pertence à terceira parte da carta. O autor apresenta, num
conjunto de desenvolvimentos e de sentenças aparentemente sem ordem, nem
lógica, indicações concretas, para favorecer uma vida cristã mais autêntica e
ativa. O Mundo está saturado de cristãos descafeinados.
Nos
versículos imediatamente anteriores ao segmento proclamado como segunda leitura,
o autor tinha dirigido a violenta admoestação aos ricos que oprimem os pobres e
que enriquecem a reter os salários dos trabalhadores. Avisara-os de que Deus
não deixaria passar em claro as suas maldades. Desta feita, fala aos pobres que
são, constantemente, vítimas da prepotência e da maldade dos grandes da Terra.
Para tanto, parte da convicção inabalável (que muitos cristãos da época
partilhavam): no horizonte próximo da História está a segunda vinda de Cristo.
O juiz dos homens está a chegar para fazer justiça. A sua vinda trará a mudança
esperada, libertará os pobres de todas as injustiças a que têm estado sujeitos.
Ora,
os pobres devem viver os dias que precedem a sua libertação, com paciência (o
termo é expresso por quatro vezes). É a paciência do agricultor que, depois de
ter feito o seu trabalho, fica, pacientemente, à espera da chuva temporã e da
tardia e de que a terra, fecundada pela chuva, produza os seus frutos. Sem as
chuvas temporãs, caídas no início do outono, após longo e seco verão, os
agricultores palestinianos não podiam lançar as sementeiras de outono, pelo que
esperavam as chuvas tardias, que cairiam no início da primavera, depois de
inverno frio e seco, para lançarem novas sementeiras. E, como, sem a
intervenção de Deus, que mandava a chuva, a seu tempo, os agricultores não
podiam fazer nada; restava-lhes esperar com paciência.
Assim,
os pobres devem colocar a sua confiança em Deus e continuar a percorrer, com
fidelidade e sem desânimo, o seu caminho. Na verdade, enquanto esperam, não vale
a pena reagirem agressivamente contra a maldade e a injustiça. Por isso, a
indicação de Tiago é: aguardar, serenamente, enquanto esperam a libertação; não
cometer violência contra os opressores e não passar o tempo em lamúria. “Que
ninguém faça justiça pelas suas mãos. Aprendei com os profetas a esperar a
justiça de Deus.” No entanto, nestas indicações de Tiago, não há qualquer apelo
à passividade, a cruzar os braços, a demitir-se da luta pelo Mundo melhor. Os
seus conselhos devem ser entendidos como apelo a confiar no Senhor e a não
embarcar no esquema injusto e violento dos opressores. O acento é posto na
esperança que deve alumiar o coração de quem sofre: o Senhor vem,
garantidamente, e a libertação está a chegar.
A
paciência é ditada pela alegria de viver segundo os ditames de Deus. A
paciência, para com o próximo, é o amor; para connosco, é a esperança e, para com
Deus, é a fé.
***
Por
tudo, é bom clamar, com a confiança do salmista, um cântico de Advento:
“Vinde,
Senhor, e salvai-nos.”
“O
Senhor faz justiça aos oprimidos, / dá pão aos que têm fome / e a liberdade aos
cativos.
“O
Senhor ilumina os olhos dos cegos, / o Senhor levanta ao abatidos, / o Senhor
ama os justos.
“O
Senhor protege os peregrinos, / ampara o órfão e a viúva / e entrava o caminho
aos pecadores.
“O
Senhor reina eternamente. / O teu Deus, ó Sião, / é rei por todas as gerações.”
***
“Aleluia.
Aleluia. O Espírito do Senhor está sobre mim: enviou-me a anunciar a boa nova
aos pobres.”
2025.12.14 – Louro de Carvalho
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