domingo, 14 de dezembro de 2025

Deus faz justiça através da misericórdia, que é sua forma de poder

 

A terceira etapa do caminho da preparação da vinda do Senhor, inicia-se com o III domingo do Advento, no Ano A, denominado “domingo Gaudete (Alegrai-vos)”, em eco do convite paulino à alegria, à alegria confecionada no interior de cada pessoa e no coração da comunidade. Esta alegria, que parte do interior, deve manifestar-se exteriormente. Ora, um santo triste é um triste santo, como diziam os antigos. Porém, se a alegria é meramente exterior, é vã e oca. E há cristãos que respiram a vanidade da vida, como há cristãos cuja vida parece um pesado fardo. Ora, o III domingo do advento convida-nos à alegria, porque a vinda do Senhor se aproxima e a nossa libertação está perto. Os cristãos têm motivos fortes para se sentirem e mostrarem alegres.

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Na primeira leitura (Is 35,1-6a.10), o profeta anuncia aos habitantes de Judá, exilados na Babilónia, que está prestes a acabar tempo de tristeza e que vai chegar o tempo novo da alegria e da esperança, porque Deus “aí está para fazer justiça”. Intervirá na História, salvará Judá do cativeiro, abrirá a estrada no deserto para o Povo regressar a Sião, em procissão triunfal. Deus nunca desiste dos seus filhos. Enfim, após anos de desolação, chegarão os tempos novos da alegria exuberante (menciona-se a alegria por 10 vezes, recorrendo a quatro sinónimos).
O profeta interpela a Natureza e insta-a a preparar-se para a ação libertadora de Deus em favor do seu Povo. O deserto e o descampado, estéreis e desolados, são convidados a vestirem-se de vida abundante – como o Líbano, o monte Carmelo ou a planície do Sharon (zonas proverbiais de vida e de fecundidade) – e a ornarem-se de flores de todas as formas e cores. Assim, vestida de vida e de festa, a Natureza manifestará a sua alegria pela intervenção misericordiosa de Javé e será o cenário apropriado para a intervenção gloriosa de Deus, destinada a levar a vida nova ao Povo. A magnificência das árvores e das plantas, tornada imagem da glória e da beleza do Senhor, falará a todos da grandeza de Deus, da sua capacidade para fazer brotar vida onde há morte, desolação e esterilidade.
Depois, o profeta dirige-se aos homens, dizendo-lhes: “Nada de desânimo, nada de cobardia, nada de baixar os braços: Deus aí está para salvar e libertar o seu Povo”. Os exilados devem unir-se à Natureza nessa corrente de alegria e de vida nova, pois a libertação chegou.
O resultado da iniciativa libertadora de Deus será mesmo impactante: os olhos dos cegos abrir-se-ão e desimpedir-se-ão os ouvidos dos surdos; o coxo não andará e saltará como o veado; o mudo falará e cantará de alegria. Efetivamente, a intervenção de Deus é excessiva, imensa, exuberante, transformadora e geradora de vida em abundância. Os exilados regressarão à sua terra. A marcha do Povo da terra da escravidão para a terra da liberdade será o novo êxodo, onde se repetirão as maravilhas operadas pelo Deus libertador aquando do primeiro êxodo. Porém, este êxodo será mais grandioso, quanto à manifestação e à ação de Deus. Será peregrinação festiva ou procissão solene de alegria e de festa. O resultado do novo êxodo será o reencontro com Sião, a eterna felicidade, a alegria infinda.

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No Evangelho (Mt 11,2-11), Jesus define a missão que o Pai Lhe confiou, quando O enviou ao encontro dos homens: dar vista aos cegos e tirá-los da escuridão onde se afundam, libertar os coxos de tudo o que os impede de caminhar, curar os leprosos e reintegrá-los na família de Deus, abrir os ouvidos dos surdos, que vivem fechados no seu casulo de autossuficiência, devolver a vida aos que se sentem às portas da morte, anunciar aos pobres a Boa Notícia do amor de Deus. Com Jesus, o Reino de Deus chegou à vida e à História dos homens.
O trecho em apreço apresenta duas partes. Na primeira (vv. 2-6), Jesus responde à pergunta de João e define a sua identidade messiânica; na segunda (vv. 7-11), comenta, com a multidão, a figura e a ação profética de João.
À questão trazida pelos discípulos de João, Jesus responde de forma desconcertante. Recorrendo às Escrituras, refere as obras que o discurso profético atribui ao Messias: dar vida aos mortos, abrir os olhos dos cegos, desimpedir os ouvidos dos surdos, dar liberdade de movimentos aos coxos, fazer falar os mudos, anunciar a Boa Nova aos pobres. Ora, Jesus, ao realizar tais obras, não precisa de dizer que é o Messias.  Chegaram, de facto, os dias messiânicos. Jesus é o Messias, enviado por Deus para libertar o seu povo de tudo o que lhe rouba a vida. É o Messias que, propondo e construindo o Mundo novo, o Reino de Deus, cumpre as promessas divinas.
Os gestos de Jesus – próprios do Messias – não são sinais de condenação, mas de salvação. João, o Batista, estava enganado, ao falar de um enviado de Deus que deveria vir para julgar e para condenar. Para escândalo dos chefes judaicos, o ano da vingança de Deus, anunciado por Isaías, juntamente com o ano da graça, não faz parte do caderno de encargos de Jesus. Só o ano da graça!
A missão que Jesus recebeu do Pai é a de salvar e dar vida. Talvez o Batista fique escandalizado, por verificar que o Messias atua de forma diversa do esperado. Por isso, Jesus deixa-lhe o recado: “Feliz aquele que não encontrar em Mim motivo de escândalo.” Será feliz quem reconhecer e acolher Jesus como o Messias enviado, para oferecer aos homens a salvação de Deus.
Depois de os discípulos de João terem ido embora, Jesus comenta com os circunstantes a figura e a missão de João, o Batista. Mateus lança mão de um recurso retórico muito conhecido: uma série de perguntas que suscitam respostas concretas dos ouvintes, mas que Jesus adianta. A resposta às duas primeiras questões formuladas por Jesus é, obviamente, negativa: João não é pregador oportunista que se inclina ante os poderosos e que diz o que eles querem ouvir, nem é um interesseiro, à procura de vida cómoda, que gosta do luxo e do esbanjamento. João é homem íntegro, verdadeiro, capaz de enfrentar, de peito aberto, os poderosos e de denunciar as mentiras em que vivem. É um homem despojado, que vive com simplicidade, que não dá atenção aos valores fúteis e que está focado no que é eterno.
Depois, Jesus deixa no ar a questão se o Batista é um profeta, para, a seguir, dar a resposta: “Sim – Eu vo-lo digo – e mais que profeta.” João é o profeta escolhido por Deus e enviado ao Mundo para ser, no meio dos homens. um sinal de Deus. Mais: é o “mensageiro” que os profetas anunciaram, aquele que Deus prometeu enviar à Sua frente para Lhe preparar o caminho (cf Ml 3,1: “eis que envio o meu mensageiro diante de ti, para te preparar o caminho”). E, como a tradição judaica liga esse “mensageiro” à figura de Elias, Jesus acrescenta: “Ele é o Elias que estava para vir”. Enfim, João foi um profeta singular. Foi o mensageiro, o arauto, que Deus enviou para anunciar a presença do Messias no Mundo e para preparar os caminhos por onde o Messias devia chegar ao coração e à vida dos homens. O Batista é a “voz” profética que abre caminho à Palavra, que é Jesus, o Verbo de Deus. A voz tine, mas a palavra entra, alegra e transforma.
O testemunho de Jesus sobre João termina com um comentário singular final: “Não há ninguém maior do que João. No entanto, o menor no reino dos Céus é maior do que ele”. Ou seja, aqueles que escutam Jesus e que acolhem o dinamismo do Reino de Deus, os que se dispõem a seguir Jesus e a acolher a salvação que Ele trouxe são maiores do que João.

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Na segunda leitura (Tg 5,7-10), Tiago, que se apresenta como “servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo”, avisa os pobres, vítimas das prepotências dos poderosos, de que o Senhor, o juiz dos homens, está a chegar para fazer justiça. A sua vinda libertá-los-á da opressão a que estão sujeitos. Porém, enquanto esperam, devem pôr a sua confiança em Deus e continuar, com fidelidade e sem desânimo, o caminho que têm pela frente.
A tradição liga o autor da Carta a Tiago, “irmão” (parente) do Senhor, que presidiu à Igreja de Jerusalém e do qual os Evangelhos falam como filho de Maria. De acordo com Flávio Josefo, teria sido martirizado em Jerusalém, no ano 62. Porém, a atribuição do escrito a essa personagem levanta dificuldades. O mais certo é estarmos perante um outro Tiago, desconhecido até agora. Tiago, filho de Alfeu e Tiago, filho de Zebedeu e irmão de João, também não se encaixam neste perfil. Em todo o caso, trata-se de um autor que escreve bem, recorrendo até a recursos retóricos, como a diatribe (género recorrente na filosofia popular helénica), a perguntas retóricas e a jogos de paradoxos e de contrastes. Inspira-se, particularmente, na literatura sapiencial, para extrair lições de moral prática, mas depende, profundamente, dos ensinamentos do Evangelho. É um sábio judeo-cristão que repensa, de forma original, as máximas da sabedoria judaica, em função do cumprimento que encontraram nas palavras e no ensinamento de Jesus.
A carta de Tiago foi enviada “às doze tribos que vivem na Diáspora”. A expressão aludirá a cristãos de origem judaica, dispersos no universo greco-romano, sobretudo, em regiões próximas da Palestina, como a Síria ou o Egito, mas pode referir-se, em termos metafóricos, à totalidade da comunidade de Jesus, dispersa pelo Mundo greco-romano. Exorta os crentes a não perderem os valores cristãos autênticos herdados do judaísmo, através dos ensinamentos de Cristo. E apela a que os cristãos vivam, com coerência e com verdade, a própria fé.
O trecho em referência pertence à terceira parte da carta. O autor apresenta, num conjunto de desenvolvimentos e de sentenças aparentemente sem ordem, nem lógica, indicações concretas, para favorecer uma vida cristã mais autêntica e ativa. O Mundo está saturado de cristãos descafeinados.
Nos versículos imediatamente anteriores ao segmento proclamado como segunda leitura, o autor tinha dirigido a violenta admoestação aos ricos que oprimem os pobres e que enriquecem a reter os salários dos trabalhadores. Avisara-os de que Deus não deixaria passar em claro as suas maldades. Desta feita, fala aos pobres que são, constantemente, vítimas da prepotência e da maldade dos grandes da Terra. Para tanto, parte da convicção inabalável (que muitos cristãos da época partilhavam): no horizonte próximo da História está a segunda vinda de Cristo. O juiz dos homens está a chegar para fazer justiça. A sua vinda trará a mudança esperada, libertará os pobres de todas as injustiças a que têm estado sujeitos.
Ora, os pobres devem viver os dias que precedem a sua libertação, com paciência (o termo é expresso por quatro vezes). É a paciência do agricultor que, depois de ter feito o seu trabalho, fica, pacientemente, à espera da chuva temporã e da tardia e de que a terra, fecundada pela chuva, produza os seus frutos. Sem as chuvas temporãs, caídas no início do outono, após longo e seco verão, os agricultores palestinianos não podiam lançar as sementeiras de outono, pelo que esperavam as chuvas tardias, que cairiam no início da primavera, depois de inverno frio e seco, para lançarem novas sementeiras. E, como, sem a intervenção de Deus, que mandava a chuva, a seu tempo, os agricultores não podiam fazer nada; restava-lhes esperar com paciência.
Assim, os pobres devem colocar a sua confiança em Deus e continuar a percorrer, com fidelidade e sem desânimo, o seu caminho. Na verdade, enquanto esperam, não vale a pena reagirem agressivamente contra a maldade e a injustiça. Por isso, a indicação de Tiago é: aguardar, serenamente, enquanto esperam a libertação; não cometer violência contra os opressores e não passar o tempo em lamúria. “Que ninguém faça justiça pelas suas mãos. Aprendei com os profetas a esperar a justiça de Deus.” No entanto, nestas indicações de Tiago, não há qualquer apelo à passividade, a cruzar os braços, a demitir-se da luta pelo Mundo melhor. Os seus conselhos devem ser entendidos como apelo a confiar no Senhor e a não embarcar no esquema injusto e violento dos opressores. O acento é posto na esperança que deve alumiar o coração de quem sofre: o Senhor vem, garantidamente, e a libertação está a chegar.
A paciência é ditada pela alegria de viver segundo os ditames de Deus. A paciência, para com o próximo, é o amor; para connosco, é a esperança e, para com Deus, é a fé.

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Por tudo, é bom clamar, com a confiança do salmista, um cântico de Advento:

“Vinde, Senhor, e salvai-nos.”

“O Senhor faz justiça aos oprimidos, / dá pão aos que têm fome / e a liberdade aos cativos.

“O Senhor ilumina os olhos dos cegos, / o Senhor levanta ao abatidos, / o Senhor ama os justos.

“O Senhor protege os peregrinos, / ampara o órfão e a viúva / e entrava o caminho aos pecadores.

“O Senhor reina eternamente. / O teu Deus, ó Sião, / é rei por todas as gerações.”

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“Aleluia. Aleluia. O Espírito do Senhor está sobre mim: enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres.”

2025.12.14 – Louro de Carvalho


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