A
liturgia da Solenidade do Natal do Senhor – Missa do Dia (além desta, a Solenidade
segue formulários bíblico-oracionais diferentes para as missas da Vigília, da
Meia Noite e da Aurora) – é, toda ela, um hino ao amor de Deus que, por amor, Se
vestiu da nossa Humanidade, por obra do Espírito Santo, e “estabeleceu a sua
tenda entre nós”, para nos oferecer a Vida plena e para nos elevar à dignidade
de “filhos de Deus”, falando-nos, com palavras e gestos humanos. O Natal é,
pois, a erupção do vulcão divino na Terra dos homens, não com a lava que
destrói, mas com a lava da ternura, destinada a moldar, a construir, a
humanizar e a divinizar.
***
Na primeira
leitura (Is 52,7-10), Isaías anuncia a chegada do Deus libertador, o rei
que traz a paz e a salvação, proporcionando ao seu Povo uma era de felicidade infinda.
Por isso, o profeta insta a que substituamos a tristeza pela alegria, o
desalento pela esperança.
O
texto integra a segunda parte do “Livro da Consolação” (Is 49-55). O
profeta, que havia anunciado, na primeira parte (Is 40-48), a libertação
do cativeiro e o novo êxodo do Povo de Deus rumo à Terra Prometida, agora, fala
da reconstrução e da restauração de Jerusalém e garante que Deus não Se
esqueceu da sua cidade em ruínas e que virá fazer dela a cidade bela e cheia de
vida, como a noiva em dia de casamento.
Para
revitalizar a esperança dos exilados, o profeta apresenta um quadro sugestivo:
à Jerusalém desolada e em ruínas, chega um mensageiro com a boa notícia da paz
(“shalom”: paz, bem-estar, harmonia, felicidade), proclama a salvação e promete
o reinado de Deus. Assim, Deus assume-Se como rei de Judá. Não reinará ao
estilo dos reis que guiaram o Povo por sendas de egoísmo e de morte, de
desgraça em desgraça, até à catástrofe final do Exílio. Antes exercerá a
realeza de forma a proporcionar a salvação ao seu Povo, isto é, inaugurando uma
era de paz, de bem-estar, de felicidade infindos.
O
profeta/poeta põe as sentinelas da cidade (alertadas pelo anúncio do mensageiro)
a olhar na direção em que deve chegar o Senhor. De repente, soa o grito dessas
sentinelas. Não é um grito de alarme, mas de alegria contagiante: elas veem
Javé chegar e apresentar-se às portas da cidade, preparado para entrar. Com
Deus, Jerusalém voltará a ser a cidade bela e harmoniosa, cheia de alegria e de
festa. Por fim, o profeta/poeta desafia as pedras da cidade em ruínas a cantarem
em coro, porque a libertação chegou. E a salvação que Deus oferece à sua cidade
e ao seu Povo será testemunhada por toda a Terra, como se o Mundo estivesse de
olhos postos na ação vitoriosa de Deus em favor de Judá. É a libertação do ser
humano e do próprio cosmos.
***
A segunda
leitura (Heb 1,1-6) esboça o plano salvador de Deus, vincando que
alcança o seu ponto mais alto com o envio de Jesus, a “Palavra” (“lógos” ou “verbum”)
de Deus que os homens devem escutar e acolher. Estão esboçadas, em traços
largos, as coordenadas fundamentais da História da Salvação, cujo protagonista é
Deus.
O
texto desígnio salvador de Deus manifestou-se, numa primeira fase, “de muitos
modos”, através dos porta-vozes de Deus – os profetas –, que transmitiram aos
homens a proposta salvadora e libertadora de Deus. Veio, depois, a segunda
etapa da História da Salvação: “nestes dias que são os últimos”, Deus
manifestou-Se através do próprio “Filho” – Jesus Cristo, o menino de Belém, a
Palavra plena, definitiva, perfeita, pela qual Deus vem ao nosso encontro, para
nos indicar a via da salvação e da vida nova. O trecho em apreço reflete uma
lógica muito ordenada sobre a relação de Jesus com o Pai, com os homens e com
os anjos, situando-nos no ambiente de uma comunidade que dava significativa importância
ao culto dos anjos e que lhes reconhecia papel preponderante na salvação do
homem.
Para
o autor da Carta aos Hebreus, Jesus, o Filho, identifica-Se plenamente com o
Pai. É o esplendor da glória do Pai, a imagem do ser do Pai, a reprodução exata
e perfeita da substância do Pai. Deste modo, o epistológrafo afirma que Jesus
procede do Pai e é igual ao Pai. N’Ele manifesta-Se o Pai; quem olha para Ele, vê
o Pai.
Definida
a relação de Jesus com Deus, surge a problemática da relação de Jesus com o Mundo.
O Filho está na origem do universo e, portanto, também do homem. Por isso, tem
um senhorio pleno sobre toda a criação. Essa soberania expressa-se na
encarnação e na redenção: tendo vindo ao encontro do homem e tendo-o purificado
do pecado, completou a obra começada pela Palavra criadora de Deus, no início.
É como o Senhor (“hô Kýrios”) – isto é, Aquele que possui soberania sobre os
homens e sobre o Mundo – que os homens O devem ver e acolher.
A
igualdade fundamental do Filho com o Pai fá-lo muito superior aos anjos: os
anjos não são filhos; mas Jesus é o Filho e o próprio Deus proclamou essa
relação de filiação plena, real, perfeita. Não são os anjos que salvam, mas o
Filho, o qual, sendo a Palavra última e definitiva de Deus, deve ser escutado
pelos homens como a via mais segura para chegar à Vida nova que o Pai nos destinou.
É tendo consciência desse facto que devemos acolher o menino de Belém.
***
O Evangelho (Jo
1,1-18) desenvolve o tema esboçado na segunda leitura e apresenta a
“Palavra” viva de Deus, tornada pessoa em Jesus. Sugere que a missão do Filho, Palavra
viva de Deus, é completar a criação primeira, eliminando tudo o que se opõe à
vida e criando condições para que nasça o Homem Novo, da vida em plenitude, que
vive a relação filial com Deus.
A
Igreja primitiva recorreu, com frequência, a hinos para celebrar, expressar e
anunciar a sua fé. O prólogo ao Evangelho de João é um desses hinos. Não
sabemos se este foi composto por João, ou se o evangelista do Quarto Evangelho
usou um primitivo hino cristão conhecido da comunidade joânica, adaptando-o de modo
que pudesse servir de prólogo à sua obra. Em todo o caso, o hino cristológico
que chegou até nós expressa, em forma de confissão, a fé da comunidade joânica
em Cristo, enquanto Palavra viva de Deus, a sua origem eterna, a sua
procedência divina, a sua influência no Mundo e na História, possibilitando aos
homens que O acolhem e escutam tornarem-se filhos de Deus. Essas grandes
linhas, enunciadas neste prólogo, serão desenvolvidas pelo evangelista ao longo
da sua obra.
O
prólogo começa pela expressão “no princípio” (en arkhêi), enlaçando este
Evangelho com o relato da criação (cf. Gn 1,1), dando-nos, desde
logo, uma chave de interpretação do escrito joânico. O que João vai narrar
sobre Jesus está em relação com a obra criadora de Deus: em Jesus vai acontecer
a definitiva intervenção criadora de Deus no sentido de dar vida ao homem e ao Mundo.
A ação de Jesus, enviado do Pai, consiste em fazer nascer o homem novo e coroar
a obra criadora iniciada por Deus “no princípio”.
João
apresenta, logo a seguir, a “Palavra” (“Lógos”), a qual é, de acordo com o evangelista,
uma realidade anterior ao Céu e à Terra, implicada já na primeira criação. Esta
Palavra apresenta-se com as caraterísticas que o Livro dos Provérbios
atribuía à sabedoria: pré-existência e colaboração com Deus na obra da criação.
Todavia, essa Palavra não só estava junto de Deus e cooperava com Deus, mas
“era Deus”. Identifica-se totalmente com Deus, com o ser de Deus, com a obra
criadora de Deus. É como que o projeto íntimo de Deus a expressar-se e a
comunicar-se como “Palavra”. Deus faz-Se inteligível através da “Palavra”. Essa
“Palavra” é geradora de vida para o homem e para o Mundo, concretizando o desígnio
de Deus.
A
Palavra veio ao encontro dos homens e fez-se “carne” (pessoa). João identifica a
Palavra com Jesus, o “Filho único cheio de amor e de verdade”, que veio ao
encontro do homem. Nessa pessoa (Jesus), podemos contemplar o projeto ideal de
homem, o homem que nos é proposto como modelo e meta final da criação de Deus.
A
Palavra “estabeleceu a sua tenda entre nós”. O verbo “skênéô” (“montar a
tenda”) alude à “tenda do encontro” que, na caminhada pelo deserto, os
israelitas montavam no meio ou ao lado do acampamento e que era o local onde
Deus residia no meio do seu Povo. Agora, a tenda de Deus, o local onde Ele
habita no meio dos homens é o Homem/Jesus. Quem quiser encontrar Deus e receber
d’Ele vida em plenitude (“salvação”) tem de se voltar para Jesus.
A
função da Palavra está ligada ao binómio “vida/luz”: comunicar ao homem a vida
em plenitude, ou seja, acender a luz que ilumina o caminho do homem,
possibilitando-lhe encontrar a vida verdadeira, a vida plena.
Não
obstante, Jesus Cristo vai deparar-Se com a oposição à vida/luz que Ele traz.
Ao longo do Evangelho, João exporá confronto da vida/luz com o sistema injusto
e opressor que prende os homens no egoísmo e no pecado e que João identifica
com a Lei, cujo rosto visível são os dirigentes judeus que enfrentam Jesus e o
condenam à morte. Recusar a vida/luz significa preferir as trevas, que se
identificam com a mentira, a escravidão e a opressão, à margem de Deus, e
recusar ser homem pleno, livre, criação acabada e elevada à máxima
potencialidade.
Em
contraponto, o acolhimento da Palavra implica a participação na vida de Deus. Tanto
assim é que João diz que acolher a Palavra significa tornar-se “filho de Deus”.
Começa, para quem acolhe a Palavra/Jesus, uma nova relação entre o homem e
Deus, expressa em termos de filiação: Deus dá vida em plenitude ao homem,
oferecendo-lhe a qualidade de vida que potencia o seu ser e lhe permite crescer
até à dimensão do homem novo, acabado e perfeito. Isto é a nova criação, o novo
nascimento, que não provém da carne e do sangue, mas de Deus.
A
encarnação do lógos (Filho de Deus) significa, portanto, que Deus oferece à Humanidade
a possibilidade de se realizar plenamente, de chegar à Vida em plenitude.
Sempre existiu no homem o anseio da vida plena, conforme o projeto original de
Deus; mas, na prática, tal anseio fica, muitas vezes, frustrado pelo domínio
que o egoísmo, a injustiça, a mentira – numa palavra, o pecado – exercem sobre
o homem. Toda a obra de Jesus consistirá em capacitar o homem para a Vida nova,
para a Vida plena, a fim de que ele possa realizar em si mesmo o desígnio de
Deus: a semelhança com o Pai.
“Veio
para o que era seu, e os seus não O receberam. Mas, àqueles que O receberam e
acreditaram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo
1,12).
***
Na
Missa da Meia Noite, Leão XIV, comentando Is 9,2-7 (1-6), Tt 2,11-14
e Lc 2,1-14, disse:
“Durante
milénios, em todas as partes da Terra, os povos perscrutaram o Céu, dando nomes
e formas às estrelas: na sua imaginação, liam os acontecimentos do futuro,
procurando lá no alto, entre os astros, a verdade que faltava cá em baixo,
entre as casas. Naquela escuridão, como que a tatear, permaneciam confusos com
os seus próprios oráculos. Todavia, nesta noite, ‘o povo que andava nas trevas
viu uma grande luz; habitavam numa terra de sombras, mas uma luz brilhou sobre
eles’. Eis a estrela que surpreende o Mundo, uma centelha recém-acesa e
flamejante de vida: ‘Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, o
Messias Senhor.’
“No
tempo e no espaço, onde quer que estejamos, vem Aquele sem o qual nem teríamos
existido. Vive connosco O que por nós dá a vida, iluminando, com a salvação, a
nossa noite. Não há trevas que a estrela não ilumine, porque, à sua luz, toda a
Humanidade vê a aurora de uma existência nova e eterna. É o Natal de Jesus, o
Emanuel. No Filho feito homem, Deus não nos dá algo, mas a Si mesmo, ‘para nos
resgatar de toda a iniquidade e formar, para si, um povo puro’. Nasce, na noite,
O que da noite nos resgata: o vestígio do dia que amanhece já não deve
procurar-se lá longe, nos espaços siderais, mas inclinando a cabeça, para o
estábulo ao lado.
“O
sinal claro dado a um Mundo às escuras é ‘um menino envolto em panos, deitado
numa manjedoura’. Para encontrar o Salvador, não é preciso olhar para cima, mas
contemplar o que está em baixo: a omnipotência de Deus resplandece na
impotência do recém-nascido; a eloquência do Verbo eterno ressoa no primeiro
choro do bebé; a santidade do Espírito brilha no corpinho recém-lavado e
envolto em panos. É divina a necessidade de cuidado e calor, que o Filho do Pai
partilha na História com todos os seus irmãos. A luz divina que irradia deste
Menino ajuda-nos a ver o homem em cada vida nascente.
“Para
iluminar a nossa cegueira, o Senhor quis revelar-Se como homem ao homem, sua
verdadeira imagem, segundo o projeto de amor iniciado com a criação do Mundo.
Enquanto a noite do erro obscurecer esta verdade providencial, ‘não há espaço para
os outros, para as crianças, para os pobres, para os estrangeiros’. Estas
palavras de Bento XVI lembram-nos que, na Terra, não há espaço para Deus, se
não houver espaço para o homem: não acolher um significa não acolher o outro. Porém,
onde há lugar para o homem, há lugar para Deus: um estábulo pode tornar-se mais
sagrado do que um templo e o ventre da Virgem Maria é a arca da nova aliança.
“Admiremos
a sabedoria do Natal. No Menino Jesus, Deus dá ao Mundo uma vida nova: a sua,
para todos. Não uma ideia que resolve todos os problemas, mas uma História de
amor que nos envolve. Ante as expectativas dos povos, envia um bebé, para ser
palavra de esperança; ante a dor dos miseráveis, envia um indefeso, para ser
força para se levantarem; ante a violência e a opressão, acende uma luz suave
que ilumina com a salvação todos os filhos deste Mundo. Como observava Santo
Agostinho, ‘a soberba humana esmagou-te tanto que só a humildade divina podia
levantar-te’. Enquanto uma economia distorcida leva a tratar os homens como
mercadoria, Deus torna-Se semelhante a nós, revelando a infinita dignidade de
cada pessoa. Enquanto o homem quer tornar-se Deus, para dominar o próximo, Deus
quer tornar-Se homem, para nos libertar de toda a escravidão. E este amor é suficiente
para mudar a nossa História.
“A
resposta surge, logo que, como os pastores, despertamos da noite de morte para
a luz da vida nascente, contemplando o Menino Jesus. Sobre o estábulo de Belém,
onde Maria e José, cheios de admiração, velam o recém-nascido, o Céu estrelado
torna-se ‘multidão do exército celeste’. São hostes desarmadas e desarmantes,
porque cantam a glória de Deus, cuja manifestação na Terra é a paz: no coração
de Cristo palpita o vínculo que une no amor céu e terra, Criador e criaturas.
“Por
isso, há um ano, o Papa Francisco afirmou que o Natal de Jesus
reaviva em nós ‘o dom e o compromisso de levar a esperança onde ela se perdeu’,
porque, ‘com Ele, a alegria floresce, a vida muda, a esperança não desilude’.
Com estas palavras, começou o Ano Santo. Agora que o Jubileu se
aproxima do seu termo, o Natal é, para nós, tempo de gratidão e de missão.
Gratidão pelo dom recebido, missão para o testemunhar ao Mundo. Como canta o
Salmista: ‘Proclamai, dia após dia, a sua salvação. / Anunciai aos pagãos a sua
glória / e a todos os povos, as suas maravilhas.’
“A
contemplação do Verbo feito carne suscita, em toda a Igreja, a palavra nova e
verdadeira: proclamemos a alegria do Natal, que é festa da fé, da caridade e da
esperança. É festa da fé, porque Deus Se faz homem, nascendo de uma Virgem. É
festa da caridade, porque o dom do Filho redentor se realiza na dedicação
fraterna. É festa da esperança, porque o Menino Jesus a acende em nós,
tornando-nos mensageiros da paz. Com estas virtudes no coração, sem temer a
noite, podemos ir ao encontro do amanhecer do novo dia.
***
Por
tudo, num Natal de renovação, podemos clamar com o salmista e com o
evangelista:
“Todos
os confins da Terra viram a salvação do nosso Deus.”
“Cantai
ao Senhor um cântico novo / pelas maravilhas que Ele operou. / A sua mão e o
seu santo braço / Lhe deram a vitória.
“O
Senhor deu a conhecer a salvação, / revelou aos olhos das nações a sua justiça.
/ Recordou-Se da sua bondade e fidelidade / em favor da casa de Israel.
“Os
confins da terra puderam ver / a salvação do nosso Deus. / Aclamai o Senhor,
terra inteira, /
exultai de alegria e cantai.
“Cantai
ao Senhor ao som da cítara, / ao som da cítara e da lira; / ao som da tuba e da
trombeta, / aclamai o Senhor, nosso Rei.”
***
“Aleluia.
Aleluia. Santo é o dia que nos trouxe a luz. / Vinde adorar o Senhor. Hoje, uma
grande luz desceu sobre a terra.”
2025.12.25
– Louro de Carvalho
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