terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Novos colonatos judeus em território palestiniano e mais constrições

 

Bezalel Smotrich, ministro das Finanças israelita, de extrema-direita, a 21 de dezembro de 2025, informou que o Conselho de Ministros de Israel aprovou a proposta da criação de 19 novos colonatos judeus, na Cisjordânia ocupada. Esta informação surgiu numa altura em que o governo avança com uma excessiva construção no território que reforça a ameaça à possibilidade de um Estado palestiniano. Assim, o número total de novos colonatos, nos últimos anos, ascende a 69, um novo recorde, segundo Betzalel Smotrich, que tem promovido uma agenda de expansão dos colonatos na Cisjordânia. Os mais recentes incluem dois que foram anteriormente evacuados, durante o plano de desmobilização de 2005.
A recente aprovação governamental aumenta, em quase 50%, o número de colonatos na Cisjordânia no mandato do atual governo de extrema-direita. Em 2022, existiam 141 colonatos na Cisjordânia. Após a última aprovação, existem 210, de acordo com o Peace Now, grupo de esquerda israelita que defende a paz interna e externa para Israel. Os colonatos, amplamente considerados ilegais, ao abrigo do direito internacional, o que Israel nega, constituem o mais recente golpe sistémico contra o Estado palestiniano, surgindo a aprovação do aumento do seu número no momento em que os Estados Unidos da América (EUA) estão a pressionar Israel e o Hamas a avançar com a segunda fase do cessar-fogo em Gaza, que entrou em vigor a 10 de outubro e cujo plano, negociado com os EUA, prevê uma possível rota para um Estado palestiniano, algo que os colonatos pretendem impedir.
A recente decisão do Conselho de Ministros abrange a legalização retroativa de postos avançados de colonatos previamente estabelecidos ou de bairros de colonatos já existentes e a criação de colonatos em terrenos para onde os palestinianos foram retirados. Os colonatos variam em tamanho, desde habitação única até um conjunto de edifícios altos. E o Ministério das Finanças esclareceu que dois dos colonatos agora legalizados são Kadim e Ganim, dois dos quatro colonatos da Cisjordânia desmantelados em 2005, no âmbito da retirada de Israel da Faixa de Gaza. Houve várias tentativas de os reinstalar, depois de o governo de Israel ter revogado, em março de 2023, a lei de 2005 que evacuava os quatro postos avançados e impedia os israelitas de voltarem a entrar nas áreas.
A este respeito, é de recordar que Israel ocupou a Cisjordânia, a Jerusalém Oriental e Gaza – áreas reivindicadas pelos palestinianos para o futuro Estado –, na guerra de 1967. Instalou mais de 500 mil judeus na Cisjordânia, além de mais de 200 mil na Jerusalém Oriental.
O governo de Israel é dominado por defensores de extrema-direita do movimento dos colonos, incluindo Bezalel Smotrich e o gabinete de Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional de Israel, que supervisiona a força policial do país.
A expansão dos colonos foi agravada por uma vaga de ataques contra palestinianos, nos últimos meses, na Cisjordânia. Assim, durante a colheita da azeitona em outubro, os colonos lançaram, em todo o território, uma média de oito ataques diários, o maior número desde que o gabinete humanitário das Nações Unidas começou a recolher dados, em 2006. Os ataques continuaram em novembro, tendo a Organização das Nações Unidas (ONU) registado, pelo menos, mais 136, até 24 de novembro. Os colonos queimaram carros, profanaram mesquitas, saquearam instalações industriais e destruíram terrenos agrícolas. Atacaram uma casa palestiniana, na Cisjordânia ocupada. Partiram uma porta e uma janela e dispararam gás lacrimogéneo, dentro de uma casa, na cidade de “As Samu”, de modo que três crianças palestinianas tiveram de ser levadas de urgência para o hospital. E mataram três ovelhas e feriram quatro.
A Comissão de Colonização e Resistência ao Muro, gabinete que documenta os ataques no seio de um organismo governamental palestiniano, divulgou imagens de CCTV que mostram cinco colonos com máscaras e vestuário escuro, alguns equipados com bastões, e acusa as autoridades israelitas de pouco terem feito, além de condenarem, ocasionalmente, a violência. Não obstante, a polícia disse estar a investigar o incidente e revelou que prendeu cinco colonos, por suspeita de invasão de terras palestinianas, de danos a propriedades e de distribuição de gás pimenta, em vez de gás lacrimogéneo.
O ataque marcou o segundo ataque contra a família, em menos de dois meses, disse um funcionário da comissão, frisando que “faz parte de um padrão sistemático e contínuo de violência dos colonos contra civis palestinianos, [contra] os seus bens e [contra] os seus meios de subsistência, levado a cabo impunemente sob a proteção da ocupação israelita”.
Os ataques dos colonos israelitas aumentam, frequentemente, na época da colheita da azeitona, de setembro a novembro, período crítico para o rendimento dos palestinianos.
O Ministério da Saúde palestiniano, em Ramallah, afirmou que dois palestinianos – Rayan Abu Muallah, de 16 anos, e Ahmad Ziyoud, de 22 anos – foram mortos em confrontos com os militares israelitas, a 20 de dezembro, à noite, na parte Norte da Cisjordânia. Por sua vez, os militares israelitas alegaram que um militante foi baleado e morto, depois de ter atirado um bloco contra as tropas, em Qabatiya, e que outro foi morto, depois de ter atirado explosivos contra as tropas que operavam na cidade de Silat al-Harithiya.
Os meios de comunicação social palestinianos divulgaram imagens de videovigilância, em que o jovem de 16 anos sai de um beco e é alvejado pelas tropas, quando se aproxima, sem arremessar nada. Porém, os militares israelitas afirmaram que o incidente está em análise.
As forças armadas israelitas intensificaram as operações militares na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, em resposta grandemente desproporcionada ao ataque de 7 de outubro de 2023, liderado pelo Hamas, que desencadeou a guerra em Gaza. Ora, na Cisjordânia, vivem cerca de três milhões de palestinianos e mais de meio milhão de colonos.

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Entretanto, a 23 de dezembro, o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, esquecido das exigências do plano de paz liderado pelos EUA, anunciou a criação de colonatos em Gaza, mas retirou, mais tarde, a declaração, alegando que foi proferida num contexto de segurança. Aliás, voltou atrás, na sequência de críticas de que a ideia contraria o plano de paz.
Israel Katz, falando num colonato israelita, na Cisjordânia, disse que, “com a ajuda de Deus”, Israel iria estabelecer grupos pioneiros no Norte de Gaza, “no lugar dos colonatos que foram evacuados”. “Fá-lo-emos da forma correta e no momento oportuno”, vincou.
O ministro da Defesa referia-se às unidades militares Nahal que permitiam, no passado, aos jovens combinar atividades pioneiras com o serviço militar. Muitos dos postos avançados estabelecidos evoluíram para colónias de pleno direito. Porém, Israel evacuou os seus colonatos em Gaza e retirou todas as suas tropas ao abrigo do plano de retirada de Israel, em 2005.
Alguns responsáveis da coligação de extrema-direita de Benjamin Netanyahu tinham apelado a Israel para que reconstruísse os colonatos em Gaza, na sequência do ataque do Hamas, a 7 de outubro de 2023, ao Sul de Israel e da subsequente guerra com o Hamas.
O vídeo com a declaração ministerial espalhou-se nas redes sociais e foi amplamente criticado. Todavia, horas depois, o gabinete do ministro da Defesa divulgou um comunicado a esclarecer que o comentário surgiu num “contexto de segurança”, reiterando que Israel “não tem intenção de estabelecer colonatos na Faixa de Gaza”. A declaração de Israel Katz conflitua, realmente, com o plano de cessar-fogo de 20 pontos do presidente dos EUA e com comentários anteriores do primeiro-ministro israelita, que excluem a ocupação de Gaza.
Com efeito, o plano de cessar-fogo mediado pelos EUA apela à retirada quase total das forças israelitas e não menciona os colonatos israelitas no enclave. “Quanto mais Israel provocar, menos os países árabes quererão trabalhar com eles”, afirmou um alto funcionário dos EUA, que falou sob anonimato, condenando a declaração de Israel Katz e assegurando que Washington espera que “todas as partes cumpram os compromissos que assumiram”.

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O plano de paz atinente à Faixa de Gaza foi aprovado, a 17 de novembro, pelo Conselho de Segurança da ONU, através de resolução elaborada pelos EUA que apoia o plano de paz do presidente Donald Trump, o qual inclui a criação de uma força internacional de estabilização (FIE), a autoridade de transição supervisionada por Donald Trump e prevê um possível caminho para um Estado palestiniano independente. Tal resolução foi aprovada com os votos favoráveis de 13 dos 15 estados-membros que integram o Conselho de Segurança, apesar das abstenções da Rússia e da China. Assim, ficou aprovado o plano de cessar-fogo de 20 pontos apresentado por Donald Trump, no início de setembro, e que entrou em vigor a 10 de outubro.
O plano propõe a criação de uma autoridade transitória designada por “Conselho da Paz”, um conselho liderado pelo próprio Donald Trump, encarregado de supervisionar a governação e a reconstrução em Gaza. O líder norte-americano disse que os membros do conselho seriam nomeados nas semanas subsequentes. A resolução do Conselho de Segurança prevê, igualmente, a entrada na Faixa de Gaza de uma FIE, que terá por missão supervisionar as fronteiras, manter a segurança e desmilitarizar o território, até ao final de 2027.
Trump aplaudiu a votação, na rede social Truth Social: “Esta será uma das maiores aprovações na história das Nações Unidas, conduzirá a uma maior paz, em todo o Mundo, e é um momento de verdadeira proporção histórica!”
Em contraponto, o Hamas opôs-se à resolução, alegando que não satisfaz “as exigências e os direitos políticos e humanitários do povo palestiniano”. “Atribuir à força internacional tarefas e papéis em Gaza, incluindo o desarmamento da resistência, retira-lhe a neutralidade e transforma-a numa parte do conflito, a favor da ocupação”, lê-se num comunicado do grupo.
O embaixador dos EUA na ONU, Mike Waltz, considerou a resolução “histórica e construtiva”. “A resolução de hoje representa mais um passo significativo em direção a uma Gaza estável, capaz de prosperar, e um ambiente que permita a Israel viver em segurança”, vincou.
A resolução estava a ser negociada, há duas semanas, quando as nações árabes e os palestinianos pediram aos EUA o reforço da linguagem sobre a autodeterminação palestiniana.
A proposta não estabelece calendário, nem garante a criação de um Estado independente, afirmando que este seria possível, após progressos na reconstrução de Gaza e em reformas da Autoridade Palestiniana (AP), que governa partes da Cisjordânia. Ao invés, antes da votação, o primeiro-ministro israelita reiterou a oposição à solução de dois Estados.

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Em fins de novembro, era notícia que ataques israelitas, em vários pontos de Gaza, faziam um total de 33 mortos, contando-se entre os mais mortíferos, desde o cessar-fogo promovido pelos EUA e acordado no dia 10 do mês anterior. Segundo as autoridades sanitárias locais, só na cidade de Khan Younis, no Sul de Gaza, os ataques mataram cinco pessoas, na madrugada de 20 de novembro, elevando para 33 o número de mortos em ataques aéreos, desde a noite anterior.
Ao todo, as autoridades locais registavam mais de 300 mortes, desde o início do cessar-fogo. E funcionários do Hospital Nasser, em Khan Younis, diziam ter recebido os corpos de 17 pessoas, incluindo cinco mulheres e cinco crianças, na sequência de quatro ataques aéreos israelitas contra tendas que abrigavam pessoas deslocadas. Segundo essas fontes, os corpos vieram de ambos os lados de uma linha estabelecida no cessar-fogo de outubro. A fronteira divide Gaza em duas, deixando a zona fronteiriça sob controlo militar israelita, enquanto a área além dela deve servir como zona segura. E, na cidade de Gaza, dois ataques aéreos contra um edifício mataram 16 pessoas, incluindo sete crianças e três mulheres.
O recrudescimento da situação ocorreu depois de Israel ter afirmado que os seus soldados foram alvo de fogo em Khan Younis. Segundo Israel, nenhum soldado foi morto. Porém, o Hamas condenou esta ofensiva, que qualifica como “massacre chocante”, e negou ter disparado contra as tropas israelitas.
Os ataques ocorreram, logo após o Conselho de Segurança da ONU ter dado o seu apoio ao plano de garantia de segurança e de governação de Gaza do presidente dos EUA.
Como dissemos, o plano autoriza uma força internacional a garantir a segurança em Gaza, aprova uma autoridade transitória e prevê um caminho futuro para um Estado palestiniano independente. Contudo, ainda há dúvidas sobre como o plano será implementado, especialmente, desde que o Hamas o rejeitou parcialmente, sustentando que o mandato da força, que inclui o desarmamento do grupo, “tira-lhe neutralidade e transforma-a numa das partes do conflito a favor da ocupação”.
Em contraponto, Donald Trump reitera o aviso ao Hamas de que ou se desarma, rapidamente, ou “encarará o inferno”.

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Gaza terá o inverno marcado pela desolação, com os residentes a viverem em tendas, devido à destruição das casas, e a suportarem a intempérie, com frio e inundações causadas pelas chuvas torrenciais e pela erosão do solo calcinado pelos bombardeamentos e pela acumulação dos detritos das estruturas destruídas. E não há certeza de que a paz regressará.
A situação ficará agravada com a suspensão, anunciada por Israel, da 30 de dezembro, do trabalho de mais de duas dúzias de organizações humanitárias, por não terem cumprido as novas regras de controlo das agências internacionais que trabalham em Gaza. Com efeito, o Ministério dos Assuntos da Diáspora afirmou que as organizações que serão proibidas a partir de 1 de janeiro – mais de 25 organizações, ou seja, 15% das organizações não governamentais (ONG) que trabalham em Gaza – não cumpriram os requisitos do novo regulamento, em matéria de partilha de informação atinente a pessoal, a financiamento e a operações.
Entre elas, conta-se a do Médicos Sem Fronteiras (MSF), uma das maiores organizações de saúde a operar em Gaza, de não ter esclarecido as funções de alguns funcionários que Israel acusa de cooperação com o Hamas e com outros grupos militantes, bem como outras ONG importantes, cujas autorizações não foram renovadas, tais como o Conselho Norueguês para os Refugiados, a CARE International, o Comité Internacional de Resgate e divisões de grandes instituições de caridade, como a Oxfam e a Cáritas.
Estas ONG ajudavam em vários serviços sociais, como distribuição de alimentos, cuidados de saúde, serviços a deficientes, educação e saúde mental. Israel e as ONG discordam sobre a quantidade de ajuda que entra em Gaza. Israel diz cumprir os compromissos estabelecidos no último cessar-fogo, mas as agências humanitárias, contestando os números de Israel, afirmam que é necessária mais ajuda no devastado território palestiniano de mais de dois milhões de pessoas. Entretanto, o povo, sem eira nem beira sofre! Triste Natal na Terra de Cristo!

2025.12.30 – Louro de Carvalho

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