domingo, 21 de dezembro de 2025

Preferia um Natal a sério, menos sincrético e mais humano

 A todas as pessoas com quem tive a oportunidade de me cruzar na vida, os sinceros votos de Boas Festas de Natal e de Próspero Ano Novo.


O Natal é, para muita gente, a época do consumismo, que se espelha nos espetáculos de rua, apesar do frio, da chuva ou da neve, alguns de longa duração, como o Perlim, em Santa Maria da Feira (de 29 de novembro a 30 de dezembro), nos mercados de Natal, na explosão de compras em centros comerciais, na superabundância de iluminação das fachadas, das ruas e de outros espaços públicos, nos sinos, nas músicas de todos estilos, na ocupação das unidades hoteleiras, nas viagens de turismo (e, desta vez, o governo foi pródigo com três dias de tolerância de ponto), nas opíparas ceias de Natal, nas quase obrigatórias prendas, nas inúmeras figuras do Pai Natal, nos cantares de janeiras ou de reis a altas individualidades e em muitas outras formas de exibicionismo.
Tudo isto seria bem-vindo, do meu ponto de vista, se despojado do excesso, do exibicionismo qua tali e contribuindo para o crescimento da solidariedade entre as pessoas, as famílias, os grupos sociais e profissionais e, sobretudo, para a erradicação (ou, pelo menos, para a mitigação) da pobreza. Todavia, ao invés, a pobreza extrema, se não aumenta, teima em ficar, o número das pessoas em situação de sem-abrigo tem aumentado, contrariando as públicas declarações de prevenção e de combate ao flagelo, as pensões baixíssimas de reforma não descolam da barra da miséria, o emprego é cada vez mais precário, a habitação é cada vez mais inacessível.
Não obstante, orgulhamo-nos da nossa tradição cristã, proclamamos os valores ditos ocidentais, mas os últimos continuam cada vez mais últimos e os poderosos continuam cada vez mais ricos e poderosos, aproveitando-se da necessidade dos pobres.   
Fazemos o presépio, que a tradição cristã nos inspira, e olhamo-lo como peça cultural ou como um móbil de alguma vivência romântica (até criamos presépios ao vivo). Contudo, as lições do presépio não as captamos e, por conseguinte, não as vivemos, nem as ensinamos, embora talvez haja quem tenha capacidade de as apreender, se nós lhas disponibilizássemos e, na certa, haja muita gente que precisa da aplicação prática dessas lições. Muitos até pensam que o nascimento numa gruta é que seria o sítio ideal para se dar à luz, segundo a ótica de Deus. Nada mais falso do que isso.
Deus não veio aprovar ou sacralizar a miséria. Sujeitou-Se a ela por não haver lugar, no Mundo consumista e comodista, para os pobres. Também o menino nascido em Belém foi arredado para a periferia da cidade ou atirado para a margem. Porém, foi procurado pelos pastores, que a sociedade punha de lado, mas que se deixaram mover por espíritos celestiais, e foi visitado e presenteado por sábios que vieram de longe e souberam aproximar-se da simplicidade da vida, do mistério de quem surge como novidade para o Mundo.  
Enchemos os espaços públicos e os espaços familiares de árvores de Natal – algumas gigantescas – cheias de luzes, de bolas, de serpentinas, de sinos e até com alguns anjos. Todavia, não saímos da nossa zona de conforto para refletir sobre o significado que a árvore pode ter na vida humana, que se alimenta da Natureza e que só tem sentido em aliança anímica com o dinamismo e com o equilíbrio próprios do Mundo em que nos plantamos, crescemos, respiramos, comemos, bebemos, caminhamos e trabalhamos, em sintonia e em harmonia com os outros e com a Natureza.

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A cultura humanista, enraizada na tradição do Mundo clássico, por um lado, e na tradição judeo-cristã, por outro, abriu-nos a mente para os valores da liberdade, da fraternidade e da igualdade, que se estribam no princípio básico da dignidade da pessoa humana e que ditam duas atitudes fundamentais: a construção de um Mundo cada vez mais novo, porque mais humano e mais progressivo; e a prática da solidariedade humana, que leva os mais poderosos a descerem do alto do seu pedestal, aproximando-se dos mais pequenos, e os mais ricos a partilharem muitos dos seus bens com os mais pobres, não para terem um rebanho que dominem com a esmola, mas para que todos nos situemos num patamar razoável de convivência e de autonomia de vida.
Neste aspeto, a cultura humanista captou, conscientemente ou não, os valores do Natal e entendeu que o desenvolvimento de todos, sem que ninguém fique para trás, é o principal pressuposto da paz. E a sua antítese é a exploração do homem pelo homem, que leva à acumulação escandalosa de riqueza, à custa dos explorados, que chamávamos trabalhadores e que despromovemos para a categoria de colaboradores, para nos venderem barata a sua força de trabalho, mas que descartamos, quando se tornam um peso ou os julgamos inúteis. E, aplicando esta categoria mental de pensamento à relação dos povos entre si, é fácil que surja a guerra e que a diplomacia se cale, para dar a voz às armas, as quais são um sumidouro de dinheiro, mas dão muito jeito à economia de alguns países. Ora, quem é rico tende a mandar e a espezinhar os outros.
Entretanto, ora com real sinceridade, ora com muita hipocrisia, multiplicam-se as instituições internacionais (às vezes, interestatais, como a ONU – Organização das Nações Unidas, a UE – União Europeia), a garantir a paz e os valores da liberdade, da igualdade, da fraternidade e da solidariedade, com vista ao desenvolvimento, à intervenção cívica, à correção das assimetrias, à coesão social e à coesões territoriais. E tudo se mantém quase na mesma. Na verdade, muitos dos que se dizem servidores do povo, servem-se dele; e muitos que são pagos para o serviço à comunidade, tendem a enriquecer à custa da comunidade e a estabelecer fortes relações de dependência. Muitos que, supostamente, servem organizações de beneficência usam-nas para se projetarem socialmente e para estabelecerem forte capital de conhecimento e de relação.
Todavia, prega-se a populista salvação messiânica de alguns que resolverá todos os problemas, que os detentores do poder incumbente não quiseram resolver.
Assim, de quando em quando, surgem as guerras, muitas delas como a trovoada que nunca mais passa, que vão corroendo territórios, povos e etnias, sob os mais diversos pretextos. Porém, todas e, sobretudo, as que mobilizam as grandes potências mundiais e/ou regionais deixam um lastro profundo e extenso de destruição, de fome, de deslocação forçada, de estropiamento e de morte. E a paz teima em não aparecer ou exige um custo muito elevado.

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Também algumas cultura orientais nos dão lições parecidas com as do Natal.
Assim, por exemplo, como refere, sinteticamente, a “Wikipédia – A Enciclopédia Livre”, o Diwali é a festa religiosa hindu conhecida como o festival das luzes, celebrado uma vez ao ano, em que as pessoas estreiam roupas novas, dividem doces e lançam fogos de artifício. Este festival celebra, entre outras sagas, a destruição de Narakasura por Sri Krishna, o que o converte o num evento religioso que simboliza a destruição das forças do mal. Por isso, é um grande feriado indiano e um importante festival para o hinduísmo, para o sikhismo, para o budismo e para o jainismo. O feriado é, atualmente, comemorado pelos hindus, pelos sikhs e pelos jainas, em todo o Mundo, com destaque para a diáspora indiana, como o festival das luzes, onde as luzes ou lâmpadas significam a vitória do bem sobre o mal, dentro de cada ser humano. O Diwali é comemorado no primeiro dia do mês lunar Kartika, que ocorre no nosso mês de outubro ou no de novembro, sendo uma época de muita religiosidade, de votos de sacrifício e de introspeção.
Em muitos lugares da Índia, é o baile do Rei Ramachandra em Ayodhya, após 14 anos de exílio na floresta. Sri Rama, um dos avatares de Vishnu, derrotou o mal encarnado em Ravana, que havia raptado Sitadevi, sua esposa. O povo de Ayodhya (capital do seu reino) congratulou-se com Rama por iluminação em fileiras (avali) das lâmpadas (Deepa), dando assim o seu nome: Deepavali. Esta palavra, em devido tempo, tornou-se Diwali em Hindi. Mas, no Sul da Índia, em algumas línguas, a palavra não sofreu alteração, pelo que o festival é chamado Deepavali no Sul da Índia. Há várias observâncias do feriado em toda a Índia.
O Diwali no jainismo é marcado como o nirvana do Lord Mahavira, que ocorreu em 15 de outubro de 527 a.C. Entre os sikhs, o Diwali veio a ter significado especial, a partir do dia a que houve o retorno à cidade de Amrtsar do iluminado Guru Hargobind (1595-1644), que fora detido no Forte em Gwalior, sob as ordens do imperador Mughal, Jahangir (1570-1627). Como o sexto Guru (professor), do Sikhismo, Guru Hargobind Ji, foi libertado da prisão, com 53 reis hindus (que eram mantidos como prisioneiros políticos) a quem o Guru havia organizado a libertação. Após a libertação, foi para o Darbar Sahib (Templo Dourado) na cidade santa de Amritsar, onde foi saudado pelo povo com tão grande felicidade que acenderam velas e diyas, para cumprimentarem o Guru. Por isso, os sikhs referem o Diwali também como BANDI Chhorh Divas, “o dia da libertação dos detidos”.
O festival também é comemorado pelos budistas do Nepal, especialmente, pelos budistas Newar.
E, na Índia, o Diwali, festival nacional, quanto ao aspeto estético, é usufruído pelos hindus, independentemente da fé.
Ainda, de acordo com a “Wikipédia”, como Brahma, responsável pela criação do universo material, e como Shiva, responsável pela destruição dessa criação, Vishnu, responsável pela manutenção, faz parte da Trimúrti, a trindade do hinduísmo. Cada uma dessas divindades é acompanhada pela sua esposa (Shákti), potência, a deusa associada a ele. Assim, a esposa de Brahma é Sarasvasti, a deusa do conhecimento, Shiva é acompanhado por Parvati, a natureza material encarnada, e a esposa de Vishnu é Lakshmi, que personifica a riqueza.
Vishnu é muito popular através de seus avatares, encarnações em diferentes formas, sendo os mais famosos Rama, o herói mítico do Ramayana, um dos grandes épicos hindus, Krishna, personagem central do maior épico da Humanidade, o Mahabharata, e mais popular deidade da Índia, trazendo o amor divino personificado, além de outros como Narasimhadeva, o homem-leão, que veio proteger o seu devoto Prahlada.

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Depois deste excursus pela cultura humanista e por um relevante contributo da cultura oriental, que influi no pensamento e na postura vital de muitos ocidentais, vejamos, em curto relance, o que nos diz o cristianismo sobre o Natal.  
Os evangelhos de Lucas e de Mateus referem Jesus como nascido em Belém e filho da Virgem Maria. Segundo Lucas, José e Maria viajam de Nazaré para Belém para o recenseamento, e Jesus nasce lá, num gruta de animais, e é colocado numa manjedoura, pois não havia lugar na hospedaria. Anjos proclamam-no salvador de toda a Humanidade e pastores vêm adorá-lo. Mateus assinala que três magos seguem uma estrela até Belém para trazerem presentes a Jesus.
Os cristãos começaram a celebrar o dia do nascimento (dies natalis) de Jesus, tardiamente, pois a grande festa cristã é a Páscoa, como o dia da libertação das amarras da escravidão nas suas diversas formas de expressão, que são muitas.
Entretanto, despertou a curiosidade sobre o valor teológico da infância de Jesus, na ótica da encarnação do Filho de Deus e, no século IV, já se celebrava o Natal de Jesus, a partir da cristianização da festa do Sol Invicto (dies Natalis Solis Invicti), que os romanos do final do império celebravam no solstício do inverno. De facto, a Igreja primitiva associava Jesus Cristo ao Sol e referia-se a ele como o “Sol da Justiça”. E, no início do século V, Agostinho de Hipona e Máximo de Turim sustentavam que era apropriado celebrar o nascimento de Cristo, quando o Sol estava mais perto da Terra, ou seja, no solstício de inverno, porque este marcava o início do aumento das horas de luz do dia. Assim, o Natal é a festa da luz (Jesus é a luz do Mundo).
Evidências de 25 de dezembro como o Natal aparecem em fontes cristãs, entre os séculos III e IV, e podem ser contemporâneas ou anteriores a atestações claras do festival de Sol Invictus, em 25 de dezembro. O uso de imagens solares para Cristo é entendido como parte de simbolismo cosmológico mais amplo na Antiguidade Tardia, em vez de empréstimo cultual direto.
Porém, mais do que a data, interessa a mensagem. O Messias (o termo grego é “Christós”: ungido) vem para libertar o povo de Israel de todas as formas de opressão e, por extensão, toda a Humanidade. Ou seja, no alinhamento das profecias, Jesus, o Cristo, não confinou a sua missão às fronteiras de Israel, mas conferiu-lhe dimensão universal, pelo que enviou os discípulos a pregar a Boa Nova a toda a Terra e a instituir discípulos em toda a parte.
Por conseguinte, o nascimento de Jesus, primeiro passo, no Mundo, para a redenção da Humanidade toda (de cada ser humano), diz respeito a todo o Mundo. E é à luz da simplicidade e da riqueza cósmica do presépio (com o menino de Belém, cabe tudo no presépio) que os cristãos, ensinados por São Paulo, aprenderam que foram criados para a liberdade (contra a escravidão do erro e da opressão dos poderosos), para a igualdade, porque todos, como filhos do pai comum (Deus) e emergentes da mesma Natureza-mãe, somos irmãos. O homem (ser humano) não tem o direito de excluir o outro homem (ser humano). Daí, a obrigação da solidariedade, da partilha, do direito de todos à vida – e vida condigna –, à posse dos bens essenciais (teto, terra e trabalho), à integridade física e psicológica, ao acesso à educação, à saúde, à cultura, à segurança social e à participação na vida coletiva. E, por outro lado, temos a obrigação de construir a paz, através do diálogo e da cooperação, bem como de cuidar do Mundo em que nos é dado viver.  
Ora, num contexto de exploração do homem pelo homem, de guerras em quase toda a parte, de destruição da Natureza e dos seus ecossistemas, de ascensão dos poderes autoritários, de gastos astronómicos em atividades supérfluas e em bens desnecessários, de ditadura das tecnologias a condicionar o acesso aos benefícios do progresso, por parte de pessoas iletradas digitalmente (por exemplo, a exigência de uma APP, de um telemóvel, de Internet, etc.), é de questionar a legitimidade de os cristãos celebrarem o Natal. O mesmo se diga das situações de competição desleal, de intrigas familiares, profissionais e políticas, de famílias zangadas ou desfeitas, de violações, de situações abusivas, de roubos, de assassinatos, etc.     

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Porém, como, no meio deste lamaçal do erro e no lodaçal da indiferença, há tanta gente boa (cristã ou não), tantas organizações de paz, de progresso e de bem-estar, deixo a toda a gente os mais sinceros votos de Boas Festas de Natal e passagem para um próspero 2026.

2025.12.21 – Louro de Carvalho

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