No
âmbito das negociações para um acordo de paz, a ofensiva diplomática e militar
de Moscovo mantém, como ponto constante, a exigência de que a Ucrânia retire as
suas forças do Leste do país, nomeadamente, da região do Donbass, área que Kiev
tem vindo a defender, ferozmente, desde 2014, e de parece não querer abrir mão.
Esta mútua renitência levanta questões como: De que disputa se trata? Qual é o motivo de disputa desta zona territorial? Quem a controla realmente? O que representa ela, para Moscovo e para a Ucrânia, e qual é o impacto das propostas de cessar-fogo em negociação?
Esta mútua renitência levanta questões como: De que disputa se trata? Qual é o motivo de disputa desta zona territorial? Quem a controla realmente? O que representa ela, para Moscovo e para a Ucrânia, e qual é o impacto das propostas de cessar-fogo em negociação?
Quando
a Rússia lançou a primeira invasão, em 2014, anexou, rapidamente, a Crimeia e
deslocou tropas para o Leste da Ucrânia. O alvo prioritário de Moscovo era o
Donbass, que engloba dois dos oblasts (províncias ou regiões) da Ucrânia:
Donetsk e Luhansk.
Mais
de dez anos depois, Moscovo continua a tentar assumir o controlo total da
região, colocando essa exigência no “quadro de paz” mediado pelos Estados
Unidos da América (EUA).
Washington
tem aumentado a pressão sobre Kiev, levando a Ucrânia a ponderar concessões
profundas. O presidente norte-americano Donald Trump explicou que, no seu
entendimento, o compromisso russo consistiria apenas em “simplesmente parar de
lutar”. “Eles [os russos] estão a fazer concessões. A grande concessão deles é
que deixam de combater e não tomam mais território”, afirmou.
Espera-se,
pois, que a Ucrânia faça concessões significativamente maiores, sendo as
garantias de segurança, o estatuto da central nuclear de Zaporíjia e o Donbass
os pontos mais sensíveis das negociações. O Kremlin não reduziu as suas
exigências e quer que a Ucrânia abandone a região do Donbass, incluindo partes
das regiões de Donetsk e de Luhansk que a Rússia não conseguiu ocupar, ao longo
de mais de uma década de guerra, mas de que tentou apoderar-se, invocando
razões de conveniência política, em nome de uma pretensa legitimidade histórica
apadrinhada pelos altos escalões da Igreja Ortodoxa de Todas as Rússias.
No
entanto, para Kiev, as exigências são muito mais pesadas e incluem garantias de
segurança, o estatuto da central nuclear de Zaporíjia e, sobretudo, a questão
territorial do Donbass. Apesar das prolongadas negociações com recursos e com
poucos avanços, Moscovo não reduziu as suas reivindicações e quer que a Ucrânia
abandone toda aquela área, incluindo as províncias de Donetsk e de Luhansk, que
jamais conseguiu ocupar, plenamente, ao longo de mais de uma década de guerra
(desde 2014 a 2025) e cuja disputa parece não ter fim à vista.
O
conselheiro de política externa do Kremlin, Yuri Ushakov, alegadamente,
envolvido na elaboração do conhecido plano inicial de 28 pontos, chegou a
declarar, de forma infundada e enganosa, que “todo o Donbass pertence à
Rússia”. Segundo documentos divulgados, Moscovo pretende não só que Kiev
abandone o território, como também que os EUA reconheçam o Donbass como parte
da Federação Russa.
Antes
da invasão russa de 2014, o Donbass era o verdadeiro motor industrial da
Ucrânia, concentrando grandes empresas metalúrgicas, minas de carvão e
complexos químicos orientados para exportação para todo o Mundo – enfim, tudo o
que tem a ver com as chamadas terras raras, tão apetecíveis para Washington e
para Moscovo, integrando o clausulado do primeiro anteprojeto de para um
cessar-fogo minutado pela Casa Branca e que o líder ucraniano, na ótica de
Donald Trump teria de subscrever.
O
Centre for Economic and Business Research, sediado em Londres, estima que a
região representava 15,7% do produto interno bruto (PIB) ucraniano e 14,7% da
população, antes de 2014. Entre 2014 e 2021, a Ucrânia terá perdido mais de 80
mil milhões de euros, devido à ocupação russa deste território – cerca de 8% do
PIB anual pré-guerra. E, em 2025, a última mina de carvão ainda operacional na
zona teve de encerrar, definitivamente.
Depois
de anos de ofensivas russas, quase toda a região de Luhansk permanece sob
ocupação de Moscovo. A situação é distinta em Donetsk, onde as forças
ucranianas mantêm cerca de 6600 quilómetros quadrados.
De
acordo com o plano divulgado, o Kremlin não só quer que a Ucrânia se retire dos
seus próprios territórios, como também quer que os EUA reconheçam o Donbass
como russo.
O
Institute for the Study of War (ISW), centro de estudos norte-americano, estima
que, mesmo com o ritmo atual de avanços russos e com o enorme investimento de
recursos, Moscovo só conseguiria tomar o restante território de Donetsk, por
volta de agosto de 2027.
Kiev
tem vindo a reforçar, continuamente, a sua “cintura de fortaleza” do Donbass, ou
seja, uma autêntica linha fortificada que se estende por 50 quilómetros,
através da parte ocidental de Donetsk. E o ISW sublinha que “a Ucrânia passou
os últimos 11 anos a investir tempo, dinheiro e esforço no reforço desta
cintura de fortificações e na criação de uma infraestrutura industrial e
defensiva significativa”.
Após
a queda de cidades como Avdiivka e Bakhmut, Kiev reviu as suas posições
defensivas e reforçou ainda o conjunto de trincheiras, de barreiras antitanque,
de campos de minas e redes de apoio militar. Porém, revelou que os EUA têm
defendido a criação de uma “zona económica livre” nas partes do Donbass que
permanecem sob controlo ucraniano, proposta que o presidente Volodymyr Zelensky
associou a pressões para que a Ucrânia abandone essas áreas.
Volodymyr
Zelensky afirmou, a 11 de dezembro, que Washington propõe uma retirada
ucraniana do Donbass, garantindo que as tropas russas não avançariam sobre esse
território. Contudo, sublinhou as enormes incertezas da proposta. “Quem
governaria essa zona que chamam de ‘zona económica livre’ ou ‘zona
desmilitarizada’? Não sabem”, declarou, para acrescentar: “Se um lado retira as
suas tropas e o outro permanece onde está, o que impede que as forças russas
avancem? Ou o que as impedirá de se disfarçarem de civis e de assumirem o
controlo dessa zona económica livre? Isto é extremamente sério.”
O
líder ucraniano reforçou que não há garantia de que Kiev concorde com isso ou
que aceite tal solução e afirmou que qualquer eventual compromisso teria de ser
“um compromisso justo”. E advertiu que uma decisão dessa magnitude só poderia
ser tomada, mediante eleições ou referendo, salientando que apenas “o povo
ucraniano” pode deliberar sobre concessões territoriais ou sobre ratificação de
decisões dos seus órgãos de soberania.
Os
números da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que, entre 2014 e 2021,
pelo menos, dois milhões de pessoas foram obrigadas a abandonar as suas casas
no Donbass, devido à guerra, enquanto um número semelhante continuou a viver
sob ocupação russa.
***
O
presidente Volodymyr Zelenskyy revelou que a Ucrânia entregou a sua última
proposta de paz aos negociadores dos EUA, a 10 de dezembro, um dia antes das
conversações urgentes com líderes e responsáveis de cerca de 30 países que
apoiam os esforços de Kiev para acabar com a guerra com a Rússia, em termos
aceitáveis. E o objetivo de Washington de chegar, rapidamente, a um compromisso
para pôr termo aos combates que se seguiram à invasão total da Rússia, no
início de 2022, está a reduzir a margem de manobra de Kiev.
Os observadores opinam que o líder da Ucrânia está na corda bamba entre defender os interesses ucranianos e sinalizar ao presidente dos EUA que está disposto a fazer alguns compromissos, mesmo que Moscovo não mostre sinais públicos de ceder às suas exigências maximalistas.
Os observadores opinam que o líder da Ucrânia está na corda bamba entre defender os interesses ucranianos e sinalizar ao presidente dos EUA que está disposto a fazer alguns compromissos, mesmo que Moscovo não mostre sinais públicos de ceder às suas exigências maximalistas.
Os
aliados europeus da Ucrânia estão a apoiar os esforços de Zelenskyy para
garantir que qualquer acordo seja justo e impeça futuros ataques russos, assim
como acomode os interesses de defesa da Europa. A 9 de dezembro, o chefe do governo
francês disse que os 30 aliados da Ucrânia, apelidados de “Coligação da Boa
Vontade” ou “Coligação dos Dispostos”, tinham de reunir muito rapidamente, pelo
que iriam discutir as negociações por videoconferência no dia 11. E o chanceler
alemão Friedrich Merz afirmou, em Berlim, que “estamos, atualmente, a assistir
a um impulso diplomático considerável” nos esforços de paz.
Volodymyr
Zelenskyy afirmou que as conversações com os EUA, previstas para o dia 10,
incidiriam sobre um documento que define os planos de reconstrução e
desenvolvimento económico da Ucrânia no pós-guerra. Ao mesmo tempo, a Ucrânia
estava a finalizar, como referimos, um quadro separado de 20 pontos para acabar
com a guerra, que o seu presidente apresentaria a Washington, num futuro próximo.
Enquanto
a tensão aumenta em torno do impulso de Donald Trump para um acordo e dos seus
apelos às eleições na Ucrânia, o presidente ucraniano disse que o seu país
estaria pronto para tal votação, dentro de três meses, se os parceiros puderem
garantir uma votação segura, durante o tempo de guerra, e se a sua lei
eleitoral puder ser alterada.
A
abertura de Zelenskyy à eleição foi uma resposta aos comentários do presidente
dos EUA, que questionou a democracia da Ucrânia e sugeriu que o líder ucraniano
estava a usar a guerra como desculpa para não se apresentar aos eleitores –
sugestão que faz eco de observações semelhantes, frequentemente, produzidas por
Moscovo, para deslegitimar o governo de Kiev.
Está
visto que tanto o Kremlin como a Casa Branca pretendiam que a Ucrânia tivesse
um outro presidente e um outro governo, se possível que agradassem a um e a
outro dos seus pretensos patronos, ambos desejosos de constituir a Ucrânia como
zona tampão ao avanço da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) para
Leste.
Volodymir
Zelenskyy declarou aos jornalistas, no dia 9, que está “pronto” para as
eleições, mas que precisaria da ajuda dos EUA e, possivelmente, da Europa, para
garantir a sua segurança. E sugeriu que a Ucrânia poderia estar pronta para
realizar eleições dentro de 60 a 90 dias, se essa condição fosse cumprida. No
entendimento do líder ucraniano, a realização de eleições postula a abordagem
de duas questões: a segurança e o quadro legislativo necessário.
A
segurança exige saber como realizar eleições sob ataques, sob ataques de
mísseis e como votariam os militares. E, no atinente ao “quadro legislativo
necessário para garantir a legitimidade das eleições, é de vincar que Zelenskyy
referiu, anteriormente, que a votação não pode ter lugar legalmente, enquanto a
lei marcial, imposta após a invasão russa, se mantiver em vigor. E, agora,
questiona como é possível realizar uma votação, quando as áreas civis da
Ucrânia estão a ser bombardeadas pela Rússia e quase 20% do país está sob
ocupação de Moscovo.
No
entanto, Zelenskyy disse ter pedido aos deputados do seu partido a elaboração
de propostas legislativas que permitam eleições, enquanto a Ucrânia estiver sob
lei marcial.
Os
ucranianos apoiaram, em geral, os argumentos de Zelenskyy e não exigiram a
realização de eleições. De acordo com a lei aplicável, o governo atual é
legítimo.
Rejeitando
as alegações da administração Trump de que as autoridades de Kiev estão a usar
a guerra como desculpa para evitar eleições, Oleksandra Matviichuk – cujo
Centro para as Liberdades Civis foi galardoado com o Prémio Nobel da Paz, em
2022, juntamente com o ativista bielorrusso Ales Bialiatski e com o grupo russo
de direitos humanos Memorial – sustenta que a Ucrânia não precisa de lições
sobre democracia, nem sobre eleições.
Em
2004, os ucranianos organizaram a Revolução Laranja, após o processo eleitoral
ter sido adulterado. Dão valor às eleições. A questão é se há segurança para as
organizarem.
A
Ucrânia tinha eleições marcadas para 2024, mas o sufrágio não se realizou, pois
a lei marcial está em vigor desde o início da invasão total da Rússia, em
fevereiro de 2022. Todavia, para facilitar as negociações num momento delicado
para Kiev, Zelenskyy declarou-se pronto para as eleições e rejeitou as
sugestões de que está a usar a guerra como desculpa para evitar a votação e
permanecer no cargo.
Oleksandra
Matviichuk, conhecida pelo seu trabalho de denúncia de alegados crimes de
guerra, defendeu que o ponto-chave será a definição de garantias de segurança
bem desenvolvidas, para evitar futuras agressões, e considerou que deve ser
feita justiça pelas atrocidades cometidas pelo exército russo, na Ucrânia,
devendo o acordo conduzir a uma paz duradoura e justa, e não apenas a uma pausa
para a Rússia se reagrupar e atacar novamente.
Sobre
se Donald Trump merece o Prémio Nobel da Paz, para o qual está a fazer campanha
e do qual ela é beneficiária, Oleksandra Matviichuk disse que “só pode
desejar-lhe sucesso, porque isso significaria que ele estabeleceu uma paz justa
e sustentável”.
***
Porém,
falando do apoio da Europa, é de acentuar que é desigual, o que se traduziu
numa diminuição do apoio militar, desde que a administração norte-americana
cortou, neste ano, os fornecimentos a Kiev, a menos que outros países da NATO
os paguem.
Na verdade, a ajuda militar estrangeira à Ucrânia diminuiu, drasticamente, durante o verão, e essa tendência manteve-se em setembro e outubro, segundo o Instituto de Kiel, organismo alemão que acompanha a ajuda internacional à Ucrânia, cujos dados revelam que a ajuda média anual, fornecida, principalmente, pelos EUA e pela Europa, foi de cerca de 41,6 biliões de euros, entre 2022 e 2024. Porém, até agora, neste ano, Kiev recebeu apenas 32,5 mil milhões de euros.
Na verdade, a ajuda militar estrangeira à Ucrânia diminuiu, drasticamente, durante o verão, e essa tendência manteve-se em setembro e outubro, segundo o Instituto de Kiel, organismo alemão que acompanha a ajuda internacional à Ucrânia, cujos dados revelam que a ajuda média anual, fornecida, principalmente, pelos EUA e pela Europa, foi de cerca de 41,6 biliões de euros, entre 2022 e 2024. Porém, até agora, neste ano, Kiev recebeu apenas 32,5 mil milhões de euros.
Contudo,
a Dinamarca, a Finlândia, a Noruega e a Suécia aumentaram, substancialmente, a
sua ajuda à Ucrânia; a Alemanha quase triplicou as suas dotações mensais médias;
e a França e o Reino Unido mais do que duplicaram as suas contribuições. Por
outro lado, a Espanha não registou qualquer novo apoio militar a Kiev, em 2025,
enquanto a Itália reduziu as suas baixas contribuições em 15%, em comparação
com 2022 a 2024.
É
de recordar que responsáveis de 30 países aliados da Ucrânia (“Coligação dos Dispostos”),
maioritariamente europeus, se reuniram, a 11 de dezembro, em formato
virtual, para discutirem o plano de paz e as garantias de segurança
para Kiev.
O debate o centrou-se nas garantias de segurança que estão dispostos a oferecer a
Kiev, no pós-guerra ou em eventual acordo de paz com a Rússia. A Coligação dos Dispostos
já havia discutido a possibilidade de ter forças em terra, mar ou ar, e a
França e o Reino Unido concordaram em princípio. Agora, um dia depois de Kiev
ter apresentado versão revista do seu plano de paz aos EUA, os participantes apelaram
à unidade transatlântica em prol da Ucrânia.
A
reunião antecede um encontro entre os líderes dos EUA, a Ucrânia e a Europa, e
insere-se no contexto de discussões diplomáticas que envolvem sete países da União
Europeia (UE) para libertar fundos russos congelados para Kiev, o que é
questionável e pode ter indesejáveis consequências para a própria UE, que não
soube adotar uma neutralidade cooperante.
2025.12.12 – Louro de Carvalho
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