domingo, 28 de dezembro de 2025

"Reine em vossos corações a paz de Cristo, habite em vós a sua palavra"

 

O Deus que se vestiu de menino frágil e se apresentou aos homens no presépio, quis a abrigo numa família humana, a família de José e de Maria, dois jovens esposos de Nazaré, aldeia situada nas colinas da Galileia. No domingo entre o Natal e a Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus a 1 de janeiro, em ambiente natalício, no Ano A, a liturgia, convidando-nos a contemplar a Sagrada Família, propõe-nos que a vejamos como exemplo e modelo das famílias.

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Na primeira leitura (Sir 3,3-7.14-17a: versão grega: 3,2-6.12-14), Jesus Ben Sirá, sábio israelita que viveu na primeira metade do século II a.C., empenhado em preservar os valores tradicionais do seu povo, convida os concidadãos a amarem e a honrarem os pais em todos os momentos da vida e garante que Deus não esquecerá os que assim procederem. O Livro de Ben Sirá (na versão grega, Eclesiástico) é um livro sapiencial que tem, como todos os livros sapienciais, por objetivo deixar aos aspirantes a sábios indicações práticas sobre a arte de bem viver e de ser feliz.
Era uma época conturbada para o Povo de Deus. Os selêucidas (descendentes de Seleuco Nicator, general de Alexandre Magno, que herdou parte do seu império, quando o imperador morreu, em 323 a.C.) dominavam a Palestina e impunham aos judeus, mesmo pela força, a cultura helénica. Muitos judeus, seduzidos pelo brilho da cultura grega, abandonavam a fé dos pais e assumiam comportamentos consentâneos com a “modernidade”. Neste contexto, Jesus Ben Sirá apresenta uma síntese da religião e da sabedoria de Israel, mostrando que é no respeito pela sua fé que os judeus podem descobrir a via da liberdade e da felicidade.
O texto dá indicações práticas que os filhos devem ter em conta, nas relações com os pais.
A palavra que preside a este conjunto de conselhos é a palavra “honrar” (repetida cinco vezes, nestes versículos). A expressão “honrar os pais” leva-nos ao Decálogo do Sinai (“honra teu pai e tua mãe”), em que o verbo “kabad” se traduz por “dar glória”, “dar peso”, “dar importância”. Assim, “honrar os pais” é dar-lhes o devido valor, porque são os instrumentos de Deus, fonte de vida, o que deve conduzir os filhos à gratidão, que não é só declaração de intenções, mas um sentimento que implica atitudes práticas. E Ben Sirá aponta algumas: ampará-los na velhice e não os desprezar, nem abandonar; assisti-los materialmente – sem inventar desculpas –, quando já não podem trabalhar; não fazer nada que os desgoste; escutá-los, tendo em conta os seus conselhos; ser indulgente para com as limitações de idade ou de doença.
É natural que, por trás destas indicações aos filhos, esteja a preocupação de manter vivos os valores tradicionais, que os antigos preservam e que os jovens, por vezes, com alguma ligeireza, negligenciam.
Como recompensa desta atitude de “honrar os pais”, Ben Sirá promete o perdão dos pecados, a alegria, a vida longa e a atenção de Deus. Numa altura em que a noção de vida eterna ainda não entrou na catequese de Israel, tal recompensa é vista como a forma de Deus gratificar o comportamento do justo, enquanto filho que cumpre os deveres para com os pais.

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No Evangelho (Mt 2,13-15.19-23), o evangelista retrata a família de Jesus, família que conta com Deus e que vive de Deus, família unida, solidária, fraterna, onde cada um conta com o apoio incondicional dos outros, onde ninguém é descartado, nem deixado para trás, onde cada um é querido, cuidado, protegido e amado – enfim, família capaz de superar as provas e crises da vida.
O interesse fundamental das primeiras gerações cristãs não se centrou na infância de Jesus, mas na sua proposta de salvação. Assim, a primeira catequese cristã conservou, especialmente, as recordações da vida pública e da paixão, morte e ressurreição do Senhor. Só mais tarde, houve curiosidade sobre os primeiros anos da vida de Jesus. Recolheram-se e ordenaram-se, então, informações históricas da sua infância, que serviram de base a Mateus e a Lucas, para tecerem, a partir delas, reflexões sobre o mistério de Jesus: a sua pessoa, a sua origem, a sua missão, a razão da sua presença no meio dos homens.
Porém, a preocupação fundamental destes evangelistas, ao redigirem o “Evangelho da Infância de Jesus, era de escopo teológico e catequético. E recorreram, para construir as suas narrativas, a métodos que os rabis utilizavam para explorar e comentar o texto bíblico e que incluíam histórias fantasiosas, interpretações, comparações, enlaçadas com tipologias (correspondência entre factos e pessoas do Antigo Testamento e factos e pessoas do Novo Testamento), manifestações apocalípticas (anjos, aparições, sonhos) e outros recursos literários. O resultado desse trabalho é texto belo, algo ingénuo, artificioso e com base histórica discutível, mas que nos faz mergulhar no mistério de Jesus, o Deus que veio ao encontro dos homens e encontrou o seu lar na humilde família de Nazaré.
Mateus situa o episódio do trecho em apreço nos dias do rei Herodes, o Grande, que nasceu por volta de 73 a.C. e morreu no ano 4 a.C., cerca de dois anos após o nascimento de Jesus. Tornou-se rei da Judeia no ano 40 a.C.; mas, a partir dessa data, foi recebendo das autoridades romanas jurisdição sobre outros territórios, até reinar em toda a Palestina. Embora distinguido pelas suas grandes obras, foi rei cruel e despótico, que, para defender o trono, cometeu atos de extrema violência, inclusive contra membros da própria família.
Mateus, nos episódios que antecedem o trecho em causa, já disse que Jesus é o Messias, o descendente de David, Aquele pelo qual Deus concretizará as promessas feitas a Abraão e à sua descendência; é o Filho de Deus, nascido de Maria, por obra do Espírito Santo, que vem ao encontro dos homens para ser o “Deus connosco” e para oferecer a salvação a todos os que O acolherem; é o “rei dos judeus” que nasceu em Belém, terra de David, e que recebe a homenagem dos pagãos vindos de longe para O conhecerem. E, para ficar completo o quadro de Jesus que Mateus nos quer desenhar, o Evangelista prossegue, com a narrativa em apreço.
A narração desenvolve-se em duas cenas. A primeira leva-nos até ao ano 7 ou 6 a.C., dois ou três anos antes da morte do rei Herodes, o cruel que, não suportando rivais, que vê em Jesus uma ameaça e pretende eliminá-Lo. Porém, Deus avisa José, em sonhos, do perigo que o Menino corre e indica o lugar onde a família de Jesus deve buscar segurança: a província romana do Egito, território fora da jurisdição de Herodes, asilo conhecido dos que fugiam da perseguição do tirano que governava a Palestina. José “levantou-se, de noite, tomou o Menino e a mãe e partiu para o Egito, onde ficou até à morte de Herodes”.
A segunda cena leva-nos até ao ano 4 a.C., da morte do rei Herodes. Jesus teria, nessa altura, dois ou três anos. Entra em cena o anjo do Senhor que, em sonhos, avisa José da morte de Herodes e o convida a regressar a Israel. José procedeu conforme as indicações; mas, ao saber que Arquelau, um dos filhos de Herodes, reinava na Judeia, “teve receio de ir para lá. Retirou-se para a região da Galileia, no Norte da Palestina, e foi esconder-se em Nazaré, povoação praticamente incógnita, com cerca de quinhentos habitantes, situada no meio das montanhas do Norte do país. Na verdade, Arquelau revelou-se governador impiedoso e despótico, que governou a Judeia e a Samaria, de 4 a.C. a 6 d.C., até ser deposto por causa da sua crueldade.
Mateus vê, nestes factos, claro paralelismo entre Jesus e Moisés, o profeta que Deus chamou e enviou para libertar o Seu povo da escravidão do Egito. O massacre das crianças de Belém pelo rei Herodes recorda a ordem do faraó de atirar ao rio Nilo os bebés hebreus do sexo masculino; a fuga do menino Jesus pelo deserto, para escapar da morte, lembra a fuga do jovem Moisés através do deserto para salvar a vida; o regresso de Jesus do Egito, quando já tinha morrido Herodes, recorda o regresso de Moisés ao Egito, quando já tinham morrido os que o queriam matar. E a fuga da Sagrada Família para o Egito, para salvar a vida do Menino, lembra a ida para o Egito da família de Jacob para escapar da fome; a indicação de Deus a José para voltar com a família para a Terra Prometida recorda a ação libertadora de Deus em favor dos escravos hebreus prisioneiros no Egito; a caminhada da Sagrada Família no regresso a Israel, lembra o caminho percorrido pelo povo de Deus até à terra da liberdade.
Assim, o Menino que Deus salva das maquinações de Herodes é o enviado de Deus que os grandes da Terra não derrotarão. É o novo Moisés, o libertador enviado a salvar o povo de Deus. Pela ação de Jesus nascerá um novo povo de Deus, que deixará, em definitivo, a terra da escravidão, do pecado e da morte, guiado por Jesus para iniciar a vida nova na Terra da vida e da liberdade.
No final da narração, após dizer que a família de Jesus foi estabelecer-se em Nazaré, Mateus deixa um comentário de difícil interpretação: (Isso aconteceu) “para se cumprir o que fora anunciado pelos Profetas: “há de chamar-Se Nazareno”. Não sabemos a que citação profética se refere. Será a Jz 13,5 (“esse menino será nazireu de Deus desde o seio da sua mãe) ou a Is 11,1 (“brotará um ramo do tronco de Jessé, um rebento – em hebraico: “neçer” – brotará das suas raízes”)? Embora estas citações nada tenham a ver com Nazaré, Mateus usou-as por semelhança fonética; o seu objetivo era mostrar aos judeus que Jesus cumpriu as Escrituras e o desígnio de Deus.
A família de Jesus, Maria e José é uma família pobre e humilde que, por causa da violência e da crueldade dos poderosos, tem de deixar o lar e buscar asilo num país estranho. Como tantas outras famílias pobres de ontem e de hoje, esta família experimenta a perseguição, a clandestinidade, a rejeição, a indiferença, as atribulações dos exilados e dos descartados. É caso para meditar o ocorrido com Jesus, num tempo de rejeição global de migrantes, de refugiados, de exilados, com a anuência cómoda de muitos cristãos, que não veem que Jesus foi migrante à força, porque ameaçado e perseguido. Porém, segundo Mateus, os membros desta família não estão sozinhos na luta contra a maldade dos grandes: Deus está do lado deles, em todos os momentos, indica-lhes a via a percorrer, protege-os, anima-os, guia-os, salva-os. Não é família condenada e perdida, mas família que está nas mãos de Deus e guiada pela amorosa solicitude de Deus.
Mas, além de contarem com Deus, os membros desta família contam uns com os outros. A Família de Nazaré – que pode ser modelo das nossas famílias – é família unida, solidária, fraterna. Os seus membros caminham lado a lado, enfrentam, juntos, os perigos, as incomodidades, as incertezas, as crises, até mesmo o exílio em terra estrangeira. Na família de Nazaré vive-se o amor que supera todos os egoísmos e que se faz dom absoluto ao outro.
A Sagrada Família vive de Deus e cultiva forte ligação com Deus. Escuta a Palavra de Deus, vive atenta aos sinais de Deus, segue as indicações de Deus, vive de olhos postos em Deus. O exemplo da Família de Nazaré mostra-nos que família que vive ao ritmo de Deus é família unida por laços fortes, que nem as maiores tempestades da vida quebrarão.

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Na segunda leitura (Cl 3,12-21), Paulo de Tarso lembra que a opção por Cristo deve traduzir-se, no quotidiano, em comportamentos compatíveis com a realidade “Homem Novo”. Vivendo ao ritmo do amor, segundo as indicações de Cristo, devemos vestir-nos “de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência”, cuidando uns dos outros e perdoando as debilidades. E seremos testemunhas e arautos da fraternidade.
Os filhos e filhas de Deus devem imitar o ser de Deus, que lhes foi revelado em Cristo, o Filho de Deus que veio ao encontro dos homens e que é a referência fundamental à volta da qual se desenrola e se constrói a vida dos discípulos. Quem adere a Cristo e se dispõe a segui-Lo, deve vestir a mesma roupa que Cristo vestia, ou seja, o estilo de vida do seguidor de Cristo deve, estar marcado por atitudes de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência, privilegiando, na relação com os irmãos, o perdão, a compreensão, a indulgência. Quem está unido a Cristo, quem vive “em Cristo”, deve ser capaz de, em todas as circunstâncias, amar sem medida, amar até ao dom total de si, como Cristo fez.
Catálogos de exigências similares também apareciam nos discursos éticos dos gregos, mas a novidade é a fundamentação: tais exigências resultam da íntima relação com Cristo; viver em Cristo implica viver, como Ele, no amor total, no serviço, na disponibilidade, no dom da vida.
Apresentado o ideal da vida cristã, o epistológrafo aplica o que disse ao âmbito concreto da vida familiar. Às mulheres, recomenda o respeito para com os maridos (a submissão das esposas deve ser vista no contexto e na prática da época); aos maridos, convida o amor às esposas, excluindo qualquer atitude de domínio sobre elas; aos filhos, recomenda a obediência aos pais; aos pais, com intuição pedagógica, pede que não sejam excessivamente severos para com os filhos, porque isso pode impedir o normal desenvolvimento das suas capacidades e da sua autonomia. Enfim, é a “caridade” (“agapê”) – entendida como amor de doação, de entrega, a exemplo de Jesus que amou até ao dom da vida – que deve presidir às relações entre os membros da família. Também no espaço familiar se deve manifestar o Homem Novo, transformado por Cristo e que vive segundo Cristo.

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A Família de Nazaré não é família sem problemas, onde a vida não dói: é família perseguida e ameaçada, que tem de abandonar a comodidade do lar, para viver na clandestinidade, que enfrenta a pobreza, a privação, a precariedade, talvez a hostilidade da gente da terra onde procurou refúgio. Contudo, é família que as vicissitudes e crises não derrotam, pois os seus membros mantêm-se unidos, solidários, dispostos a enfrentar, juntos, os riscos e perigos, disponíveis para qualquer sacrifício, quando a vida de algum está em causa. Não vivem em compartimentos estanques, onde a dor do outro não chega; não se fecham nos seus mundos pessoais, surdos e indiferentes ao que se passa à volta. Sentem-se responsáveis pela vida do outro, estão dispostos a dar a vida pelo outro, amam-se verdadeiramente. Também somos assim em família?
A Sagrada Família é família onde Deus está, quotidianamente, presente e é a sua referência. Ali escuta-se a Palavra de Deus, aprende-se a ler os sinais de Deus, faz-se a experiência do amor de Deus. É na escuta da Palavra de Deus que a família de Nazaré encontra força para vencer as crises e contrariedades; é na escuta de Deus que a família de Jesus, Maria e José discerne as sendas a percorrer; é na experiência de Deus que a Sagrada Família descobre e acolhe os valores que estão na base do seu projeto familiar. Também as nossas famílias vivem assim?
A Família de Jesus, Maria e José é família que obedece a Deus. Após escutar as indicações de Deus, age em conformidade. Não discute, não argumenta, não exige explicações, não pede garantias. Confia incondicionalmente em Deus e dispõe-se a concretizar o desígnio de Deus. Abandona o espaço onde se sente confortável e enfrenta o desconhecido com a confiança de quem está seguro da fiabilidade de Deus. Ora, é o cumprimento obediente do desígnio de Deus que assegura a esta família um futuro de vida, de tranquilidade e de paz. Acreditamos nisto?
Quando, numa família, Deus conta, os valores de Deus passam a ser, para todos os membros da comunidade familiar, as marcas que definem o sentido da existência. O espaço familiar torna-se a escola onde se aprende o amor, a solidariedade, a partilha, o serviço, o diálogo, o respeito, o perdão, a fraternidade universal, o cuidado da criação, a atenção aos mais frágeis, o compromisso, o sacrifício, a entrega e a doação. Perfilhamos estes valores?
Vivemos em tempo difícil, que não favorece a construção de projeto familiar coerente com os valores de Deus. Muitos pais, afundados em dificuldades, ultrapassados pela sociedade de egoísmo, de bem-estar, de indiferença, de incredulidade, não sabem como agir para darem aos filhos educação responsável, sã, solidária, coerente com a fé. Sentem a ajuda de alguém?
A família de Jesus foi obrigada a abandonar a sua terra, para procurar segurança e paz em terra estrangeira. Conheceu a situação dos exilados, dos refugiados, dos sem papéis, dos perseguidos, dos rejeitados, dos que têm de lutar para terem lugar onde se sintam humanos e onde possam viver com a dignidade que merecem. Vinte e um séculos depois, há famílias que percorrem caminho idêntico: atravessam os mares em embarcações frágeis e sobrelotadas e arriscam a vida para tentar escapar da miséria, da violência, da fome; palmilham continentes a pé, enfrentam o pó dos caminhos e a violência das máfias, são detidos por muros que erigem fronteiras e que os separam do sonho de uma vida melhor; conhecem todos os cantos e esquinas da clandestinidade, da miséria, da rejeição, do sofrimento. E nós, cristãos, fazemos coro com a rejeição! Mea Culpa!

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Por tudo, é bom cantar com e como o Salmista, em atitude de penitência e de gratidão:

“Ditosos os que temem o Senhor, / ditosos os que seguem os seus caminhos.”

“Feliz de ti, que temes o Senhor / e andas nos seus caminhos. / Comerás do trabalho das tuas mãos, / serás feliz e tudo te correrá bem.

“Tua esposa será como videira fecunda / no íntimo do teu lar; / teus filhos serão como ramos de oliveira / ao redor da tua mesa.

“Assim será abençoado o homem que teme o Senhor. / De Sião te abençoe o Senhor: / vejas a prosperidade de Jerusalém / todos os dias da tua vida.

2025.12.28 – Louro de Carvalho

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