Aprecio
Cristiano Ronaldo como jogador de futebol, pela ânsia de vencer, pela autoconfiança,
pela automotivação, pelo espírito de liderança e pelo foco no desempenho – tudo
isto, no âmbito desportivo. Porém, não creio que estas qualidades desportivas,
em que o capitão futebolista se tem distinguido, sejam transponíveis para a apreciação
global da sua personalidade. Com efeito, os altos e baixos também são
assinaláveis, nomeadamente, no que à liderança diz respeito.
Percebo que o primeiro-ministro (PM) queira puxar pelo país, enaltecer a obra que faz, com a sua liderança política – mais propagandística do que efetiva –, mas parece-me descabido apelar à assunção da mentalidade de Cristiano Ronaldo pelos portugueses, até porque a carreira desportiva é, em si, breve e os cidadãos têm de viver uma vida inteira e querem que ela seja longa. Além disso, digam-me, afora o futebol profissional, em que é que Ronaldo é exemplo.
Percebo que o primeiro-ministro (PM) queira puxar pelo país, enaltecer a obra que faz, com a sua liderança política – mais propagandística do que efetiva –, mas parece-me descabido apelar à assunção da mentalidade de Cristiano Ronaldo pelos portugueses, até porque a carreira desportiva é, em si, breve e os cidadãos têm de viver uma vida inteira e querem que ela seja longa. Além disso, digam-me, afora o futebol profissional, em que é que Ronaldo é exemplo.
Luís
Montenegro sustenta que o país pode “elevar a fasquia” de
crescimento, melhorar os salários e completar a reforma da Administração
Pública, se aproveitar as condições que tem, se aumentar a produtividade e
se tiver uma “mentalidade à Cristiano Ronaldo”.
Na
sua segunda mensagem de Natal, o chefe do governo apelou ao aproveitamento das
sete principais “condições” de que o país beneficia para fazer mais, porque tem
pela frente “cerca de três anos e meio sem eleições nacionais” (isto, se o futuro
Presidente da República não dissolver o Parlamento: alguns candidatos
arriscariam essa opção, no caso de o governo enveredar por opões ao arrepio das
promessas eleitorais ou do programa de governo ou por tentativa revisão constitucional
contra o espírito da mesma).
O
PM enalteceu as façanhas internacionais de Portugal e o cumprimento dos
objetivos e compromissos, ao nível do emprego e dos salários. “Temos tudo para
elevar a fasquia e fixar novas ambições. Novas ambições no funcionamento da
administração, como já estamos a fazer com o processo de simplificação e [de] reforma
do Estado. Novas ambições salariais, como resultado de uma agenda
transformadora que, com a sua visão estratégica e estruturante, nos permitirá
sermos mais produtivos e eficientes”, referiu.
As
sete “condições” de onde parte Portugal, na ótica de Luís Montenegro, são o crescimento
económico, a estabilidade financeira, a segurança, os recursos
humanos qualificados, a apetência para as novas tecnologias, a
localização geoestratégica e a capacidade de diálogo, no contexto
internacional. “Na situação em que estamos, temos duas opções de caminho. Ou
nos contentamos com esta circunstância, em que estamos bem, mas sabemos que, se
nos mantivermos assim, a médio prazo, vamos perder, face à evolução dos outros.
Ou aproveitamos a situação em que estamos e tratamos já de garantir a
nossa própria evolução, para continuarmos a crescer mais do que os outros”, considerou
o chefe do governo.
Neste
contexto, o PM utilizou uma metáfora desportiva, para explicar o que o governo
pretende: a segunda opção. “É a diferença entre jogar para empatar ou ter a
mentalidade vencedora de jogar sempre para ganhar”, defendeu, explicitando que
é preciso ter ou desenvolver a “mentalidade de superação”, a “mentalidade de
não deixarmos para amanhã o que podemos fazer hoje” ou, por outras palavras, a
“mentalidade Cristiano Ronaldo” para criar riqueza. E eu insisto: não é preciso
ser Cristiano Ronaldo para desenvolver a mentalidade de superação, para assumir
a atitude de não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje, para criar
riqueza, através da produtividade e da competitividade.
Talvez
o governo devesse promover a criação de emprego estável, assente em salários
justos, em carreiras atrativas, na melhor distribuição da riqueza, de modo que
se reduzam, até à extinção, os casos de pessoas sem-abrigo, se erradique a
pobreza, se tenha verdadeiro acesso à saúde, à educação, à justiça, à pensão de
reforma condigna, e a cultura não seja um privilégio de poucos.
“A
criação de riqueza é o meio para sermos uma sociedade com mais justiça, com
mais liberdade e com mais felicidade. Mas como diz o nosso povo, as coisas não
caem do céu. Este caminho implica coragem, resistência, capacidade de diálogo e
sentido de unidade nacional. Não temos de estar todos de acordo mas temos de
compreender que não é a nossa posição individual o mais importante”,
desenvolveu Luís Montenegro.
O
líder do Executivo afirma que a nação tem motivos para olhar com esperança para
o futuro próximo, porque este final de ano trouxe mais razões para
acreditar em 2026 e “que estamos no caminho certo”, que é o do
crescimento, da estabilidade e da “execução de uma agenda transformadora”, rumo
a um país mais forte e resiliente. E considerou que Portugal é uma “referência
internacional”. Resta saber em que sentido.
Como
exemplos de referência internacional, o PM lembrou a distinção de Portugal como
economia do ano pela revista The Economist e o facto de o rendimento
real per capita das famílias portuguesas ter sido o que mais aumentou em
2024, entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico
(OCDE). Porém, esqueceu que as nossas famílias foram as que mais viram os seus
rendimentos reais encolherem nos primeiros três meses de 2025.
Na
opinião do chefe do governo, a escolha da The Economist não é
só teoria. “Os rendimentos dos portugueses estão a subir e a nossa economia a
crescer consistentemente, acima da média europeia. No ano passado, fomos mesmo
o país da OCDE em que os trabalhadores mais viram crescer o seu rendimento, por
via do aumento dos salários e da descida dos impostos sobre o trabalho. Isto
mostra que a distinção que recebemos da revista The Economist,
de sermos a economia do ano em 2025, não é um prémio teórico”, garantiu.
Segundo
Luís Montenegro, a “solidez económica” que está a ser construída tem por base
um modelo de subida dos salários e descida de impostos. “Este caminho carece de
coragem política e capacidade reformista. Precisamos de ser mais eficiente e
mais produtivos, para atingirmos novos patamares de crescimento que tragam
novos patamares de rendimento”, concluiu.
***
Não
espanta que tenha aumentado o rendimento per capita, a partir do aumento
da riqueza de muitos e da descida do imposto sobre o rendimento das pessoas
coletivas (IRC), mas é preciso contar com a maioria daqueles cujo salário não aumentou,
com os que trabalham sob um salário mínimo pouco aumentado, no contexto de significativo
aumento do custo de vida, do crescimento do número de pessoas em situação de
sem-abrigo, da miséria, da maior parte das pensões de reforma, do que se paga
um pouco por tudo (estacionamento, telecomunicações, visita a monumentos,
espetáculos, impostos sobre produtos petrolíferos, os consumos de gás, de eletricidade
e de água, de recolha de lixos, etc.).
As contas ao rendimento deviam fazer-se, não quando se disponibilizam os salários e outras fontes de rendimento, mas só depois de deduzidas as despesas.
As contas ao rendimento deviam fazer-se, não quando se disponibilizam os salários e outras fontes de rendimento, mas só depois de deduzidas as despesas.
As
grandes baixas do imposto sobre o rendimento das pessoas singulares (IRS) não
dizem respeito ao escalão anual, mas às taxas mensais de retenção na fonte.
Assim, em setembro e em outubro, o desconto para IRS foi bastante baixo, em relação
aos outros meses, mas, aquando dos acertos, após a entrega da declaração do IRS,
o reembolso será muito menor. Foi o que aconteceu em 2025, relativamente ao
imposto de 2024.
Sobre
estudos de Portugal e a OCDE, devo recordar que, no consulado de José Sócrates,
houve um estudo, alegadamente, da OCDE, sobre o estado da Educação em Portugal,
nos termos do qual as reformas educativas lançadas pela então ministra da
Educação estavam a dar frutos, como dizia o primeiro-ministro, no Parlamento. Achei estranho uma reforma educativa dar
frutos em tão pouco tempo. Todavia quem era eu para duvidar de um estudo
internacional? E, tendo acedido ao documento em suporte digital, alguns
professores (entre os quais me contava), descobriram que o estudo abria com nota
de apresentação da parte de uma técnica administrativa da OCDE, mas tinha sido desenvolvido
em escolas das áreas das diversas direções regionais da Educação, predominantemente,
em escolas situadas no litoral do país.
Denunciada
a situação, na tarde do mesmo dia, o primeiro-ministro teve a hombridade de desmentir,
no Parlamento, a informação que prestara de que o estudo era da OCDE.
***
É
verdade, como sustenta Luís Montenegro, que é a criação de riqueza que permite
criar melhores condições de vida para a população, nomeadamente, na habitação, na
educação e na saúde e avanço do combate à pobreza. Efetivamente, como
referiu, “um país com mais crescimento” pode subir os salários e as pensões,
apoiar a compra de medicamentos para quem mais precisa, negociar melhores
carreiras profissionais e investir mais na habitação, na educação e na saúde, tal
como “proteger o seu património, as suas riquezas naturais”, “ser mais coeso e
garantir justiça, mobilidade, e a segurança e defesa do seu território,
das suas infraestruturas essenciais e críticas”.
Obviamente, não se leva a mal a sua perspetiva ambiciosa e otimista, focada em levar o governo a “cumprir a nossa responsabilidade e fazer tudo para garantir a Portugal e a cada português um futuro mais próspero”. Não obstante, é de se lhe exigir que olhe o país real, não ocultando o caos que grassa na Saúde (urgências encerradas e/ou sobrelotadas, excessivo recurso a privados), a Justiça morosa e desigual, as escolas sem professores e com professores envelhecidos, a falta de apetência para carreiras, como a docência, a instituição castrense ou o serviço de saúde público.
Obviamente, não se leva a mal a sua perspetiva ambiciosa e otimista, focada em levar o governo a “cumprir a nossa responsabilidade e fazer tudo para garantir a Portugal e a cada português um futuro mais próspero”. Não obstante, é de se lhe exigir que olhe o país real, não ocultando o caos que grassa na Saúde (urgências encerradas e/ou sobrelotadas, excessivo recurso a privados), a Justiça morosa e desigual, as escolas sem professores e com professores envelhecidos, a falta de apetência para carreiras, como a docência, a instituição castrense ou o serviço de saúde público.
No
Natal de 2024, Luís Montenegro dirigiu-se aos portugueses com a retórica de
conquista e de esperança nas políticas públicas de promoção do crescimento
económico, da valorização dos salários, do investimento na habitação, nas escolas
e nos hospitais e da “imigração regulada” – o que foi contrariado pelas
palavras do Presidente da República, a 1 de janeiro.
Enquanto
o primeiro-ministro enfatizou o poucochinho que foi alcançado, em menos de um
ano, desde que tomara posse, sobretudo em matéria fiscal e de valorização dos
ordenados, Marcelo Rebelo de Sousa, optou por relevar o que ainda havia por
fazer, nomeadamente, no combate à pobreza. Ambos mostraram que falavam de países
diferentes.
No
arranque de 2026, o chefe de Estado voltará a discursar. Prometeu discurso
neutro. Não sei se resiste a deixar mensagem ao país atinente ao seu legado.
Não creio em discursos neutros.
***
Entre
os partidos com assento parlamentar, só os que sustentam o governo – o Partido
Social Democrata (PSD) e o partido do Centro Democrático Social (CDS) -
reforçaram que a mensagem do PM é de esperança para o futuro. Os restantes criticaram
as palavras de Luís Montenegro, considerando que o retrato do país traçado
não é o de Portugal e o da realidade dos portugueses.
O Chega considerou “inacreditável” que o líder do executivo não tivesse iniciado a mensagem com um pedido de desculpa “pelas enormes falhas na Saúde, pelos bebés nascidos em ambulância, pelas cirurgias adiadas” e não tivesse deixado “uma pista sobre como pensa resolver esses problemas”.
O Chega considerou “inacreditável” que o líder do executivo não tivesse iniciado a mensagem com um pedido de desculpa “pelas enormes falhas na Saúde, pelos bebés nascidos em ambulância, pelas cirurgias adiadas” e não tivesse deixado “uma pista sobre como pensa resolver esses problemas”.
Inês
de Medeiros, do Partido Socialista (PS), criticou o tom do PM, descrevendo
Montenegro como “uma espécie de mentor de autoajuda com discursos motivacionais”,
vincando que “não foi para isso que ele foi eleito”.
Mariana
Leitão, da Iniciativa Liberal (Il), considerou que as palavras do chefe do
governo não refletem a realidade dos portugueses. “É um discurso que já tem
sido habitual, nos últimos anos, vendemos sempre um país maravilhoso”,
afirmou.
Paulo
Muacho, do Livre, reforçou que os portugueses não têm confiança no trabalho do executivo.
“Aquilo que nós temos visto é que não existem essas razões para confiar no
trabalho do governo. [...] O senhor primeiro-ministro parece que vive num
país diferente”, afirmou.
Para
Catarina Araújo, do Partido Comunista Português (PCP), faltou “a realidade do
país”. “O que faltou, nesta declaração foi a realidade do país. Uma realidade
que é feita de salários baixos, de um custo de vida que não para de aumentar”, observou.
E
José Manuel Pureza, do Bloco de Esquerda (BE), reforçou o desfasamento entre as
palavras de Montenegro e a realidade: “Falou de um país que não existe e,
fabulando um país de crescimento, um país de riqueza bem distribuída, tudo
aquilo que as pessoas não veem no seu dia a dia”.
***
Também
os candidatos presidenciais foram desafiados, a 26 de dezembro, a comentar a
mensagem de Natal do chefe do governo, que apontou o futebolista Cristiano
Ronaldo como exemplo do espírito de afirmação pela excelência.
André Ventura criticou, duramente, esta mensagem de Natal, como “pouco empática” e “pouco feliz”, por omitir a crise no setor da saúde, nomeadamente, ignorando o encerramento de urgências e os tempos de espera. E, apesar de concordar com a adoção de uma “mentalidade de Cristiano Ronaldo”, lamentou que tal postura não tenha resolvido problemas que “persistem na saúde, há dois, três, quatro, cinco, dez, 15 anos”, continuando a piorar.
André Ventura criticou, duramente, esta mensagem de Natal, como “pouco empática” e “pouco feliz”, por omitir a crise no setor da saúde, nomeadamente, ignorando o encerramento de urgências e os tempos de espera. E, apesar de concordar com a adoção de uma “mentalidade de Cristiano Ronaldo”, lamentou que tal postura não tenha resolvido problemas que “persistem na saúde, há dois, três, quatro, cinco, dez, 15 anos”, continuando a piorar.
Henrique
Gouveia e Melo considerou ter sido “uma boa mensagem” de Natal, pois “todos
devem ter uma mente positiva” e um “olhar para o futuro de forma positiva”. Contudo,
deixou um alerta ao governo para o caso de ser eleito Presidente da República,
garantindo fará “pressão constante para uma boa governação”, já que “não estará
para fazer favores a ninguém”.
António
José Seguro, optou pela reserva institucional, defendendo que um candidato à
Presidência não comenta intervenções do PM, nem o seu discurso de Natal, “até
para evitar erros passados”. Todavia, não poupou críticas ao estado da saúde,
classificando como “inaceitável” o cenário “das urgências fechadas e dos
portugueses que precisam de saúde e de cuidados, a tempo e horas, não os terem
e terem passado horas e horas nas urgências”.
Por
sua vez, Cotrim Figueiredo considerou oportuna a mensagem de Natal do PM, mas
advertiu que a capacidade reformista deve ser independente dos momentos
eleitorais e que precisamos de governantes corajosos. “Acho que o papel do
primeiro-ministro também é inspirar as pessoas, também é mobilizar”, afirmou,
considerando, que a visão “reformista” para o país deve existir,
independentemente de eleições.
E António
Filipe referiu que os portugueses “não precisam de discursos de tipo
motivacional”, mas de uma valorização geral dos salários que ajude a mitigar a “inaceitável
desigualdade na distribuição do rendimento”. Com efeito, na sua ótica, a
questão não se centra na mentalidade dos portugueses, mas na necessidade de
serem valorizados, através de políticas públicas.
***
Precisamos,
não de governantes psicoterapeutas, nem de políticos psicanalistas, nem de profissionais
de propaganda, mas de decisores que vivam no país real dos portugueses e tenham
lucidez bastante para definirem as políticas públicas adequadas e vontade para as
executarem, sem caírem na tentação de mascarar as situações de insucesso. Por
exemplo, falar do país, sem a mínima alusão à nova legislação laboral não
revela coragem, nem realismo.
2025.12.26 – Louro de Carvalho
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