O
facto mais notório que marcou o ano de 2025 terá sido o retorno do republicano Donald
Trump à Casa Branca, em janeiro, para segundo mandato presidencial, com a inauguração
de nova política norte-americana interna e externa, caraterizada pela ofensiva
protecionista, por deportações em massa de imigrantes e pelo desmantelamento de
setores do governo federal.
O presidente dos Estados Unidos da América (EUA) mobilizou a Guarda Nacional em cidades democratas, fechou agências de apoio humanitário e cerceou programas de diversidade e de inclusão, tentando controlar universidades e centros de investigação.
O presidente dos Estados Unidos da América (EUA) mobilizou a Guarda Nacional em cidades democratas, fechou agências de apoio humanitário e cerceou programas de diversidade e de inclusão, tentando controlar universidades e centros de investigação.
Para
entrar em vigor em abril, o presidente dos EUA impôs tarifas recíprocas a importações
de diversos países, afetando indústrias consideradas estratégicas, como as do alumínio,
do aço e do cobre, o que levantou uma disputa comercial que abalou a economia
mundial. Face a tal medida, vários países consideravam ou implementavam medidas
retaliatórias. Porém, a União Europeia (UE), a China e outros países obtiveram acordos
(ambíguos) que esbateram o tarifário.
Ao
mesmo tempo, Donald Trump enunciou o propósito de domínio do Canadá, do Canal
do Panamá e, sobretudo, da Gronelândia (neste caso, incluindo o uso da força armada).
E,
em novembro, os EUA gizaram a nova Estratégia de Segurança Nacional (ESN), que
delineia a forma como Donald Trump pretende que os EUA mantenham e reforcem a
sua presença militar no Hemisfério Ocidental, para combater a imigração, o
narcotráfico e a ascensão de potências adversárias na região, pondo em segundo
plano a Europa e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).
Num
cenário de crise económica e de tensões geopolíticas, os alemães foram às urnas
em fevereiro e deram vitória à União Democrata Cristã (CDU) combinada com o seu
parceiro bávaro, a União Social Cristã (CSU). Daí resultou que o líder dos
conservadores, Friedrich Merz, passou a chanceler federal e se verificou a
ascensão recorde da Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de ultradireita que
conquistou a segunda maior bancada, com 20,8% dos votos, numa eleição dominada
por questões, como a imigração, a crise económica e acusações de interferência
externa. E Merz chegou ao cargo sob intensa críticas, depois de apoiar o fim do
“cordão sanitário” e de acatar votos da ultradireita numa moção anti-imigração.
Em
março, o Brasil conquistou o seu primeiro Oscar, com a vitória do longa
metragem “Ainda Estou Aqui” na categoria de Melhor Filme Internacional após uma
longa campanha que destronou o favorito Emilia Pérez.
No
contexto do Jubileu da Esperança (2025 é ano jubilar ordinário), o Mundo ficou surpreendido
com o agravamento das condições de saúde do Papa Francisco, que acabou por
ditar a sua morte, a 21 de abril (segunda-feira de Páscoa). Por conseguinte, o
conclave elegeu, a 8 de maio, o novo papa, o cardeal Robert Francis Prevost,
de 69 anos, que se tornou o primeiro papa norte-americano, o 267.º líder da
Igreja Católica, e que assumiu o nome de Leão XIV.
Com
ajuda dos EUA, Israel lançou incursões contra instalações iranianas numa guerra
de 12 dias, em junho. O conflito teve início depois de Israel haver atacado bases
nucleares iranianas, alegando que o crescente programa nuclear da República
Islâmica ameaça a sua existência. O Irão retaliou, com mísseis, atingindo áreas
residenciais de cidades, como Telavive e Teerão e deixando quase mil mortos. Porém,
a 22 de junho, os EUA entraram, ativamente, no conflito, com o envio de
bombardeiros que atingiram três instalações nucleares iranianas, após o que foi
anunciado um acordo de cessar-fogo.
Em
agosto, Washington inaugurou significativa presença militar ao largo da costa
latino-americana, que ainda perdura. Oficialmente criada para combater o
tráfico de drogas com destino aos EUA, a operação acumula mais de 20 ataques,
no Caribe e no Pacífico, contra embarcações suspeitas de narcotráfico, deixando
dezenas de mortos. Daí resultou o agravamento das tensões regionais,
especialmente, com a Venezuela, que vê os ataques como pretexto para derrubar
o presidente Nicolás Maduro e tomar as reservas de petróleo do país.
Donald
Trump, que acusa Maduro de liderar um cartel e oferece uma recompensa de 50
milhões de dólares pela sua captura, diz que a mobilização naval no Mar do
Caribe é a “maior armada já reunida na História da América do Sul” e que a
Venezuela está “cercada”.
Entretanto,
a líder da oposição venezuelana foi galardoada com o Prémio Nobel da Paz.
Em
setembro, o Supremo Tribunal Federal do Brasil (STF) condenou o ex-presidente
Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão, por golpe de Estado, por organização
criminosa armada, por abolição violenta do Estado Democrático de Direito, por dano
qualificado por violência e por grave ameaça e deterioração de património
tombado – uma decisão inédita na História do judiciário brasileiro, que também
condenou mais oito arguidos, incluindo militares.
E Alexandre Moraes, ministro do STF viu risco de fuga de Bolsonaro, no facto de o
ex-presidente ter tentado violar a pulseira eletrónica com ferro de solda, pelo
que, três dias depois, decretou o início oficial do cumprimento da pena de 27
anos e três meses de prisão.
A
pressão dos EUA, cujo presidente anunciara a hipótese de construir uma Riviera na
Faixa Gaza, levou ao cessar-fogo entre Israel e o Hamas, em outubro,
dois anos após o início de uma guerra devastadora, que deixou quase 70 mil
mortos. A trégua permitiu o retorno a Israel dos últimos 20 reféns
sobreviventes e da maioria dos corpos dos mortos, em troca da libertação de
centenas de prisioneiros palestinianos e possibilitou o aumento do fluxo de
ajuda humanitária para o território palestiniano, embora aquém das necessidades
da população, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) e várias organizações
não governamentais (ONG) humanitárias. Contudo, negociar os próximos passos do
plano de paz – sobretudo, o desarmamento do Hamas – tem sido complicado. Israel
realizou vários ataques aéreos mortais, na Faixa de Gaza após a trégua,
alegando serem retaliações a ofensivas do Hamas. E persistem as tensões
regionais, com contínuos ataques israelitas a redutos do Hezbollah, no
Líbano.
As
autoridades do Rio de Janeiro lançaram, em outubro, uma megaoperação nos
complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A “Contenção”
deixou 121 mortos, superando, por larga medida, recordes de letalidade
anteriores, na capital fluminense, nas últimas décadas. Foi resultado de mais
de um ano de investigação, que terá identificado 94 integrantes do Comando
Vermelho escondidos nas comunidades, onde vivem cerca de 280 mil pessoas. A
operação causou transtornos na capital e na região metropolitana e recebeu
duras críticas de organizações internacionais, como o Alto Comissariado de
Direitos Humanos da ONU, que se disse “horrorizado” com o número de mortos.
Em
19 de outubro, assaltantes envergando coletes de trabalhadores usaram
uma escada de móveis para entrarem no Museu do Louvre, em Paris. Fugiram em scooters
com joias da Coroa avaliadas em 88 milhões de euros, embora tenham deixado cair
uma coroa cravejada de diamantes. O assalto ganhou manchetes, em todo o Mundo,
e concitou debate sobre a segurança do museu mais visitado do planeta. Três suspeitos
de participação no ataque foram acusados e presos, mas os tesouros roubados não
foram recuperados.
O
regresso de Donald Trump à Casa Branca intensificou os esforços para encerrar a
guerra na Ucrânia, iniciada pela invasão russa, em 2022. As simpatias do líder
dos EUA oscilaram entre o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, e o presidente
russo Vladimir Putin, temendo Kiev ser forçada a aceitar um acordo nos termos exigidos
pelo Kremlin.
Em
fevereiro, o inquilino da Casa Branca repreendeu Zelenskyy, na Sala Oval,
acusando-o de arriscar a III Guerra Mundial e de desrespeitar o povo norte-americano.
Como as conversas diretas entre Rússia e Ucrânia não avançaram, Trump recebeu
Putin, em agosto, para a reunião no Alasca. Depois, o líder norte-americano
impôs à Rússia o seu primeiro grande pacote de sanções e deu um prazo, até o
final do ano, para Kiev acatar o seu plano de paz de 28 pontos.
Em
dezembro, a Ucrânia e os EUA ainda negociam o acordo, cuja versão inicial foi
considerada por Kiev e pelos aliados europeus favorável a Moscovo. Enquanto
isso, as forças russas avançam, lentamente, a um custo humano e financeiro
massivo, para ambos os lados, bombardeando cidades ucranianas com números
recordes de mísseis e de drones. Kiev exige garantias de segurança para
encerrar a guerra, aceita abrir mão do ingresso na NATO, mas rejeita ceder
territórios à Rússia. E Washington sugere que parte da região de Donetsk
ocupada pelos russos permaneça com Moscovo e que o resto se transforme numa zona
económica livre.
Movimentos
em massa liderados por jovens abaixo dos 30 anos surgiram pela Ásia, pela África
e para América Latina, em luta contra padrões de vida precários, contra a censura
nas redes sociais e contra a corrupção das elites. Tiveram sucesso variado. Por
exemplo, em Marrocos, o governo prometeu reformas sociais, mas mais de dois mil
manifestantes enfrentam processos. Noutros países, os protestos transformaram-se
em desafio mais amplo ao poder, após serem violentamente reprimidos. E vários
titulares de cargos políticos, a nível do topo estatal, foram coagidos a abandonarem
os respetivos cargos.
É
de registar a revolta do clima (inundações, ciclones, tsunamis e ondas de calor
excessivo), bem como uma cimeira ambiental da ONU sem menção aos combustíveis
fósseis. Por
exemplo, um tornado destruiu, em dezembro, 90% de uma cidade do Paraná, deixando
seis mortos. Em novembro, ciclones deixaram um rasto de destruição, no Sri
Lanka, e fortes chuvas atingiram a Indonésia, a Tailândia e a Malásia. Em
outubro, o furacão Melissa causou dezenas de mortes, no Haiti, e destruiu
infraestruturas críticas, em Cuba. Em julho, um terramoto de magnitude 8,8
atingiu o extremo Leste da Rússia provocando tsunamis e gerando ordens de
evacuação no estado norte-americano do Havai, no Japão e em países
latino-americanos que têm costa no Pacífico. Foi o maior tremor registado desde
o que atingiu o Japão em 2011.
No
mesmo mês, chuvas torrenciais provocaram enchentes repentinas no estado norte-americano
do Texas, com mais de 100 mortos, entre os quais 28 crianças que participavam em
acampamentos de verão; e uma onda de calor recorde e precoce atingiu a Europa,
do Sul ao Norte do continente, levando a incêndios, a mortes e a temperaturas
extremas, em diversos países. No Japão, o verão tornou-se o mais intenso já
registado, desde o início da série histórica, de 1898.
A
própria Faixa de Casa, destruída pela guerra, vê agora os seus habitantes (regressados)
aflitos com as inundações e sem a hipótese de consecução de abrigo contra a
intempérie.
As
catástrofes climáticas foram discutidas na 30.ª Conferência do Clima da
ONU (COP 30), em Belém do Pará. Após um evento marcado pelos desafios de
acomodação, pelos protestos de povos indígenas e um incêndio que assolou o
pavilhão da África, a cimeira produziu o polémico texto final que não
inclui a proposta brasileira da rota de abandono dos combustíveis fósseis.
Entre
vídeos que circulam nas redes sociais, tendência que marcou 2025 e deve seguir
em 2026, é a inteligência artificial (IA). Gigantes tecnológicos e startups
especializadas gastaram quantias cada vez mais avultadas para financiar o
crescimento desenfreado da IA. No entanto, as astronómicas avaliações de
mercado do setor levantam temores de possível bolha especulativa. E as
preocupações levantadas pela IA foram alimentadas por novos exemplos de
desinformação, de acusações de violação de direitos autorais ou de demissões em
massa.
***
Em
Portugal, 2025 foi marcado pelas eleições legislativas, a 18 de maio, em resultado
da dissolução do Parlamento, mercê da apresentação do pedido de demissão do primeiro-ministro,
em resultado da intenção do Partido Socialista (PS) apresentar, potestativamente,
uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) ao caso Spinumviva, que afetava o
chefe do governo. Os partidos que apoiam o governo saíram com posição reforçada,
o partido Chega passou a 2.ª força política parlamentar, tendo acabado o bloco
central do arco governativo e passado o PS para terceiro lugar. E a direita, em
bloco, conseguiu a maioria de dois terços, para rever a Constituição e produzir
leis de valor reforçado.
A 12 de outubro, realizaram-se as eleições para os órgãos das autarquias locais (municípios e freguesias), em que saiu vencedor o Partido Social Democrata (PSD), sozinho ou em coligações, tendo ficado o PS em segundo lugar e tendo o Chega garantido a liderança de algumas autarquias. Por conseguinte, o PS perdeu, para o PSD, as presidências da Associação Nacional dos Municípios Portugueses (ANMP) e da Associação Nacional das Freguesias (ANAFRE).
A 12 de outubro, realizaram-se as eleições para os órgãos das autarquias locais (municípios e freguesias), em que saiu vencedor o Partido Social Democrata (PSD), sozinho ou em coligações, tendo ficado o PS em segundo lugar e tendo o Chega garantido a liderança de algumas autarquias. Por conseguinte, o PS perdeu, para o PSD, as presidências da Associação Nacional dos Municípios Portugueses (ANMP) e da Associação Nacional das Freguesias (ANAFRE).
Outro
facto que abalou o país foi o apagão de 28 de abril, desde 11h33, que se
prologou por mais de 12 horas, afetando Portugal continental, a Espanha
peninsular, Andorra e o Sudoeste de França. O colapso ibérico (“apagão” é a
palavra do ano, para a Porto Editora), em que a economia afundou, foi um evento
sem precedentes na História do sistema elétrico, que expôs um conjunto alargado
de vulnerabilidades, desde a insuficiente resposta inicial dos sistemas de black
start (arranque autónomo) das centrais de Castelo do Bode e da Tapada do
Outeiro, até à limitada capacidade das infraestruturas de telecomunicações para
manter o país ligado em prolongada falha da energia elétrica.
É
de registar o impacto da greve geral de 11 de dezembro, em que se juntaram as
duas centrais sindicais e outros sindicatos não federados (o que não acontecia,
há 12 anos), para contestar o anteprojeto, sem sentido e sem necessidade, de alteração
de mais de uma centena de artigos da legislação laboral, afetando, gravemente,
os direitos dos trabalhadores.
Portugal
teve duas notações internacionais: a revista britânica “The Economist”, que elaborou
o ranking dos dados económicos dos 36 países mais ricos do Mundo, considera
Portugal “a economia do ano de 2025”; e a UE considera que Portugal é país onde
as casas são mais sobrevalorizadas, ou seja, onde os preços da habitação sobem
mais.
A
3 de setembro, o acidente do elevador da Glória, em Lisboa, causou 16 motos e
22 feridos.
É
de assinalar o início do julgamento do ex-primeiro-ministro português José
Sócrates, após detenção na manga do aeroporto de Lisboa, a 22 de novembro de
2014 (há 11 anos).
Decorreram
os debates televisivos entre oito candidatos às eleições presidenciais de 18 de
janeiro de 2026, que se preveem renhidas, talvez mais do que em 1986. Porém,
como o Tribunal Constitucional aceitou 11 candidatos, todos integrarão um alargado
debate televisivo.
É
ainda de referir que: o Lone Star vende o Novo Banco ao grupo francês BPCE; a Semapa
acorda a venda da Secil à Cementos Molins; o governo vai reprivatizar a TAP; a Tekever
conquista o estatuto de unicórnio; os bancos somam lucros recorde e o BCP
Millennium ascende ao segundo lugar entre as cotadas do PSI; a Autoeuropa
conquista a produção do modelo ID. Every1; a Impresa acorda entrada da MFE no
seu capital; e Álvaro Santos Pereira sucede a Mário Centeno como governador do
Banco de Portugal.
***
É
um panorama não exaustivo do Mundo, mas que evidencia a sua forte ebulição
2025.12.27
– Louro de Carvalho
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