A
migração é um direito natural conexo com a necessidade da procura de uma vida
melhor e com o direito de conhecer o Mundo. Porém, os imigrantes são tolerados,
em consonância com as necessidades dos países de acolhimento, em termos da
falta de mão de obra barata ou, eventualmente, para trabalho qualificado, se o
respetivo país carecer de quadros em alguma das áreas de atividade em causa. Acresce
que alguns países recebem, com agrado, pessoas detentoras de um volume excecional
de riqueza, pois, supostamente, não criam problemas, sobejando as vantagens. Enfim,
cultivamos a aporofobia e a plutolatria.
Paralelamente aos migrantes emergem as ondas de refugiados da guerra (interna ou com outros países), de perseguições várias, de situações de fome extrema. E, ainda, surgem os exilados políticos. São situações a não confundir, embora todas mereçam o adequado acolhimento, de forma respeitadora da dignidade humana e não a permanência duradoura em amontoado em acampamentos ou a ostracização em guetos.
Paralelamente aos migrantes emergem as ondas de refugiados da guerra (interna ou com outros países), de perseguições várias, de situações de fome extrema. E, ainda, surgem os exilados políticos. São situações a não confundir, embora todas mereçam o adequado acolhimento, de forma respeitadora da dignidade humana e não a permanência duradoura em amontoado em acampamentos ou a ostracização em guetos.
Não
foi sem razão que, a 4 de dezembro de 2000, a Assembleia Geral da Organização
das Nações Unidas (ONU), verificando o grande e crescente número de migrantes
no Mundo, proclamou o dia 18 de dezembro como o Dia Internacional dos Migrantes,
pela Resolução da Assembleia, n.º 55/93 (A/RES/55/93), na sequência do ocorrido
no mesmo dia de 1990, em que adotou a Convenção Internacional sobre a Proteção
dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros de suas Famílias
(A/RES/45/158).
Os
132 estados-membros participantes no Diálogo de Alto Nível sobre Migração
Internacional e Desenvolvimento, realizado pela Assembleia Geral, a 14 e 15 de
setembro de 2006, reafirmaram várias mensagens-chave, nomeadamente, que “a
migração internacional é um fenómeno crescente e que pode dar contributo
positivo ao desenvolvimento nos países de origem e nos países de destino”,
desde que secundada por políticas adequadas; que “o respeito pelos direitos e
liberdades fundamentais de todos os migrantes é essencial para colher os
benefícios da migração internacional”; e que é importante “reforçar a
cooperação internacional, em matéria de migração internacional a nível
bilateral, regional e global”.
Apesar
de o Diálogo de Alto Nível ter enfatizado que a migração internacional pode
contribuir para o desenvolvimento, reconheceu que “ela não substitui o
desenvolvimento”, pois, muitas vezes, os migrantes são obrigados a buscar
emprego no exterior, devido à pobreza, a conflitos ou a violações dos direitos
humanos. Já a face mais positiva da medalha é que “a paz e a segurança, a boa
governança, o Estado de Direito e a oferta de trabalho decente, nos países de
origem garantem que as pessoas migrem, por escolha, não por necessidade. Assim,
se acordo com a ONU, a migração internacional precisa de ser parte integrante
da agenda de desenvolvimento, pelo que deve fazer parte das estratégias
nacionais de desenvolvimento.
Na
sequência do Diálogo de Alto Nível, o governo belga lançou um processo para criar
o Fórum Global sobre Migração e Desenvolvimento como processo consultivo
voluntário, não vinculativo e informal, aberto a todos os estados-membros e aos
observadores. Ao proporcionar um espaço para os governos abordarem questões conexas
com a migração internacional e com o desenvolvimento, de forma sistemática e
abrangente, o Fórum Global reúne a experiência governamental de todas as
regiões, promove o diálogo, a cooperação e as parcerias, e fomenta resultados
orientados para a ação, a nível nacional, regional e global.
Desde
o Diálogo de Alto Nível de 2006, a cooperação intergovernamental na área da
migração aumentou. Neste âmbito, diversos grupos intergovernamentais regionais
e processos consultivos têm-se concentrado, cada vez mais, nas dimensões do
desenvolvimento conexas com a migração internacional, embora de modos e com óticas
diferentes. A necessidade de compreender melhor as questões levantadas pela
migração internacional, em relação ao desenvolvimento, de trocar experiências e
conhecimentos e de construir posições comuns impeliu a adesão de mais países a
grupos regionais e a cooperação entre alguns grupos regionais. Assim, o Diálogo
de Alto Nível serviu de catalisador para considerável atividade, nessa área.
Em
setembro de 2016, a Assembleia Geral da ONU organizou uma cimeira de alto nível
para abordar os grandes fluxos de refugiados e migrantes, com o objetivo de
unir os países em torno de uma abordagem mais humana e coordenada. Foi a
primeira vez que a Assembleia Geral convocou uma cimeira a nível de chefes de
Estado e de governo sobre os grandes fluxos de refugiados e migrantes,
representando uma oportunidade histórica para elaborar um plano para uma
resposta internacional mais eficaz. A cimeira constituiu um momento decisivo
para fortalecer a governança da migração internacional e oportunidade única
para criar um sistema mais responsável e previsível para lidar com grandes
fluxos de refugiados e migrantes.
Em
dezembro de 2018, a Conferência Intergovernamental para Adotar o Pacto
Global para uma Migração Segura, Ordenada e Regular, em Marraquexe, adotou
o Pacto Global, que, baseado nos valores da soberania estatal, da partilha
de responsabilidades, da não discriminação e dos direitos humanos, reconhece a
necessidade de abordagem cooperativa para “otimizar os benefícios globais da
migração, abordando, simultaneamente, os seus riscos e desafios para os
indivíduos e para as comunidades nos países de origem, de trânsito e de destino”.
***
A
ONU considera que a atração por um emprego bem remunerado num país rico é
poderoso fator de motivação para a migração internacional, o que se
intensificou com o aumento das diferenças de rendimento entre os países. Isso aplica-se
às grandes e crescentes diferenças entre países de alto e baixo rendimento e
aos países em desenvolvimento, tanto os mais dinâmicos como os menos dinâmicos.
De facto, muitas economias avançadas e dinâmicas precisam de migrantes para
preencherem vagas que não podem ser terceirizadas e que não encontram
trabalhadores locais dispostos a aceitá-las pelos salários vigentes. Também o
envelhecimento populacional contribui para essa procura, por gerar um défice de
trabalhadores, face ao número de dependentes. Além disso, à medida que as
gerações mais jovens se tornam mais instruídas, menos pessoas se contentam com
empregos mal remunerados e fisicamente exigentes.
Nesta perspetiva, o recurso a migrantes seria contraindicado, não por não serem necessários, mas por satisfazerem a vontade dos empregados que pretendem pagar pouco pelo trabalho. E não são raros os casos de migrantes sujeitos a esquemas de escravatura laboral.
Nesta perspetiva, o recurso a migrantes seria contraindicado, não por não serem necessários, mas por satisfazerem a vontade dos empregados que pretendem pagar pouco pelo trabalho. E não são raros os casos de migrantes sujeitos a esquemas de escravatura laboral.
Reconhece
a ONU que a migração pode reduzir salários ou levar a maior desemprego entre os
trabalhadores pouco qualificados, em economias avançadas, muitos dos quais são os
que chegaram em vagas anteriores. Porém, a maioria dos migrantes complementa as
competências dos trabalhadores locais, em vez de competir com eles. Desempenhando
tarefas que ficariam por fazer ou custariam mais, permite que os cidadãos
desempenhem outras funções mais produtivas e mais bem remuneradas e mantenham atividades
económicas viáveis que, na sua ausência, seriam terceirizadas. Além disso, ao
aumentarem a força de trabalho e o número de consumidores e ao contribuírem com
as suas capacidades empreendedoras, os migrantes impulsionam o crescimento
económico nos países de acolhimento.
No
ponto de origem, a pobreza extrema não leva, automaticamente, a maior migração.
As pessoas mais pobres não têm recursos para arcar com os custos e com riscos
da migração internacional, mas há migrantes que se deixam levar por grupos de
exploradores que tudo prometem e falham na primeira oportunidade. Os migrantes
internacionais provêm, geralmente, de famílias de rendimento médio. Contudo,
quando os migrantes se estabelecem no exterior, ajudam amigos e parentes a
segui-los e, assim, os custos e riscos da migração diminuem, possibilitando que
pessoas mais pobres, embora não as mais pobres, se juntem ao fluxo migratório.
A migração de mão de obra pouco qualificada tem maior potencial para reduzir a
profundidade e a severidade da pobreza nas comunidades de origem. Cada vez fica
mais claro que a migração internacional é positiva, quer para os países de
origem, quer para os de destino. Os benefícios são maiores do que os ganhos de
um comércio internacional mais livre, sobretudo, nos países em desenvolvimento.
***
Segundo
a ONU (Fonte: UN DESA 2025), em meados de 2024, o número total de migrantes
internacionais era de mais de 304 milhões (304021813), ou seja, uma em cada 27 pessoas,
no Mundo, eram migrantes internacionais. Desses 304 milhões migrantes
internacionais, 48% eram mulheres. Embora o número de mulheres migrantes tenha
aumentado, constantemente, nas últimas décadas, chegando a 146 milhões, em
2024, a proporção de mulheres migrantes permaneceu estável em 48,08%, em meados
de 2024 (eram 47,97% em 2020).
A proporção de mulheres na população migrante variou regionalmente, sendo a menor na Ásia (42%) e a maior na Europa (52%). Por região: América do Norte (51%), Oceânia (51%), América Latina e Caribe (50%), África (47%).
A proporção de mulheres na população migrante variou regionalmente, sendo a menor na Ásia (42%) e a maior na Europa (52%). Por região: América do Norte (51%), Oceânia (51%), América Latina e Caribe (50%), África (47%).
Os
cinco países de destino com maior número de migrantes internacionais são: os
Estados Unidos da América (EUA), com 52 milhões; a Alemanha, com 16,8 milhões; a
Arábia Saudita, com 13,7 milhões; o Reino Unido, com 11,8 milhões; e a França, com
9,2 milhões.
Os
cinco países de destino com menor número de migrantes são: Tuvalu, com 246; São
Tomé e Príncipe, dois mil; Cuba, com 2100; as Ilhas Salomão, com 2500; e Nauru,
com 2500.
Em
todos os casos, regista-se o fenómeno da migração forçada.
Como
referimos, o número estimado de migrantes internacionais era de 304 milhões, em
2024, número que representa um aumento, em relação aos 275 milhões registados
em 2020. Apesar do aumento em números absolutos, a proporção de migrantes
internacionais, em relação à população mundial, permaneceu relativamente
estável, ao longo dos anos, situando-se em 3,7%, apenas 0,8% a mais do que em
1990, quando o Departamento de Assuntos Económicos e Sociais (DESA) começou a registar
e a publicar as suas estimativas.
Em
termos absolutos, os cinco principais países de destino para migrantes
internacionais permaneceram inalterados desde meados de 2020 (os EUA, a Alemanha,
a Arábia Saudita, o Reino Unido e a França), tendo-se registado um aumento no
número de migrantes internacionais (de 2020 a 2024), em todos esses cinco
países. Os EUA apresentaram o maior aumento absoluto, entre 2020 e 2024 (+1,9
milhão de migrantes), enquanto a Arábia Saudita e a França registaram os
menores aumentos (+0,6 milhão de migrantes cada), no mesmo período.
Em
relação à população, a percentagem de migrantes variou, significativamente,
entre os dez principais países de destino, em 2024 (por exemplo, a Federação
Russa: 5,3%; e os Emirados Árabes Unidos: 74%).
Oito
dos dez principais países registaram aumento na proporção de migrantes: a Espanha
(+3,5%), a Alemanha (1,9%), o Reino Unido (1,5%), a Austrália (+0,8%), a França
(+0,7%), o Canadá (+0,3%), os EUA (+0,3%) e a Federação Russa (+0,3%). Já a Arábia
Saudita e os Emirados Árabes Unidos apresentaram quedas. O Canadá, a Austrália,
a Federação Russa, os Emirados Árabes Unidos e a Espanha figuraram,
consistentemente, entre os 10 principais países de destino de migrantes
internacionais entre 2015 e 2024; no entanto, as suas posições mudaram ao longo
do tempo.
***
Face
ao concerto dos demais países, Portugal, que foi (e ainda é) país de
emigrantes, não tem um problema sério de imigração. Tem é problemas de
controlo, de acolhimento e de fiscalização de atividades ilegais, na área da imigração
e no contexto do todo do território nacional. E, havendo quem acuse a relação
crime-imigração, é preciso clarificar que o crime não tem marca de país, nem de
etnia: assenta em cada cabeça que não o previna e combata.
O Observatório das Migrações (OM) está a concluir um repositório de dados sobre imigrantes, em Portugal, para harmonizar a informação estatística com os mesmos critérios, de vários serviços públicos, algo que hoje não sucede. “Há um problema nos números reais, ou seja, temos de partir do princípio de que a maioria dos números com que temos trabalhado não reflete a realidade real, por incapacidade do sistema de os recolher ou por falta de comparabilidade entre eles”, afirmou à Lusa Pedro Góis, diretor científico do OM, exemplificando com “os números de descontos na Segurança Social”, que “não são os mesmos números que aparecem nos quadros do Banco de Portugal”, que “têm a ver com os critérios de inclusão”, em cada base de dados.
O Observatório das Migrações (OM) está a concluir um repositório de dados sobre imigrantes, em Portugal, para harmonizar a informação estatística com os mesmos critérios, de vários serviços públicos, algo que hoje não sucede. “Há um problema nos números reais, ou seja, temos de partir do princípio de que a maioria dos números com que temos trabalhado não reflete a realidade real, por incapacidade do sistema de os recolher ou por falta de comparabilidade entre eles”, afirmou à Lusa Pedro Góis, diretor científico do OM, exemplificando com “os números de descontos na Segurança Social”, que “não são os mesmos números que aparecem nos quadros do Banco de Portugal”, que “têm a ver com os critérios de inclusão”, em cada base de dados.
Por
outro lado, a Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) aponta para
1,5 milhões de estrangeiros residentes em Portugal, no final de 2024, a partir
das autorizações de residência atribuídas, mas Pedro Góis prefere esperar pela
avaliação do Instituto Nacional de Estatística (INE) para ter a certeza dos
números. “Vamos ter de ter alguma paciência porque os números da AIMA foram
chegando atrasados”, disse, considerando a extinção do Serviço de Estrangeiros
e Fronteiras (SEF), o acréscimo de manifestações de interesse, vistos de países
lusófonos.
Tudo
isso afetou a qualidade dos números, embora a AIMA só contabilize as
autorizações de residência, mesmo que muitos desses estrangeiros possam já nem
viver em Portugal, uma informação que só o INE poderá aferir.
Mónica
Isfan, do OM, explicou o novo ‘dashboard’ de recolha de dados que permitirá
harmonizar a informação estatística sobre imigrantes, vincando que já estão a
ser celebrados protocolos de colaboração. E questões como a “migração
irregular, mobilidade circular ou trabalho informal permanecem pouco
observadas”, nas bases estatísticas. Por isso, entende que o OM deve “ser visto
num papel de curadoria científica da informação migratória, promovendo a
harmonização e a sistematização desta informação”, fazendo a “leitura comparada
de todos os dados disponíveis”.
Ao
invés do que alguns creem, os migrantes desempenham papel vital na economia
global. Os estudos mostram que os imigrantes trazem crescimento e inovação
tanto para os países de origem quanto para aqueles para os quais se mudam. Na
verdade, a maioria das nações ocidentais enfrenta uma bomba demográfica, já que
o envelhecimento da população e as baixas taxas de natalidade significam que
dependerão de imigrantes para a viabilização do crescimento económico.
Portanto, é do interesse dessas nações apoiar uma migração segura e ordenada.
No
entanto, o Pacto de Migração e Asilo, da União Europeia (UE), não entrará em
vigor, antes de 2026, não se sabendo se as últimas medidas responderão à
preocupação com a segurança ou serão ordem de marcha para uma Europa Fortaleza,
fragilizando a solidariedade.
2025.12.18 – Louro de Carvalho
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