quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Líderes europeus solidários com a Dinamarca pela Gronelândia

 

O presidente dos Estados Unidos da América (EUA) – um ano depois de ter anunciado, pela primeira vez, a intenção de integrar a Gronelândia no território dos EUA, invocando a segurança nacional – reavivou essa ambição, o que levou os líderes europeus a manifestarem o seu apoio à Dinamarca. Efetivamente, Donald Trump nomeou, a 21 de dezembro, o governador do Louisiana, Jeff Landry, como novo enviado especial dos EUA para a Gronelândia, com o objetivo declarado de “integrar a Gronelândia” no território norte-americano, reiterando que os EUA precisam do território para a sua segurança nacional.
Na verdade, a 23 de dezembro, o inquilino da Casa Branca disse aos jornalistas que os EUA “precisam da Gronelândia para a segurança nacional, não para minerais ou petróleo, mas para a segurança nacional”. “E, se olharmos para a Gronelândia, há navios russos e chineses por todo o lado. Por isso, precisamos disto para nos protegermos”, justificou.
Os seus comentários e a sua atitude foram levados a sério pelos chefes de Estado e de governo da União Europeia (UE), que resolveram apresentar uma frente unida contra a ambição expansionista norte-americana, em relação ao território autónomo, que faz parte integrante do Reino da Dinamarca. Neste sentido, o presidente francês, Emmanuel Macron, e o seu ministro dos Negócios Estrangeiros e da Europa, Jean-Noël Barrot, reagiram ao anúncio com a reafirmação do seu apoio à integridade do território dinamarquês. “A Gronelândia pertence ao seu povo. A Dinamarca é o seu garante. Junto a minha voz à dos europeus, para expressar a nossa total solidariedade”, declarou Emmanuel Macron.
Além das vozes europeias que se insurgiram contra as ambições norte-americanas e contra as críticas à Dinamarca, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen insistiu em referir que “a integridade territorial e a soberania são princípios fundamentais do direito internacional”. Contudo, apesar do tom de Washington, a responsável pelo executivo da UE falou dos EUA como um aliado na segurança do Ártico.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, fez eco das observações de Ursula von der Leyen, ao escrever, no X, que “o respeito pela soberania e pela integridade territorial é fundamental para a UE e para todas as nações do Mundo”, sendo a segurança no Ártico “uma prioridade em que procuramos trabalhar com aliados e [com] parceiros”.
É certo que os EUA e a Dinamarca fazem parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), que deve assegurar a defesa mútua, em caso de agressão contra um dos seus membros. Este princípio nunca foi posto à prova por um conflito entre membros da aliança, se um deles se apoderasse do território de outro. Contudo, o que Donald Trump está a verificar – que os navios russos e chineses andam por todo o lado – é verdade, pelo que a questão não se resolve com a sonegação da soberania a um país, nem só por tomadas de posição declarativas, mas por negociação com vista a acordos bilaterais ou multilaterais de defesa e de proteção. 
Até agora, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, esteve silente sobre o assunto. Mesmo, durante uma conferência de imprensa com Donald Trump, na Sala Oval da Casa Branca, em março, optou por não comentar, após uma pergunta de um jornalista. “No que diz respeito à Gronelândia, se se junta ou não aos EUA, vou deixar isso de fora desta discussão, porque não quero arrastar a NATO para isso”, afirmou.

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Como era óbvio, depois de o presidente dos EUA ter nomeado o governador do Louisiana como enviado para colocar a Gronelândia sob o controlo dos EUA, o governo de Copenhaga insistiu, a 22 de dezembro, no respeito pela integridade territorial do seu país. A este respeito, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Lars Løkke Rasmussen, referiu, em comunicado, que o país espera que todas as nações, incluindo os EUA, respeitem a sua soberania territorial e que, embora a nomeação “confirme o contínuo interesse americano na Gronelândia”, a Dinamarca insiste em que todos “devem mostrar respeito pela integridade territorial do Reino da Dinamarca”.
E as emissoras dinamarquesas TV2 e DR informaram que Lars Rasmussen disse, mais tarde, que iria convocar o encarregado de negócios dos EUA em Copenhaga, Kenneth Howery, para uma reunião.
“Já o dissemos antes. Agora, voltamos a dizê-lo. As fronteiras nacionais e a soberania dos Estados estão enraizadas no direito internacional”, afirmaram a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, e o seu homólogo da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, em declaração conjunta, enviada por e-mail pelo gabinete de Frederiksen, vincando: “São princípios fundamentais. Não se pode anexar outro país. Nem mesmo com um argumento de segurança internacional.”
A declaração acentua que “a Gronelândia pertence aos gronelandeses” e que os EUA “não podem apoderar-se da Gronelândia”, pelo que espera respeito pela sua integridade territorial comum.
Jens-Frederik Nielsen, da Gronelândia, escreveu, anteriormente, no Facebook, que o território dinamarquês semiautónomo tinha “acordado, novamente, com um novo anúncio do presidente dos EUA, mas isso não muda nada para nós em casa”. “A Gronelândia pertence aos gronelandeses e a sua integridade territorial deve ser respeitada”, escreveu Nielsen, acrescentando que, embora o território acolha, favoravelmente, a cooperação com outras nações, esta deve ser feita no respeito pelos gronelandeses e pelos seus valores.
Donald Trump reclamou, repetidamente, a jurisdição dos EUA sobre a vasta ilha do Atlântico Norte, rica em minerais, na sua campanha eleitoral e nos primeiros meses do seu segundo mandato, não descartando o uso de força militar para assumir o controlo do território estrategicamente localizado. Em março, o vice-presidente JD Vance visitou uma base militar norte-americana remota na Gronelândia e acusou a Dinamarca de subinvestir no território. A 27 de agosto, as autoridades dinamarquesas convocaram o diplomata chefe da embaixada dos EUA na sequência de um relatório segundo o qual, pelo menos, três pessoas com ligações ao presidente dos EUA tinham levado a cabo operações secretas de influência na Gronelândia, para enfraquecer as relações de Copenhaga com esta grande ilha do Atlântico Norte. E, no início de dezembro, o Serviço de Informações de Defesa dinamarquês afirmou, num relatório anual, que os EUA estão a utilizar o seu poder económico, para “fazer valer a sua vontade”, e ameaçar com força militar tanto amigos como inimigos.
Agora, Jeff Landry compromete-se a tornar a Gronelândia parte dos EUA. Com efeito, escreveu, no X: “É uma honra servi-lo [Donald Trump] nesta posição voluntária para tornar a Gronelândia parte dos EUA.”

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A Gronelândia, onde vivem cerca de 57 mil pessoas, faz parte do Reino da Dinamarca, há mais de 600 anos, mas ganhou autonomia substancial em 1979. O país controla a maior parte dos assuntos internos, enquanto a Dinamarca se ocupa da defesa e da política externa. Porém, a ameaça do presidente dos EUA de se apoderar da Gronelândia continua a pairar sobre os residentes desta grande ilha ártica.
No início deste ano, Donald Trump desencadeou ondas de choque, em toda a Europa, quando se recusou, publicamente, a excluir a possibilidade de utilizar a força militar ou a coerção económica, para se apoderar do território semiautónomo dinamarquês. Desde então, a sua atenção voltou-se para outras questões, que vão desde as tarifas comerciais e as despesas da NATO até à guerra da Rússia na Ucrânia, mas a ameaça de tomada de posse de Trump continua a ser preocupação para a Dinamarca e para os habitantes da Gronelândia. “Neste momento, parece muito distante. Talvez haja a sensação de que podemos respirar de alívio, mas acredito que não podemos”, disse Frederiksen na abertura do Parlamento dinamarquês, vincando que os habitantes das pequenas povoações costeiras da Gronelândia têm de viver com a ideia inquietante de que “a superpotência mais forte do Mundo falou de nós como algo que se pode comprar, como algo que se pode possuir e isso cria uma insegurança que não desaparece”.
A Dinamarca, aliada dos EUA na NATO, tem reiterado que a Gronelândia não está à venda e aumentou recentemente a atividade militar e o investimento na defesa da ilha. “Aconteça o que acontecer, apoiamos a Gronelândia na determinação do seu próprio futuro. […] E não seremos ameaçados ou intimidados a fazer algo que é obviamente errado”, disse Frederiksen no seu discurso ao Parlamento.
As declarações de Frederiksen fazem eco dos comentários do ministro dos Negócios Estrangeiros dinamarquês, Lars Rasmussen, numa entrevista à Euronews, em julho, advertindo que a ameaça expansionista de Donald Trump sobre a Gronelândia ainda não está acabada, mesmo que a perspetiva de uma intervenção militar continue a ser muito improvável.
A 27 de agosto, como dissemos, Lars Rasmussen convocou o principal diplomata da embaixada dos EUA em Copenhaga para conversações, depois de a emissora nacional dinamarquesa ter noticiado que, pelo menos, três pessoas com ligações a Trump estiveram em operações secretas de influência na Gronelândia. Ora, desde a ameaça do presidente norte-americano, a Gronelândia tem reforçar as relações com a UE e com outros aliados. E a Comissão Europeia propôs a duplicação da sua ajuda financeira à Gronelândia, no âmbito do próximo orçamento comunitário. Assim, no quadro financeiro plurianual para 2028-2034, propõe mais de 530 milhões de euros de financiamento para Nuuk (a maior cidade e a capital da Gronelândia).

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A Gronelândia, território dinamarquês semiautónomo, tem sido alvo da pretensão territorial do presidente dos EUA, que reitera que os EUA precisam dela, para a sua segurança.
A Dinamarca, um aliado da NATO dos EUA, e a Gronelândia, afirmaram que a ilha não está à venda e condenaram os relatos de que os EUA estão a recolher informações no local. A emissora pública DR citou, na sua reportagem, fontes governamentais e de segurança, que não mencionou, bem como fontes não identificadas na Gronelândia e nos EUA. Ao todo, trata-se de informações de oito fontes, que acreditam que o objetivo é enfraquecer as relações com a Dinamarca, a partir da sociedade gronelandesa. Porém, a DR não soube esclarecer se os norte-americanos estavam a trabalhar por sua iniciativa, se por ordem de alguém.
“Estamos conscientes de que os atores estrangeiros continuam a mostrar interesse pela Gronelândia e pela sua posição no Reino da Dinamarca. […] Por conseguinte, não é de surpreender que, nos próximos tempos, haja tentativas externas de influenciar o futuro do Reino”, declarou o ministro dinamarquês dos Negócios Estrangeiros, Lars Løkke Rasmussen, em comunicado enviado por e-mail pelo seu gabinete, frisando que “qualquer tentativa de interferência nos assuntos internos do Reino será, obviamente, inaceitável”, pelo que suscitou a convocação do encarregado de negócios dos EUA para uma reunião (Washington não tem embaixador na Dinamarca. Mark Stroh é o encarregado de negócios), pois a cooperação entre os governos da Dinamarca e da Gronelândia “é estreita e baseada na confiança mútua”.
Em julho, quando a Dinamarca assumiu a presidência rotativa semestral do Conselho da UE, Lars Rasmussen advertiu que a ameaça expansionista de Trump sobre a Gronelândia “ainda não está terminada”.  “Não consideramos que uma anexação militar seja algo que possa acontecer. De modo algum. Dito isto, não é que consideremos este caso resolvido”, disse aos jornalistas.
Por enquanto, o discurso de Donald Trump não convenceu os cerca de 57 mil cidadãos da Gronelândia: a grande maioria opõe-se a fazer parte dos EUA, de acordo com as sondagens. Das últimas eleições emanou um governo de coligação de quatro partidos em defesa da autodeterminação. Entretanto, a Dinamarca lançou um novo plano no valor de 14,6 mil milhões de coroas (1,95 mil milhões de euros) para reforçar a presença militar nas regiões do Ártico e do Atlântico Norte.

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A Gronelândia, além de, alegadamente, ser necessária para a segurança dos EUA, é peça central na corrida à obtenção de minerais essenciais, que Donald Trump diz, agora, não ser o móbil da sua apetência pelo domínio da maior ilha do Mundo, mas é, como em outras paragens, tais como a Ucrânia e alguns países africanos. Por seu turno, os países europeus e os EUA estão a intensificar esforços para reduzirem a dependência da China, face a estes recursos, podendo o território autónomo da Dinamarca ter papel central a desempenhar. Com efeito, a Gronelândia alberga alguns dos maiores depósitos inexplorados de terras raras do Mundo – importantes ingredientes em veículos elétricos, em ímanes potentes, em aviões de combate avançados, em submarinos, em smartphones, em ecrãs de televisão e em muitos outros produtos.
O domínio da China sobre os minerais críticos nas cadeias de abastecimento globais tornou-se poderosa moeda de troca nas conversações comerciais entre Pequim e Washington, com o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, a anunciar que os dois países chegaram a acordo para facilitar o processo de envio de terras raras para os EUA. Assim, os depósitos da Gronelândia são alternativa para reduzir o domínio da China. E o diretor executivo da maior empresa mineira da Gronelândia, a Amaroq Minerals Ltd, Eldur Olafsson, afirma que a empresa angariou, recentemente, 52 milhões de euros de investidores europeus e norte-americanos e que está em conversações com agências apoiadas pelo Estado, na UE e nos EUA.
O primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, afirmou que as declarações dos EUA foram desrespeitosas e que a Gronelândia nunca será propriedade que possa ser comprada. Porém, o território autónomo da Dinamarca está atento aos investimentos da UE e dos EUA, na esperança de que sejam criadas mais minas, na próxima década. E, desde a conversa sobre a aquisição da Gronelândia e da sua vasta riqueza mineral, até ao pedido de minerais à Ucrânia em troca de ajuda para se defender da invasão russa, Trump fez das matérias-primas um pilar da sua política externa.
Gracelin Baskaran, diretor do programa de segurança de minerais críticos do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), anota a “crescente utilização dos minerais críticos, como arma”, pela China. Porém, o que as empresas analisam primeiro é a economia do projeto. E um dos óbices é 80% do território da Gronelândia estar sob gelo, pelo que o custo de escavação e de acesso aos recursos será mais caro do que noutros locais.
Os gronelandeses, embora ansiosos por desenvolver os recursos, adotaram regras apertadas de proteção ambiental. E há dúvidas sobre a viabilidade da extração das riquezas minerais da Gronelândia, devido ao seu clima rigoroso.

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Os EUA têm curta fronteira com o Ártico e veem russos e chineses a sulcá-lo (não andam a passear) cada vez mais com equipamentos que os EUA não têm, como os quebra-gelos. Porém, a solução é a cooperação negociada com a UE, o Canadá, a Islândia e a Noruega.

2025.12.24 – Louro de Carvalho

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