sábado, 24 de janeiro de 2026

Pela dignidade, pela voz e pela proteção dos trabalhadores no Vaticano

 

Um questionário lançado a trabalhadores, no Vaticano, sobre condições de trabalho revela que 75,9% acredita que os recursos humanos são usados de forma inadequada e que 73,9% percebe a existência de desconexão entre trabalhadores e gestores, que nem sempre são selecionados com transparência. Enfim, os funcionários dizem ter pouca confiança na administração, ver pouco reconhecimento pelo mérito e haver défice de representatividade. Surge, portanto, a necessidade de restaurar a dignidade, a voz e a proteção real dos trabalhadores.
Estamos a falar de um de inquérito realizado pela Associação de Leigos Funcionários do Vaticano (ADLV) com trabalhadores da Santa Sé, entre 15 de dezembro de 2025 e 7 de janeiro de 2026, com base numa amostra diversificada de trabalhadores de vários departamentos e entidades, tendo 250 pessoas respondido ao questionário, das quais 80% são membros da ADLV.
Especificamente, 75,9% dos participantes acredita que os recursos humanos não estão adequadamente posicionados, valorizados e motivados; 73,9% percebe uma desconexão entre a gestão e os trabalhadores, em comparação com a minoria de 12,8% que se declaram satisfeitos. Significativamente, 71,6% dos respondentes creem que os superiores não foram selecionados com base na transparência e num programa de desenvolvimento profissional; e 26% dos trabalhadores acreditam que é impossível comunicar, livre e honestamente, com os seus gestores.
De modo geral, os funcionários reclamam do desenvolvimento deficiente de recursos humanos, com 75,8% a acreditar que o ambiente de trabalho não recompensa iniciativa, mérito e experiência sénior, verificação que é paralela a outra muito preocupante: mais de 56% dos colegas relatam ter sofrido injustiça e assédio por parte dos supervisores, fator que deve ser seriamente investigado e abordado, embora o assédio moral não seja considerado crime no Vaticano.
Em resumo, os funcionários do Vaticano gostariam de ser mais valorizados pelas suas habilidades e, de facto, 73,4% percebe favoritismo, tratamento desigual, falta de atenção aos funcionários e incerteza, quanto à proteção dos seus direitos, incluindo os direitos previdenciários.
A ADLV  fica alarmada quando 73% reclama de bloqueio na progressão de carreira, em relação aos níveis funcionais, frequentemente mencionando a operação imposta de cima e percebida como injusta de suspensão do período de dois anos, pela qual ainda aguardam indemnização. O reajuste salarial bienal que, antes, era adicionado ao salário-base e considerado para pensões e para benefícios de fim de serviço é um benefício que foi cortado pelo Papa Francisco, em 2021, como medida de contenção de custos, face aos défices orçamentais da Santa Sé.
Os funcionários do Vaticano esperam nova fase de reavaliação das questões críticas destacadas no questionário e, em termos gerais, das relações com as autoridades governamentais. Efetivamente, 68% dos entrevistados acreditam que as reformas da última década não trouxeram benefícios concretos aos funcionários, ao invés, levaram a maiores fechamentos e restrições, e mais de 79% acredita que o investimento em treinamento de pessoal é insuficiente.
O questionário destaca a forte necessidade de órgãos de representação dos trabalhadores oficialmente reconhecidos e mais eficazes, depositando grande confiança na ADLV. Não surpreendentemente, mais de 71% dos trabalhadores afirmaram que, em caso de conflito, recorreriam, primeiro, à ADLV, e 10% ao Escritório do Trabalho da Sé Apostólica (ULSA). Além disso, aproximadamente 75% acredita que o diálogo com a ADLV e com os chefes de departamento é a forma mais eficaz de resolver problemas dos trabalhadores. O FAS (Fundo Italiano de Saúde, é visto de forma positiva, apesar de críticas ocasionais, e é classificado como de alta qualidade por 48,1% dos respondentes, sobretudo, pelos aposentados.
Uma secção do questionário foi dedicada a possíveis sugestões a submeter ao Papa, caso surgisse a oportunidade. A maioria dos respondentes expressou a necessidade de restaurar a dignidade, a voz e a proteção dos trabalhadores por meio de representação, de transparência, de diálogo e de respeito pelos indivíduos e pelos seus direitos. A maioria manifestou o desejo de diálogo contínuo, e as expressões mais frequentes foram: “não ser apenas números”, “proteger com dignidade” e “amar os funcionários como ao próximo”. Aqui, parece emergir uma necessidade ética, mais do que contratual, essencial para combater a desilusão e a desconfiança que parecem surgir de todas as respostas. Mas, de maneira mais geral, muitos destacaram a necessidade de rever os salários, de ampliar as proteções familiares e de oferecer bónus de desempenho justos.
O diálogo é visto como ferramenta para a prevenção de conflitos e para melhor gestão de questões críticas. Em suma, com base nos dados obtidos, a ADLV sente-se moralmente amparada em solicitar a ampliação de suas funções e poderes, a fim de prestar um serviço útil tanto aos gestores como aos funcionários. Os objetivos devem ser os mesmos, pelo que é preciso trabalhar em conjunto, caminhando na mesma direção.

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A Associação dos Leigos Funcionários do Vaticano (ADLV) foi fundada há cerca de 40 anos. A Santa Sé reconheceu-a, formalmente, como órgão representativo dos funcionários, em outubro de 1993, por carta do arcebispo Schotte. “Este ato”, comentou o então presidente, Valerio Arringoli, “permite-nos representar e proteger os direitos dos trabalhadores do Vaticano, mesmo junto das organizações que, até então, se mostravam relutantes em dialogar connosco.”
O diálogo realizado com a ADLV levou, em outubro de 1993, à aprovação do Estatuto da Associação, adaptando-o à natureza específica da Sé Apostólica. Estão em curso discussões para garantir que a ADLV, através do diálogo com a ULSA, possa desempenhar um papel valioso na colaboração para a criação da comunidade de trabalho.
O Cardeal Secretário de Estado, por meio da Folha n.º 323.894/A, de 6 de outubro de 1993, comunicou a aprovação do Estatuto da Associação dos Leigos Funcionários do Vaticano (ADLV).
A ADLV foi elaborou novo Estatuto em dezembro de 2025, que mereceu aprovação papal.
A Santa Sé emprega aproximadamente 4200 trabalhadores, mas a maioria não é afiliada da ADLV. Das 250 pessoas que responderam ao questionário, 80% são membros desta associação, que descreve a amostra do estudo como “limitada, mas significativa”. 

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Em entrevista a Salvatore Cernuzio, no portal de notícias do Vaticano “Vatican News”, monsenhor Marco Sprizzi, presidente da ULSA, comenta o inquérito da ADLV, que denuncia descontentamento e comportamentos inadequados: “Não me parece que o descontentamento seja generalizado. As portas do Escritório estão sempre abertas; a Santa Sé não pode tolerar situações de iniquidade ou injustiça.” Assédio moral: “Não tenho conhecimento de casos.”
Diálogo, escuta, colaboração, em vez de conflito, competição e reivindicação, são as linhas de ação da ULSA, com os funcionários do Vaticano e com os outros Órgãos e Dicastérios da Santa Sé – um  departamento com “portas sempre abertas”, como afirma o seu presidente, que esclarece os dados do recente inquérito da ADLV, em que cerca de 250 dos mais de seis mil funcionários – incluindo os aposentados – denunciam situações de mal-estar, injustiças e desconfiança na comunidade de trabalho do Vaticano.
A aprovação, em dezembro, do novo Estatuto da ULSA é sinal da grande atenção do Santo Padre pela aplicação da Doutrina Social da Igreja (DSI) na Santa Sé e em relação a todos os funcionários da Cúria Romana, das entidades ligadas a ela, do Governatorato Vaticano e do Vicariato de Roma. As mudanças introduzidas são importantes, sendo de salientar o reforço da representatividade e da missão da ULSA como missão de unidade e promoção, segundo a visão de São João Paulo II e dos Pontífices que se lhe seguiram. Unidade significa remar todos na mesma direção, sentirem-se corresponsáveis e participantes da missão da Santa Sé, o que não significa diminuir a proteção dos trabalhadores, mas promovê-la e persegui-la em espírito de diálogo e de confiança mútua.
Sobre o inquérito em referência, sustenta que, tecnicamente, se baseia numa amostra muito pequena, pois envolve menos de 5% dos funcionários. Porém, são levadas a sério todas as opiniões, mesmo que seja a opinião de um único funcionário que reclame de situação de pouca atenção, de pouco diálogo, de pouco respeito pelas normas. As portas da ULSA estão sempre abertas, porque “somos, como disse João Paulo II, uma estrutura de diálogo e, portanto, à escuta de todos”, trabalhando “para que não haja situações em que os direitos dos funcionários sejam, de alguma forma, desrespeitados ou violados e, ao mesmo tempo, nos empenhamos muito na formação, para promover a consciência da participação na única missão e na melhoria das competências”. Assim, o inquérito é encarado com seriedade e com respeito.
O presidente da ULSA releva “os diálogos construtivos e frequentes” com a ADLV, como a própria reconhece, levando a sério “todas as denúncias”, sendo tarefa do Escritório “aprofundá-las e analisá-las”, à luz do direito e da DSI, e inseri-las no diálogo com as administrações envolvidas, também através da criação de mesas técnicas e comissões ad hoc, de modo a verificar possíveis soluções no interesse de todos: dos funcionários, mas também da Santa Sé, que não pode aceitar situações de iniquidade ou de injustiça. Por isso, acolhe os resultados e quer verificá-los em casos concretos e na melhoria das normas. “Levamos a sério tal missão que interpela a consciência de cristãos e de sacerdotes. A ADLV sabe disso muito bem”, acentuou.
Quanto aos 71% de trabalhadores que veem a ADLV como interlocutora, em problemas no trabalho, em comparação com 10% que se dirigiriam à ULSA, aduz que esta recebe, diariamente, dezenas de casos, de funcionários e de administrações. Lê, na declaração da Associação, que cerca de 80% dos que responderam à pesquisa são membros da ADLV, enquanto apenas 71% deles recorrem à própria ADLV. Portanto, nem todos os membros recorrem, em primeiro lugar, à sua associação. Todavia, não há lugar à competição. A ADLV desempenha um papel importante e construtivo, que merece incentivo, promoção e agradecimento. E a ULSA continuará a acolher e a apoiar todas as necessidades, instâncias e solicitações, à luz das normas e da DSI, se consideradas adequadas e correspondentes às necessidades de justiça. Deste modo, na ótica do presidente da ULSA, os chefes do Dicastério, os responsáveis do Governatorato e todos aqueles a quem apresentamos estas instâncias “são sensíveis e abertos ao diálogo”. Realizam-se mesas técnicas nas quais se reúnem os dirigentes do Dicastério interessado com os representantes da ADLV, na sede da ULSA e com a sua mediação. Continuar-se-á nesta via do “diálogo e da busca comum de soluções possíveis e justas”.
O caminho da oposição e do conflito está excluído da visão dos Papas e da abordagem missionária da Santa Sé. Por isso, no dizer de Marco Sprizzi, “quem trabalha na Santa Sé abraça uma missão: não há espaço para conflitos”, mas é como “uma orquestra em que cada instrumento deve tocar de acordo com suas especificidades”. Nestes termos, “a voz dos funcionários pode e deve contribuir para a composição de uma música, uma harmonia, na qual as suas solicitações encontram escuta respeitosa e resposta”. E, embora, às vezes, de modos diferentes, vê-se, da parte de todos, “a atenção para dar respostas”. Porém, quem controla as contas e verifica necessidades de sustentabilidade económica, às vezes, dá respostas que retardam a via das soluções. Faz parte do jogo que quem supervisiona as contas imponha limites. Contudo, isso não deve bloquear, mas estimular a encontrar soluções criativas, incluindo a obtenção de fundos.
Sendo assim, o descontentamento mencionado no inquérito, na perspetiva do presidente da ULSA, com base na experiência de vários encontros com os funcionários, não é generalizado Antes, acredita que o sentimento mais difundido seja bastante positivo. Não esquece que, enquanto em todo o Mundo e na Itália, no setor público e no privado, muitos perderam o emprego, com a eclosão a pandemia da covid-19, na Santa Sé, mesmo raspando o fundo do poço, ninguém foi demitido, nem teve o seu salário reduzido. Os funcionários sabem-no e sentem gratidão, acima de tudo, ao Papa Francisco, que se empenhou para que a pandemia, que reduziu fortemente os recursos económicos da Santa Sé, não recaísse sobre eles. E há muitas outras pequenas coisas do dia a dia: a creche, a colónia de férias, a reabertura da Annona (supermercado interno exclusivo), os rescritos de Leão XIV sobre a verdadeira acessibilidade das pessoas com deficiência na comunidade de trabalho, a atenção às pensões (apesar de os recursos não serem abundantes), o reforço do sistema de saúde praticamente gratuito. Em suma, muitas coisas pelas quais muitos querem trabalhar no Vaticano, porque percebem que o tratamento é bom. Não crê, pois, que o descontentamento seja geral, mas reconhece que há coisas a atender e a melhorar, por exemplo, a adequação de níveis salariais às funções desempenhadas. Em alguns casos, mesmo em situações anteriores ou devido ao bloqueio de recursos ou para que ninguém perdesse o emprego, não surgiram as necessárias adaptações. Está a trabalhar-se para fazer justiça a quem tem direito.
Pessoalmente, não tem conhecimento de nenhum caso de assédio moral. Há formas de proteção previstas pela lei para denunciar e para recorrer contra medidas que violem os direitos. Se houver casos de assédio moral ou de abuso, devem ser denunciados, porque as exigências da justiça moral no mundo do trabalho são prioritárias, desde a Rerum Novarum, de Leão XIII. No entanto, uma coisa são os rumores e outra é a verificação da verdade. Se houver casos de abusos, mesmo que inferiores ao assédio moral propriamente dito, o primeiro a intervir será o Santo Padre, porque isso não pode e não deve acontecer.
O próprio inquérito destaca sinais positivos, como a abertura de um caminho compartilhado de diálogo. De facto, todos são, na Santa Sé, estimulados pelos Papas a promover o espírito de comunidade, de unidade, o espírito que de “sinodalidade” em toda a Igreja e, em particular, na Sé Apostólica. Todos se comprometem, na medida do possível, a aumentar, cada vez mais o diálogo, com os funcionários, individuais e associados, e com todas as entidades que empregam recursos, e a servir de ponte para que o diálogo entre trabalhadores e administrações seja, cada vez mais, construtivo, sereno, orientado à luz do Evangelho e do Magistério social da Igreja, em espírito de comunhão eclesial e no respeito pelos direitos dos trabalhadores.

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Não desminto a intenção principal da justiça e do diálogo laboral na Santa Sé. Porém, esta não está imune ao erro, ao défice humano e quiçá à injustiça. Em todo o pano cai a nódoa. Quem lida com eclesiásticos sabe que não é difícil ver comportamentos humilhantes e atitudes de submissão (para não levantar ondas). Recordo que D. António Francisco dos Santos disse que a Igreja deve reconhecer que nem sempre tem capacidade para implementar a justiça social que apregoa. Em todo o caso, é de saudar a postura relativamente equilibrada do presidente da ULSA e acredito no esforço de otimização do contexto. Efetivamente, a Igreja carece de eminentíssima reforma, como dizia São Frei Bartolomeu dos Mártires, incluindo na relação laboral, digo eu.

2026.01.24 – Louro de Carvalho

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