Um
questionário lançado a trabalhadores, no Vaticano, sobre condições de trabalho revela
que 75,9% acredita que os recursos humanos são usados de forma inadequada e que
73,9% percebe a existência de desconexão entre trabalhadores e gestores, que
nem sempre são selecionados com transparência. Enfim, os funcionários dizem ter
pouca confiança na administração, ver pouco reconhecimento pelo mérito e haver
défice de representatividade. Surge, portanto, a necessidade de restaurar a dignidade,
a voz e a proteção real dos trabalhadores.
Estamos
a falar de um de inquérito realizado pela Associação de Leigos Funcionários do
Vaticano (ADLV) com trabalhadores da Santa Sé, entre 15 de dezembro de 2025 e 7
de janeiro de 2026, com base numa amostra diversificada de trabalhadores de
vários departamentos e entidades, tendo 250 pessoas respondido ao questionário,
das quais 80% são membros da ADLV.
Especificamente,
75,9% dos participantes acredita que os recursos humanos não estão
adequadamente posicionados, valorizados e motivados; 73,9% percebe uma
desconexão entre a gestão e os trabalhadores, em comparação com a minoria de
12,8% que se declaram satisfeitos. Significativamente, 71,6% dos respondentes
creem que os superiores não foram selecionados com base na transparência e num
programa de desenvolvimento profissional; e 26% dos trabalhadores acreditam que
é impossível comunicar, livre e honestamente, com os seus gestores.
De
modo geral, os funcionários reclamam do desenvolvimento deficiente de recursos
humanos, com 75,8% a acreditar que o ambiente de trabalho não recompensa
iniciativa, mérito e experiência sénior, verificação que é paralela a outra muito
preocupante: mais de 56% dos colegas relatam ter sofrido injustiça e assédio
por parte dos supervisores, fator que deve ser seriamente investigado e
abordado, embora o assédio moral não seja considerado crime no Vaticano.
Em
resumo, os funcionários do Vaticano gostariam de ser mais valorizados pelas
suas habilidades e, de facto, 73,4% percebe favoritismo, tratamento desigual,
falta de atenção aos funcionários e incerteza, quanto à proteção dos seus
direitos, incluindo os direitos previdenciários.
A
ADLV fica alarmada quando 73% reclama de
bloqueio na progressão de carreira, em relação aos níveis funcionais,
frequentemente mencionando a operação imposta de cima e percebida como injusta
de suspensão do período de dois anos, pela qual ainda aguardam indemnização. O reajuste
salarial bienal que, antes, era adicionado ao salário-base e considerado para
pensões e para benefícios de fim de serviço é um benefício que foi cortado pelo
Papa Francisco, em 2021, como medida de contenção de custos, face aos défices
orçamentais da Santa Sé.
Os
funcionários do Vaticano esperam nova fase de reavaliação das questões críticas
destacadas no questionário e, em termos gerais, das relações com as autoridades
governamentais. Efetivamente, 68% dos entrevistados acreditam que as reformas
da última década não trouxeram benefícios concretos aos funcionários, ao invés,
levaram a maiores fechamentos e restrições, e mais de 79% acredita que o
investimento em treinamento de pessoal é insuficiente.
O
questionário destaca a forte necessidade de órgãos de representação dos
trabalhadores oficialmente reconhecidos e mais eficazes, depositando grande
confiança na ADLV. Não surpreendentemente, mais de 71% dos trabalhadores
afirmaram que, em caso de conflito, recorreriam, primeiro, à ADLV, e 10% ao Escritório
do Trabalho da Sé Apostólica (ULSA). Além disso, aproximadamente 75% acredita
que o diálogo com a ADLV e com os chefes de departamento é a forma mais eficaz
de resolver problemas dos trabalhadores. O FAS (Fundo Italiano de Saúde, é visto
de forma positiva, apesar de críticas ocasionais, e é classificado como de alta
qualidade por 48,1% dos respondentes, sobretudo, pelos aposentados.
Uma
secção do questionário foi dedicada a possíveis sugestões a submeter ao Papa,
caso surgisse a oportunidade. A maioria dos respondentes expressou a
necessidade de restaurar a dignidade, a voz e a proteção dos trabalhadores por
meio de representação, de transparência, de diálogo e de respeito pelos
indivíduos e pelos seus direitos. A maioria manifestou o desejo de diálogo
contínuo, e as expressões mais frequentes foram: “não ser apenas números”, “proteger
com dignidade” e “amar os funcionários como ao próximo”. Aqui, parece emergir
uma necessidade ética, mais do que contratual, essencial para combater a
desilusão e a desconfiança que parecem surgir de todas as respostas. Mas, de
maneira mais geral, muitos destacaram a necessidade de rever os salários, de ampliar
as proteções familiares e de oferecer bónus de desempenho justos.
O
diálogo é visto como ferramenta para a prevenção de conflitos e para melhor
gestão de questões críticas. Em suma, com base nos dados obtidos, a ADLV
sente-se moralmente amparada em solicitar a ampliação de suas funções e
poderes, a fim de prestar um serviço útil tanto aos gestores como aos
funcionários. Os objetivos devem ser os mesmos, pelo que é preciso trabalhar em
conjunto, caminhando na mesma direção.
***
A Associação dos
Leigos Funcionários do Vaticano (ADLV) foi fundada há cerca de 40 anos. A Santa
Sé reconheceu-a, formalmente, como órgão representativo dos funcionários, em outubro
de 1993, por carta do arcebispo Schotte. “Este ato”, comentou o então
presidente, Valerio Arringoli, “permite-nos representar e proteger os direitos
dos trabalhadores do Vaticano, mesmo junto das organizações que, até então, se
mostravam relutantes em dialogar connosco.”
O
diálogo realizado com a ADLV levou, em outubro de 1993, à aprovação do Estatuto
da Associação, adaptando-o à natureza específica da Sé Apostólica. Estão em
curso discussões para garantir que a ADLV, através do diálogo com a ULSA, possa
desempenhar um papel valioso na colaboração para a criação da comunidade de
trabalho.
O
Cardeal Secretário de Estado, por meio da Folha n.º 323.894/A, de 6 de outubro
de 1993, comunicou a aprovação do Estatuto da Associação dos Leigos
Funcionários do Vaticano (ADLV).
A
ADLV foi elaborou novo Estatuto em dezembro de 2025, que mereceu aprovação papal.
A
Santa Sé emprega aproximadamente 4200 trabalhadores, mas a maioria não é
afiliada da ADLV. Das 250 pessoas que responderam ao questionário, 80% são
membros desta associação, que descreve a amostra do estudo como “limitada, mas
significativa”.
***
Em
entrevista a Salvatore Cernuzio, no portal de notícias do Vaticano “Vatican
News”, monsenhor Marco Sprizzi, presidente da ULSA, comenta o inquérito da ADLV,
que denuncia descontentamento e comportamentos inadequados: “Não me parece que
o descontentamento seja generalizado. As portas do Escritório estão sempre
abertas; a Santa Sé não pode tolerar situações de iniquidade ou injustiça.”
Assédio moral: “Não tenho conhecimento de casos.”
Diálogo,
escuta, colaboração, em vez de conflito, competição e reivindicação, são as
linhas de ação da ULSA, com os funcionários do Vaticano e com os outros Órgãos
e Dicastérios da Santa Sé – um departamento com “portas sempre abertas”, como
afirma o seu presidente, que esclarece os dados do recente inquérito da ADLV, em
que cerca de 250 dos mais de seis mil funcionários – incluindo os aposentados –
denunciam situações de mal-estar, injustiças e desconfiança na comunidade de
trabalho do Vaticano.
A
aprovação, em dezembro, do novo Estatuto da ULSA é sinal da grande atenção do
Santo Padre pela aplicação da Doutrina Social da Igreja (DSI) na Santa Sé e em
relação a todos os funcionários da Cúria Romana, das entidades ligadas a ela,
do Governatorato Vaticano e do Vicariato de Roma. As mudanças introduzidas são
importantes, sendo de salientar o reforço da representatividade e da missão da
ULSA como missão de unidade e promoção, segundo a visão de São João Paulo II e
dos Pontífices que se lhe seguiram. Unidade significa remar todos na mesma
direção, sentirem-se corresponsáveis e participantes da missão da Santa Sé, o
que não significa diminuir a proteção dos trabalhadores, mas promovê-la e
persegui-la em espírito de diálogo e de confiança mútua.
Sobre
o inquérito em referência, sustenta que, tecnicamente, se baseia numa amostra
muito pequena, pois envolve menos de 5% dos funcionários. Porém, são levadas a
sério todas as opiniões, mesmo que seja a opinião de um único funcionário que
reclame de situação de pouca atenção, de pouco diálogo, de pouco respeito pelas
normas. As portas da ULSA estão sempre abertas, porque “somos, como disse João
Paulo II, uma estrutura de diálogo e, portanto, à escuta de todos”, trabalhando
“para que não haja situações em que os direitos dos funcionários sejam, de
alguma forma, desrespeitados ou violados e, ao mesmo tempo, nos empenhamos
muito na formação, para promover a consciência da participação na única missão
e na melhoria das competências”. Assim, o inquérito é encarado com seriedade e com
respeito.
O
presidente da ULSA releva “os diálogos construtivos e frequentes” com a ADLV,
como a própria reconhece, levando a sério “todas as denúncias”, sendo tarefa do
Escritório “aprofundá-las e analisá-las”, à luz do direito e da DSI, e
inseri-las no diálogo com as administrações envolvidas, também através da
criação de mesas técnicas e comissões ad hoc, de modo a verificar
possíveis soluções no interesse de todos: dos funcionários, mas também da Santa
Sé, que não pode aceitar situações de iniquidade ou de injustiça. Por
isso, acolhe os resultados e quer verificá-los em casos concretos e na melhoria
das normas. “Levamos a sério tal missão que interpela a consciência de cristãos
e de sacerdotes. A ADLV sabe disso muito bem”, acentuou.
Quanto
aos 71% de trabalhadores que veem a ADLV como interlocutora, em problemas no
trabalho, em comparação com 10% que se dirigiriam à ULSA, aduz que esta recebe,
diariamente, dezenas de casos, de funcionários e de administrações. Lê, na
declaração da Associação, que cerca de 80% dos que responderam à pesquisa são
membros da ADLV, enquanto apenas 71% deles recorrem à própria ADLV. Portanto, nem
todos os membros recorrem, em primeiro lugar, à sua associação. Todavia, não há
lugar à competição. A ADLV desempenha um papel importante e construtivo,
que merece incentivo, promoção e agradecimento. E a ULSA continuará a acolher e
a apoiar todas as necessidades, instâncias e solicitações, à luz das normas e
da DSI, se consideradas adequadas e correspondentes às necessidades de justiça.
Deste modo, na ótica do presidente da ULSA, os chefes do Dicastério, os
responsáveis do Governatorato e todos aqueles a quem apresentamos estas
instâncias “são sensíveis e abertos ao diálogo”. Realizam-se mesas técnicas nas
quais se reúnem os dirigentes do Dicastério interessado com os representantes
da ADLV, na sede da ULSA e com a sua mediação. Continuar-se-á nesta via do “diálogo
e da busca comum de soluções possíveis e justas”.
O
caminho da oposição e do conflito está excluído da visão dos Papas e da
abordagem missionária da Santa Sé. Por isso, no dizer de Marco Sprizzi, “quem
trabalha na Santa Sé abraça uma missão: não há espaço para conflitos”, mas é
como “uma orquestra em que cada instrumento deve tocar de acordo com suas
especificidades”. Nestes termos, “a voz dos funcionários pode e deve contribuir
para a composição de uma música, uma harmonia, na qual as suas solicitações
encontram escuta respeitosa e resposta”. E, embora, às vezes, de modos
diferentes, vê-se, da parte de todos, “a atenção para dar respostas”. Porém,
quem controla as contas e verifica necessidades de sustentabilidade económica,
às vezes, dá respostas que retardam a via das soluções. Faz parte do jogo que
quem supervisiona as contas imponha limites. Contudo, isso não deve bloquear,
mas estimular a encontrar soluções criativas, incluindo a obtenção de fundos.
Sendo
assim, o descontentamento mencionado no inquérito, na perspetiva do presidente da
ULSA, com base na experiência de vários encontros com os funcionários, não é
generalizado Antes, acredita que o sentimento mais difundido seja bastante
positivo. Não esquece que, enquanto em todo o Mundo e na Itália, no setor
público e no privado, muitos perderam o emprego, com a eclosão a pandemia da covid-19,
na Santa Sé, mesmo raspando o fundo do poço, ninguém foi demitido, nem teve o seu
salário reduzido. Os funcionários sabem-no e sentem gratidão, acima de tudo, ao
Papa Francisco, que se empenhou para que a pandemia, que reduziu fortemente os
recursos económicos da Santa Sé, não recaísse sobre eles. E há muitas outras
pequenas coisas do dia a dia: a creche, a colónia de férias, a reabertura
da Annona (supermercado interno exclusivo), os rescritos de Leão
XIV sobre a verdadeira acessibilidade das pessoas com deficiência na comunidade
de trabalho, a atenção às pensões (apesar de os recursos não serem abundantes),
o reforço do sistema de saúde praticamente gratuito. Em suma, muitas coisas
pelas quais muitos querem trabalhar no Vaticano, porque percebem que o
tratamento é bom. Não crê, pois, que o descontentamento seja geral, mas
reconhece que há coisas a atender e a melhorar, por exemplo, a adequação de
níveis salariais às funções desempenhadas. Em alguns casos, mesmo em
situações anteriores ou devido ao bloqueio de recursos ou para que ninguém
perdesse o emprego, não surgiram as necessárias adaptações. Está a trabalhar-se
para fazer justiça a quem tem direito.
Pessoalmente,
não tem conhecimento de nenhum caso de assédio moral. Há formas de proteção
previstas pela lei para denunciar e para recorrer contra medidas que violem os
direitos. Se houver casos de assédio moral ou de abuso, devem ser denunciados,
porque as exigências da justiça moral no mundo do trabalho são prioritárias,
desde a Rerum Novarum, de Leão XIII. No entanto, uma coisa são os
rumores e outra é a verificação da verdade. Se houver casos de abusos, mesmo
que inferiores ao assédio moral propriamente dito, o primeiro a intervir será o
Santo Padre, porque isso não pode e não deve acontecer.
O
próprio inquérito destaca sinais positivos, como a abertura de um caminho
compartilhado de diálogo. De facto, todos são, na Santa Sé, estimulados pelos
Papas a promover o espírito de comunidade, de unidade, o espírito que de
“sinodalidade” em toda a Igreja e, em particular, na Sé Apostólica. Todos se comprometem,
na medida do possível, a aumentar, cada vez mais o diálogo, com os
funcionários, individuais e associados, e com todas as entidades que empregam
recursos, e a servir de ponte para que o diálogo entre trabalhadores e
administrações seja, cada vez mais, construtivo, sereno, orientado à luz do
Evangelho e do Magistério social da Igreja, em espírito de comunhão eclesial e
no respeito pelos direitos dos trabalhadores.
***
Não
desminto a intenção principal da justiça e do diálogo laboral na Santa Sé. Porém,
esta não está imune ao erro, ao défice humano e quiçá à injustiça. Em todo o
pano cai a nódoa. Quem lida com eclesiásticos sabe que não é difícil ver
comportamentos humilhantes e atitudes de submissão (para não levantar ondas).
Recordo que D. António Francisco dos Santos disse que a Igreja deve reconhecer que
nem sempre tem capacidade para implementar a justiça social que apregoa. Em
todo o caso, é de saudar a postura relativamente equilibrada do presidente da
ULSA e acredito no esforço de otimização do contexto. Efetivamente, a Igreja
carece de eminentíssima reforma, como dizia São Frei Bartolomeu dos Mártires,
incluindo na relação laboral, digo eu.
2026.01.24 – Louro de Carvalho
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