É
quase consensual que é preciso diversificar as fontes da energia, por forma a
reduzir a utilização da energia de origem fóssil, para obviar às alterações
climáticas, embora os Estados Unidos da América (EUA), sob a batuta de Donald
Trump, continuem a apostar na exploração dos poços petrolíferos e de gás, em
todo o continente americano, e considerem as energias renováveis como uma
ideologia de esquerda.
No entanto, importa aumentar a produção de eletricidade de tornar o seu consumo mais barato, não podendo o presidente dos EUA continuar a ter razão, ao acusar países da Europa de terem diminuído a produção de eletricidade e deixado aumentar o seu para o utilizador.
No entanto, importa aumentar a produção de eletricidade de tornar o seu consumo mais barato, não podendo o presidente dos EUA continuar a ter razão, ao acusar países da Europa de terem diminuído a produção de eletricidade e deixado aumentar o seu para o utilizador.
Na
União Europeia (UE), a utilização total de fontes renováveis de energia atingiu
quase 50%, sob o impulso da energia hidroelétrica e, cada vez mais, da energia
solar.
De
acordo com o Eurostat, a Áustria, impulsionada pelas suas 16 centrais
hidroelétricas, lidera a utilização de eletricidade renovável, na UE, com a
maior percentagem de energia proveniente de fontes verdes, ou seja, quase 90%.
Logo
a seguir, vêm a Suécia, com 88%, alimentada principalmente pelo vento e pela
água, e a Dinamarca (outro país nórdico), com 80%, mercê da sua extensa rede de
parques eólicos em terra e no mar. Também se registaram taxas
significativamente superiores a 50%, em Portugal (66%), na Espanha (60%) e na Croácia
(58%), enquanto a Itália e a França ficaram na metade inferior, respetivamente,
em 18.º e 21.º lugar, na UE.
As
proporções mais baixas de utilização de eletricidade verde registaram-se em
Malta (11%), na Chéquia (18%), no Luxemburgo (20,5%), na Hungria e em Chipre
(24%).
Estes
valores percentuais abrangem toda a eletricidade proveniente de fontes
renováveis, incluindo a importada do estrangeiro.
A
utilização de eletricidade verde, na UE, aumentou nas últimas duas décadas. Em
2004, representava apenas 16% do consumo total de eletricidade. Cerca de 10
anos mais tarde, o valor subiu para quase 29% e, atualmente, situa-se nos
47,5%.
A
energia eólica representa a maior parte das fontes renováveis utilizadas para
produzir eletricidade, com 38% do total, seguida da energia hídrica, com 26%. Porém,
a que regista mais rápido crescimento é a energia solar, que passou de apenas
1%, em 2008, para mais de 23% em 2024, com 304 TWh (Terawatts-hora).
Segundo
Ben McWilliams, especialista em energia da Bruegel, é quase certo que a energia
solar ultrapassará a energia hidroelétrica, nos próximos anos. “Os promotores
continuam a construir centrais solares a um ritmo recorde, enquanto a
implantação de centrais hidroelétricas não aumenta”, afirmou, ao Europe in
Motion, acrescentando que quanto mais energia solar a Europa conseguir
instalar, melhor [é] para a segurança energética, pois, na sua perspetiva, “cada
novo painel solar reduz a dependência do petróleo, do gás e do carvão, e estas
dependências são as verdadeiras ameaças à segurança energética europeia”.
Apesar
de a grande maioria dos painéis solares instalados na UE ser fabricada na
China, McWilliams exclui a ideia de que isso tornará a Europa mais frágil, num
contexto de tensões geopolíticas, porque, em seu entender, “os painéis solares
são um stock e não um fluxo”, pelo que, desde que “a UE tenha instalado
um painel da China, ele fica para sempre” e, se, por qualquer motivo, “as
importações de painéis solares da China parassem, isso apenas abrandaria a
construção de novos painéis solares e a oferta cresceria noutros locais
(incluindo a nível nacional) durante um período de dois ou três anos”.
De
acordo com a Solar Power Europe, existem, atualmente, 166 empresas ativas, na
UE, na cadeia fotovoltaica, ou energia luminosa. A grande maioria está na
Alemanha, embora a maior capacidade de energia solar per capita seja
produzida nos Países Baixos, com cerca de 1044 W (Watts), por ano.
***
Fatih
Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), num painel
da Euronews no Fórum Económico Mundial (FEM ou WEF), em Davos, traçando
a visão de um continente assente em energia limpa e não em combustíveis
fósseis, considerou que a Europa tem de eletrificar “tudo”, desde as
infraestruturas aos transportes, edifícios e indústria, nos próximos anos, para
garantir a segurança energética europeia e para cumprir metas climáticas.
O líder da AIE sugeriu uma estratégia assente em dois eixos. O primeiro é investir, massivamente, em infraestruturas de rede e o segundo é baixar os preços da energia.
O líder da AIE sugeriu uma estratégia assente em dois eixos. O primeiro é investir, massivamente, em infraestruturas de rede e o segundo é baixar os preços da energia.
“Uma
é redes, redes, redes”, disse Fatih Birol, vincando a importância de renovar as
redes elétricas na Europa, para o que é necessário ultrapassar a existência de
importantes estrangulamentos, como a dificuldade de obtenção de licenças, o que
compromete o desenvolvimento das vastas redes interligadas que levam
eletricidade a casas, a empresas e a fábricas. Para Birol, este é “o principal
obstáculo à eletrificação da economia europeia”.
A
este respeito, contou que, em 2025, na Europa, foi instalado um recorde de 80
gigawatts de capacidade renovável e estavam prontos mais de 400 gigawatts de
capacidade renovável, mas não se conseguiram ligar à rede – o que, “do ponto de
vista económico, não faz qualquer sentido”.
Fatih
Birol comparou este impulso para a energia verde desenvolver a infraestrutura
necessária para construir um carro sofisticado e eficiente, esquecendo a
construção de estradas.
É
de recordar que falhas na rede europeia estiveram na origem do apagão
ibérico de 2025 que deixou 60 milhões de
pessoas sem eletricidade em abril.
O envelhecimento
da rede europeia foi destacado num estudo do think tank de
energia Ember, recém-publicado, que concluiu que a UE não tem dificuldade em
gerar energia limpa. Pela primeira vez, em 2025, o vento e o solar produziram
mais eletricidade na UE do que os combustíveis fósseis, mas a rede
desatualizada dificulta o escoamento dessa energia. Face a estes problemas, a
Comissão Europeia apresentou, no final de 2025, um “Pacote das Redes”, para
renovar a rede elétrica obsoleta do bloco e aumentar a transmissão de
eletricidade em toda a UE27 – medida que Fatih Birol aplaude, esperando que o
pacote avance, para poder “desbloquear muitos dos problemas” com que a Europa
se confronta.
Kıvanç
Zaimler, CEO da Sabancı Holding, uma das principais holdings de investimento
turcas, que integrou o referido painel, diz que o investimento nas redes é “indispensável”,
mas com transformação profunda. E explicou: “Temos também de pensar na
eficiência através da digitalização. É como gerir o trânsito (rodoviário). Não
basta construir mais estradas, é preciso resolver os problemas de tráfego com
sistemas de navegação.”
Outro
problema central é o elevado custo da eletricidade, que representa grande
desafio para a competitividade da indústria europeia. Na ótica de Fatih Birol,
os preços da eletricidade na Europa são muito altos (três a quatro vezes
superiores), face a concorrentes, como os EUA e a China.
O
ministro romeno da Energia, Bogdan Ivan, disse que a solução para os preços
elevados passava por duplicar os recursos energéticos na Europa. E defendeu que
isso deve fazer-se diversificando as fontes. “Quero usar recursos da UE para
financiar a energia nuclear. […] É uma das melhores formas de garantir energia
barata e de base”, declarou, aduzindo que, se a UE apostar em excesso apenas no
vento e no solar, “terá certamente um problema”.
Os
ministros da Energia da UE, na última reunião oficial, em dezembro, comprometeram-se
a nivelar os preços da energia entre estados-membros e a evitar discrepâncias
entre eles.
Anna
Borg, presidente e CEO da sueca Vattenfall, presente no painel, concordou que a
diversificação é essencial, apontou a energia nuclear como peça-chave, porque é
preciso utilizar todas as tecnologias sem fósseis disponíveis, e disse que importa
perceber que “a economia europeia só será competitiva, a prazo, se abandonarmos
os combustíveis fósseis”.
Os
participantes no painel sustentam que é central rever regulamentos para
enfrentar os desafios que atrasam a soberania energética europeia, sobretudo, para
baixar preços. E Anna Borg, apelando a uma abordagem mais holística, defendeu a
necessidade de resolver a sobreposição de legislação, que trava o rápido
desenvolvimento de projetos-chave. “Às vezes, quando queremos construir algo, temos
de obter aprovação ao abrigo de um regulamento e depois de outro. Sobrepõem-se
a olhar a mesma coisa, mas podem dar resultados diferentes”, observou.
Na
verdade, as empresas europeias consideram morosos os processos regulatórios na
Europa, a qual “tem o período de licenciamento mais longo, do zero até à
construção de uma nova central renovável”, ao passo que os EUA estão mais
focados na atribuição de licenças.
Este
será um tema a abordar no Pacote das Redes da UE apresentado em dezembro.
***
Apesar
do investimento recorde em energia limpa, o financiamento aos combustíveis
fósseis continua a aumentar. É o que conclui o relatório Estado das ações
climáticas 2025, produzido pelo Systems Change Lab, segundo o qual
nenhum dos 45 indicadores-chave para limitar o aquecimento global a 1,5 °C (graus
Celsius), em linha com o Acordo de Paris de 2015, está no bom caminho para
2030.
Embora a maioria avance na direção certa, o progresso é demasiado lento e desigual, para cumprir as metas. “Todos os sistemas estão em alerta vermelho”, frisou Clea Schumer, investigadora associada no World Resources Institute (WRI) e principal coautora do relatório, explicitando: “Uma década de atraso estreitou perigosamente o caminho para 1,5 °C. Progresso constante já não chega – cada ano em que falhamos acelerar alarga o fosso e torna a subida mais íngreme. Já não há tempo para hesitações nem meias‑medidas.”
Embora a maioria avance na direção certa, o progresso é demasiado lento e desigual, para cumprir as metas. “Todos os sistemas estão em alerta vermelho”, frisou Clea Schumer, investigadora associada no World Resources Institute (WRI) e principal coautora do relatório, explicitando: “Uma década de atraso estreitou perigosamente o caminho para 1,5 °C. Progresso constante já não chega – cada ano em que falhamos acelerar alarga o fosso e torna a subida mais íngreme. Já não há tempo para hesitações nem meias‑medidas.”
O
estudo resultante da colaboração entre o Bezos Earth Fund, a Climate Analytics,
a ClimateWorks Foundation, os Campeões de Alto Nível para o Clima e o World
Resources Institute (WRI), apresenta “o roteiro mais completo até agora” para
colmatar a lacuna na ação climática nos setores responsáveis pela maioria das
emissões. Entre eles, contam‑se a energia, os transportes, a indústria, as
florestas e os sistemas alimentares.
Dos
45 indicadores avaliados, seis estão “fora de rumo”, 29 estão “muito fora de
rumo”, cinco seguem na direção errada e cinco não foram avaliados, por falta de
dados. Mesmo áreas antes consideradas casos de sucesso estão, subitamente, a
perder andamento. Os veículos elétricos representaram um recorde de 22% das
vendas globais de automóveis, em 2024, face a 4,4%, em 2020. Porém, com a
emergência do ceticismo climático, o crescimento dos elétricos abrandou em
mercados importantes, como a Europa e os EUA, de forma que sua a adoção está
“fora de rumo”.
O
abrandamento surge quando os transportes são o único setor que produz mais
emissões do que em 1990.
O
financiamento também fica aquém. Embora o financiamento climático privado tenha
atingido cerca de 1,2 biliões de euros, em 2023, face a cerca de 750 mil
milhões, em 2022, o montante continua muito abaixo do necessário. Já o
financiamento público aos combustíveis fósseis continua a aumentar, rondando cerca
de 70 mil milhões de euros, em média, por ano, desde 2014, e totalizando, em
2023, mais de 1,4 biliões. “Não estamos apenas a ficar para trás, estamos, na
prática, a chumbar nas matérias mais críticas”, afirmou Sophie Boehm,
investigadora sénior no WRI e coautora principal do estudo.
Quase
não se mexe no abandono do carvão ou no travão à desflorestação, enquanto o
financiamento público continua a sustentar os fósseis. Trata-se de ações não opcionais,
mas do mínimo indispensável para combater a crise climática e proteger a Humanidade.
O
relatório define a rapidez com que o Mundo tem de mudar para limitar o
aquecimento global a 1,5 °C. O uso de carvão tem de cair dez vezes mais
depressa do que atualmente, algo que os autores do estudo equiparam ao
encerramento de “quase 360 centrais a carvão”, por ano, travando, em simultâneo,
todos os projetos futuros.
Com
perdas atuais comparáveis a 22 campos de futebol de floresta que desaparecem, a
cada minuto, e com compromissos aquém, a desflorestação tem de reduzir nove
vezes mais depressa. As infraestruturas de transporte rápido têm de aumentar
cinco vezes mais, enquanto regiões, como a América do Norte e do Sul, a
Austrália e a Nova Zelândia, onde o consumo de carne de bovino e de borrego é
elevado, devem fazer escolhas alimentares diferentes.
As
tecnologias de remoção de carbono também precisam de crescer mais de dez vezes,
enquanto o financiamento climático tem de aumentar em quase 920 mil milhões de
euros, por ano, o equivalente a cerca de dois terços dos atuais subsídios aos
combustíveis fósseis.
No
segundo trimestre de 2025, mais de metade da eletricidade líquida da Europa
veio da energia solar. Globalmente, a energia renovável começa a espelhar este
crescimento. Desde 2015, a quota da eletricidade mundial gerada por solar e
eólica mais do que triplicou, enquanto o investimento em energia limpa
ultrapassou o investimento em combustíveis fósseis, pelo segundo ano
consecutivo, em 2024.
Tecnologias
emergentes como o hidrogénio verde – hidrogénio produzido com fontes de energia
renováveis – e a remoção de dióxido de carbono (CO2) também estão a
expandir‑se rapidamente. De facto, a produção de hidrogénio verde mais do que
quadruplicou, num único ano. “O investimento em energia limpa já supera os
fósseis e as novas tecnologias estão a descolar, prova de que o progresso é
possível, quando ambição e investimento se alinham”, afirma Kelly Levin,
responsável pela ciência, dados e mudança de sistemas no Bezos Earth Fund.
Apesar
dos sinais de dinamismo, a mensagem global do relatório é um alerta de que as
sociedades têm muito trabalho pela frente para cumprir os objetivos climáticos
necessários. “Manter o aquecimento em 1,5 °C depende, agora, de uma coisa:
velocidade”, disse Bill Hare, diretor‑executivo da Climate Analytics,
advertindo: “A ciência é inequívoca: o Mundo não se move com rapidez
suficiente. Cada ano de atraso torna a tarefa mais difícil e só cortes rápidos
e sustentados podem manter 1,5 °C ao alcance.”
Ani
Dasgupta, diretor‑executivo do WRI, avisa: “Dez anos após o Acordo de Paris, o Mundo
está numa encruzilhada crítica. Ou bloqueamos sistemas que estão a agravar as
catástrofes climáticas, ou aceleramos a transição para um futuro mais saudável
e sustentável.”
***
Isto
postula a responsabilização dos cidadãos e dos decisores políticos e,
sobretudo, das grandes empresas com 250 ou mais trabalhadores, no âmbito dos
direitos humanos e dos danos ambientais causados pelas infraestruturas de produção
e pelas cadeias de abastecimento.
2026.01.25
– Louro de Carvalho
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